Saúde Em Trânsito

A princípio, fiquei intrigado por ser a Organização Mundial de Saúde a fazer um relatório sobre a mortal sinistralidade rodoviária da nossa praça. Claro que muitos acidentes têm consequências clínicas e hospitalares, ou pior, conforme as fatalidades, mas pareceria mais compreensível ser um departamento específico a focar no tráfego a sua atenção. Isto, apesar de saber que a Saúde é um território de fronteiras vocabulares movediças, nunca esqueço a justificação duma não-partcipação de célebre maratonista, sob a alegação de se encontrar lesionada, quando estava... grávida. Mas faz todo o sentido esta avocação das preocupações, se considerarmos a barbárie automobilística cá do burgo como um caso de falta de saúde mental. Ainda recentemente, ao ler um livro sobre Lisboa durante a Segunda Guerra Mundial, vi o testemunho de um estrangeiro então por cá que se mostrava assombrado com a profusa utilização que os nossos Compatriotas davam ao acelerador e ao claxon. E isto numa altura erm que eram muito menos os carros e as frustrações. Também Sven Goran Erickson só conseguiu encontrar no trânsito uma área de que pudesse dizer mal dos nossos. Perante isto, o segundo lugar nem é mau. Penso que o cerne da questão está nas mitificações lusas do automóvel. Nenhum Povo, apesar dos Italianos, se apega tanto aos veículos e ao ideal que neles faz do que quereria, como nós. Talvez porque esse artificial prolongamento de si seja a maneira que resta de ficcionar que tudo corre sobre rodas...
                                                            Choque, de Steph Crase

(In)imputáveis

E esta, heim? Será que a Juventude entendeu correctamente a intenção expressa pelo Ministro Relvas de promover o regresso à Agricultura? O que mais me intriga é a fúria legalizadora de certos comentadores da "notícia", afinal já se tinha garantido que a despenalização do consumo iria fazer decair abruptamente a fascinação destes paraísos artificiais... e, depois, parece pleonástico querer tornar legal uma concorrente maior da droga mais nociva que, pobres de nós, já o é - a vida pública que nos condiciona. Dei tratos ao miolo e, por fim, descobri um sentido útil para a coisa: se as ervinhas alienantes passarem a ser transaccionadas com o beneplácito do Poder, se todos indicarem o número de contribuinte do PM & Cª, pode ser que, finalmente se vejam forçados à demissão por a incapacidade permanente de perceber e resolver os problemas do País passar a ser medicamente atestável. Caso contrário, seria apenas um acervo de alvos a acrescentar ao napalm que torra as papoilas afegãs, ou a coca colombiana.
                                                   A Sonhadora do Ópio, de Catherine Abel

Virtudes

Esteve poisada sobre a chaminé do Anúncio, cerca de duas horas, uma gaivota, que só abalou quando a noite desceu para trazer a Manhã maior. Os trocistas poderão dizer que era um símbolo do Espírito à paisana, mas será mais plausível que estivesse a guardar o lugar ao Legítimo Dono. Do Novo Santo Padre dirão, conforme os gostos, que o Cardeal Bergoglio se opôs às agressões da Política contra a Tradição Familiar, ou que sendo o primeiro Jesuíta eleito, se está perante uma vingança póstuma do Cardeal Martini, ou que salvou a Companhia na Argentina de ser desviada por teólogos revolucionários, como ainda de ser um procurador do Terceiro Mundo. Tenha sido ou não alguma coisa dessas, isso não respeita ao que será o Papa Francisco. A simplicidade simpática com que Se apresentou remete direitinha para a Mensagem Única do Poverello de Assis, mas o nome evoca também o Sacrifício Missionário de Xavier, ou a mística Mariana do Vidente de Fátima. Ao não elegerem as faces dadas como liderantes na divergência de linhas de actuação Sodano/Bertoni, libertou-se a Santa Madre Igreja da marca pretensamente infamante da burocracia pela escolha do constante Defensor dos Desvalidos. Que Deus O proteja e ajude!
                                                        Pomba Branca, de Forgas

Bufos e Bufões

Sei que na deslealdade, até porque passível de ser lida como variante do latrocínio, um agente pode almejar os cem anitos de perdão, caso traia os colegas. E a cartelização para esmifrar os clientes é mais do que desleal forma de rapina, pelo que ministrar do próprio remédio pode trazer indulgência ao huuuum novel terapeuta. A minha dúvida diz respeito, desde logo,  à sanidade de um sistema que deixa operar bancos consideráveis que se dedicam a cantar, para se sobreporem aos congéneres. É que esta também me parece uma forma de concorrência... desleal, o que a afastaria do estatuto de arrependido concedido a um tipo mais chão de criminosos e incompatível com a manutenção da actividade. De resto, temo que seja o prenúncio de uma sociedade em que se incentive a espionagem e relato do dia a dia de cada vizinho, onde o Big Brother não seja já o Estado, mas todo aquele que mora ao lado. Não haverá melhor maneira de nos considerarmos todos irmãos?
Depois, há a eterna escorregadela para o sentimento anti-Britânico, sem sequer considerar que o Barclays foi penalizadíssimo no seu próprio País, por práticas pouco dignificantes, o que o torna inadequado para emblematizar a Albion. Mas essas contas doutro Rosário constituem um óbice secundaríssimo à manutenção e expressão das aversões, claro está.
                                                   O Denunciante, de Vladimir Halovanic

Dos jornais

Saiu ontem mais um artigo meu sobre Cinema Nacional na página de Cultura do semanário O Diabo.

