Questão de Cismas

O último Papa a resignar tinha-o feito para ajudar a pôr fim a um cisma, Bento XVI, com a inesperada decisão, põe muito boa gente a cismar. Contra Íntimos e estranhos recusei, tão consistentemente quanto consegui, contrapor o Papa Bom, o Bem-Aventurado João Paulo II, ao Papa Mau, o Germânico que tinha sido Ratzinger, Compatriota de Hitlers e outras Merkels. A minha devoção pela Memória do Anterior Pontífice chegou ao ponto de marcar o meu casamento para o dia da Sua festa oficial. Mas sempre tentei valorar devidamente o brilho do Sucessor na Definição da Fé consubstanciada em extraordinários documentos, os quais, aliás, continuavam o labor desenvolvido como "Pluma" do Santo Padre vindo da Polónia. Também exultei com a por Si promovida  recuperação pela Igreja de Irmãos que se haviam afastado da linha oficial Dela nos últimos quarenta e tal anos. Mas não posso calar as diferenças que vejo. O Papa sente o peso da Responsabilidade e que a saúde Lhe não permite assumi-La como gostaria. Como não confrontá-Lo com O Que antecedeu, tendo penado sob o jugo Marxista, as balas terroristas e a ofensiva cultural da hegemonia Capitalista até ao fim, com o corpo, aparentemente, mais deteriorado, num arrastar da Sua Cruz, sem cedência às sereias que O tentavam com o repouso? O Papa Bento tem a minha simpatia, pela humildade com que reconheceu não continuar à altura da Herança de Pedro. A minha admiração fica reservada a Quem a Ela Se dedicou completamente até ao fim terreno. Que o Espírito Santo inspire o Conclave Eleitor, não duvido. Mas está escrito em algum lado que faça outro tanto, quanto a uma renúncia? Nesta Quaresma que deixa, durante algum tempo, um pouco órfãos tantos Cristãos, comprometo-me a não engrossar as claques por este ou aquele "Papável", jogo bom para jornalistas, mas distracção fatal da centralidade da Mensagem do Salvador. 

This is this


«Stanley, see this? This is this. This ain't something else. This is this. From now on, you're on your own.»

O Fim da Picada!

Evito com toda a cautela a aquisição de carne passada pela máquina que não sofra essa operação diante dos meus olhos. Por isso, no que pessoalmente me tange, estou tão tranquilo quanto incomodado por ver um animal que especialmente me agrada, o cavalo, substituir os bovídeos, por injusta que para estes seja uma tal reserva de matadouro. Indo ao que importa, de cavalo para burro, ou seja, dos sacrificados para os consumidores, esta triste negociata desperta-me para duas observações; 1 - a cadeia de intermediários (ou melhor seria dizer camuflagens?) só parece comparável às de lavagem de dinheiro, tantas são as voltas que o material para alimentação dá! O que me faz perguntar: mesmo que não houvesse falcatrua e as normas e rótulos tivessem sido cumpridos à risca, o preço não seria elevadíssimo, sem outra necessidade que a de sustentar inúteis?
2- Mas há mais, a pronta responsabilização da origem Romena, se não espanta pelo mau nome que se generalizou ao que dos Cárpatos vem, também me parece uma via fácil para isentar Nórdicos, sempre tão orgulhosos dos controlos e higiene que impõem e que, aqui, ou se mostram coniventes, ou, como preferem, incapazes. Mas também nós não nos podemos excluir da culpa a registar em semelhante cartório, na medida em que permitimos e fomentamos uma Sociedade onde é compensador abater a elite identificável no Cavalo, em vez de elementos da Manada, aparentemente, salvo na Índia, para o fim vocacionados. O que é uma alegoria do que se passa com os humanos...   

                       Cavalo entre Cavalos, de Eemyun Kang

Revolta Contra as Fórmulas

Nunca alinharei na desconfiança brutal de alguns espíritos mais resistentes, calejados e impiedosos que atribuem a Depressão aos vícios da abastança mimada e sentenciam a ocupação dura como o melhor dos remédios. Jamais gostei de troçar da sensibilidade e vejo por todo o lado exemplos, justamente, de ser a exposição a excessos profissionais uma das maiores contribuições para o arrasante distúrbio. Tão-pouco minimizarei o drama da incomunicabilidade com filhos resultante do autismo deles, como  do desespero ou deficiências próprias. O meu ponto é outro e aponta para a observação da perversidade da acção de alguns anti-depressivos. A catadupa de casos de mães que traíram o seu estatuto sob o efeito deles, ao ponto de acabarem com aqueles que tinham trazido ao Mundo, faz-me pensar se não seria mais avisado evitar o repouso na esperança das suas potencialidades terapêuticas, quando parece apenas terem fortalecido a decisão assassina. Ou para nada servem - e não se vê por que usá-los -, ou ajudaram a reunir forças para a maldade mais repelente e, então, há que proscrevê-los. A alternativa? Talvez uma educação para a mitigação das expectativas, nomeadamente a da Felicidade, de modo a impedir que com o desmentido dela se identifique o Absurdo da vida, antes constatável na forjada omnipotência das nossas aspirações içadas ao estatuto arrogante de planos...
                                           Mãe e Filha, de John Frederick Leighton

