Olho de Águia

Dando conta das provas de ontem à noite, enquanto tiver forças pleitearei pela cessação de iniciativas referentes ao casting para as filmagens da cena bíblica representada na obra abaixo reproduzida: o papel é, por mérito próprio, de Jorge Jesus.
                                             Daniel na Cova dos Leões, de Rubens

Palhaços de lá e de cá


Leio hoje no Público, pasquim cujo único mérito é escrever em português, que há 50 anos suspendia-se a construção de um colégio no distrito de Viseu porque o projecto encontrava inspiração no Palácio da Alvorada, em Brasília. Segundo quem assina o texto, uma Marisa Soares, "as linhas curvas de Niemeyer eram consideradas arrojadas demais para um país em ditadura". Pois é... mas já não foram demasiado arrojadas para esse modelo de liberdade e de democracia que foi/é o comunismo, sobretudo na sua vertente estalinista, tão acarinhada pelo arquitecto brasileiro há poucos dias falecido. Na sanha de conspurcar Salazar e o Estado Novo essa rapaziada já ultrapassou todos os limites do ridículo. O deles, claro está.  Coitaditos, até dão pena. Em vez da veleidade inútil de ousar desferir coices para cima de um grande Homem morto, que dedicou a vida a construir, sugiro a jornalista e colegas escrever sobre os homúnculos ainda vivos e que há 38 dedicam-se a destruir física e espiritualmente Portugal.  Refere ainda a articulista pública que graças a um decidido grupo de estudantes a construção foi retomada e as ditas curvas niemeyerianas mantidas "de pé". Ao pintar a lenda negra da ditadura estado-novista a Marisa deixa muito a desejar. Tanta Pide, tanta repressão e, no entanto, meia dúzia de miúdos desobedece a decisão da autoridade competente e faz o que lhe dá na gana! Como era mole essa dita! 

Época Sem Marcos

Os Correios, em Portugal, nunca foram tão credores de importância oficial como no Reino Unido, em França, ou nos EUA, onde chegaram à dignidade de pastas governamentais. Mas entristece-me ver a contínua decadência de um serviço essencial à beira da niveladora privatização, o qual, tendo sido obrigado a largar, em proveito e glória da eficácia empresarial mais ávida, os telefones que outrora lhe estavam acopulados, passou a ver os respectivos postos fazerem um pouco de tudo, até o comércio de livros de pouca valia, diluindo a função primeira que era uma referência para a População.
Na continuidade de tais descaracterizações, passa-se a fazer pouco de tudo e estes lenhadores que se entretêm a abater os marcos de Correio nada trazem, por conseguinte, de muito novo. Para eles, o Passado é uma nulidade e os resquícios dele um enjoo. Portanto, não se poderia esperar consideração pelos Velhos que ainda usam aqueles pontos de recolha, os quais querem, como os outros, subjugados às filas e horários. Mas eu ainda esperava, pobre iludido, que a capinha hipócrita da "Defesa do Património" os fizesse manter os receptáculos que mudaram e melhoraram tantas vidas, há muito alcandorados a pontos enriquecedores das paisagens urbanas. Qual! Para estes capatazes da pós-pós-modernidade, no feroz arrancar é que estará o ganho.
              Marco do Correio, por Alberto Ribeiro

Passos Perdidos

Tenho de fazer, aqui, uma retractação. Não obstante uma malograda candidatura de juventude ao MNE, um pouco influenciada por cordatas pressões familiares, jamais tive a Diplomacia por um rumo de vida invejável, ou desejável. Uma notícia de hoje impele-me a mudar radicalmente de opinião: a Carreira passa a oferecer uma imunidade muito mais apetecível do que a da subtracção às disciplinas de outros países. Precisamente a de escapar à imperatividade da celebração da ignomínia, ou seja, fintar a data despoletadora da liquidação do País e da grandeza da sua honrosa e resistente solidão. A fúria teórica contra a quantidade dos feriados ocupou consideráveis penas do Demo-Liberalismo enfeudadas à ideia fixa da Produtividade, tão diversas no tempo e nas proveniências ideológicas como a de Manuel Emygdio da Silva e Pacheco Pereira. Mas não se dignaram opinar sobre o âmago do problema, que é o da falta de qualidade de alguns desses pesadíssimos dias  leves. Naquele cuja celebração e, de facto, observância se passa a deixar na disponibilidade dos representantes de Portugal no Exterior verifica-se o cuidado de permitir finalmente uma personificação da dignidade intemporal da Pátria, libertando-a da ligação ao culto do localizado opróbrio da sua simbólica desintegração. Pena que se possa desconfiar de não mais ser do que consequência do desejo de limpar-se de supressões absurdas a ânsia de põr no mesmo saco bons e maus feriados, deixando de elencar na solenidade obrigatória as principais referências da Acção Patriótica e da Redenção Civilizacional, o 1º de Dezembro e a Sexta-Feira de Paixão.
                                                    Diplomata, de Shvelidze Murtaz

