Árvore da Sabedoria

Neste Natal de tristezas acrescidas, uma decoração me prendeu, em especial: a da Biblioteca Municipal de Cascais, a qual bem comporta o nome idêntico à do Antigo Testamento. Todavia, não por atrair à degustação dos respectivos frutos em função das ambições transformadoras que enganosamente se dissessem capazes de fazer a Espécie superar-se e igualar o Inigualável; sim, pelo esforço de cultivo da terra arável que é o Espírito, de forma a crescer, compenetrada da respectiva condição. Infelizmente, numas poucas conversas que ouvi, a motivação principal da requisição de livros, nestes tempos do fim, não vai sendo tanto a progressão interior que dignifique, mas a busca de consolo que abstraia das cada vez maiores dificuldades e contingências. Para um velho amante deles, todos os caminhos serão bons para chegar ao Livro. Mas não chegará a monomania da produtividade e da ampliação das Receita com estratagemas fáceis à tentação de impor taxas moderadoras também neste campo? O que talvez se revelasse muito mais desincentivador do que a primeva proibição do Fruto. Seja como for, acabei por encontrar uma similitude, onde, primeiramente, só me saltaram à vista diversidades: quer pelo conhecimento do Mal de outrora, quer pelo sofrimento da desilusão inerente à Experiência que suportamos e busca do lenitivo, qualquer das duas plantadas imponências nos compenetrou duma perda da inocência.

A Jeito Para o Cutelo

Não exerço qualquer das profissões apontadas, nem tenho interesses familiares que condicionem o meu juízo. Pelo que me sinto à vontade para exprimir a minha revolta contra a vulnerabilidade a que chegámos, nem tanto a entrevista na facilidade com que certos senhores de fora se permitem sugerir cortes que afectam as vidas de vastíssimos estratos profissionais, mas, sobretudo, na sobranceria com que, sem paninhos quentes, dizem excessivas as retribuições que eles auferem. É a triste consequência de, neste Jardim à beira-mar plantado, a condição Soberana ter passado a ser monopólio da Dívida.
                                              A Loja dos Carniceiros, de Anibale Carracci

Que Espectáculo!

Daqui para a frente, Incrível Almadense deveria deixar de ser a designação de uma histórica sociedade recreativa do outro lado do Tejo, para passar a referir-se ao tribunal que produziu esta brilhante decisão. Nada tenho contra os shows eróticos, meio de empregar gente com qualificações específicas e de fazer andar a Economia. Mas não posso deixar de reconhecer que o espírito reformulador dos magistrados envolvidos vai muito além das aventuras linguísticas do Presidente Bill Clinton, embora na vertente puramente platónica. O Político Norte-Americano determinara que sexo oral não é sexo. Os Meretíssimos Juízes vêm sentenciar que uma exibição de sexo ao vivo não tem natureza sexual, ao aceitarem a argumentação nesse sentido com que a empresa interessada maltratou o labor dos seus funcionários. Fora eu um dos artistas envolvidos e zangar-me-ia a sério. Não sou. E só posso dar e achar graças a um País que tributa a oferta de alimentação a 23% e coloca a taxa do Erotismo a Cinco. O que uma vez mais é insultuoso para os protagonistas, na medida em que não reconhece à sua actividade o estatuto de Restauração, mesmo se os olhos também comem...
                                                        O Juíz, de Jackie Morris