Cadeias da Montagem

Inicialmente, surpreendeu-me a notícia de que o nosso Portugal, um robot da Troika com aparato de País, tivesse peças suas nacionais seus a ganhar concursos com a concepção de outros auxiliares mecânicos do género, o que, no fim de contas, seria apenas mais um elo na automação. Abri o link correspondente e tudo se clarificou: a geringonça era um corta-Relvas. Só podia! A ilustrar, um clássico do meu tempo, dos «Salada de Frutas», para este tuguismo verde-rubro, em que tantos e tantos trabalham muito e necessariamente gastam pouco, olhó!

Velhos São os Trapos

Não é de hoje a minha antipatia para com o Facebook? Errado, por bastante avesso que desde há muito seja a redes sociais que aprisionam, data também do momento presente um pouco da minha hostilidade. Para além do pano de fundo anti-puritano que me faz alegremente malhar em todo e qualquer ataque ao Nu que elevou a Arte, ainda mais do que se deixou por ela elevar, não tem muita defesa a proibição de um museu colocar na respectiva página uma obra com a vetusta data de 1939, apenas porque despojada de veuzinhos tranquilizadores. Do ponto de vista do sossego das inquietudes mais vigilantes, perde-se com a troca, já que a demorada e pormenorizada descrição alternativa canaliza para o Erotismo o que o simples visionamento poderia cingir à fruição estética. Mas isso faz parte da conspiração da teoria. A única apologia possível seria dizer que um "livro de caras" não foi feito para suportar corpos, o que levaria a, compensatoriamente, ter tido de regular com os pés para acentuar a falta deles e de cabeça - em sentido cerebral - na arquitectura permissiva desta instância internética de convívio.
         A Vida Interior Nu Com Natureza Morta Espectral, de Victor Brauner

Os Uns e os Outros

Por norma, quando a Coreia do Norte grita e ameaça muito não quer fazer mais do que mobilizar as forças que restam aos seus esfomeados súbditos para o ódio ao Inimigo do Sul e do Ocidente, desviando-o da pontaria ao Líder e à Nomenklatura. Desta vez, a folclórica opção por não responder à chamada "raulsolnadesca" do outro lado pode significar outra coisa, que o Sr. Kim Jong Un percebeu ter de introduzir uma variação de discurso que assustasse o Exterior, para, com declarações de totalitarismo bélico à mistura, ter alguma coisa de que, fingindo abdicar, o capacitasse para simular uma negociação. O problema está em que as dinâmicas dos anúncios de guerras totais costumam surgir quando as coisas começam a correr muito mal e, concomitantemente com rios de sangue deles derivados, acarretar o fim sem glória aos seus fautores, salvo no espírito ultrafiel do eterno punhado de admiradores irredutíveis que prescindem de julgar por estarem demasiado ocupados em aderir. Conforme confirma o precedente reproduzido de seguida.
O que pode tornar o episódio trágico é o facto de os fanáticos serem por natureza optimistas...

Gente de Paz, Gente de Guerra

O Sr. Juncker diz-nos apenas adormecidos os demónios da Guerra na Europa, uma avaliação que merece ser comentada. De que guerra fala ele? Quanto ao conflito clássico entre as nações, não parece haver muito por onde temer recrudescimentos: os actuais poderes políticos, por incompetência convicta e preguiça acomodatícia, têm degradado as capacidades militares e, sobretudo, a margem de opção menos consensual em Política Externa. O único País um tanto europeu que mantém uma espécie de autonomia em ambos os campos é a Rússia de Putin e tem-se vocacionado mais para o apoio aos resistentes de outras latitudes ao predomínio Norte-Americano, do que para a pressão ameaçadora sobre o Velho Continente de que ocupa o extremo Leste. Assim não caiam os gestores da União Europeia em hostilizá-la mais do que a conta, na ânsia de lamber as botas a Washington. Resta o perigo real e sempre mais cruel, o da guerra civil gerneralizada. Se formos rigorosos, o segundo conflito mundial já foi isso mesmo, embora disfarçado pelas retóricas exigências de Espaços Vitais. Mas era um confronto ideológico a prolongar o Ensaio Espanhol e não já um episódio bélico circunscrito à recomposição territorial com a mera anexação desta ou daquela região fronteiriça em vista. O resultado foi o que se viu, com eternizações arrefecidas da contenda mesmo após um dos lados ter sido, na prática, erradicado. Porém, muito mais difícil de controlar é a deflagração que venha de baixo, das facções não institucionalizadas, em vez de porvir dos governos. E é esse o grande risco actual, nestas guerras civis em estado latente, definição das Democracias segundo Alfredo Pimenta. Passada a anestesia do bem-estar artificialmente sustentado pelos pés de barro do endividamento, de novo mil e um ressentimentos irrompem na ordem do dia, ameaçando de patenteação a tal latência tranquilizadora. E quem sabe qual o macguffin que desempenhará o papel de despertador ou o grau de leveza do tal sono?
                                                   Marte Descansando, de Velázquez