Aspiração Central

O problema nem é tanto de "gorduras do Estado", na vertente da sua administração autónoma, nem, só, de identidades circunscritas. É uma opção política de fundo, a de acometer contra os únicos centros de Poder que permitem com facilidade a candidatura de listas independentes e, nessa medida, a exacerbação do império odiento das listas dos partidos. Nada de espantar, num sistema herdeiro do centralismo neo-jacobino, que junta na mesma cajadada o coelho (sem alusões a responsabilidades últimas) da simulação de reforma economizadora. Nos municípios não toca, porque poderosos, ou por serem ainda coutada dos emblemas fraccionários, mas nem é bom que o faça, já que podem constituir o único embrião de uma futura substituição de Autoridade, ao denotarem a derradeira confiança profícua entre governantes e governados, em não poucos casos. A Freguesia em que vivi quarenta anos é presentemente ameaçada de junção à que alberga a sede concelhia. Não tem a osmose forçada pés nem cabeça, mesmo segundo critérios de gestão, porque, para além da História, contém população maior que a reunida sob a jurisdição de muitas câmaras e porque a fusão pretendida é bem capaz de prejudicar a propaganda da actividade turística que tão fortemente contribui para lhe garantir o pão. Mas de más acções está este mandato governamental cheio.
                                                             Requiescat in pace

O Senão da Montanha

Se fosse tão fácil ganhar o Euromilhões, este Vosso servidor teria uma vidinha bem mais desafogada. Já me admirava que, com a crítica frontalmente sistemática que vem desenvolvendo contra os vícios estruturais do sistema e dos seus actuais expoentes, a voz estranha mas crescentemente popular de Medina Carreira ainda não tivesse sido alvo de um daqueles truques fáceis, fosse de devassa da vida privada ou de semeadura de suspeitas em obscuros negócios de massas comprometedoras. Claro que a posição certinha perante este desenvolvimento é a de dizer que se aguarda os resultados das investigações policiais e ulterior decisão do Ministério Público, sendo caso disso. Mas como eu me esforço mais por ser certo do que certinho e não gosto de ser levado à certa, escarrapacho aqui o que o meu nariz me sugere - que estamos perante a intimidaçãozita grosseira arquitectada por quem quer que seja o encarregado dos trabalhinhos sujos que beneficiem os manda-chuvas.
Claro que criticar, mesmo com acuidade, não coloca quem quer que seja acima da Lei. Mas não vejo, nem sob o critério da honestidade, nem sob o da capacidade de esconder falcatruas, caso aquela não existisse, o ora investigado na linha de Varas, Isaltinos e outros Limas. E só não estranho muito o frenesi de cortejo jornalístico, porque conheço, para lá do sempreterno deleite em derrubar heterodoxias e proeminências, o alívio de macular pontos luminosos da concorrência. Como não estranhar, por outro lado, a prontidão da PGR em desmentir a incidência de averiguações sobre o Chefe de Governo e o conveniente silêncio no tocante a quem o zurze? Longe de mim dizer que haja partido do próprio qualquer indicação para pregar um susto a uma voz incómoda, mas o zelo de alguma sua alma danada dispensaria bem ordens dessas. Da Roma Antiga, deve-se ao velho Horácio do retrato o cunho da generalizada expressão A montanha pariu um rato. Suponho que será a descrição apropriada ao desenlace que prevejo, o que justificaria abundantemente o nome Monte Branco dado à operação investigatória do branqueamento. E se, porventura, a puxar os cordelinhos neste grupo poderoso de roedores, se vier a revelar uma ratazana, não traduzirá alteração qualitativa, somente o crescimento natural do bicho, ao longo de tantos séculos.

Coisas das Arábias

Quando ouvi falar em Primavera, pensei logo em Verão quente. Parece que chegou agora, em pleno Inverno.