PÍLULAS & PÍLULAS

Transfiram lá para o consumo imediato
a busca falhada da Sanidade!
Num simulacro alvar de Cultura,
a tranquilidade serve-se em pastilhas,
colmatando pastilha maior que é a vida,
aquela que a poucos serve.
Obtenham, vá, pelos químicos,
a composta pose instantânea,
como outros alienados, no hospício,
serenando após lobotomias.
Caísteis na ingénua pecha
de aceitar à letra ser uma Química
a interacção, logo uma receita,
em ordem à exterior satisfação.
Desistentes do auto-domínio,
anestesistas de toda a esfera do sensível,
recebendo em mais uns comprimidos
as ideias feitas com que vos arranjais,
sem perceberdes que os anti-depressivos
adiam umas horas o desespero
e, o que é pior, para sempre,
a percepção mais contundente
de que verdadeira e profunda depressão
é o Homem incurável.

A ideologia do género contra o sexo

Este número da revista “Éléments” tem uma capa provocadora que chama a atenção para o óptimo ‘dossier’ sobre a “ideologia de género”, mostrando a bela Brigitte Bardot com o título magrittiano “Isto já não é mais uma mulher”.



Esta é uma revista que existe desde 1973 e cujo título completo, traduzido para português, é “Elementos para a Civilização Europeia”. É, das três publicações periódicas do GRECE, aquela que se destina a um público mais alargado e por isso é vendida em quiosques. Dirigida por Michel Thibault, tem como natural figura de proa o pensador francês Alain de Benoist, que ficou conhecido como o “pai” da chamada Nova Direita. Este não só é responsável por vários artigos de fundo e reflexões pertinentes, como também assina o editorial com o pseudónimo Robert de Herte.

O número referente ao último trimestre de 2012 desta “revista das ideias” é alargado e tem 96 páginas. O tema central é o das chamadas “teorias de género”, que partem do princípio que a identidade sexual é o resultado de uma construção social. Assim, as mulheres não seriam oprimidas se não existisse o conceito de “mulher”. Para os partidários desta corrente de pensamento, é então necessário destruir as categorias de “homem” “mulher”, que não existem, para libertar a humanidade. Por mais que nos possa parecer estranho, estas são posições que ganham cada vez mais adeptos e influência. Para as contrapor, este ‘dossier’ oferece vários artigos com argumentos inteligentes e fundamentados. Destes há a destacar os artigos de Alain de Benoist “Viva a diferença!”, que recorre à biologia, à neurobiologia e à psicologia evolucionária para responder à pergunta “o ser humano é ‘neutro’ em matéria de sexo?”, e “Abaixo os homens!”, sobre o novo feminismo moralizador e repressivo, e o artigo de Xavier Eman sobre a rede social Facebook, a infidelidade conjugal e o divórcio.

De referir, também, a entrevista com Myret Zaki, chefe de redacção de uma revista económica suíça que afirma que o doar se tornou a maior bolha especulativa da História. Sobre o caso Richard Millet, cuja publicação de “Elogio Literário de Anders Breivik” em apêndice ao seu ensaio “Língua Fantasma” gerou uma tempestade editorial e política em França, podemos ler os artigos de Michel Marmin, Gabriel Matzneff e Olivier Maulin, e a entrevista com Pierre-Gillaume de Roux feita por Pascal Eysseric.

Uma curiosidade para portugueses, no artigo de Pierric Guittaut sobre o romance policial, é a utilização para ilustração de uma capa de uma edição nacional de “O Pregador”, de Erskine Caldwell, com um desenho de Paulo-Guilherme d’Eça Leal.

Por fim, atenção para os artigos de Jean de Lavaur sobre Christopher Lasch, intitulado “O homem revoltado contra a mercadoria”, e a entrevista com o filosofo italiano Contanzo Preve.

De Cabeça Perdida

A "descoberta" da cabeça complementar da célebre vulva de Courbet não só é pretensa, como pretensiosa. Quer dizer, tenta dar-se ares de consumação duma pesquisa exaustiva, sem perceber que, na remota hipótese de estar certa, destrói um quadro célebre, em vez de o enriquecer. O que salva A Origem do Mundo da subsunção à Pornografia é o título, embora o faça perder-se, face à Lógica e à Divindade. Com efeito, a proximidade da focagem do orgão e a ausência de enredo, mesmo pictórico, alinham perfeitamente com a noção de Porno que uma Escritora Espanhola deu acerca dos filmes, para os separar dos eróticos - a camera não mexe e não há beijos. Ao reduzir a génese do nosso quinhão de universo a um orgão reprodutor, o Artista salvou-se de tão vulgar crime, mas atolou-se na impossibilidade que é o instrumento de um coito ser o Princípio, pela necessidade que ele implica de dois seres animados pré-existentes que o atestem, em todos os sentidos... É, portanto, um mero desabafo tendendo ao ateísmo, para excluir Deus da Criação. Mas esta má-criação deixa de ser perceptível - e decerto não foi percebida -, se lhe procurarmos juntar um rosto. No País da Guilhotina, melhor fariam, para não matar a Arte, que se dedicassem à pesca de crânios perdidos de outras paragens, por exemplo, o da Vitória de Samotrácia, e deixassem em paz o trabalho de um seu compatriota que assim o exige. Porque o contrário é que, desmentindo ironicamente a tela deles desprovido, não tem pés nem cabeça.
                                                        Cosmogonia Elementar, de Magritte