Sinais de Fumo

O laicismo, institucionalizado ou incipiente, vive de monomanias. A mais perceptível delas é fazer do Papa um Papão. Com a infelicidade que caracteriza os impotentes, pode ser que lhes saia um no que toca à categoria pessoal e pastoral, não às aversões inoculadas. A última vaga de troças e avaliações hostis concerne ao tradicional fumo branco do anúncio de preenchimento do Trono em vacatura, um meio que dispensa branqueamentos, em razão do seu próprio tom, mas que vem sendo negregado gratuitamente. Até admira como não criticaram a parcelazinha adicional de poluição atmosférica pelos gases assim libertados, mas claro que uma argumentação nessa linha seria passível de rejeição por todos os que libertam vapores das respectivas residências e pelas associações profissionais da digna profissão de Limpa-Chaminés. Já a proposta do mail ou SMS anunciadores, além de ser uma  investida contra o Costume, sem sequer dominar a popularidade na crista da onda, é a tentativa de conservar a relevância da mediação jornalística na época da comunicação directa: se assim não fosse, teriam sugerido aos Papáveis que tivessem prontas as respectivas páginas de Facebook, cabendo ao Eleito a tarefa inaugural de modificar a informação de "Cardeal Fulano, Patriarca, Bispo ou Arcebispo de Tal" para "Beltrano Tantos, Sucessor de Pedro". Claro que em tempos anteriores ao cometimento a Sacros Colégios Cardinalícios se registam na História escolhas mais dignas que votações, essas concessões à Democracia que nos oprime, pese a mitigação inerente ao carácter restrito deste Corpo Eleitoral. São Fabiano ascendeu ao Pontificado quando a Pomba Branca nele poisou... Mas os tempos são outros e a impureza humana não se pode dar ares e repudiar os escapes purificadores. Enfim, para desagravar o Fumo e como hoje é Domingo, deixo uns versos reabilitadores.
DESABAFO

Dizem que sem o Fogo eu não existo
mas não me tratam melhor por isso,
afastam-me com brusco gesto superior
como se fosse insuportável o meu odor
e todo o ser presente um enfermiço
hostil a aspirar-me, a ter-me por benquisto.

Talvez porque faça o que lhes é vedado,
elevando-me ao Alto sem grande esforço,
 sempre leve, nesta vida cheia de lastro,
contra o orgulho que, sem querer, castro,
de me não quererem acima, com o que torço
a ideia fixa de lhes caber o bom bocado.

Quando correm para mim em raro aperto,
usam-me para enviar do perigo os sinais,
chegando mais longe que muito outro meio.
Mas, uma vez servidos, bem que receio
a recaída nas desconsiderações habituais
ingratas e bramidas num reles concerto.

Esta vocação de mártir que ora assumo
não obsta a que procure o são respeito,
aquele tributado aos ditos de boa massa.
O meu nome é honrado, chamo-me Fumo
e o contínuo enxovalho não mais aceito:
continuar a ouvir dizer «é só fumaça»!

Desumano, Demasiado Desumano

A citação fílmica e a heterodoxia da luta trouxeram o Senador Rand Paul à ribalta. Filho do antigo Congressista Texano e candidato presidencial Ron do mesmo apelido, o parlamentar do Kentucky, também médico como o Progenitor, com ele partilha muitas posições corajosas, apesar de não cair em tão notórias teorias de conspirações ou anti-sionismos. Aqui, a Imprensa babou-se com a espectacularidade da abnegação maratonesca do filibustering e pouco relevo deu ao essencial. O expediente dilatório nem é tão raro como isso, o Falecido Robert Byrd, da Virgínia Ocidental, usou-o várias vezes, ainda não há muitos anos. Mas o que interessa é a substância, a liberdade presidencial para autorizar o uso de drones. Para a Civilização do Comodismo, poderia parecer um poder útil, na medida em que poupasse vidas de tripulantes em missões arriscadas. Para quem pense a Condição Humana com um pouco mais de detença é o rebaixamento da desumanização bélica a um nível sem antecedentes, na medida em que deixa seres da Espécie na mira de um autómato. Claro que a Culpa é inteiramente transplantada para os programadores do horrendo engenho. Mas a repulsa perante os maquinismos que roubam o que de grandeza havia no pavor bélico extrema-se perante a automatização cega da inflicção duma morte em massa ou de uma destruição conexa. Nem sublinho o egoísmo de esta resistência dizer respeito apenas ao uso dos aparelhos em território da Federação. Os Norte-Americanos têm a propensão a considerar as suas fronteiras acima do resto, como na reserva da possibilidade de ser eleito Presidente a quem lá haja nascido e a proibição de encarceramentos e torturas várias confinada aos seus limites. Mas chamar a atenção para a enorme negatividade da prática é não pequeno passo para que a Humanidade se compenetre da mesma, extra-muros.
                                                     Não Há Lugar Como o Drone, de Dana Ellyn

Oh, a Felicidade!