No Mundo da Lua

Dos EUA surge-nos a última loucura do Politicamente Correcto, precisamente a abolição do conceito das formulações legais. Quanto à imperatividade da mudança, é o zero absoluto, já que, dizendo-se a classificação eliminatória do estigma pretensamente ínsito à palavra lunatic não se percebe como poderiam alienados sentir-se feridos com o apodo. Quanto às consequências, advirão sérias dificuldades, pois esbatendo a divisória qualificadora que permitia uma mais nítida fronteira nas declarações de interdição e inabilidade, ameaça-se de miséria uma série de famílias de incapazes. A falta de razão inspirou toda uma tradição literária de apelos fáceis às lágrimas que encontrava o pano de fundo ideal na brusquidão desprovida de jeito e compaixão perante reais condições dos hospícios, até recentemente, como dos abusos da rotulação de "loucos", quer por advogados em busca da inocentação de criminosos em que a factualidade não deixasse dúvidas, quer por autoridades e plumitivos em demanda de uma etiqueta segregadora de vultos incómodos que não pensassem ou agissem como a maioria que se sujeita às injunções deles emanadas. A esta coligação, juntou-se a denúncia dos abusos presentes na limitação feroz dos comportamentos, como lobotomias e certos fármacos, no metier dos Psiquiatras, bem como as inculcações, convergentes apesar de opostas, da Psicologia, alicerçadas na universalidade dos traumas e necessidade de análise como complemento do dia a dia. Estimulando-se a compaixão pelos furiosos, por um lado,  matizando fronteiras de comportamentos insanos nos menos violentos, pelo outro, só se esperava o surgimento de um ambiente em que as provocações e dificuldades quotidianas, brotadas de poderes incompetentes e manipuladores, instilassem a noção de que, ao menos nesta Sociedade da Depressão, de loucos todos nós temos bastante, em vez do «pouco» do provérbio. E a saída mais fácil é a negação, como a descriminalização no consumo de droga: "se há assim tantos afectados mentalmente, nenhum lunático se pode identificar". Logo, há que abolir a noção. Desta forma, até passam os decisores por razoáveis, já que um dos traços mais reconhecidos dos doidos era o de acusarem de maluquice os circundantes. Cada vez mais compreendo a razoabilidade da obsessão gritada por um conhecido ex-internado, o qual se passeava pela estação do Cais do Sodré, exclamando: Pois, vocês é que trabalham e o maluco sou eu!.
                                                             Loucos, de Goya

Por Baixo da Mesa?

A Corrupção está onde o homem estiver? Bem, pelo menos onde estejam homens com desejos - que são todos - e sem resistências morais, que vão sendo, como sempre, demasiados. Em Portugal desde tempos imemoriais, que se considera natural nas camadas inferiores da burocracia estatal ou autárquica passar umas notas para dar um jeitinho, porém, tal tolerância não se estende aos cumes da Política, talvez por se perceber como antipáticas as transferências para contas escondidas que apenas aos recebedores dêem um jeitão. Apesar de casos conhecidos por provar, na I República, na que agora nos esmaga foi preciso esperar pela entrada em força de uma classe política arrivista para se suspeitar por sistema de figuras cimeiras da administração, nisto em tudo diferentes da da maioria dos seus fundadores, reconheça-se. Walpole, o antigo Primeiro-Ministro Britânico passou à História como autor da frase «todos os homens têm um preço», quando o que dissera fora apenas «todos estes homens têm um preço», referindo-se aos membros do seu Gabinete. Quer dizer, uma frase desculpadora passou a ocupar o lugar de uma incriminatória e, se formos rigorosos, de sinal contrário. A lembrança desta confusão assaltou-me, ao ver, na Imprensa de hoje, noticiado o mesmo facto, a classificação de Portugal entre os países corruptos. Uns dizem que é o «33º menos corrupto», outros que «se encontra entre os mais corruptos». Será a questão do cálice meio cheio ou meio vazio? Talvez, os primeiros reportam-se às paupérrimas expectativas da População crescentemente hostil aos poderosos e admiram-se de serem tão poucos, na senda da Dr.ª Cândida Almeida que, justificando o nome de baptismo, lhes negava a relevância. Os demais, apegados ao digno totalitarismo da Moral rasgam as vestes por verem a corrupção grassar mais do que deveria. Ou tudo se explicará pelo facto de os que a acharam diminuta terem encontrado o seu mais popular meio de expressão num jornal desportivo, ou seja, de um segmento da actividade humana em que a sombra dela espreita atrás de cada porta? É um tema que deixo sobre a mesa.
                                                Legislação Corrupta, de Eliju Vedder

Pena, Capital!

