O Senão da Montanha

Se fosse tão fácil ganhar o Euromilhões, este Vosso servidor teria uma vidinha bem mais desafogada. Já me admirava que, com a crítica frontalmente sistemática que vem desenvolvendo contra os vícios estruturais do sistema e dos seus actuais expoentes, a voz estranha mas crescentemente popular de Medina Carreira ainda não tivesse sido alvo de um daqueles truques fáceis, fosse de devassa da vida privada ou de semeadura de suspeitas em obscuros negócios de massas comprometedoras. Claro que a posição certinha perante este desenvolvimento é a de dizer que se aguarda os resultados das investigações policiais e ulterior decisão do Ministério Público, sendo caso disso. Mas como eu me esforço mais por ser certo do que certinho e não gosto de ser levado à certa, escarrapacho aqui o que o meu nariz me sugere - que estamos perante a intimidaçãozita grosseira arquitectada por quem quer que seja o encarregado dos trabalhinhos sujos que beneficiem os manda-chuvas.
Claro que criticar, mesmo com acuidade, não coloca quem quer que seja acima da Lei. Mas não vejo, nem sob o critério da honestidade, nem sob o da capacidade de esconder falcatruas, caso aquela não existisse, o ora investigado na linha de Varas, Isaltinos e outros Limas. E só não estranho muito o frenesi de cortejo jornalístico, porque conheço, para lá do sempreterno deleite em derrubar heterodoxias e proeminências, o alívio de macular pontos luminosos da concorrência. Como não estranhar, por outro lado, a prontidão da PGR em desmentir a incidência de averiguações sobre o Chefe de Governo e o conveniente silêncio no tocante a quem o zurze? Longe de mim dizer que haja partido do próprio qualquer indicação para pregar um susto a uma voz incómoda, mas o zelo de alguma sua alma danada dispensaria bem ordens dessas. Da Roma Antiga, deve-se ao velho Horácio do retrato o cunho da generalizada expressão A montanha pariu um rato. Suponho que será a descrição apropriada ao desenlace que prevejo, o que justificaria abundantemente o nome Monte Branco dado à operação investigatória do branqueamento. E se, porventura, a puxar os cordelinhos neste grupo poderoso de roedores, se vier a revelar uma ratazana, não traduzirá alteração qualitativa, somente o crescimento natural do bicho, ao longo de tantos séculos.

4 comentários:

  1. Também me parece que, no caso concreto, se está perante mais um dos "subtis" métodos de intimidação usuais nas nossas pseudo-democracias...

    Ab
    Tiago

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  2. Este país é uma sargeta. Não sou fã do senhor, os termos, o modo e tom que utiliza nas suas homilias são pouco construtivos e alimentador de populismos. Mas isto cheira a encomenda que tresanda. Este país tornou-se um sítio muito perigoso.

    Beijinho Paulo

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  3. naturalmente "sarjeta", claro

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  4. Meu Caro Tiago,
    umas aspas felicíssimas. Dói muito a esta gente (a expressão é abundantemente usada pelo Investigado) ver um dos seus tomar-se de nojo pelo lamaçal inerente às cumplicidades do meio em que se moveu e que nos desgoverna.

    Querida Ariel,
    em qualquer filme americano de série B está consignado este tipo de habilidades. Só que lá a qualidade é imensamente superior à de Relvas em que a coação, no momento, encontra o seu esplendor. E não estou só a falar das arrasadas do Sporting, que tentam, também, adiar a nossa felicidade.

    Abraço e beijinho

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