Proteccionismo Maligno

A Arábia tem destas coisas. Mas esquecemos frequentemente a peculiar gestão de equilíbrios que fomenta. Se, homens e Mulheres do Ocidente, nos insurgimos contra o hábito de obrigar o Belo Sexo ao véu, frequentemente esquecemos que no hemisfério masculino uma paralela preocupação de esconder a atractividade se exprime na obrigação de deixar crescer a barba. Poderemos eternamente clamar contra a totalitária monomania de ocultação do Belo, que, de lá, responderão ser a preservação dele a única maneira digna de sacralizar e guardar tesouros desse teor. Agora, com medidas depuradoras como a expulsão das fontes de tentação, se as mais fanáticas feministas poderão ficar satisfeitas por verem no banimento em exame alguma igualização, para mais com o sacrifício de um produto que desdenham, a imensa Mole mais moderada perceberá que fica a perder ainda mais, ao ver afastados, desta forma arbitrária, certos huuuum focos de comoção. A masculinidade dos decisores é que se arrastará pelas ruas da amargura, uma vez forçados a apreciar o grau de perfeição de outros machos...
E, perdoe-se-me a vaidade, já que mitigada por uma preocupação legítima de cidadania; se a moda pega, ao que oiço, ainda fico em risco de me transformar num sem-pátria, esse heimatlos que a cartilha das Nações Unidas protestou banir. Pfffffffff!
                                                             O Projeccionista, de Carol Anne McGowan

Debaixo D`olho

Dizem que o Poder é o melhor afrodisíaco que há e imagino que o mediático não seja excepção à regra. Mas esse apelo deveria cingir-se à tradicional acção directa e não aos virtuais sucedâneos informáticos que lhe fazem as vezes neste universo maravilhoso a que fomos condenados. Assim, esta nova de um burlão que se finge célebre para conseguir que uma quantidade de Mulheres se dispam frente à webcam deixa-me perdido na interpretação: se o strip é um excitante e a fama outro, não se estará a transformar a vazão da sexualidade num pingpong viciado e em que se não marca o ponto? Este prodígio tecnológico, ao relegar o prazer para o visionamento, não se transformou apenas no fantasma de muito pai de menina adolescente a quem, para este e aquele sentidos o quarto deixou de confinar, subverteu a plenitude do climax, rumo ao enganoso ludíbrio da distância que, fingindo infirmá-la, mais não faz do que sublinhar a solidão dos intérpretes.
                                                           O denominado Telefone Afrodisiaco, de Dali

A Pista Lusa

Depois de o drama se haver tornado irremediável, resta assestar as setas da irreverência a aspectos bizarros das investigações subsequentes. Ao apurarem terem as bombas de Boston tido como base panelas de pressão e encarando a plausível hipótese de serem um protesto desbragado contra os impostos cujo pagamento chegava ao fim do respectivo prazo, as autoridades dos EUA podem bem virar-se para o nosso País. De facto, em que outro local é que se dá como resposta a uma carga fiscal desmesurada uma utilização menos ortodoxa das panelas? Em Portugal, onde a Arte de Joana Vasconcelos, à base dos acessórios de cozinha, tem atraído à Ajuda visitantes já em número de 20.000, presumivelmente para se distraírem da avidez da máquina tributária e dos que a comandam. Distrair, disse eu? Qual! Vai ser uma das raríssimas excepções às borlas facultadas ao Público, amanhã, dia 18, no âmbito da comemoração do Dia dos Sítios e Museus, o que só condiz com a sofreguidão das Finanças.
Mas voltemos ao nosso tema: com a justa raiva que os agentes e observantes da Lei devem ir desenvolvendo contra os assassinos da Maratona, a imputação de responsabilidades com o auxílio do nosso exemplo poderia trazer um ganho adicional - o de naqueles descarregar o indignado insulto do calão português baseado na alusão aos fazedores de panelas e, sob o império do politicamente correcto, pela extensão qualificativa, tratar de maneira menos discriminatória os cidadãos-gay...