Voltar Atrás

Como a maior parte de nós dista bastante de Madre Teresa de Calcutá e de outras Santificadas Almas que foram consequentes com a empatia que o horror do sofrimento deveria despertar, a fome, porque pensada como sobrevivendo apenas noutros continentes que não o nosso, era pretexto para incómodo e pena, mas não perdurava como preocupação prioritária. Neste momento, chega ao País que é emblema e marca fundadora da nossa Civilização e seria caso para perguntar se a terciarização da Sociedade terá valido a pena. Claro que o esbanjamento e a promoção do consumo irresponsável foram os detonadores da catástrofe, mas já dizia o Povo que quem se encostasse ao torrão não levaria grande trambolhão. Um dos principais objectivos da Integração Europeia era elevar os rendimentos dos Agricultores, mas depressa foi adulterado pela hegemonia das produções capazes de alimentar as redes distribuidoras e grandes superfícies de venda. Acresce que, pelo menos desde o meu tempo escolar, se falava do Êxodo Rural como um factor predominantemente positivo, pese a explosão de bairros degradados em algumas periferias, o que se admitia no tocante aos Trabalhadores Rurais de base, mas se torna um tanto mórbido com a reconversão de muitos pequenos agricultores independentes. A imagem que acompanha o artigo linkado não deverá ser vista em Portugal, no Futuro próximo, pelo singelo motivo de, cá, laranjas terem conotações com realidades cada vez menos apetecidas. Mas valerá a pena tanto trabalho técnico para aumentar a podução e afastar o fantasma da décalage para crescimentos geométricos da População, quando a conveniência de outros mercados substitui aptidões agrícolas por frustrações no barómetro da capacidade de compra guindada a critério de prestígio e felicidade?
                                                   Mercado, de Henry Charles Bryant

O Outro Lado do Assobio

Eu bem sei que, depois do tal Baptista precursor de falsificações, para desgosto do Grande Santo do nome, o curriculum de um participante na vida pública lusa passou a ser mais elemento incriminatório do que justificação de promoções. Mas no caso do Secretário Franquelim, parece-me muito plausível que, após o erro da indigitação, estejamos simplesmente perante um de... digitação: o zero está tão juntinho ao nove no teclado que, realmente, só a ânsia de chicana pode ver fraude onde apenas terá havido falta de cuidado, na consagração de 1970 por 1979. Há, no entanto, outros lados que merecem vaias, a começar pelo descaro com que o Ministro Relvas assobiou para o dito. Ninguém lhe perguntou desde quando conhecia a nova escolha governativa, mas o que achava de ela apresentar uma informação difícil de compatibilizar com a base factual. O duvidoso e contentinho humor com que contestou dá, por si só, nota da ausência de qualidade do inquirido. Tal qual a insistência pleonasticamente pobre do Ministro Álvaro na ficção de que as referências e aprofundamento investigatório à passagem do nomeado por negócios consensualmente vistos como escuros equivalem a um «linchamento público». Não conhecendo linchamentos privados, parece-me que temos uma reedição da «cabala» do Dr. Ferro Rodrigues, a propósito do lodaçal casapiano. É esta a Ética Republicana, responder a acusações específicas com imputações de intenções antagónicas, num recurso infantil à perseguição que só não é mania porque, desgraçadamente, as prevaricações do estilo vão sendo reconhecidas como um sintoma de lucidez. Aquela que falta quando se dá os nomes de "competitividade" e "empreendedorismo" a departamentos governamentais, ou seja, a que substitui por desideratos o que devia ser coutada das realidades...
                                                    O Choque do Antigo, de Peter Ravn

Tss Tss!

Está tudo explicado na notícia desta relação! Afinal, tanto apelo à vacinação contra a Gripe não era simples fruto da vulnerabilidade, essa sim verdadeiramente epidémica, ao Terror que medra em cada notícia de potencial alastramento de epidemias, senão uma efectiva inoculação da Doença do Sono que permita aos condutores do País sobreviverem graças à apatia inerente à injectada maleita. O processo torna-se transparente, se tivermos em conta que a prosperidade deste mal se funda na capacidade de um pequeno número de parasitas fintar os anticorpos que o organismo - e o Social não é excepção - contra eles segregue, atingindo somente uma maioria dos seus congéneres...
                                     Mosca TséTsé, ou, como sugiro, Retrato Dum Político