Que dia! Para homenagear a Mulher, Realidade Intemporal de que emana o Eterno celebrizado por Goethe, escolheu-se uma data renegadora que melhor evocaria a luta contra a barbárie ultra-capitalista oitocentista, cujo legado se transformou num modelo onde a Metade Feminina da Humanidade chegou em força aos postos mais cobiçados do sistema que hoje continua aquele horror. À custa dos sacrifícios de tudo o resto, o pessoal e o familiar, postos em segundo plano, em face da sacrossanta carreira, a qual enche uma biografia e esvazia uma personalidade. É mais uma das ilusões do Progresso, escravatura para que não há alforria e pena de solidão essencial como contrapartida da Libertação ficcionada, entronizada e impingida por um acrescento supérfluo e artificioso à guerra dos sexos. A todas as Leitoras, neste 8 de Março da intenção, que não da falta de jeito que o concretiza, um beijinho de reconforto.
                                                            Pen, de Rivka Cyprys

Que Ferro!

Ferro Rodrigues vem tentar justificar a Pobreza Para o Povo, mais conhecida pela sigla de PPP`s, que fez proliferar, com o argumento da aceleração das modernizações da rede viária. Sabendo-se do poço sem fundo que se revelaram em sede de gastos públicos, derrapagens e condições contratuais lesivas do erário público, caso é para dizer que Salazar está vingado, com a sua prudentíssima opção por melhorias seguras, mas ao ritmo que os cofres nacionais permitissem. Na obsessão de se gastar o que se não tem, o declarante corroborou a suspeita de que este Ferro era incapaz de dar ouro e admite, implicitamente, a sua gestão como resumida ao banho dessa urina que os alquimistas tanto gostavam de manipular e hoje nos cai em cima a todos, apenas proporcionando prazer a um número limitado de pervertidos.
         A Perturbação Chega Ao Alquimista, Escola Holandesa do Século XVII

Equívocos Em Bloco

Uma das cabeças visíveis da hidra bloqueada, Catarina Martins, vem dizer que a argumentação do adeus de Daniel Oliveira ao partido é caricatural no que a este concerne. Se formos à definição de caricatura, a acusação revela-se... caricata. Com efeito, sendo "caricatura" a exageração de traços particulares mas reconhecíveis pelo público a que se dirige, implica a confissão da existência de um enorme fundo de verdade nas acusações. A coisa explica-se, a meu ver, por outra focagem: Daniel Oliveira vem do PCP e mantém a respectiva rotina doutrinária enraizada, embora pense ter cortado com esse passado. Está tudo lá, a crítica ao Culto da Personalidade, com Estaline substituído por Louçã, como alvo; a imputação do Camarada Vladimir Ulianov, de ser o Esquerdismo a doença infantil do Comunismo, no diagnóstico de sectarismo empreendido. E a estratégia frentista, como na Guerra de Espanha ou no apelo cunhalista recorrente aos Socialistas desalinhados com as direcções «e outros Democratas», na exortação a alianças para as Autárquicas... E o robot telecomandado pelo Dr. Louçã, quer dizer, o BE, também recupera a velha desconfiança trotskista pelo centralismo decisório que o seu inspirador verbalmente criticou nos rivais, mas que, enquanto Comissário Bolchevista da Guerra, praticou como ninguém. Só admira como o Dr. Semedo, proveniente da escola do novo dissidente, não tenha vindo denunciar os vícios subjacentes...
                             Seis Aparições de Lenine Sobre um Piano, de Salvador Dali