Genealogia do Terror

Para quem cresceu no convívio com a horrorosa recordação de um atentado contra atletas, os Israelitas Olímpicos de Munique, em 1972, as bombas de ontem na recta final da famosa Maratona de Boston são mais um sintoma da decadência face aos Antigos que, como os Helenos, estabeleciam tréguas nos conflitos para permitirem a celebração dos Jogos. Claro que a dimensão é completamente diversa da do 11 de Setembro, mas as reacções são iguaizinhas: o discurso do Presidente Obama parecia decalcado do do antecessor Bush e a histeria da multidão equiparável à do atentado que mudou as nossas vidas. Se houve o cuidado de não antecipar atribuições de autorias, presumivelmente para não terem destino semelhante ao do Partido Popular espanhol que foi ruado ao imputar as explosões nos transportes públicos de Madrid à ETA, em vez de aos islâmicos radicais, um Congressista do Massachussets, Bill Keating, veio exagerar a sofisticação num registo excessivo que só a existência de mortos afasta do folclore da célebre Insurreição dos Pregos comunicada ao nosso País pelo então Ministro Ângelo Correia. É certo que os engenhos eram rudimentares, pelo que, ser me ousasse adivinho, o meu nariz apontaria para um dos numerosos grupúsculos anarquistas que brotam daquela sociedade. E se lição internacionalizante há a tirar, é a de que deixar, por exemplo, os Norte-Coreanos chegarem à capacidade de produção de armas atómicas pode reavivar outro receio genericamente partilhado na minha adolescência, o da célebre dirty bomb que dispensasse mísseis ou bombardeiros de longo raio de acção. Não sei se alguma vez saberemos a quem se deve esta triste proeza, no caso de não ser reivindicada. Mas haverá decerto quem venha a ser punido. O sistema mental Norte-Americano precisa disso como pão para a boca e, caso não encontre culpados, encontrará bodes expiatórios como alvo de Justiça sem lisura ou garantias, à maneira dos julgamentos dos bombistas do célebre Haymarket Riot de Chicago, em finais do Século XIX. Esta falta de escrúpulo, se os despromove, garante-lhes, por outro lado, a vitalidade que a Europa deixou escapar. O certo é que a triste legenda FINISH, na meta da prova-rainha do Atletismo ganhou o macabro significado do término do Desporto como alívio da opressiva depressão do nosso quotidiano.

Presença de Espírito

...e não em espírito, o que me sugere a gestão das reacções ao retoque governativo, pelo Dr. Portas. Só não consigo perceber é se a subtil mas ribombante ausência da posse dos novos Colegas, que deixou agastado o P-M - ao ponto de cair numa nota cujo laconismo e generalização não disfarçam a amargura - é um expediente para agradar aos seus presididos do PP, visando mostrar desagrado com a estreiteza das alterações sem embarcar na reivindicação do leme da Econonia que, à boca pequena, por lá se vai empreendendo, ou se pretende, realmente, forçar o PSD a negociar concessões maiores que a cabeça da Bette Noire caída. Penso que o Dirigente Centro-Popular, estando onde quer, por gosto como por fé no que no lugar pode conseguir para o País, pode juntar às Necessidades uma suplementar: a de não desagradar aos seus gregos ou aos parceiros troianos, porque, quer pela extensão da crise do Económico ao Político, quer pela completa sujeição à hegemonia Laranja, o resultado para o seu emblema seria, previsivelmente, o de os peixes maiores devorarem os mais pequenos...
                                                       Coligação do Arco-Íris, de Geraud Stanton

A Metáfora Viva

Ontem, dei comigo o dia todo a voltar mentalmente ao Grande Jan Sobieski, que derrotou os Turcos às portas de Viena e lhes deteve o avanço até aí por parar. Por que me terá ocorrido tão vetusta e obsessiva lembrança? Pensei precisar de um psicólogo, até que, por carência de bago e de(ssa) fé, me analisei e aprofundei o tema. E vi que a arma da vitória, o sabre do grande vencedor tinha, no punho, uma Águia. Está tudo ligado, desde as 11 daquela manhã ...
Viva a Metáfora!

Virar o Jogo?

Não esperando nada de bom de eleições, dificilmente o poderia aguardar duma remodelação, que desconfio sempre corporizar uma gralha, truncando o vocábulo certo que seria remodulação. Mas não quero ser ingrato para com uma consequência do arrancamento das mais notórias ervas daninhas do Governo. Na parte de novidade no time que nos liquida, é-me impossível opinar sobre o novo Ministro, por ser a primeira vez que oiço falar dele. Diria que, em tese, é bom ver alguém Maduro na condução dos negócios públicos, quando, até agora, eles vêm sendo determinados por gente comprovadamente verdinha para o efeito. Mas as homonímias provenientes da Venezuela não tranquilizam quanto à correspondência do nome à coisa. E há sempre a temer o arrastamento geral para a podridão. Como todos os adeptos ferrenhos, porém, lá reservo um niquito de esperança na substituição que possa vir a inverter o resultado desfavorável. Até que o benefício da dúvida venha a ser desmentido pelo prejuízo da certeza.
                                                     Maduro, de Jacqui Brommel

Palco e Patíbulo

Não aprecio a Dr-ª Manuela Ferreira Leite, pelo que apenas comentarei o diagnóstico que faz, abstraindo, o quanto possa, da Autora. Dizer que o Executivo executor da nossa autonomia «teatraliza» não me repugna, mas só se entendermos o termo como uma empolação cabotina, que não como a arte de compartilhar um alcance espiritual maior através da vida própria conferida pelo desempenho dum papel. Os governinhos que Portugal tem sofrido demitiram-se da missão que lhes competia, ao transmitir às Pessoas a necessidade de viver acima das suas possibilidades, como nos anos de desperdício que antecederam, ou na urgência de continuar abaixo delas, no caso vertente. É que uma e outra das atitudes são obediência cega ao ponto errático que, do Exterior, por conveniências diversas das que eram, fundamentalmente, as nossas, mandava e manda para que às suas determinações nos conformemos. O empobrecimento programático só poderia fazer e trazer sentido caso nos permitisse uma medida de menor dependência. Ao injectá-lo como soro da submissão mais extremada, estamos a prosseguir até ao paroxismo na via do tal hara-kiri colectivo de que a Senhora também falou e que evidencia uma total consistência com os cortes anunciados com a imprecisão e a desumanidade agregadas.
                                  Três Actores em Busca de Uma Peça, de Kaitie Kuhlman