Malhas Que a Vida Tece

Esta peça esclarece muito pouco, desde a misteriosa formulação "identificar que" do título, aos resultados publicados do inquérito. Tenho uma desconfiança de que os perigos aventados pelos jovens correspondem mais aos continuados alertas com que os massacram, do que a percepções geradas sem tais estímulos e por sua exclusiva iniciativa. Mas não é isso que importa. Para mim, a net ocupou o lugar dos espelhos. É perigosa porque reflecte os perigos da vida, pelo que pretendê-la segura será um anseio sem esperança de concretização. E até nos nossos temores diante dela se assemelha aos medos irracionais perante os vidros reflectores, desde a passagem da Morte para nos alcançar, como Cocteau celebrizou, aos mundos fantásticos a que não pertencemos mas em que mergulhamos, à maneira de Alice. A Pornografia e a Violência, parecem-me, assim, menos perigos do que viciações de busca. Já, as emergentes da própria experiência, como mentiras, insultos e quebras de prestígio são as calosidades do atrito da entrada no grupo social, com o habitual cortejo de desilusões. A Rede até pode minorar a insuportabilidade desses percalços, desde que se não permita que a vida em estado de iniciação se detenha demasiado em frente do computador, o que se obterá com a reaplicação da Sabedoria do «ECLESIASTES», quando nos ensina que há um tempo para tudo. O maior problema está na expressão numérica dos envolvidos em caso desses, pelo que urge explicar aos educandos, desde pequeninos, que o número não deve tomar o lugar da Qualidade no açambarcar da importância, coisa que poderá funcionar, igualmente, como vacina contra a Democracia perversa que nos aniquila. Quanto aos contactos com desconhecidos, não fosse ali, noutro sítio seria. E não parece menos problemático passar mais tempo em casa, enquanto os empreendem? Foi a curiosidade que matou o gato, o que talvez não tivesse acontecido se ele a tivesse saciado na INTERNET.
                                              Trabalho de Rede, de Maryann Lucas

Porquinhos e Lobo Mau

Se não a decência, ao menos a compaixão, obrigam a desagravar o Porco. Faz parte da minha cadeia alimentar, não tenho a consciência limpa, mas posso insurgir-me contra os maus tratos adicionais que sofre. Desde o desprezo e nojo Semitas que levam à total rejeição e à coincidência com o pior dos insultos, ao tão democraticamente idolatrado Orwell, é o pobre suíno usado e abusado para os sublinhados do desrespeito, Nem na Mensagem Evangélica se livrou de ser o asilo dos demónios exorcizados admitido pelo Salvador, com o afogamento sacrificial da ordem; nem S. Francisco, com a reconfortante sintonia com a obra extra-humana do Criador o tomou explicitamente como irmão, preferindo-lhe o lobo, dado como figadal inimigo na historinha célebre. Agora, sobre o porco do Miguel Sousa Tavares, impõe-se um desagravo. Quer o opinion maker vedar-lhe até a relevância como notícia, o que implicaria o direito livre e gratuito de qualquer guarda republicano a chutar o pobre bicho. Daqui, donde Poucos me ouvem, lavro o meu protesto: não me parece dignificar o uniforme de uma força da ordem a descarga indisciplinada de mau humor num inocente, mesmo que passe por irracional. E a vara que era transportada para o matadouro, donde seguiria para as nossas mesas sem ser ouvida ou achada, não era a responsável pelo acidente que espalhou na estrada os bácoros, a obrigação de os transportar com segurança e evitar acidentes cabia às alimárias humanas. Mas eis que entendo o que quer dizer MST: com efeito, nos dias que vivemos, não se percebe que a injustiça ainda seja notícia!

Divertimentos de Rua

Quem canta seu mal espanta poderá ser muito verdadeiro, mas para o seu sofrimento pessoal e intransmissível. Quando é colectiva a indisposição, torna-se redundante e repulsivo o protesto que opte por dançar e cantar. Não só porque a gravidade dos golpes acarreta a desconfiança perante formas tão alegres de contestação, como por, mesmo metaforicamente, estar inculcada no Grupo a noção de que, cada vez mais, a vida é uma dança e de que propostas pouco articuladas de a remediar são mais uma forma de nos dar música. Quando a infelicidade decorrente das más governações aperta, a necessidade de reagir não se compadece com estratégias circenses de passeios públicos, a irreverência festiva só acha terreno favorável em tempos de comparativa fartura. As Pessoas que sentem na carne os efeitos das aleivosias estatais já não têm disposição para alinhar com pantominas. Daí que os organizadores desta jornada de luta não se possam queixar da fraca adesão, nem sequer com ela surpreender-se: a RUA está reservada como destino a dar aos políticos incapazes, não como local de ocupação das vítimas deles.
                                         O Saltimbanco e o Xadrez, de Paul Vanier Beaulieu

O Fim do Princípio

É muito importante o esclarecimento que o Dr. Gusmão nos traz, mas penso podermos ir ainda mais longe: não só o álcool já não é uma motivação importante dos suicídios, como até pode ajudar a evitá-los. A sua oposição aos antidepressivos não é da natureza da barreira, mas da da concorrência, uma vez que muitas etilizações têm ajudado a suportar o peso de uma realidade angustiante indutora da precipitação da morte, como alívio. No caso dos idosos, a acentuação das noções de que a Esperança é coisa que tem idade própria, já passada e ultrapassada, é hoje estimulada pela tripla insensibilidade dos discursos e das políticas que fazem deles um peso para a população activa, lhes tiram os parcos pontos de apoio a que se tinham agarrado com pés e mãos e enfraquecem o pano de fundo do horror comunitário e a Condenação Divina perante a relevância da vontade do termo. Chegámos a um vazio de sentimentos e interacções tão triste que matar-se pode voltar a ser visto como uma consequência da lucidez, à maneira de certas escolas de pensamento da Antiguidade, e não já como uma doença, ou um triunfo do Mal. Ou seja, deita-se em poucos anos para a lixeira o manancial de resistências que a Cristandade levou séculos a pôr de pé, sem que o valor do Sacrifício consiga impor-se mais, tão grande é a avalancha de frustração do hedonismo sem arte, contrapesos ou... consumação que nos esmaga. Essa debandada de razões resulta, forçosamente, para muitos, no Princípio do Fim.
                                        Dizer a Verdade É Um Suicídio, de Natee Utarit