Sem Emenda

Muitas preocupações tenho visto acerca da revogação da 22ª Emenda Constitucional Norte-Americana, no sentido de remover o limite de duas eleições presidenciais possibilitadas a cada indivíduo. A iniciativa mais recente não tem pernas para andar, porque o Legislador do Bronx Serrano não possui peso para abalos sistémicos deste calibre e porque o processo de adopção de alterações destas, nas duas câmaras e nos estados, é tão exigente que não se vê maneira de vingar. A única esperança seria o facto de os líderes Democrata e Republicano no Senado e o Líder Democrata entre os Representantes, Harry Reid, Mitch McConnell e Stenny Hoyer serem receptivos à modificação. Outrora, o limite de mandatos era uma bandeira da Esquerda, com Jefferson a identificar a sua falta como a «consagração da tirania». Hoje, é um dos pontos de honra dos mais extremados e populistas Conservadores Republicanos, os quais se fazem amiúde eleger com compromissos pessoais de não se candidatarem ao Congresso mais do que X vezes e impuseram limitações de reeleição nas normas de muitas legislaturas estaduais. No que toca à Presidência, sempre se tinha entendido que, entre cavalheiros, haveria a cortesia de não disputar outra eleição depois de dois êxitos, até que Franklin Roosevelt mandou às malvas uma noção tão rarefeita de fair play e abarbatou quatro vitórias. Foi o cansaço transbordado para o seu sucessor Truman que permitiu, com a perspectiva da cavalgada do Herói da Guerra Eisenhower à mistura, a proibição de governações pessoais mais prolongadas.
Os Democratas não esbracejaram demasiado porque não tinham, desde aí, um re-candidato em condições: Kennedy terminou à bala, Johnson nem procurou reeleger-se, chamuscado que estava pelo Vietname, Carter queimadíssimo pelo Irão e a Economia, Clinton pelas conhecidas manchas na roupa, na Ética e na semântica. Obama pouco fez passar da sua agenda, mas, pelo menos, segurou avassaladoramente a popularidade entre as minorias que mais se reproduzem, pelo que isto é mais um combate para o triunfo a longo prazo, quando a configuração do Eleitorado for outra. Não tenho de meter o bedelho na forma como se rege uma casa que não é a minha, quer dizer, a Democracia. Mas parece-me inconsistente com as suas próprias assunções vedar acessos, por fixações arbitrárias de durações inultrapassáveis. Essa opção desmascara a triste essência de regimes que não se baseiam na Escolha, como apregoam, mas na contínua alternância, essa mudança puramente cosmética que perpetua o Poder de tracção dos pretensos progressistas. Daí que a finta de Putin/Medvedev na Rússia, para além de agradável pela humilde disponibilidade para servir em cago hierarquicamente inferior ao que se deteve, me encheu as medidas, ao frustrar as válvulas de segurança da instabilidade que, pelas movimentações menores, se eterniza.

Andar em Círculos

Imagino poucas penas infernais mais duras do que a de ter de suportar as imagens dos políticos. Figuras de estilo balofo, ou, simplesmente, papagueação de expressões feitas, essa  fast food do espírito que visa entreter o estômago da credulidade, mas é muito pobre de conteúdo e revela o decréscimo contínuo da Qualidade na classe politica. Veio o Primeiro Ministro acrescentar duas pérolas, a de garantir não estarmos a vogar num ciclo vicioso e a de desejar que vejamos todos a luz ao fundo do túnel. Não tem conta o número de gente com obrigações que arrota o primeiro disparate, quando a expressão original é círculo vicioso. Claro que esta última tem lógica, indica um processo em que, fazendo todo um caminho, se é reconduzido ao ponto de partida, assim como os impostos que se aumentam para fazer crescer a receita e que acabam por ver frustrada essa expectativa pela diminuição dos proventos sobre os quais incidiam. Talvez o Dr. Passos, intimamente, para escamotear a evidência, tenha negado o tal «ciclo» na ideia de abster da imputação de vícios o pessoal que emprega na sua fase governativa, não vejo outro sentido útil...
Já o Túnel do Marau - que não outro por demais encalacrado, o do Marão - é uma escavação tão sombria que não se percebe qualquer saída, salvo a com que o Cavalheiro nos brindou. Mas, de tanto procurar a tal luz, de repente, ao ler o modo como principiei este desabafo, senti-me macabramente iluminado: a sobredita luminosidade é a do fogo do Báratro, de que, cada vez mais, vamos sentindo os calores mesmo nesta galeria sinistra e arrastada que lá conduz, direitinho. Junto prova documental: Os Nove Círculos do Inferno, de Botticelli

Missão - quase - cumprida


Os abrileiros ´74 não queriam, de modo algum, uma Angola portuguesa... mas acham perfeitamente normal, e até aconselhável, um Portugal angolano.  

Fiel Aos Reis

A contra-ciclo me manifesto pela instituição de um feriado, quando a cegueira da produtividade insiste em arrasar uma série deles. O Dia de Reis, ainda tão importante em Países próximos, como Espanha ou Brasil, ao ponto de, entre Nuestros Hermanos continuar a ser o momento de eleição para a entrega dos presentes, que, dizem, em Portugal também já teve equivalente expressão nas ofertas da Velha Bifana aos meninos que se portassem bem. Talvez pela percepção suave de que, chegados a adultos, nos temos portado mais que mal, perde-se essoutra entrega dos presentes, mas no sentido de empenhamento dos que se encontram, outrora vazando para o afã dos Reisados que, também politicamente, todos teríamos a obrigação de ser. Mas quero deixar uma lamentação especial: o meio apertadinho das normas de segurança alimentar supra-nacional obrigou à supressão das prendinhas do Bolo-Rei. Olho para as três figuritas de Baltasar, Melchior e um envergonhado Gaspar por nome desditosamente partilhado, que guardei desde o derradeiro ano em que o brinde foi possível, retiradas de outros tantos exemplares da 8ª Maravilha do Mundo, ou seja, o referido doce natalício da Pastelaria Garrett, do Estoril. E, quer por pensar nesse tempo em que ainda tinha vivos os meus Pais, quer por relembrá-lo como capaz da mencionada pequena dose de tradição e tributo, choro o desvanecimento da Referência dos Magos. Daqueles que, em sonho, conseguiam ter a percepção de inimigos dissimulados e agiam em consequência, enquanto que nós, supostamente em vigília, nos tornámos abúlicos diante dos adversários evidentes. Pelo que concluo uma vez mais que, ao invés das prendas, a fava não foi retirada, antes nos saiu em desmesurado tamanho, consubstanciada na época que nos aprisiona.
                                  Santuário dos Santos Reis Magos, na Catedral de Colónia