O Futuro Radioso

Depois do execrado Relvas dizer que se sentia sem força anímica, vêm os oposicionistas ironizar com equivalente estado no tocante ao Governo em geral, por o não substituir de imediato. Faz sentido, sendo o demissionário a Alma Danada do elenco, o esvaziamento do fôlego podia ser visto como factor extensivo à equipa inteira, embora a exclusão de uma vitalidade maligna devesse ser dada como positiva.
Há muito que a incapacidade de conduzir o País não me surpreende, mas a mediocridade das alternativas externas e cá dentro deixaram de me prover ao menos com o consolo da razão do meu desgosto permanente com a coisa pública, ao ponto de já me deprimir até o impulso de comentá-la. O mais provável é o Mal estar tão entranhado em nós próprios que a própria esgrima dos pontos de vista enforme somente um reflexo pouco cintilante dessa manifestação maior em que nos tornámos. Hoje acordei assim, lembrando-me de Julie Zenatti e uma canção em que se demonstra que há quem tenha perspectivas de prosperidade cada vez mais prometedoras...

Que Se Vão da Morte Libertando...

Thatcher adiantara o fim pela dolorosa queda na Demência e eliminou-lhe a relevância pelo gigantismo histórico do legado. Não gosto do Liberalismo de muitas das suas concepções, apesar de o Dela haver sido mitigado pela extensão a uma imensidão de pequenos agentes, permitindo-lhes eximir-se aos monopólios e grades dos grandes grupos. Mas deve-se-Lhe muito mais: reabilitou, mesmo com recursos minguados, a efectividade da Nação, na defesa duns restos do Império no Atlântico Sul, no combate ao terrorismo e na vitória final contra a ameaça Comunista e Soviética, três preocupações comuns a Salazar. Também não se inclinou perante as eurocracias uniformizadoras, sublinhou a independência alicerçada na disciplina orçamental e quebrou a espinha aos dirigentes mineiros de Scargill, que tinham procurado raptar o Partido Trabalhista e dominar mafiosamente as instituições, pervertendo o que deve ser a nobre pugna sectorial do Sindicalismo e que foram remetidos, no final, para um grupúsculo sem influência. O Ocidente deve muito à Sua Memória. Mas mais o Reino Unido. O Acaso, como cantava Aznavour, é curioso: a passagem que empreendeu neste mundo terminou pouco depois de um referendo haver mostrado a razão que teve nas Falklands. E a própria consideração de um Funeral Nacional Completo, prontamente afastada pela Família para evitar embaraços políticos, atesta a grandesa inusitada - além de Monarcas Reinantes, só Nelson, Wellington e Churchill o mereceram. Diz-me com quem andas...

As Despesas da Festa

O Primeiro-Ministro é renomado por, quanto ao caos financeiro do País, ter um problema de comunicação, pelo que não espanta que a específica de ontem evidenciasse essa enfermidade. Isto porque era acentuada pelo ressabiamento contra a decisão do Tribunal que não lhe deixara, via Doutor Gaspar, sugar a dinheirama onde lhe apetecia. Claro que se tem de dar todos os descontos ao mau perdedor, mas é evidente que estava avisadíssimo e, mesmo assim, decidiu correr o risco. O TC bem tinha avisado, no ano transacto, que a vilania sonegadora de direitos adquiridos era inconsstitucional, mas que, atendendo à especialidade da situação, excepcionalmente, deixava passar. Claro que duas excepções seguidas, em cómoda fila indiana, deixam de o ser, para passarem a ser um esboço de regra. Depois, foi o ar fúnebre da visitinha a Cavaco, presumivelmente para se queixarem de que, assim, não tinham condições para governar. Ignoro o que terão ouvido lá dentro, mas a declaração pública do Presidente quanto à legitimidade e necessária continuidade do governo é uma forma polida de dizer que, uma vez que se tinham metido nisto, tinham a obrigação de permanecer e encontrar alternativas. No resto, dizer que vão acatar o acordão dos Conselheiros não apresenta novidade alguma, pois não era uma questão de opção. Quanto ao que aí vem, claro que a redução de Despesa seria o caminho, desde sempre apontado pelas cabeças mais avisadas. Mas temo que as incidências dela não venham a ser muito criteriosas. Começa por referir-se à Saúde, precisamente o domínio em que até o Sr. Cameron, no Reino Unido, garantiu programaticamente ser a zona a não cortar. E na Segurança Social, depende, mas temo que os mais desprotegidos voltem a pagar a fava, quando há tanto desperdício obsceno e, até, bem-intencionado mas superfluo, como certos luxos do legado da Educação Guterrista...
                                                              O Amolador de Facas, de Goya