Explicação do Pássaro

Não faço a menor ideia se a actividade profissional do Sr. Franquelim foi meritória ou desastrosa, se, na relação que teve com indisputáveis e negregados buracos do sistema, os seus actos e omissões minoraram ou agravaram os males. Acho natural que se escrutine a sua passagem por empresas privadas para aquilatar da presença de favorecimentos ou simples vícios da tão bem carpida porosidade no seu desempenho governativo. Uma única coisa posso desde já afirmar, sem qualquer risco de injustiça - é falsa a afirmação de que «sempre se norteou pelo rigor e a exigência». Se assim fosse, nunca teria podido aceitar integrar o presente executivo.
                                      O Queijo dos Esquemazinhos, de Kostya Prozorovsky

À Bolachada!

Fui e continuo a ser um fervoroso admirador do Monstro das Bolachas. E se o recentíssimo altruísmo dele poderia, à primeira vista, descaracterizar a personagem, o facto de investir contra o egoísmo das multinacionais seria suficiente para, a meus olhos, proporcionar redenção. Que a causa comum das Crianças e a dos Animais é recomendável, não pode ser posto em dúvida, pois mesmo aqueles que lhes contestam a inocência têm de admitir que são os únicos seres animados a não poderem ser responsabilizados pela derrocada civilizacional que atravessamos, por não terem direito de voto nem audiência os respectivos pontos de vista. Ademais, quem, senão ele, presentemente, admitiria não ficar com o ouro de que se apropriara? O residual receio da ingenuidade leva-me, não obstante, a temer que a prontidão da cedência da produtora de biscoitos alemã configure um golpe publicitário imaginoso, sem ter de pagar retribuições a esta Estrela do Showbusiness. O que me catapulta, com todas as ganas, para uma reflexão acrescida: apesar de muito criticarmos o mundo empresarial dos Estados Unidos, constata-se lá, nos indivíduos como nas companhias, uma tradição e uma prática filantrópicas com mais raízes, discrição e razões do que a dos meros benefícios fiscais e de imagem. É bem verdade, em qualquer lado há Luz e sombras, não tombemos no orgulho da moralização unilateral.

Vestir os Que Estão Nus

No Mundo Germânico a nudez sempre fomentou muitas teorias pretensamente regeneradoras don Homem. Nos anos de 1920-1930 lá prosperaram as doutrinas de que a vida quotidiana sem vestes seria um factor de verdade e transparência, mostrando que nada se tinha a esconder, e uma esterilização do erotismo, cuja responsabilidade era atribuída aos trapos que inquietam e deixam entrever. Vá-se lá saber por que razão estimavam esta pretensa qualidade, mas não é isso o que aqui me traz. A iniciativa deste museu austríaco, de abrir um dia para visitantes nudistas de nus masculinos, é uma baralhação: se outrora fazia escola a ideia de que a Arte imita a Vida, tenta-se, do modo mais fácil, propugnar que a Vida imite a Arte. É uma assombração da inocência perdida, que se sugere recuperável pela renúncia às sucessoras industrializadas da folha de parra. E mais uma patética manifestação de igualitarismo, que não percebe estar a entoar um hino à Desigualdade, pois se, nesta época de pronto-a-vestir, as mesmas peças, sublinhadas pelos normativos da Moda, podem indiferenciar um tanto todos os que tenham dinheiro para as comprar, não há volta possível no que toca à comparação dos corpos, por completo diferentes e hierarquizáveis, consoante as medidas, tonalidades, sinais e (im)perfeições. Em vez de ser a Meca da Igualdade, é apenas o Meco dela, o que se coaduna com a lamentável opção nudificadora pelos machos...
                                                  O Anjo Adormecido, de Mariola Bogacki

Costa dos Murmúrios

O Dr. Costa tem, evidentemente, muito mais cabeça e dotes retóricos do que o Secretário-Geral Seguro. Daí que a declaração dúbia que produziu, de só avançar se o actual líder não conseguir unir o Partido, seja uma confirmação de que o virá a fazer. Para já, houve um testar de águas, com a medição da receptividade interna. Por seu turno, os adeptos da direcção vigente espraiaram-se nos desabafos acusatórios da fervura rápida, pois investem-se completamente na esperança de que a governação infame que por aí anda acabe por atirar o País para as mãos do seu chefe, mesmo sem as qualidades do competidor, no que até são capazes de ter razão. O Edil Alfacinha aponta mais alto: que o reconhecimento geral da sua superioridade entre os compatriotas que não fazem parte da entourage do cabecilha se propague aos militantes. A condição de unir é um sofisma, na medida em que é ele próprio que fomenta a divisão quando e como quer, à espera de uma oportunidade para um avanço triunfal, agora reforçado pela aura deste simulado sacrifício. Isto é, crítica aqui, ameaça ali, sonda o ambiente interno. E, se vir o caminho desimpedido, lá vai ele, lançado. Do outro lado, a conversa sobre o espírito de facção é para esquecer. O divisionismo será mau para os partidos, mas não é por eles que estou preocupado: a sua essência é, precisamente, dividir; e, algo muito mais grave, o País. Como também o é a resma de imposições e sacrifícios absurdos para perpetuar a nossa dependência.