Não Dão Ponto Sem Nó(s)

Bem me queria parecer que o elogio das instituições da União Europeia ao que sai das nossas torneiras, trazia água no bico, passe a redundância. Acarretando abstenções da  proveniência do panegírico, comportava,  uma ameaça, que dá azo, com a correspondente  azia, ao adeus a esta imagem reconfortante:

Bola de Crystal

Hugh Hefner tem todos os direitos e mais alguns de casar com a Crystal Harris, apesar dos sessenta anos de diferença e, cândido como me julgo, até aceitaria que amor ou admiração extremos augurassem um futuro se não grande, ao menos feliz ao enlace. Mas as declarações do último arrufo entre ambos, com ela a lamentar o fogacho que ele se revelava na horizontal e ele a garantir que a contraparte estava sempre interessada apenas na combinação do cofre, faz-me lembrar a avisada máxima do Papa Pio II:
«Amantes velhos acharás alguns, amado, nenhum».
Vale que em matéria de Coelhos, a terra de lá é mais de promissão do que a que nos calhou.

Nem Tudo o Que Luz...

Nas principais religiões do Mundo a Regra de Ouro consistia em não fazer aos outros o que se não desejasse para si. Mas o ateísmo da Contusão Europeia que pretente passar por "Construção" tinha de inverter o sentido profundo do normativo moral e fazer dela um orçamental limite cego de montantes percentuais deficitários. Entenda-se, viver dentro das respectivas possibilidades é um bem, e orçamentos equilibrados estão em linha com esse desiderato. Mas uma restrição desse tipo deveria apontar os domínios do desperdício em que os necessários e decorrentes cortes incidam, ou poderes sem escrúpulos como os que cá têm imperado farão sempre pagar a factura aos mais desprotegidos, em sintonia com os encerramentos de escolas e serviços de saúde das últimas décadas, como, igualmente, nos efectivos cortes de pensões. O problema maior está em tirarem o que disseram dar para sempre, ao apregoarem a rotunda treta dos direitos adquiridos. De modo que o Regime vigente não pode decentemente aspirar à duração que ambicionava, já que aqueles de que se arroga vêem implodir as contrapartidas que eram o seu único vago alicerce. A Regra de Ouro, nesta Sociedade de Futebóis em que nos tentam fazer ir prefigura-se mais como o Golo de Ouro que acarreta o fim do jogo.
                                                 Orçamento, de Alexandra Pacula

O Segredo da Engorda

Outra descoberta cujas gordas me deixaram siderado! Mas, lendo com atenção, reparo que, finalmente, a longevidade comparativa instilada pela gordura, não passava de uma incerta propensão à demanda dos médicos e ao funcionamento como uma espécie de amortecedor. Intrigou-me ser novidade uma tal insignificância: Dando tratos ao miolo, acabei por achar: visa tornar aceitáveis as tais «gorduras do Estado» e esconder dos porcos que também nos acham o sentido da crescente adiposidade que anuncia a matança a que destinam Portugal.
                                              A Cozinha de Polichinelo, de Tiepolo