Cortes & Costuras

Lá chegou a decisão. Como um tribunal, qualquer que seja o seu nível, é uma realidade não-substantiva, por muito que se ficcione como orgão duma Soberania extinta, parte do espectro partidário que usurpa a voz do País Real vai passar a recriminar a Constituição, enquanto que a outra continuará a vilipendiar o Orçamento. Eu, que me tento distanciar, sou obrigado a dizer mal de ambos. Cá em casa não há funcionários públicos, mas parecia mais que evidente que deixar uma classe inteira a pagar o dobro porque tivera o azar de padecer de um patrão medíocre e explorador, com todas as facas e queijos na mão, até a do capote do interesse geral, não parecia muito saudável. Já se sabe, tem de se fazer sacrifícios, porque o Regime que se alicerçou na demagogia falaciosa de trazer o fim deles foi forçado a deixar cair a máscara. Mas nunca será salvaguardada a proporcionalidade dos ditos enquanto se for à bolsa de inocentes sem castigar os culpados. Só uma violentíssima confiscação da totalidade dos bens e a concomitante condenação a trabalhos forçados perpétuos de todos os que tiveram responsabilidades governativas no descalabro financeiro dos últimos anos poderia legitimar a imposição de restrições menores àqueles que não as tiveram. Como isso é do domínio da fantasia, à imagem da verdadeira Justiça terrena, afinal, há que nos cingirmos ao que é realista - uma ruptura constitucional que não permita a continuação dos cúmplices da derrocada na condução do que se pretende seja uma emenda dela. Os trunfos do sistema esgotaram-se, o que eles pretenderiam edificar não tardará a ruir.
                                                       O Castelo de Cartas, de Chardin

Contra-Corrente

Nestes tempos agitados, convém relembrar que há Relvas a que se deve (desejar) tudo de bom: a do Estádio da Luz, ontem, não ofereceu tão mau espectáculo e, se mais provas fossem necessárias, teríamos Alexandra Lawn, que nos dá música comme il faut e, desde que abandonou os Ra Ra Riot, ao contrário de homonímias de cá, já não suscita motins...

No País dos Doutores

A primeira constatação que urge empreender, depois de se ter verificado a concessão abusiva no Affaire Relvas é a de, nas Universidades como nos Bancos, os dias dos créditos fáceis terem chegado ao fim. No resto, temos a mesquinha adoração do canudo que subsiste neste Portugal tão (des)integrado: ao contrário das áreas anglo-saxónicas, em que não é raro políticos importantes terem cursos diversos dos do diploma da praxe, por cá o tratamentozinho doutoral, até aos licenciados, continua a ser a pedra angular do caminho para o Poder. Se a contrapartida popular existia, esgotava-se no reconhecimento de que até «um burro carregado de livros é um Doutor», mas essa pilhéria, remetendo o Saber para as aparências, pode bem ter influído nos espíritos de políticos contemporâneos que, tendo-se por espertalhões, terão achado correcto acrescentar um ponto e dispensar-se também da carga livresca, magicando em que a certificação académica mais não é que uma atribuição Honoris Causa a percursos em que a honra se ache um tanto divorciada dos factos. Já outras Civilizações, por exóticas que sejam, deixam bem claro que o aparato não influi na substância. Como o provérbio da imagem.

Estertor na Relva

Pronto, lá se assumiu a morte anunciada, mas compete destrinçar a qualidade de duas teimosias: o Primeiro-Ministro tem muitos defeitos, mas no couraçar-se, mais do que a conta, na defesa do seu colaborador de longa data, ainda há alguma sombra de grandeza, por muito mal empregada que ela haja sido. Mas a do demissionário Relvas, entrincheirado até à última na inexistência de condenações ou avaliações oficiais negativas, pouco menos é que miserável. A sua conferência de imprensa foi mais desgostante ainda. Ao tentar expor algo de bom que no seu desempenho tivesse levado a cabo e não encontrando melhor do que deter-se em estatutos de liquidador da RTP, ou de demolidor à maneira jacobina, das autonomias municipais, quase dava dó, se não se sobrepusesse o nojo. Porém, compaixão mereceu decerto o seu grito para os militantes do próprio partido, falando nos três anos em que fora o primeiro dos peões de brega de PPC, na conquista da liderança e na tomada do Poder, como que a implorar aos seus para, ao menos eles, gostarem dele.
E o Dr. Passos? Se pensa livrar-se de um incómodo permanente, está redondamente enganado. Deixando sair esta diversão permanente que atraía todas as animosidades, fica privado do seu airbag salvador e, doravante, concitará as críticas e escrutínios que a presença da sua abominada eminence grise desviava. A prazo, está condenado e talvez mais curto do que se prevê.
Uma última palavra para o arrancado ao Executivo: não foi a má imprensa que também teve que o perdeu, mas a notoriedade dos seus defeitos a gerá-la e multiplicá-la. Claro que olhando para o que parece ter sido o factor instrumental do seu despedimento, pode pensar na injustiça comparativa de outras batotas académicas. Mas a dura realidade mostra que nem é Sócrates quem quer.