Sempre Alerta!

Quanto a mim, podia ser bem pior: imagine-se que em vez de serem gays a quererem entrar (sem sentidos demasiado físicos) nos Escuteiros, fossem os Escuteiros a pedirem para ser contados entre os gays! Fora desta agourenta hipótese, na coisa não se vê pés nem cabeça. Os seguidores de Baden-Powell têm, evidentemente, todo o direito de admitir no seu seio quem muito bem lhes dê na veneta e só uma época completamente perturbada pela ideia fixa do igualitarismo e da uniformização pode pretender o contrário. Assim como se um clube de ruivos tivesse de aceitar morenos porque se meteu na cabeça destes integrá-lo. Ou pior, porque se ainda se compreende o esforço para evitar distinções segregadoras em função de características não-escolhidas, como raça ou classe de nascimento, proscrevê-las quando fundadas em apreciações negativas da acção de outrem, em última análise, levaria à própria forçada aceitação pseudo-prazenteira da generalidade dos criminosos. Não pertencendo, ou tendo alguma vez pertencido, a qualquer dos dois grupos envolvidos, sinto-me capaz de dar uma opinião independente. E de chamar a atenção para um perigo óbvio: sabendo-se da preponderância dos pederastas no meio pedófilo, receber portadores dessas tendências como líderes dos rapazinhos não será trazer a gasolina ao fogo?
Temo que esta passe a ser uma imagem definitamente datada.

Aviso aos Leitores

O Diabo, semanário fundado por Vera Lagoa e actualmente dirigido por Duarte Branquinho, traz publicado, na sua edição de hoje, mais um artigo cultural, sobre cinema, da minha autoria.

O Desastre Reflectido

Num País tão atestadamente deprimido como comprova o record batido da compra de anti-depressivos, a ambiguidade tremenda sobressai de um fatídico acidente como o de ontem. Num primeiro momento, a perversidade do despertar dum renovado interesse em face da infelicidade mais extrema, a acordar do torpor em que nos fazem mirrar. Depois, o novo mergulho na dolorida e difusa incapacidade de reagir, ao compenetrar-se da impotência para inverter a desgraça e da parcela a adicionar ao mal do tempo. O pior de tudo, entretanto, seria deixarmo-nos escorregar para a arrogância da comoção com base no sentimento genuinamente bom, aquela que nos incitasse a lamentar comparativamente o fim terreno de Pessoas Sãs que pretendiam empreender uma espécie de peregrinação, junto de um Presépio, quer dizer um resquício de Culto, enquanto tanto patife goza e prospera. Nessa compreensível mas condenada avocação do poder de decidir de quem por cá continue jaz a mais perigosa das tentações que nos possam perder. Evitêmo-la, diante do horror e das devidas condolências que, pela dimensão, creio nos menos maus muito acima da mera formalidade. Mas insistamos na equação de cada óbito na sua dimensão absoluta de personalidade!
Uma única nota: «um autocarro antigo e sem cintos de segurança» não parece igualmente uma descrição do Portugal em que vamos permanecendo à espera de perecer?
                                              Payola no Fim do Arco-Íris, de Michael Scott

Armas e Armaduras

Leitura muito consoladora da obra de Pedro Calafate «DA ORIGEM POPULAR DO PODER AO DIREITO DE RESISTÊNCIA», onde visitamos a sabedoria dos nossos antigos tratadistas, vários dos quais faziam radicar a Legitimidade do Poder na cedência dele ao Príncipe in actu, e não in habitu, quer dizer, para o exercício correcto de uma função em prol de todos e não com base numa transcendência permissiva de actuação arbitrária. O que tinha o condão de couraçar a Comunidade e permitir, em circunstâncias graves e extremas de desvio, a retoma da instituição electiva pessoal na base dinástica, bem diferente da compulsiva alea presente nas escolhas de ementas restritas que hoje se fazem profusamente, por tudo e por nada, abrindo caminho para os triunfos precários e desilusões da irresponsabilidade do ciclo infernal da promessa, desperdício e sucção de concessões aos mais expostos. Na borrasca que atravessamos, talvez fosse bom ir pensando em desencadear a ruptura constitucional que se impõe, voltando a um sistema provado que se oferecia como argamassa ligando o Passado ao Futuro e em que o Presente era erguido sobre o equilíbrio da Finalidade e da Vigilância, em vez do cheque em branco que, em nome de uma manifestação de vontade contingente e efémera mas espartilhada por partidos, vai eternizando as alternâncias de clones unidos na rota transviada de estragar o que resta. Os Anarquistas tinham razão: Se o voto é a arma do Povo, quando votaste ficaste desarmado.
A imagem é Fundação de Portugal e Aclamação de D. Afonso Henriques, de Antonio Fernandez