Charutada

Há muito que era conhecida a popularidade da ficção de Dumas entre os operários das fábricas de Havanos e a sua consagração nos apreciadíssimos «Montecristos». Mas este excelente artigo traz-nos uma visão um tanto Kapciosa da relação do institucionalizado Leitor nos estabelecimentos fabris com as causas do fermento revolucionário. O Sr. Antoni Kapcia quer fazer-nos crer que o conhecimento de uns quantos Autores de tomo terá aumentado a consciência social indutora da Revolução, logo apresentada como uma coisa eminentemente estimável. Quando, porém, vemos a lista dos Escritores assim propagados, damos com baluartes do anti-igualitarismo, como o Conservadoríssimo Flaubert, o tonitruante Nietzshe, ou os Reaccionários Dostoievski e Balzac, apesar da deformação que Sartre & companhia fizeram dos dois Franceses. O problema foi outro e a explicação surge-nos na Florida, onde, havia muito, comunidades Cubanas imigradas também se dedicavam à confecção de charutos, tendo transplantado para lá o hábito de o fazer ao som da leitura a cargo de um contratado. É que, indo além da chinela que lhe competia, este último se revelava, amiúde, um agitador e, fora da sua incumbência de transmitir as obras primas, excitava os ânimos proletários contra o sistema do País de acolhimento, a pontos de vir a ser interditado, após célebre greve de 1931. Ou seja, não era o lido que funcionava como aguilhão, mas as opiniões e incitamentos emitidos para além dele, sugando-lhe o prestígio que a sua transmissão conferira. E o certo é que por muitos planos quinquenais e suas defesas que passassem a ser lidos na Cuba pré-Castrista, nenhuma dessas duvidosas sagas conseguiu dar-se como nomenclatura de marca com saída comparável à das aventuras literárias que preenchiam o imaginário dos ouvintes. De resto, por simpática que seja a ideia da elevação do conhecimento do Operariado, não embandeiro em arco com a "papinha feita" desta música de fundo, a qual, apresentando-se como meio de suprir as lacunas do analfabetismo, tem o inconveniente de esterilizar a aprendizagem que permita o emancipado acto de ler e a curiosidade devoradora que o torne cada vez mais proveitoso. Mesmo neste irónico ramo de actividade em que nem a predilecção de Fidel diminui a carga emblemática do produto final como o símbolo caricatural do Capitalista mais repulsivo.
                                                        A Fábrica de Charutos, de Ferdi Pacheco

(Dois Mil e) Treze à Mesa

A um País de pantanas pouco convirá mais que a autoridade do catálogo Pantone ditando a cor do ano. E a lição que nos dá é de ter acabado a relação com o Laranja de 2012. Tomara, mas não se percebe a escolha do Verde-Esmeralda como substituto. Tirando a hipótese de assegurar ao Sporting a escapadela à descida de divisão, no plano nacional ninguém confiará ao Partido Ecologista Os Verdes a gestão da pilha de resíduos em que se transformou o País. Isto para mostrar como são perniciosas as cores. Os partidos partiram-nos a resistência, com a presente doença e do seu pretenso remédio, qual deles o maior veneno. Um Presidente levado ao cargo por partidos vê a catástrofe, mas nada faz, com medo do drástico e dos ralhetes dos endinheirados de extra-muros. Sobra a apreciação de um simulacro de tribunal, com Conselheiros indicados pelas colorações diversas do Paralamento que presumivelmente votarão conforme essas tonalidades mandarem.

Em Itália havia um Homem. Fez obra, mas não conseguiu resistir aos apelos cromáticos e, em vez de andar a Monti dos partidos, vai estragar tudo e estragar-se a si, liderando uma paleta de combinação de vários agrupamentos. Cá, a Esquerda Bloqueada optou por uma hidra bicéfala menos assustadora da Burguesia e irritadora do Povo, na dupla Semedo/Martins, em jogada de banco para substituir a raiva estruturada e excitação suspeita do Dr. Louçã por postura relativamente cordata e fresca. Mas sempre, sempre os partidos, a pregarem-nos a partida, o que mostra o erro de diagnóstico do Conselheiro Jacinto Cândido quando alvitrava ser o «Personalismo», no sentido peculiar de adesões a figuras destacadas, o maior dos males. Está comprovado que muito pior é a cumplicidade de grupelhos, roubem e estraguem secretamente ou às claras. Pelo que urge pô-los de partida.

Contra o Império do Cartão!

Nesta vertente
ou naquela outra
uma realidade que a Utopia que honra manda descartar. Sobre a necessidade de não nos deixarmos submergir pelo conformismo, escrevi:

OS PÍNCAROS DO UTOPISTA

Por embarcar a fundo no Irreal,
vai granjeando chã censura
que não honra os seus autores,
no vigente medíocre atolados.
A mania de sarar, por outros fados,
libertando de tão tristes senhores,
vem de aspirar ao que o reles fura
com abolição infrene do Actual.

É esse o seu erro e a sua glória:
crer na sã emenda dos vindouros
a partir dum intrincado modelo
em sofridas reflexões mastigado.
A Espécie, reincide, por outro lado,
tornando estéril o solitário desvelo,
dirige as forças a palpáveis ouros,
só no ganho de um vendo a vitória.