O Carimbo da Impotência

As metáforas dos políticos continuam a ser o caos de sempre. Agora, Seguro deu em tentar cativar a frígida Troika dizendo que Portugal «está num labirinto», quando o óbvio seria declará-lo num beco sem saída, porquanto no primeiro ainda se procura, com esperança, uma porta de evacuação salvadora e, presentemente, o abatimento e desespero gerais não consentem sequer a ideação dela. Claro que isso só teria importância se o destinatário o levasse a sério. Eu disse destinatário? Sim, porque esse não é a tal entidade estrangeira impositiva a quem o Secretário-Geral Rosa de dois em dois meses escreve, mas o Eleitorado, a quem tenta, provar que... dá cartas. O conteúdo é indigente, não só porque todas as soluções a que alude se resumem a pedidos de condições mais suaves para a escravatura que não contesta, como por repousar com desenfreada ênfase nas generalidades do Crescimento que resultaram com o Camarada Hollande, mas só antes de a governação e os puxões de orelhas germânicos ulteriores o terem resumido à insignificância desprezada e detestada que hoje é. A sua versão lusa, como ele proveniente do aparelho partidário, se não chega à detestação, é porque não encontra quem lhe ligue meia. O selo deste regime - e não só nas missivas para votante entreter - é o da obediência cega aos funcionários internacionais que nos conduzem para o matadouro. O remetente deste correio surrealista só se distingue dos que lá estão pelo volume da choraminguice.
                                                            Labirinto, de Leonora Carrington

A Ponta do Véu

A Ministra da Justiça fala na dimensão duma fraude relacionada com Médicos e Farmácias no Serviço Nacional de Saúde, mas não adianta mais pormenores, pelo que qualquer reflexão quanto ao tema terá de enveredar por lateralidades. É evidente que é uma das funções do Estado reprimir infracções, mas terá de haver alguns cuidados, numa época em que as sucessivas restrições de direitos e encarecimentos de acessos geram nos espíritos de uma mole imensa de Compatriotas nossos a noção de que agir à margem da Lei é uma modalidade de legítima defesa. De igual forma convirá que se distingam esquemas mafiosos com a mira dos lucros egoístas e evasões ávidas de irregularidades com o objectivo de facilitar a vida a tanto utente que a vê tremendamente difícil, muito pelas últimas más acções governamentais dos derradeiros anos. Seja como for, mesmo com o combate equilibrado que se recomenda, haverá sempre um efeito perverso,  o da erosão da confiança em duas das poucas profissões que ainda dela generalizadamente desfrutavam, as dos Clínicos e dos herdeiros dos Boticários. E esse preço é tanto mais alto quanto, sendo das derradeiras actividades credoras de respeito quase universal, a imagem do seu abandalhamento pode levar à ruína de um dos raros pilares que restam a esta comunidade em desmoronamento. Por fim, um outro alerta: para um sistema político que encontrou a sua base maior de legitimação nas edifiacações conexas com o Estado Social, continuar a diminuir o âmbito ou o volume das benesses dele pode levar a confundir uma fraude no SNS com a qualificação dele como fraude. O que faria a Senhora Ministra passar por Ministra da Injustiça.
                                                                   O Farmacêutico, de Roy Wallace

De Dentro Para Fora

Quantos casos não haverá de impossibilidades semelhantes a esta? Mas se o Direito de Resistência é inalienável, com o Estado abjecto a que se chegou, ele não deve ser procurado na Constituição, mas à Constituição, como melhor quadra no exemplo da Restauração, em função das exacções que tornavam flagrantemente ilegítima a titulariedade do Poder. Que não se diga que a Representação Paralamentar colmata as essências tirânicas das imposições fiscais abusivas, pois sob a opressão dos partidos que escamoteiam a defesa real dos povos seus constituintes, ao pleitearem nominalmente por apenas parte deles e, de facto, pelas camarilhas que rodeiam as lideranças, estamos perante uma agravante em vez de em face de uma mitigação. Urge restaurar de novo, sim, mas já não apenas a independência nacional, há que modificar radicalmente a forma do Estado e a do Regime, as quais, mais do que nunca, estão intrinsecamente ligadas àquela.
                                                      Discussão Sobre a Constituição, de Daumier

A Nu... vidade

Há coisas que não percebo. Por que carga de água, mesmo considerando a pluralidade de bátegas em curso, é que uma alegada fotografia da Chanceler Merkel como Deus a pôs no Mundo há-de chamar tanta atenção? Não quero saber se é peta abrilina, coisa a que estou habituado tanto a 1 como lá mais para a frente. Menos me importa conhecer se a dominatrix da Europa será ou não a retratada, pois só nessa alheia linha de apelos posso perceber o interesse duma multidão de submissos pelo desnudamento dela. Assim como estou para saber o porquê da derrogação das regras de exposição do corpo nas redes sociais. Será que nem a consideram um ser humano? Prefiro olhar para a nutrição de outras medidas: mitigadas as restrições da Quaresma e da Semana Santa, mau grado o patrocinador da fotografia que nos desafia a optar por hot dogs vegetarianos, parece-me imperioso sublinhar que não nos devemos deter nos bikinis/alfaces de Jayde Nicole e da Amiga, mas dar à carne o papel alimentar que merece.

