A Carta Olímpica e a extrema-direita

A remadora alemã Nadja Drygalla, após uma reunião com o Comité Olímpico da Alemanha, abandonou a aldeia olímpica depois de a imprensa do seu país ter noticiado que o namorado é militante da extrema-direita. Parece que a ideologia do rapaz põe em causa o compromisso da atleta com a Carta Olímpica. 
Nadja Drygalla

Em 1936 os Jogos Olímpicos realizaram-se em Berlim, capital da Alemanha nazi de Adolf Hitler. Já havia Carta Olímpica, porventura em versão nem corrigida nem aumentada. Pela primeira vez a tocha saiu de Atenas para a sede da competição. A chama viajou durante 11 dias até chegar ao estádio de Berlim. Na cerimónia de abertura, Hitler recebeu das mãos de Spyridon Louis, campeão grego da maratona dos Jogos de 1896, um ramo de oliveira colhido em Olímpia.  
Hitler e Spyridon Louis

Os jogos berlinenses ficaram marcados pelas técnicas inovadoras de Leni Riefen­stahl, o escândalo de Dora Ratjen (a lembrar as mulheres-homens de hoje) e os mitos sobre Jesse Owens. Ao contrário do que costuma ser difundido pela "imprensa de referência", as quatro medalhas de ouro conquistadas pelo atleta norte-americano não causaram o menor engulho ao chanceler alemão. É o próprio Owens quem o confirma na sua autobiografia: "Quando passei pela tribuna do chanceler [Hitler], ele levantou-se e acenou-me com a mão" (The Jesse Owens Story, 1970).
Após os Jogos, Jesse Owens andou mesmo em tournée pela Alemanha, recebido e homenageado em diversas cidades. Fartou-se de dar autógrafos. Mal recebido foi ele no seu próprio país, obrigado a viajar nos bancos traseiros dos autocarros, que os da frente destinavam-se exclusivamente a brancos. Queixava-se Owens que não teve direito a convite para a Casa Branca. Pensava, decerto por ingenuidade, que o edifício fora crismado desse feitio só por causa da cor das paredes. Owens era preto, neto de escravos, considerado impuro para estender a mão ao democrático Franklin D. Roosevelt, que em véspera de eleições não queria ferir as susceptibilidades raciais dos eleitores sulistas.
Long aconselha Owens em pleno Estádio Olímpico
A forma como Owens conquistou a medalha de ouro na prova de salto em comprimento merece ser contada. Durante a prova de qualificação, o alemão Luz Long, principal adversário de Owens, já tinha a presença na final assegurada. Owens, por seu lado, estava à beira da eliminação, após dois saltos nulos. Foi aí que se deu uma extraordinária manifestação de desportivismo (hoje diz-se fair play). Long abeirou-se de Owens e aconselhou-o a mudar a técnica de salto. Owens concordou e teve sucesso. Resultado? Na final, conquistou aquela que seria a sua quarta medalha de ouro, enquanto Luz ficou em segundo lugar. Saíram da pista juntos, o braço do nazi de olhos azuis por cima dos ombros do negro do Alabama. Por este gesto, Luz Long recebeu a título póstumo a medalha Pierre de Coubertin, concedida pelo Comité Olímpico Internacional a atletas que demonstrem um elevado desportivismo e espírito olímpico. Morreu em combate na II Guerra Mundial, vítima dos bombardeamentos dos Aliados.
Jesse Owens no pódio, vencedor da prova de salto em comprimento. De braço ao alto, Luz Long. Nos nossos dias o atleta alemão seria certamente afastado dos Jogos.
Pierre de Coubertin (conhecido como barão de Coubertin), pedagogo e historiador francês, foi o fundador dos Jogos Olímpicos da era moderna. As suas ideias sobre cultura física abonavam o programa nacional-socialista. Asseverava ele: "Há duas raças distintas: a do homem de olhar franco, com músculos fortes, com desenvolvimento assegurado, e a do doentio, de semblante resignado e humilde, e ar vencido". E de modo mais impressivo, registava: "Cinzelando o seu corpo pelo exercício, como faz um escultor numa estátua, o atleta antigo adorava os deuses. Fazendo o mesmo, o atleta moderno exalta a sua pátria, a sua raça, a sua bandeira".
Aos detractores da organização berlinense, respondeu o barão no jornal L’Auto, a 4 de Setembro de 1936: "O ideal olímpico foi sacrificado à propaganda? Isso é inteiramente falso. Os Jogos de Berlim serviram magnificamente o ideal olímpico". O francês manteve-se como Presidente Honorário do Comité Olímpico Internacional até à sua morte, em 1937. Talvez hoje o pobre Coubertin, tal como Luz Long, fosse banido da competição que ele próprio recriou. Não conheço o traçado actual da Carta Olímpica, porventura grafado por Vital Moreira ou outro jurista de alta competição. Provavelmente o notável documento já consagra a via para o socialismo, o antifascismo e o estabelecimento de uma sociedade sem classes. A ser assim, é a própria Carta que nega o espírito olímpico. 

8 comentários:

  1. Comentário extraordinário. *****
    Parabéns.
    Maria

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  2. Caro Bruno, parabéns por bem ajustar os pontos nos "is"... Nada como algumas boas aspersões de factos e lógica para correr com a mosquitada mentirosa e salafrária.
    Abraço amigo.

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  3. Parabéns aos atletas ditos AMADORES do nosso país, Foda-se Hitler, Pelé, Neimar, Família Roberto Marinho, COB, CBF, Havelange, quero ver morto, Ricardo Teixeira,etc... ...Parabéns Lais Souza Vc e outros representa.

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  4. Carregas na tinta...A excessão de Portugal, a conformação do conceito de nação na Europa só se delineou no início do século XX, natural pois a defesa de valores nacionais pelo Coubertin, assim como o passeio no banco de trás de Owens num país multicultural seja mais progressista do que o aceno de mão de um exótico lider de estado eurocultural.

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  5. Na legenda onde se lê "De braço ao alto, Luz Long",deveria ser acrescentado "faz a saudação nazista". É bom lembrar que em 1968, durante as Olimpíadas da Cidade do México, os atletas negros norte-americanos Tommie Smith (USA), vencedor dos 200m rasos, e John Carlos, terceiro colocado, foram expulsos dos jogos por terem levantado os braços na saudação característica dos Panteras Negras. Quanto a Luz Long, nada aconteceu por ter feito a saudação nazista. Onde está a verdade sobre o "espírito olímpico"?

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  6. Se não tivesse feito seria com certeza preso, pois saudação nazista era obrigatória e a olimpíada estava sendo feita na Alemanha. No caso dos atletas negros em Munique era a saudação de um movimento social contrario aos status quo da época nos EUA.

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