Mas tem o sonhador aura garantida
ao assumir o fardo da liderança.
O Exemplo fica ligado à Figura,
no tributo como pela hipocrisia.
A insistência algo louca na sua via
induz imagem de natureza pura
e arrasta pela avidez qualquer Pança.
D. Quixote cresceu, nessa medida.

Uma Carga de Trabalhos

É o que ainda nos espera, segundo se depreende das declarações do Comissário Oli Rehn. Mas, com o Desemprego nos cumes em que paira, se entendermos a expressão sem nela imaginarmos figuras de estilo, até podemos entrever na predição um sinal de Esperança. A marcar este primeiro de mais 365, a assunção da presidência da coisa pela Pátria dos Duendes. Já que os políticos e financeiros racionais levaram a tranquilidade relativa em que se sobrevivia a dar com os burros na água, pode ser que do sobrenatural chegue o tal pote de ouro salvador. Desde que surja a Luz - porque o H2O, evidentemente, não nos tem faltado -, ainda um arco-íris poderá indicar-nos o caminho, mesmo que se circunscreva ao tal exemplo a seguir. Não sou tão optimista como isso, mas o certo é que sempre detestei os eternos iconoclastas da Hipocrisia que atiram as recorrentes pedradas ao Espírito da Época para se reconduzirem à inalterabilidade do horror que são o resto do tempo... Bom Ano!

Saltos, Assaltos e Ressaltos

Começando pelos últimos, quero dedicar o derradeiro post dominical do ano ao Pedro Barbosa Pinto, pela forma como o seu Sporting deu abrigo a três redondas bolas dele carenciadas, nas respectivas balizas. Nem se diga que a Esperança deixou de ser verde, essa invenção de Dante que tanto me intriga, porque o mesmo cromatismo das camisolas é partilhado pelo Rio Ave. E todo este triste desenlace talvez se haja ficado a dever ao equipamento alternativo laranja e preto que remetia para sinistras alusões à realidade com que findamos 2012, a cor de um Governo indigno de tudo, salvo do negrume enlutado pelo estado em que nos deixa. Prosseguindo, na ordem inversa dos componentes do título, de todas as cores ficou quem leu o dito do Secretário Leal da Costa a responsabilizar os Compatriotas pela manutenção da saúde, com objectivos de poupança. Nem perderei tempo a explicar a S.Exª. que a Doença é, nas mais das vezes, uma infelicidade involuntária e que este modelo de Estado, ilegítimo sob todos os demais critérios, apenas podia encontrar sustentáculo de aceitação no alargamento assistencial. Somente lembrarei que esta gentinha, mesmo com as melhores intenções, como a de aconselhar comportamentos salutares, tem a obsessão de responsabilizar os indivíduos pelo sucesso e a fixação na indiferença face aos que o não obtenham. Guizot celebrizou-se lamentavelmente com o «Enrichissez-vous», estes com o «Tornai-vos saudáveis». Para os que o não consigam... chapéu, o Poder tão Liberal não está para perder tempo ou dinheiro com vencidos!
Mas o que considero verdadeiramente importante neste tempo de balanços é falar-Vos daquele que se obtém de um novo momento maior do calçado feminino: os Assustadoramente Belos. Um velho apreciador, como eu, encontrou gigantescas dificuldades em identificar os tacões em questão como saltos, em tudo lhe apareciam como umas andas. O que apresentaria vantagens de tomo, desde logo para evitar proximidade com a crescente porcaria que nos rodeia. Como foi algo religiosa a explicação que nos deram para os avalizar, a introdução de um conceito novo de Beleza para não procurar rivalizar com Deus, ao fazer por melhorar o antigo, tentei - e julgo tê-lo conseguido - encontrar justificação para este devaneio criativo: mais do que confundir frente e traseira, como a época tanto aprecia, a inclinação para diante que implica, oposta à orgulhosa postura até aqui demandada pelos estilistas, é a ideal para qualquer devota pagar promessas. A ida a pé, descalça, a Fátima é uma brincadeira de crianças, confrontada com esta inovação, também um recrudescimento da pueril mania de se enfiar em sapatos que não servem.