Lindos Serviços!

No Domingo por Excelência, em que Aquele Que veio para servir em vez de ser Servido Se e nos libertou da morte, não há Ponte possível para considerar  serviço público o que tantos viram simplesmente como uma sevícia pública.
E também é triste que o orgulho em ser a única das três mais belas livrarias do Mundo concebida ab initio para o efeito não leve a abdicar dos ganhozinhos extra resultantes de a explorar como museu, em vez de venda de volumes. Mas talvez seja consequência de, cada vez mais, o que nos livros interessa às pessoas ser a capa.
Com o Anjo falando às Mulheres no Sepulcro Vazio, de Baciccio, uma Santa Páscoa, apesar de tudo!

Amêndoas Amargas

O Arcebisbo Primaz disse tudo. Que esta classe política não presta, toda a gente a quem ela não passa cartão e que lho não retribui o vê. Que a Banca, em vez de instância de auxílio, se transformou num factor de desespero, cada dia se torna mais nítido. Estamos próximos de um panorama de revolta contra a escassez imposta de cima, a avidez bancária e a insegurança decorrente da conjugação de ambas, um quadro similar ao que, no Século XV,  levou ao alastramento do sentimento contra a Usura, que se viria a exprimir em escapes tão perturbadores como o aumento exponencial da relevância do anti-semitismo, ou em iniciativas de caridade tão imaginativas e altruístas como o Monti da Pietá, a instituição de crédito por nós conhecida por Montepio, criada em função dos esforços de São Marcos de Montagallo, para dotar a Comunidade de um prestador de crédito que tivesse primeiramente em vista as necessidades do que precisava do dinheiro, em vez dos interesses do credor. Mas a sede do ouro domina o mundo em que ele rareia, nesta Páscoa em que os ovos não são, decididamente, sequer, os preciosos sobrevivos das galinhas que mataram, fossem o entesouramento do Estado Novo, ou os cheques europeus. São-no sim os podres que as açoitadas audiências em fúria querem atirar aos Coelhos que nos saíram na rifa que usa o nome pomposo de "boletim de voto". Peço a Deus que os dois populares símbolos pascais voltem a ser da renovação, a começar pela dos sistemas de poder político e económico que, nas actuais circunstâncias, tanto dificultam a que verdadeiramente conta, aquela que nos torne melhores, rumo à Harmonia.

O Destino da Lança

Quer a Tradição identificar como São Longino tanto o militar romano que espetou o ferro no Lado do Salvador Crucificado, para certificar a morte, quer o centurião que, em face dos prodígios imediatos, reconheceu audivelmente Nele o Filho de Deus. Teria levado a sua conversão ao ponto de sofrer martírio precedido de arrancamento de dentes e língua, tentativas infrutíferas de lhe vedar o Testemunho ou expressar facilmente o Júbilo, sabendo-se a transmissão maior a da sua biografia e a Alegria que contava a de seguir o Exemplo Auto-Sacrificial daquela Sexta-Feira às três da tarde, em que uma arma impotente tentara estabelecer como irrefutavelmente definitivo o que se revelaria sobrenaturalmente provisório. Assim como Santo Agostinho disse de São Dimas, o Bom Ladrão, que o «era tão bom que, à última hora, roubou o Paraíso», deste Partícipe na Execução podemos dizer que a que ficou conhecida como Lança do Destino o era, segundo a expressão, na maior das Áfricas, pois estava, afinal, fadada para demonstrar que todos podemos aceder à Misericórdia, desde que façamos por isso, confirmando a visão de Deus de Santa Catarina de Siena, em que lhe terá sido dito assentar o Desgosto Divino supremo não na traição do Iscariotes, mas em o desespero do arrependimento dele o ter levado a uma corda de má qualidade, em vez de à da procura da do Perdão a que se pudesse agarrar. Enfim, ao Pecado Contra o Espírito Santo, o tal que não será perdoado.
                Fra Angélico tinha a pintura por um estágio mais da Oração.    Não nos cansemos de contemplá-la, para lhe acentuar a razão.

O Regresso do Rei?