O Mito e o Homem

No meio dos demagogos cheios de ressabiado discurso que, ultimamente, lideram a América do Sul, Hugo Chávez até passa por aristocrata, embora a altissonante linha retórica que adoptou não o tornasse muito plausível em tal papel. Mas sempre era um Oficial das Tropas de Elite, contraposto aos encobridores de corrupção, nepotistas, padres despadrados, ex-guerrilheiros e traficantes de droga que aquele cone subcontinental nos vem dando. Aliás, o seu Bolivarismo, com camisas vermelhas de garibaldina semelhança, até pode passar por uma compaixão genuína pelos desvalidos, num enquadramento de paixão nacional contra dominadores habituais de língua e sentimentos alheios, mais ao Norte plantados. Não chega o infantilismo verbal de episódios como o célebre com o Rei de Espanha para o reduzir a um insurreccionismo pueril. Se, numa reunião internacional, parece criancice não deixar discursar os outros e, depois de repreendido, maior ainda dizer que se calara porque não ouvira, ajuda a compor a figura o pano de fundo de indignada reivindicação de um lugar digno para países menos habituais, como, internamente, para camadas menos próximas do Poder. A mesma intenção que terá presidido à ambição de ver a Venezuela evidenciar-se no Conselho de Segurança das Nações Unidas. A mesmíssima que o terá levado à amizade com Fidel Castro, numa assunção de que os inimigos dos meus inimigos meus amigos são, como, da parte do ex-Líder Cubano, já acontecera com o Bem-Aventurado Papa João Paulo II e o seu criticismo às políticas económica e externa dos Yanks. O Prof. César das Neves, quando reduz ao Petróleo o êxito da governação do Falecido e afirma que as coisas deixaram de funcionar no seu País, ao contrário do que antes acontecia, poderá estar certíssimo em termos puramente económicos, mas não conseguiria errar mais, no domínio da Moral. Chávez ascendeu ao Poder, pelos votos depois de o ter tentado pelas armas, justamente por ser a mais identificável oposição aos fungíveis políticos dos partidos, desacreditadíssimos por encherem os bolsos próprios e os cofres das cores à custa de latrocínios e favores pagos. Por isso, pela desforra sobre os detestados rapinadores que oprimiam e por não ter chegado à Velhice, já tinha assegurada a aura do mito, sem que fosse preciso atribuir a Washington a autoria do cancro assassino que o levou. Como dizia o outro, não havia necessidade.
                                                    Da autoria de Eliu Abimelec Arteaga Ortega

Marcha Fúnebre

Quer o Materialismo epidémico que nos ameaça que a crise reprodutiva nacional se prenda, unicamente, com as dificuldades materiais. Claro que estas contam e como, mas épocas houve de dificuldades maiores e as pessoas não pararam de gerar filhos. Porque nutriam talvez a secreta esperança de que os vindouros produziriam um Mundo melhor. Por sentirem o dever de continuidade da heranças que elas próprias eram, mesmo que nada mais tivessem para transmitir. Pela correspondência a um dever religioso que contava, de crescer e multiplicar-se. E, também, como consequência da mais radical infirmação da impotência, que é conseguir dar uma oportunidade a Outro. Talvez tenhamos sido muito mimados, ao ponto de não conseguirmos aguentar as agruras e obstáculos da vida. Mas parece haver mais do que isso: a indignidade evidente da maioria dos condutores da coisa pública, a investida contra a Família, pela sua banalização, como com o esbatimento da relevância da Culpa nos divórcios ou o alargamento desfigurador do conceito desse grupo a reprovadas minorias que não têm, naturalmente, hipóteses de fazer filhos. Permanentemente acossados por constantes e diversificadas diminuições do mínimo com que lhes garantiram poder contar, sem lideranças ou ideias para admirar ou defender, vendo uma contínua erosão do refúgio que era a concepção familiar, que restará senão conformar-se com o que julgam o final? Para uns, o da fuga, noutros, a precipitação suicidária, talvez para a maior parte, o arrastamento sem fim, quer como término, quer como objectivo, enquanto os ossos forem aguentando.
                                                      Fim da Estrada, de Svetoslav Stoyanov

O Povo É Quem Mais Ordenha

O problema está em que as vacas estão tão magras, à semelhança desta, fotografada na Cuba das mitomanias cantadas e pintadas, que o parco leite que delas se retira não excede o da classe política em conseguir continuar no Poder.

Assentos de Trás

Cá voltamos ao mesmo... Tenho a sólida convicção de que a Sexualidade de cada qual deve ser irrelevante para a Política e que a melhor maneira de garantir essa condição é não a publicitar, como assunto reservado que deve ser. A partir daqui, quando alguns homossexuais optem por se manifestar em grupo, entrincheirando-se nessa duvidosa solidariedade e em carpir perseguições sentidas, muitas vezes com risível ultra-sensibilidade, tenho de concordar com o grande Lech Walesa, na preocupação com o facto de lhes serem dadas tribunas de onde dirijam o ataque constante para imporem as suas propagandeadas opções à tranquila aceitação dos demais. No instante em que optem por alardear esses gostos têm de, humildemente, submeter-se à rejeição dos que os rodeiam, porque o género em que se esfrega é dependente da vontade, não uma característica anterior a ela, como raça ou insuficiências físicas. Não lhes dar confiança implica mantê-los na defensiva e não oferecer-lhes de mão beijada as vantagens do ataque, de cada vez que entendam serem os seus gostos dignos de competir com preocupações mais prementes no condicionamento da Comunidade. Numa coisa, porém tenho de divergir do Patriarca da Política Polaca: acho que a dignidade do paralamento o torna um antro muito adequado a albergar os activistas destas matérias...
                                               O Domador de Ursos, de Paul Richmond