Línguas Cumpridas

O Espírito Santo parece ter prescindido do exclusivo de outorgar o Dom das Línguas, desde que este Ancião Britânico deu em falar uma que jamais soube. Como a auto-suficiente Ciência não tem explicação cabal para o facto, ainda nos resta uma certa margem para especular. Aos Evangelizadores foi, outrora, dado o domínio dos idiomas, para cumprirem uma Missão. A prova de que, definida por contornos mais modestos, paralela concessão ainda é possível neste Presente esquecido de Deus deve fazer-nos reflectir acerca de que tipo de finalidade se espera dos contemplados com o conhecimento instantâneo. Nas Ilhas Britãnicas poderia ser um sinal para não imitar separatismos, de barreiras fazendo fronteiras. Transplantando a plausibilidade duma repetição do fenómeno para o mundo lusófono, cismo em como a paliçada a derruir deveria ser separação de Tempo e não de Espaço. E de como seria bom se o conhecimento da fala pátria de antes do assassínio acordista fosse assim transmitida às crianças que ainda venham a vingar, doutra forma condicionadas pela falta do correspondente ensino.
                                              O Corno de Babel, de Vladimir Kush

A Crise Posta a Nu

Nunca vociferei contra desnudamentos, mas há duas ou três coisitas que me soam mal na iniciativa destas Mães Espanholas. Não, certamente, a renúncia aos trapos em troca do transporte para a miudagem, que vejo como uma sucessora natural e mais apressada da venda de rifas. Já estranho é como pode o expediente despoletar transportes nos graúdos. Comprar um calendário erótico com os corpos destas simpáticas Senhoras é trocar as profissionais por amadoras, além de que o conhecimento dos pormenores que o determinaram, segundo o consenso dos sexólogos, não parece de molde a huuuum motivar compras em massa, dado ser a encarnação da Maternidade o arquétipo masculino oposto ao da sedução.
Por outro lado, é expediente perigoso e pode ser prólogo à desculpação de outras utilizações do corpo, na eventualidade de a causa ser nobre. A exibição au naturel fazia sentido em campanhas contra as peles de animais no vestuário, quer pela renúncia que implicava, quer por desejar comover os algozes com a insinuação do sinistro presente na perspectiva de esfolar a própria Fémea. Até aceitaria a ideia de que seria um meio de, chocando, chamar a atenção para defesas apaixonadas, embora duvide de que, nos dias que se escoam, ainda muita gente se choque com tão pouco. Como fenómeno de angariação de fundos é que me parece inadequado. Até que descobri: nos tempos de austeridade forçada que atravessamos, as posses diminuíram e transformaram-se em poses. Tão simples...

ZZZZZZZZZZZZZZ!

Já me tinha assaltado a perplexidade de um momento tão repleto de acidez como o actual da vida portuguesa não suscitar reacções enérgicas de uma População aparentemente adormecida. Vem agora a explicação, direitinha de uma universidade de Atlanta, na Georgia Norte-Americana. É um ácido que causa a sonolência inelutável, o verdadeiro doping que permite falseadamente alcançar o ultrapaciente resultado que tanto se GABA. Mas urge contrapor as conclusões doutra investigação que é um prato: Harvard diz-nos que deixar o Povo a saladas pode tirar-lhe as forças e provocar idêntico efeito, deixando-o em vias de acabar de ser comido: Allison Harvard, claro!

Palpites e Palpitações

A Ciência deslumbra-se com tudo o que descobre, mesmo que seja uma abertura de portas escancaradas: apurou agora que o acto de perdoar induz vantagens cardíacas, quando a vox populi há muito garantia que quem perdoa tem um grande coração. Mas se, fisicamente, nos trouxe a vantagem de orientar-nos para sofrimento diminuído, no plano ético a consequência é bastante mais parda. Doravante, pairará sobre cada concreto acto de perdoar a suspeita peçonhenta de interesseirismo em vista à manutenção da própria saúde, como já antes, psicologicamente, se havia detectado uma motivação menos altruísta na libertação do jugo obsessivo e  definhador do Ressentimento. Só o Génio da Religião foi capaz de identificar o Sofrimento Maior com o perdão absoluto, nos cultos do Sagrado Coração de Jesus e do Imaculado Coração de Maria.