Festa Pelo Lombo

Não me parece ser grande encómio a apreciação do Sr. Westerwelle. Dizer que estamos a caminho de ser um caso mais bem sucedido do que antes da intervenção tripartida que nos condiciona terá algum significado, quando o termo de comparação era o fracasso total? E, cheio da insensibilidade liberalona de sempre ao sofrimento dos indefesos, o ex-líder da pequena bengala amarela da cega Sr.ª Merkel, o FDP, parece-se sinistramente com o Galego que treinava o cavalo para não comer e se admirou de que quando ele estava quase ensinado de todo tivesse morrido... Se os sacrifícios fossem exigidos para nos emanciparmos de tutelas do género, seria uma coisa, como na oposição ao empréstimo externo protagonizada por Salazar em 1928. Impô-los para eternizar a submissão é a machadada final na dignidade de um País antigo que de vez se conformou com a condição de pedinte e a arrogância dos que dão sem desinteresse, mas que nem o faz como o modelo clássico, para salvaguardar o sustento da família.
                                                   O Pedinte, de Jules Bastien-Lepage

A Tracção Fatal

A História Franco-Mexicana está pejada de aspectos lúgubres, como a exportação das ideias da Revolução Francesa e a intervenção imperialista de Napoleão III, pelo que a emigração para o País Americano de uma protocriminosa, considerando a omnipresença da violência por aquelas paragens, não pareceria trazer grande acrescento. Por muito suspeitas e reprováveis que sejam os expedientes rápidos e irregulares da respectiva Polícia e máquina judicial, nada parecido com esta celeuma teria, provavelmente, sido despoletado, não fora o empolamento tão tipicamente gaulês quando está a ser condenado por outrem um seu cidadão. Mesmo num caso em que não parece haver incerteza e de que só a intensidade paranóica da negação alimenta fogachos de vitimizações, o relevo deve ser colocado, inteirinho, nas forças que puxam para as primeiras páginas um caso que se imagina longe de ser único: as paixões que terão conduzido uma rapariga à participação em actos repelentes e governantes a desencadearem o que, descontadas as roupagens do respeito pela Legalidade, se reduz a uma efectiva defesa dela: a amorosa e a nacional. Sob a capa dos direitos dos arguidos emerge uma vez mais entranhada desculpação que se alicerça nos sentimentos amorosos e na compreensão pelos desvairos a que conduzem, para desespero das vítimas privadas do consolo de ver punidos os responsáveis pelo seu sofrimento, mas sim celebrados pela solidariedade impensada do patriotismo superficial e fácil. O Romantismo Acabou? Quem disse?

A Tirania dos Números

Quem não aceite as razões do Sr. Cameron como espelho fiel das respectivas motivações pode enveredar por uma leitura preconceituosa mas com apoios históricos, a de o Reino Unido encarar a saída da União Europeia por a crise ter demonstrado já não ser necessária a sua permanência nela para a destruir a partir de dentro. Contudo, tal perspectiva enferma de uma hipervalorização do Político que pressupõe uma teleologia dificilmente pensável na dimensão dos governantes gestores de hoje. É mais provável que os motivos que informam a decisão assentem em valores contabilizáveis, sim, mas, num patamar anterior ao económico-financeiro: o de esvaziar eleitoralmente os votos de parcela significativa da População Insular que, escapando para o UKIP, a sigla eurocéptica radical, tornasse ciclópica a tarefa tory de conseguir, por si só, uma maioria em Westminster. É, portanto, palavreado para consumo interno, adulação dos votantes, fazendo-os pensar que decidem e participam directamente da e na soberania nacional, não já alienável por intermédio da representação.
                                                      John Bull e o Seu Cão

A Força Das Convicções

A Economia vai tendo coisas destas. Depois do "especialista" sem credenciais verdadeiras, dão-nos um outro, credenciado, mas sem verdadeiras ideias. Ou melhor, portador das que lhe convenham à conta bancária. Se é uma fundação socialista a encomendar, vai uma solução expansionista. Quando trabalha para o FMI, salta um relatório pejado de cortes recomendados. Já nem as mulas são como as de antigamente! No milagre de Santo António, o equídeo, privado de comida durante três dias, desdenhou o alimento físico para se virar para o Santíssimo Sacramento, propiciando a conversão do dono. Mulas de agora já não teimam e, docilmente, alinham no que aos patrões agrade, com estudos à medida e nomes falsos a camuflar as contradições entre pareceres da mesma origem. Equídeos por equídeos, somos todos nós os burros que com cargas constantemente aumentadas ainda damos crédito a peritagens dum tal quilate.
                                      O Milagre da Mula, de St.º António de Pádua
                                                   por Joseph Heintz O Jovem

À Coca:


Tomou-se de virtude a Coca-Cola, como desde as origens se tenta impingir. Os começos refastelaram-se na caução de um farmacêutico, o Dr. John Pemberton, seu inventor, que vem, desde aí, sendo alvo de culto, com estátua erigida e tudo. A minha experiência em torno dela associa-a a coisas negativas, pois, bebendo-a como a generalidade dos pirralhos, deixei de o fazer aos doze anos, quando o meu Pai me disse que, a partir daí, já um homenzinho, me deixasse de tomar aquelas coisas e passasse a meio copito de tinto, às refeições. Quanto à obesidade, penso, como é habitual em tantos domínios, ser o abuso e não o uso que acarreta os efeitos nocivos. Conheci nestes anos todos muita gente que se deliciava nela e permanecia elegantíssima. Tendo a crer que o mal está na companhia, a combinação com doses quase tão industriais como o tipo de hamburgers, batatas fritas e pipocas com que se empanturram os adolescentes Americanos. E nas campanhas contra o alcoolismo, as quais, em vez de aconselharem o consumo moderado, incitam à substituição incontinente por xaropadas açucaradas. A presente ofensiva publicitária é consistente com o que sempre fez, alterações de fórmulas ao sabor das pressões dos denunciantes das suas falhas, ao ponto de o original ser uma remota referência, mas não traduzindo esse aggiornamento qualquer contrição profunda. Por mim, o produto encontrou em Portugal o amigo e o Inimigo que o definem: Humberto Delgado, pelos Comunistas apodado de General Coca Cola; e Salazar que, tendo resistido às influências para a permitir no espaço luso europeu, depois de a provar, terá exclamado: ainda por cima é uma porcaria!
A imagem é a da Solidão, de Tony Ignatov...

O Choque Em Cadeias

A cobertura televisiva do acidente ferroviário de ontem trouxe-nos absurdos vários, como absurda parece ter sido, nas previsões, a possibilidade do desastre, tantas eram as seguranças sinaléticas e computorizadas que afastavam o cenário. Eu sei que é difícil fazer passar à frente da bola alguma coisa, mas o mínimo que a SIC poderia ter feito era interromper de imediato os comentários  para encher do trio político-futebolista que lhe ocupa as noites de Segunda, à maneira do que a TVI fez, em vez de descansar sobre o frenesi do rodapé informativo, durante largo tempo. Mas não se pense que a sua concorrente esteve imaculada: enquanto as outras cadeias havia muito tinham sossegado o País quanto à inexistência de mortes ou feridos de muita gravidade, ela continuava a insistir irresponsavelmente na aterrorizante possibilidade dos óbitos. Numa e noutra, de resto, ouvi estar envolvida uma terceira composição que parece ter surgido somente da bulimia informativa. Agora que a Tragédia maior se não confirma, tenho de reflectir em como a descrição do acidente espelha bem a condução do País - metida a água nos carris com os orçamentos a deslizar e acelerando-se inescapavelmente nos trilhos do incumprimento, acabam os inocentes transportados por ver entrar-lhes pela traseira toda uma locomotiva em descontrolo. Esperemos que não fosse da sinalização impotente a tal luz que o Dr. Passos lobrigou ao fundo do túnel embora já todos saibamos que isso, como o espalhafato televisivo das coberturas sem exactidão, se resume a música para nos entreter.
                                               O Comboio Mistério, de Nick Cudworth

O Diabo


Aqui fica a capa d'O Diabo de hoje, onde sai um artigo do João, como ele já avisou, e muito mais. 

Suspense...

O Diabo, semanário fundado por Vera Lagoa e actualmente dirigido pelo nosso ilustre confrade Duarte Branquinho, trará amanhã publicado um artigo deste vosso humilde escriba.

A Gaia Vivência

O Dr. Menezes teve sucesso em demonstrar trabalho, mas descamba de cada vez que tenta mostrar-se visionário. A proposta de fusão de Vila Nova de Gaia com o Porto é de fugir, sob todos os pontos de vista. Primeiro porque é querer derrubar a fronteira natural do Rio Douro, assim uma coisa tão descabida como se o Dr. Costa viesse pugnar pela osmose de Lisboa e Almada. Segundo, porque a articulação das resoluções dos problemas da zona deve ter lugar nos orgãos da Área Metropolitana, para tanto criada. Outro entendimento traduziria uma situação de desfavor para os demais concelhos que a integram. Terceiro, porque se gerou, com os anos, uma identidade própria, apesar da interacção com a Capital do Norte, desde as segundas residências de outrora, ao dormitório não tão despersonalizado como outros, dos dias que correm, nem valendo o Vinho como factor aglutinador, ou correr-se-ia o risco de ter de anexar toda a costa produtora do Alto Douro. Mas, acima de tudo, porque a sugestão configuraria mais um prego no caixão da descentralização e das Liberdades Municipais. Em 1834, os Liberais iracundos já tinham obrigado à compressão de Vila Nova com Gaia, qualquer delas senhora de História própria. No momento, é a submissão à Cidade Maior que está na ordem do dia. Eu ainda espero que seja apenas uma tentativa meramente vocal de reiterar o amor pela terra que regeu durante os últimos anos. Pior seria se fosse um frete aos ímpetos anti-municipalistas do Governo, cujo P-M tanto apoiou, quer dizer, uma inclinação adicional à opressão administrativo-financeira provinda dos programas do Exterior.