Cantiga da Rua

É bom ver correspondido o apelo que fiz, dois posts abaixo, mas a refutação da Apatia nos nossos Compatriotas, para ser fecunda, não pode esgotar-se na contestação de desfiles, ou equivalerá a um Carnaval suplementar; nem cair no plebeísmo ético de emporcalhar com tintas a via, numa pateta e patética prova tentada de não serem os autores da proeza de meias delas... Para ser fecunda, a resistência à governação ignóbil deveria suprimir os partidos, que, manhosamente, se apagaram nas iniciativas de ontem, para atraírem ao caudal indignado muitos a quem as suas presenças repugnam. Urge tornar consequente essa retracção, transformando-a em permanente e retirando-a à vontade dos próprios, ou as reedições da eterna espiral das promessas e dispêndios orgiásticos visando chegar ao Poder e mantê-lo, sucedida pelos cortes quando as votações ainda venham longe, perpetuarão o engano de todos os que puseram a sua confiança no voto e, vendo os monstros que assim criaram, acabaram no arrependimento, mas sem a assunção de culpas do remorso. Quer dizer, sem identificarem as causas da presente Causa, o que tornará a libertação de humores das manifestações uma representação teatral de baixo palco.
                                              O Protesto dos Comediantes, de Corrado Simeoni

Uma Imagem Vale Mais Que...

                    Grifo: corpo de Leão, cabeça, garras e, sobretudo, asas de Águia...

Anatematização da Apatia

Não deixa de ser dolorosa e assustadoramente irónico o aumento exponencial de vítimas das dívidas executadas, noticiado precisamente um dia depois da comemoração de Santo Albino, o Corajoso Bispo que, visitando Etherea, presa por dívidas ao Estado, com um sopro aniquilou o servidor daquele que lhe queria bater, por se ter arrojado aos pés do Prelado. Prouvera ao nosso tempo e lugar que as potenciais vítimas da brutalidade instituída, porque muito menos etéreas, não descansassem na espera quietista de uma intervenção miraculosa, sem se rebelarem. Como afirmava Mestre Chesterton, «eu acredito em milagres, sei que há tigres que comem homens, mas esses não andam pelas esquinas». Só na vontade e luta consequentes podemos ter uma esperança de eximirmo-nos à prepotência, porque será presunção demasiada acharmo-nos dignos de aguardarmos que o Sobrenatural faça o que não estivemos para fazer.
                                                   Esperando Pelo Milagre, de Adrzej Piecha

Tomar Partido

Que o Ministro Relvas não pára de assombrar o Pessoal é verdade facilmente constatável, quer no sentido de espantar a sua permanência nas cadeiras e corredores do Poder, quer no do estigma que comporta qualquer ligação mais próxima à sua pessoa. Prova-se abundantemente o enunciado pela divisão da Assembleia Municipal de Tomar a propósito da proposta de destituição que os opositores votaram e do bloqueio levado a cabo pelos seus apoiantes. É certo e sabido que a aproximação da Primavera pode induzir à imitação dos ritos sazonais de paragens mais frias, onde se queimam as ervas para favorecer as sementeiras, julgando aproveitar os restos de neve para obstar a propagações de incêndios. Mas a fundamentação deixa-me abismado: então, se o motivo invocado é o homem não pôr lá os pés, quererão convencer-nos de que ainda há quem esteja ansioso pelo convívio com o detestado político?

O Tributo

A Definição e Elucidação da Fé foram grandes. Mas num tempo em que pouco se lê e menos se pensa, o desinteresse pessoal, em directo e sob os holofotes, pode ser a contribuição maior para o rebanho que somos: Ter o mando supremo na Terra e dele abdicar, arrasando os temores de bicefalia fautora de hidras, com o preito de submissão expresso não é para todos, no mundinho em que a Vaidade reclama sempre mais e mais direitos.

Refutação do(s) Fracasso(s)