Guita e Cordelinhos

A nomeação para Secretário de Estado de John Kerry, o Homem mais rico do Senado Norte-Americano, poderia, à partida, prejudicar a imagem do Presidente Obama junto das classes trabalhadoras, mas, provavelmente, não o fará, em virtude do trabalho de sapa atempadamente realizado, com a retórica dos impostos para os abonados. Poderá ter é um efeito aumentativo da estatura aparente do Chefe da Administração, na medida em que dispõe, assim, sucessivamente, de dois ex-candidatos presidenciais como colaboradores na execução do que passe por sua política externa. O Nomeado tem uma apetência tal pela actividade das altas negociações internacionais que poucos o denunciarão como inadequado. Era o presidente da comissão de Relações Exteriores senatorial e, desde a sua esmerada educação europeia, quase se suspeita de que a respectiva cobiça da Casa Branca de há nove anos teria principalmente em vista aceder ainda mais a esses meandros. Com anos de votações invariavelmente alinhados pela Esquerda instalada, decerto não desagradará aos ideólogos com o Quarto Poder nas mãos, provavelmente prontos a perdoarem qualquer hesitação em matéria de Assad(o)s que já lhes foram simpáticos e hoje são por eles regularmente anatematizados. E até em Portugal, a eterna, simpática e parola simpatia por gente da terra a brilhar no firmamento (desde que não seja, de facto, nossa conhecida), trará boas expectativas, em função das origens luso-moçambicanas da sua Mulher, Teresa Heinz Kerry. Num ponto tenho ser desmancha-prazeres: a prática yank continuará a ser a de sustentar qualquer intermediário que lhe convenha, por mais ou menos marioneta que se revele, até que seja deposto, situação em que instantaneamente o apoio transitará para o sucessor, com juras de amor eterno, desde que não seja programaticamente hostil aos interesses da União. A história de sempre.
                                                   A Arte da Diplomacia, de Michael Cheval

Baptista da Sela

Voltei ao mundo de que me levitei durante a Noite de Paz e de Amor, aumentada pelas adjacências que tornam possível a partilha familiar Dela. E constato que no chiqueiro em que somos obrigados a chafurdar a grande sensação foi a descoberta de um burlão mais, que se encartava em inexistetes funções e diplomas. Que espanta, Senhores? Não tivemos um Primeiro Ministro e não temos um motor governamental, também ministerializado, que se arvoraram em licenciados, com as facilidades que se conhece? Ao menos este ainda tem o pudor de criar sozinho a ilusão, não recorre às cumplicidades de docentes indecentes ávidos sabe Deus de que recompensas. E, no fim de contas, não serão os falhados que se intitulam governantes fraudes mais graves? O que o caso tem de revoltante para a opinião que o sistema tece de si é a qualidade de especialista invocada, que permitiu o acesso do opinador aos microfones. É a entronização do expert característica da Idade da Compartimentação em que nos engaiolaram que traz o arrastamento - mas também a fragilidade - do corrente esquema de influências. Se os opinadores procurados fossem sólidos e reconhecidos generalistas, não subsistiria a ininteligibilidade dos jargões que, passando por sapiência pouco acessível, protela, graças a ingénuas admirações confiadas no que se imagina perícia transcendente, o derrubamento de castelos de diagnósticos e receituários assentes no ar. O prevaricador declinou a imaginativa condição de membro duma entidade só pela impotência petulante tornada verosímil, um observatório económico e social; nestes tempos em que se semeia instâncias de tal quilate em muitos âmbitos deploráveis, desde a Droga ao Crime, é lógico que outro tanto se pode esperar da Economia e Sociedade a que nos encostam. E, como se não chegasse, enganar a Imprensa e a ONU, mais do que a centúria, deve dar uma milena de anos de perdão.
                                                  O Observatório Voador, de Erik Morsing

Santo e Feliz Natal para os meus confrades e nossos leitores

O Menino Jesus Salvador do Mundo, 1673
JOSEFA DE ÓBIDOS (1630 — 1684)
Óleo sobre Tela, 95 x 116,5 cm
Igreja Matriz de Cascais

A Paz Que Chegue

Como na Manjedoura que serviu de apaziguamento a tantas gerações desejosas de ver Nela o momento de détente que se tirava da suspensão das angústias expressas no clima ao redor, com matanças de inocentes e outras agressões, saibamos, em torno da nossa árvore, seja real, artifício imitador, ou, simplesmente, impulso da nossa memória e imaginação, dar-nos um par de dias de Paz, lembrando sem amargura O(s) Que perdemos e que, só pela comparação dos desapossados, conseguimos identficar com a Felicidade. Borges dizia que «o Passado é a única coisa indestrutível». A melhor forma de revivê-Lo é o esforço de nos tornarmos dignos Dele.

Um Santo Natal!