Não, não estou a coroar a fera que, televisivamente, voltou a rugir, apesar das petições desanimadoras. Quero simplesmente dizer que o que ele defendeu quanto ao Chefe do Estado, com o rol de queixinhas que se noticia, é que o mesmo deveria ser um Monarca. O jogo e, mais grave, o jugo das facções, levaram à recorrente recriminação dos Presidentes pelos Primeiros-Ministros que nos respectivos mandatos serviram. Sá Carneiro, Balsemão e Soares disseram de Eanes o que Maomé não disse do toucinho, Cavaco cobras e lagartos de Soares, enquanto que o caso de Santana Lopes com Sampaio, de tão flagrante, não permite reacções entre a pena e o gozo. Salvaram-se Guterres e Durão, pela simpatia oca, um, pela servilidade pueril, o outro. O que vem sendo próprio dos eleitos de uma maioria é ir obrando contra os de outra; e o País que aguente. Só alguém não-eleito, como nas Monarquias Norte-Europeias, poderia escapar à tentação do partidarismo, mas mesmo esse remédio, em Portugal, é duvidoso, com as orquestrações de campanhas do mais soez que se imagina a inventarem quebras de imparcialidade do Trono, como as do Partido Republicano Português contra D. Carlos. Então porquê esta catadupa de lamentos do Sr. Sócrates? Marcelo está obcecado com a próxima eleição presidencial e os adversários que lhe possam calhar, do Comissário-Mor Barroso, a este Animal Feroz. Mas é capaz de ter razão, o homem torna-se assim suspeito de estar interessado em Belém, dizer mal do exercício do precedente ocupante do cargo é quase um passo clássico no caminho. O que levaria a concluir que não querer voltar para já à política activa, mais do que não poder, é não lhe convir. O espectro da Coroa, todavia, mais tarde ou mais cedo, incendiará a República.
                                                         Coroa, de Aron Wisenfeld

Vamos, Filhos da Pátria!

Isto de exacerbar as paixões nacionais no âmbito desportivo não parece, claro está, a melhor política. Mas as declarações de Platini, a propósito da recusa canora de Benzema em entoar o hino francês não encontraram os melhores argumentos, aparentam ser uma reedição da tontice do Falecido Alçada Baptista, um Escritor que respeito, quando, nas vestes comissariais do 10 de Junho, queria banir os canhões e a marcha contra eles, bem como os apelos às armas do nosso cântico equivalente. Não, poder-se-ia, melhor, recusar a Marselhesa nos estádios porque os seus versos encerram um chorrilho de insultos contra os Reis e os que não simpatizavam com os ideais de 1789 e o insulto se quer banido dos palcos desportivos, como atesta a dureza contras invectivas raciais das claques. A Frente Nacional, por seu turno, deveria estar caladinha, já que a composição foi obra de maçons notórios, embora não tão extremistas quanto outros, o que levou o Barão Dietrich, autor da encomenda, à guilhotina e o compositor, o Capitão Rouget de Lisle ao arrependimento levado ao ponto de escrever uma canção de sinal contrário, «VIVE LE ROI!». Mas o mais avisado seria deixar as paixões fora disto, a menos que se encare o acto de cantar aqueles maus versos como um mero encorajamento, à laia de Sarah Bernhardt, que os declamou, imediatamente antes de lhe amputarem a perna. E, aí, não passará de um doping tolerado...
                                  A partir do monumento de Bartholdi em honra de Rouget

A Vaga Solução

Sem sombra de ironia, tenho boa opinião do Ministro Crato e sentiria pena de qualquer valente que sobraçasse a pasta da Educação. Anos de sobredimensionamentos, opções orçamentais discutíveis, decréscimo do número de criancinhas e um ministério cujos serviços e regulamentos se transformam facilmente num baluarte burocrático resistente às mudanças mais coriáceo que Sir Humphrey Appleby tornam ciclópica a tarefa de pôr ordem naquela casa. Mas esperar que uma vaga de reformas seja a solução para o absurdo número de docentes desocupados não é entender a palavra reforma num sentido diverso daquele que as necessidades apontavam como um imperativo? E esperar por tão milagroso desenvolvimento não é passar a batata quente da tutela do Ensino para a das aposentações? Ora, como o País é o mesmo para os dois departamentos, digamos que parece apenas uma alteração de mobília, destituída de ganhos de espaço relevantes.
                                                         Reformado, de Fred Wolf

O Fim dos Manda-Chuvas

                                  Papoilas Contra Um Céu Tempestuoso, de Bruce Cohen

Tenho a convicção de que a mudança do nome do Instituto de Meteorologia e Geofísica para Instituto do Mar e da Atmosfera, mais do que sublinhar a nossa vocação atlântica, importa a confissão de que o seu objecto não se desenrola no terreno de ciências propriamente ditas, como denunciava a jocosa adulteração para Mentirologia, mas no da submissão aos caprichos dos elementos. Vale que inexiste há muito entre nós a pena capital, ou poderia algum magistrado ocioso pleitear em favor da sua aplicação aos que enganam o público opiado para suportar a fraude sem revolta, à maneira do sucedido no Novo Mundo, com a pobre marmota adivinha, a qual, se menos frequentemente errou, não está protegida pela atenuante dum diploma universitário. Mas uns e a outra poderiam sempre defender-se dizendo que, antes deles, seria de executar alguém cuja total incapacidade de previsão é mais uniforme e grave, lembra-me o Ministro das Falhanças Gaspar, ou os técnicos do covil donde saiu...