Leitura do livro de Jaime Nogueira Pinto «ANTÓNIO DE OLIVEIRA SALAZAR O OUTRO RETRATO». É excelente síntese, coroando o muito que o Autor tem corajosamente escrito sobre a natureza, razão, factualidade e consequências do combate governativo constante empreendido pelo único Gigante que à frente da Coisa Pública tivemos, nos últimos dois séculos, já que se a D. Miguel, João Franco e Sidónio não terá faltado a percepção do sentido e do sentir devidos, bem como a generosidade, nos três rareou o tempo, o saber e o reconhecimento coevo. Aqui, num volume sem palha, são tocados todos os pontos fulcrais, com o brinde da aclaração de episódios significativos da Pequena História muitas vezes adulterados na reprodução que se ouve e com a desmitificação, sem ocultar ou corroborar, dos aspectos da auto-defesa do Estado Novo que pelos seus antagónicos sucessores foi transformada numa «repressão asfixiante» por ninguém imparcial notada na época. Realça-se, sobretudo, a disparidfade da dimensão entre o que o País fora e a daquilo que a vida política das intrigas o tornara e tornaria, momentaneamente mediadas pela grandeza de um Homem e de um território ainda pluricontinental pemanentemente acossados e lutando por perdurar. Mas não se pode concordar com o balanço, em que nos é dito que, mesmo considerando toda a imperatividade e tamanho da sua luta, a acção de Salazar teria fracassado, pelo oposto que lhe sucedeu. Isso equivaleria a dizer que o Império Romano foi um falhanço, porque, mil anos depois de Augusto, os Turcos entraram em Constantinopla. Os regimes, como os homens, não são eternos e os que têm responsabilidades na condução dos povos só devem ver o seu êxito ou perda avaliados pelo que se passou no decurso da sua vida. O que importa é ter feito e como se fez a parte que lhe cabe. Enquanto o Presidente do Conselho foi vivo, não cedeu e, com ele, nós, a Nação, não cedemos. O entreguismo dos epígonos não é para aqui chamado, que a imputabilidade aponta direitinho para eles e só para eles. Da mesma forma, não coincidimos com o que escreve quando fala no regresso dos partidos e em para eles, presentemente, se não vislumbrar alternativa. Esta continua presente na Doutrina Tradicionalista e, justamente pelo carácter mais ou menos efémero das instituições, há-de dar o passo em frente em nova hora de glória, quando e se for servida por defensores capazes. Que devem formar-se no culto do que de imperecível há na actuação Salazarista, o Exemplo, a que convém acrescer um esforço purificador dos obstáculos de conciliação de tendências coligadas que o Grande Homem se viu constrangido a gerir. O Futuro está em aberto e as crises em curso talvez sejam não pequeno sinal, soando para testar a nossa prontidão.

Aviso à juventude e aos seus seguidores

O Diabo, jornal fundado por Vera Lagoa e actualmente dirigido pelo jovem Duarte Branquinho, traz publicado, na sua edição desta semana, mais um artigo cultural, sobre cinema, da autoria deste outro jovem.

A Corda Com Que Se Enforquem

Há incontáveis motivos maus para infligir sofrimento aos animais, ou para com ele brincar, mas a prossecução de desígnios de luta política é dos piores que consigo lembrar. Os indivíduos que não hesitaram em utilizar o cadáver de um coelho para uma paródia fácil ao nome do Primeiro Ministro merecem um chefe de governo tão incompetente quanto ele se vem mostrando e, pior, as consequências mais nocivas que da respectiva acção resultem. O triunfo da fria impiedade abortista já tinha deixado claro que a consideração da Inocência não tem direito de cidade nas cabeças da maioria, a mesma que se deveria culpar a si própria de cada uma das muitas vezes que se engana e leva ao Poder um ministério com que logo se desilude. Em vez dos pobres bichos, ou, mesmo figuradamente, nos destes lamentáveis eleitos, deveriam dar o nó em torno do próprio pescoço, mas não o da gravata que execram, antes o do auxiliar de alívios que lhes indicou o Iscariotes, ao compenetrar-se da respectiva culpa. Se não para o acto definitivo com que aquele recusou a Misericórdia que, Infinita, o poderia perdoar dos tinta dinheiros, pelo menos como símbolo de responsabilidade, à Egas Moniz, sem sangue puro a renegar o Exemplo do Poverello de Assis, coisa muito mais preocupante que os temores da exortação à violência contra os políticos, insusceptíveis de serem achados numa graçola que, sendo cruel, não passa, para aqueles alvos, de uma chalaça leviana.

Tudo Azul?

Da Austrália, pelo Sr. Clive Palmer, surge o projecto de dar uma segunda oportunidade ao orgulhoso nome que ficou definitivamente comprometido pelo impacto esmagador do Desastre. Fazer uma réplica do Titanic, mais do que tentar o destino, é um tosco meio de tentar ganhar dinheiro à custa de uma refutação do sucedido que alimente nos presuntivos passageiros a ilusão virtual de se fazerem ou verem vencedores do Infortúnio. Até aí, nada de muito novo. Mas na ausência da novidade que se estende ao exaustivo e maníaco acervo de imitação, sobressai uma circunstância mais emblemática dos dias que atravessamos: optando por uma ilha flutuante sem INTERNET nem televisões, diminui-se drasticamente o contacto com a verdadeira catástrofe que vai sendo o Mundo em redor, proporcionando a substituta excitação da memória do risco, esterilizada pela noção da improbabilidade estatística da repetição. Enquanto que todos os que ficam de fora terão de pagar um preço muito mais alto que o dum luxo em bilhete na viagem inexorável para dias piores. O Azul da nova Estrela que dá nome à companhia está longe de apaziguar os espectros que nos assombram, salvo na residual alienação de, curiosos, seguirmos a primeira viagem do clone da tragédia.
                                               Paisagem com Naufrágio, de Jaroslav Róna