Re-tratos da Língua

Cada vez mais, penso que a Gramática deixou de referir-se à arte de bem manejar o idioma e passou a constituir a inevitabilidade de gramar os tratos de polé que alguns profissionais da Escrita lhe dão. Logo numa agência com o nome Lusa (ai!), querendo, provavelmente, exibir-se como ultras do Acordo Ortográfico, mergulham numa concepção exagerada dele, desvirtuando o sentido dos vocábulos e transformando a notícia em mentira. Expicito: ao falarem da possível nomeação do ex-Senador pelo Nebraska, Chuck Hagel, para Secretário da Defesa dos EUA, deveriam querer dizer que ele, numa reinvenção da imagem que o corrigisse politicamente e lhe permitisse mais facilmente prosseguir a carreira, teria empreendido uma palinódia, a propósito de comentários que fizera aquando da eventual nomeação de um gay para embaixador. Pretendiam então dizer que ele se retractou das observações que proferira. Mas na fúria cega de retirar os Cs, o que escreveram foi que ele se «retratou», na mesma situação. Ó pró dicionário! Ter-se-á posto a reproduzir a posição que manifestara? E isso seria novidade? A letra do texto induziria a ideia de que ele se reveria nas palavras anteriores, pois se até lhes fez o retrato... Assim como acho um tanto suspeita a frase de que o tal candidato a diplomata seria, segundo, o Político, «aberto e agressivamente gay». Deve ser má tradução da ideia de que ele seria aberta e agressivamente gay. Mas desconhecer a língua alheia tem mais desculpa do que ignorar a própria e a redacção adoptada poderá sempre tentar desculpar-se com a adequação ilustrativa à realidade que desejava expor...
                                                   A Gramática, de Paul Sérusier

Ouvido  hoje,  à hora do chá, a dois business-men cá do burgo:

Não sei se devo expandir o negócio em França ou no Brasil…

Esqueça a França: é tudo muito controlado, vigiado. Vá mas é para o Brasil: lá poderá fazer o que lhe apetecer.

Não tenho a menor dúvida... De facto o país verd´amarelo é a terra do "aquitupódji". Dizia Maurras que a democracia era o mal, que era a morte.  Tivesse o grande Provençal conhecido o que a trilogia soberania do povo-sufrágio universal-partidocracia conseguiu no Patropi, teria concluído que a dita cuja poderia ser algo ainda pior.

Aqui um pequeno desfile de candidatos às presidenciais.  Um primor!

Dress Code

A culpa destas situações é todinha do espírito de informalidade peneirenta que fez do conforto o objectivo, em detrimento da elegância. Ou seja, colocar as alegriazinhas próprias no lugar do testemunho de respeito ao outro. Assim, cria-se uma incerteza no vestir, já que o horrendo mundo dos calções e chinelos passou a ser bem, desde que de marca, enquanto que o fato suado do trabalho não obtém indulgência. Tenho a certeza de que a agência bancária em questão também expulsaria este Amigo, pois, para além do omnipresente trajo profissional, é associado a dar, coisa que não é bem vista na Finança. Pergunta inocente: o bancário que recusou identificar-se não deveria ter sido conduzido ao posto para o efeito?
A TODOS UM BOM NATAL!

Deitem Fora!

Na Época da Abundância por excelência, ainda que mitigada pelo actual conceito de crise, conviria à profundidade reflexiva que já desfrutou da fama de exame de consciência uma meditação sobre o destino dos nossos restos e desperdícios. Desde logo, o fenómeno crescente e horripilante de trapeiros tardo-vindos. Vejo a remexer nos caixotes cada vez mais pessoas que aparentam não ter feito carreira nesse sector de actividade. E pensar que a nossa má consciência, à qual, infelizmente, não escapo, não se traduz apenas em prezar um bom bife, pese a apregoada amizade pelos animais, mas, outrossim, na ligeireza com que encaramos este fenómeno! João Paulo II já escrevia que o homem de hoje, na sua solidão, transpira indiferença. Uma abordagem mais surreal levar-nos-ia a pensar se a suspensão da recolha do lixo a 24 e 25 de Dezembro, sendo incomparável com as acumulações napolitanas originadas doutras mafias, não mostrará um certo conformismo das autoridades face à extrema forma de indigência citada. Mas uma perscrutação eficaz poderá inclinar-nos mais para a hipótese de a voracidade do Poder por qualquer dinheirinho extra ter ficado impressionada com certo sucesso de onde nasce o Sol que deveria ser para todos e pretender mais tempo para, por cá, procurar sorte igual... Sério, sério, a maior superficialidade de todas é pacificamente repetir que as dificuldades nos levaram a produzir menos lixo, ignorando deliberadamente a parcela humana dele e o seu pior, que é o sistema que erguemos. Desvalorizar o egoísmo por detrás do sofisma e pactuar com a miserável elite dirigente ao volante da coisa é um luxo a que não nos podemos continuar a dar.
                                              Camião do Lixo, de Joanna Mialkowska

Cabeça Contra as Dores

Está tudo ligado e as garantias do Infarmed quanto ao abastecimento de medicamentos, quais desajeitadas experiências de aprendiz de feiticeiro, tiveram o condão de libertar esta enorme aspirina que, desde Leverkusen, nos calhou na rifa:
Espera-se que os efeitos sejam puramente positivos.