Dos Fortes e dos Fracos

Devo, em primeiro lugar, dizer que nunca prezei o Instituto de Odivelas, por não me ser simpática a aplicação de ritos e disciplina militares ao Belo Sexo, cujo encanto associei sempre a uma certa indisciplina e... civilidade. Posto o que, em nada me surpreende a extinção ora decidida. Num País onde é reconhecidamente fraco o aproveitamento escolar e consabidamente forte a obsessão de igualar por baixo, um estabelecimento que produzisse elites era uma afronta, além de que, para um regime eternamente em convivência penosa com as Armas que utopicamente defendessem a Nação, núcleos de casta formadores até passam por afronta. Nada de novo, portanto. Mas quando já não se detecta grande vontade de salvaguardar património humano, ao menos que se poupe as pedras: o Forte de Santo António, no Estoril, foi um dos espaços físicos onde mais se decidiu quanto à sobrevivência nacional, no Século XX. Veio a ser, depois, afectado a colónia de férias do colégio em vias de extinção. Fica o voto de que o não liquidem, como o vizinho de S. João da Cadaveira, que era da Guarda Fiscal, servira para o repouso de filhos de militares e está transformado numa ruína à espera do dinheiro duvidoso que o transmute em espaço turístico. Com a importância que tem o monumento, ao menos que o cuidem, com a má motivação - mas eficácia plausível - de ter sido onde o seu (deles) odiado Salazar terminou a carreira de governante, com o célebre acidente da cadeira.

Todos às bancas e aos quiosques!

O Diabo da passada semana traz um notável artigo do Jovem Marcos sobre Ian Smith e o de amanhã trará um texto meu sobre Leitão de Barros. E em todas as edições há sempre o imperdível editorial do Jovem Duarte e a certeira coluna do Jovem Humberto. Perante tudo isto, quem é que ainda se esquece de comprar o jornal?

A Civilização e a Selva

Diz a Senhora Ministra do Governo Francês que estender o Casamento aos homossexuais constitui uma mudança civilizacional. Cada um muda o que pode, porque se isto é mudar o que quer, não há maneira, considerando as implicações físicas da modificação, de evitar reconhecer que se estará perante um passo à rectaguarda. A mim pouco importaria que o nó da República, para mais de uma com origens sanguinárias e destruidoras da Grandeza que fez a Europa, amalgame essa gente aos seus outros cúmplices. Conquanto não se alargue o Sacramento da minha Religião a tal gente, é-me igual ao litro. A "conquista" não abona muito é em favor do conceito em que os invertidos se têm: querem ser iguais aos outros no modo de vida das aparências que mascaram a oposição fundamental da sua desorientadora orientação. Os Puritanos de muitas seitas Calvinistas Britânicas, no Século XVII, ciosos da bondade comparativa que imaginavam nas suas preferências, embarcaram para a América, a fundar comunidades moldadas à sua medida, em que pudessem permanecer como eram. Estes, ao invés, tão má opinião têm de si que macaqueiam os outros e querem impor essa imitação barata como um equivalente ao original. Mas isso é entre eles, como será a desatenção aos números dos manifestantes, num mundo mesquinho que os hipervaloriza se na vertente de votos..
                                                          O Plágio, de Magritte

O que se exige, porém, é que não continuem a falar em declínio demográfico. Quando os reconhecimentos institucionais equiparam uma realidade edificada para fomentar a natalidade a uma que dela abdica, na mesma instituição, está a entregar os pontos e a neutralizar muitas cegonhas que trariam os bebés de... Paris!!!

Vertigem da Desagregação

O Poder, quando é fraco, desagrega. Se, além disso, se entrega a partidos e partidas de baixo nível, fragmenta. Mas, ao estupidamente tentarem extinguir os poucos traços de união que restam às Pessoas no patamar do Desespero, pulverizam. Têm carradas de razão os argutos e revoltados intervenientes no debate de que resultou o grito de alarme e angústia contra a opressão do abastardamento linguístico proveniente de definições magistrais de uns especialistas a quem cabe por inteiro o dogma da falibilidade. Simplesmente, se para os adultos é péssimo ter de reescrever pior o que se aprendeu, para a garotada em idade de aprendizagem é de insuperável gravidade. Embora as mais novas possam não sentir tanto a diferença entre o antes e o depois, todas ficarão com um acrescido factor de antagonismo familiar, expresso na desconformidade do Português escrito dos familiares e o da Escola. Que, injectatando um motivo adicional de desprezo ou de incompreensão pelo modo dos mais velhos, alegremente se chega à frente para destruir de vez o que de compacto reste aos laços do lar.
                                                      Criança Em Cinzento, de George Luks