Grillados Pelo Resultado

Ingovernável, a Itália? Lembra-me ter ouvido Ernâni Lopes, certa vez, dizer que ninguém percebia como funcionava aquele País, mas o certo era que isso acontecia. Parece que o segredo estava na Administração, uma máquina que, embora burocratizada e longe de impoluta, tinha competência técnica e eficácia que compensavam as incongruências da Política. Assim no tempo da dezena de governos por ano, como antes, na função de amortecer a ruptura expressa na passagem do Fascismo para a I República. Dizem-me que Berlusconi terá promovido alguma erosão nessa instância de sobrevivência, mas suspeito de que tal se tenha traduuzido apenas numa mão cheia de substituições de cúpula. Suspeito e espero-o, para preservar essoutra Pátria de Antecedentes meus, num tempo próximo em que o "Grillo Falante" alcandorado a Consciência Colectiva que endireite os mentirosos Pinóquios dos partidos políticos consiga proporcionar a regeneração emergente da rejeição deles, cujo tom sobe e sobe. Enfim, eis a Bota Mediterrânica de novo em piloto automático.
                   O Parlamento dos Criadores de Espaço, de Gordon Onslow Ford

A Noite dos Generais

A ingratidão é um privilégio da Democracia: aos militares devem os partidos o poleiro a que para nossa desgraça se alçaram, mas, quando as dificuldades apertam, os últimos não se coíbem de martelar os pregos que faltam ao caixão do mundo castrense. Nada que me espante. Quando já não há Pátria a defender do domínio externo, administrado que é o território por um governo-drone, telecomandado de fora para atingir os alvos mais diversos por entre a População, por que carga de água deve a Tropa continuar a existir? Costarriquemos o Rectângulo, pois não precisamos de mais que polícia e reforços de protecção civil, dado o conceito de intervenção estar reduzido a diminutas participações em contingentes expedicionários de platónicas vontades, sob o comando de outrem. A decadência começou quando se diluiu a antiga expressão de «Força Armada», acrescentando os ss a substantivo e adjectivo. Seguiu-se a profissionalização. Se é certo que o Serviço Militar Obrigatório foi uma invenção totalitarizante da Revolução Francesa, a eliminação de qualquer forma de conscrição levou a transformar a arriscada carreira num funcionalismo com penacho mais visível, em que a ideia de Serviço ia empalidecendo de ano para ano. Salazar também viveu dias difíceis com a ameaça de rebelião a partir dos quartéis, mas resolveu as coisas, promovendo reequipamentos que elevassem a operacionalidade dos mínimos trágicos a que tinha chegado na Flandres, por obra e graça da República jacobina. Também, numa altura em que o Oficialato era uma elite reconhecível, empregou muitas altas e médias patentes em funções que poderiam ser desempenhadas por elementos doutras proveniências, caso abundassem as qualificações noutros meios. Uma e outra coisa faziam muito mais do que serenar os que tinham a faca e o queijo na mão - davam razões para persistirem no que, doutra forma, não excederia a célebre Miséria Dourada, quer pela noção formadora de um comando abrangente de parte significativa dos Compatriotas, como pelas condições técnicas e materiais de realização proporcionadas. Reduzir à profissionalização paroxística a "recompensa" do conceito põe as Estrelas e Galões perante uma única opção, a de deixarem de ser puxados à trela e, ao invés, comerem o regime para por ele não serem comidos. Mas duvido que lhes restem dentes para tão dura mastigação, suspeito-os de apenas reterem uma placa postiça para arreganhar em jantares como o da notícia...
                                                    O General Júnior, de Thierry Poncelet

A Arma Branca

Gosto do nome Revolução Branca, por parte da alvura, que não pelo lado da filiação no motim. O Branco reúne todas as cores, dispensa branqueamentos pleonásticos e evoca heranças tão apelativas como a do Estandarte Português pré-Liberal ou o movimento estudantil Rosa Branca que, sem violência, se opôs ao Hitlerianismo, anunciando-lhe o fim, mesmo se à custa do sacrifício dos seus próprios mentores. É na criatividade do protesto, expressa na declaração do número fiscal dos governantes e já elogiada na imprensa Britânica, que reside a força decisiva da sua redenção, intervenção bem diversa da gritaria medonha de passadistas cantarolas pseudo-subversivas entoadas sem arte nem limpeza. Tenho visto algumas almas cuidadosas ecoando receios quanto à desconformidade da coisa com a Lei, como que alinhando na caracterização espatafúrdia que o P-M faz da minoria não-ordeira, contraposta à imensidão que o aturaria. Não percebem nada: mesmo se o aparelho de Estado lhes dá uma legalidade, tornou-se evidente a inexistência de uma legitimidade, aqui sim, passada com armas e bagagens para o lado revolucionário. Por Razão e Justiça, o voto em partidos nunca deveria legitimar. Mas as Pessoas embarcaram no esquema, enquanto tiveram a barriga forrada. No momento em que a coisa muda e em que, desajeitadamente, a tirania partidocrática obriga à serventia num totalitarismo fiscal sem eira nem beira, a classe dirigente está condenada. Espera-se é que as Gentes percebam que a questão não depende de outros partidos, mas da extinção deles, única maneira de honrar o activismo destas bolsas de redistência à tempestade opressora.