Fosse eu dado a teorias da conspiração e acharia a bom achar que a descida de Lisboa no algo arbitrário ranking das cidades, em termos de qualidade de vida, corresponderia a uma jogada das ominosas multinacionais e sinistras organizações supra-nacionais para diminuírem as ajudas de custo aos empregados que para a Cidade das Sete Colinas quisessem enviar. Só que quem cai no fanatismo da adesão a essas explicações raro mantém os olhos disponíveis para ver o que o rodeia. E, no caso, é muito mais simples e lastimável. Há muito menos carros que há dois anos, o que é positivo para o ambiente. Mas não se enxergam condições anímicas para fruir esse benefício. Entre lojas a fechar, menos dinheiro no bolso, incerteza angustiante e dor difusa perante as chicotadas de administrações insensíveis, entretanto tornadas a rotina, os passantes ostentam um ar deprimido como nunca antes notei e o perigo do contágio suscita uma preocupação crescente. No meio disto tudo, encontra-se num graffitto o desabafo descritivo que se impõe:
Jamais tinha sentido qualquer simpatia pelos gatafunhos que sujam paredes para dar vazão a vulcões internos exacerbados e sem dons de expressão superiores. Fazia minha a indignação desse Grande Defensor do Património que é o Bic Laranja e maquinava retribuições justiceiras que pintassem as caras dos borradores de muros com as próprias tintas. Mas perante a agressão constante a que os nossos Compatriotas vêm sendo sujeitos, dou comigo a sintonizar-me com os desabafos inscritos nos arruamentos por onde me movo e, até, a cantá-los. Ao que nós chegámos!

GRAFFITTI

Nunca saberei como e quem és,
Tu, que tomei por Alma-Gémea,
à mensagem em garatujas emanada
da parede da minha indiferença
agora felizmente alterada
pelas tintas que são tudo menos meias.
É certo, o expediente repugna,
macular com egos a pretensa harmonia.
Mas o imparcial não existe
e em excepção a tempo Te ergueste,
ao deixar-me o consolo indelével
de saber vogando por aí
alguém que sente como eu.
Foi na rude nota assim tangida,
urbana decerto, salvo no grito,
o encontro com prementes reservas elididas,
outorgantes do coincidir no julgar e no achar,
alívios drásticos duma opressiva solidão.

Pingas de Peso

Nem por sombras quero crer que desígnios comercialistas estejam por detrás da descoberta de que a cerveja não é causa directa de estômagos dilatados, mas vejo-me obrigado a pensar as implicações inerentes. A guerra do vinho contra a cerveja ocupa vários Amigos e Conhecidos meus, com os mais influenciados pela Alemanha e Nórdicos a considerarem, desdenhosamente, o produto das uvas como um sinal de mediterranismo rançoso e decadente e os mais agarrados à mesa tradicional a meterem um olho pelo outro, perante esses litros amarelados ingeridos a todo o gás por hordas bárbaras de turistas e rapazes novos. Eu, com o espírito conciliador que me é reconhecido, venho tentar promover o ecumenismo, em matéria de acompanhamento alcoólico das refeições. Quando em Portugal havia Agricultura como forma de sustento de maior percentagem populacional, o Estado Novo promoveu campanhas de consumo vinícola, de forma a sensibilizar para a mais-valia altruística que o acompanhava. Nos mais recentes tempos, os de integração europeia, a Publicidade virou-se para o Génio de Brel, para tomar como símbolo da paz no Continente a predilecção pelo fresco néctar de processo levedado, que não leve e dado. Muito bem, o que aconselho é a não cair em exageros exclusivistas, embora uma linha interpretativa mais sagaz talvez pudesse descortinar no anúncio do fim do mito dos barrigudos bebedores de cerveja a alegria por compatibilizar o crescente apertar do cinto com o emblema líquido das estrelas que a bandeira da União Europeia nos obriga continuadamente a ver.

A Boa Estrela

Sigo fielmente os motes da Ariel, Estrela-Guia Maior desta casa. Lendo-A, dou por mim entrando, qual penetra, no concurso da Barbearia do Sr. Luís. Achar uma Estrela de Presépio, nos tempos que correm, pode bem trazer à candente qualificação Cadente significados mais amargos. Não é a Quadra Natalícia atreita a desesperos; sendo porém propícia a comovermo-nos com o mal alheio, não consigo imaginar o Astro Cintilante senão triste, ao ver este desolado cenário de Reis apeados e vergados a cargas excessivas os camelos que todos vamos sendo. Continuemos a jornada com os olhos postos Nela, enquanto restar algum fôlego, fazendo das fraquezas forças, e no fito de conseguirmos livrar-nos dos Herodes.

Assombrações Sindicais

A propósito da paralisação do pessoal da CP, tenho de estranhar até à exaustão os apelos a que se desencadeie uma intervenção do Governo. Com efeito, sabe-se como a actual Situação se inscreve na linhagem da I República, a mesma que, contra os Ferroviários Grevistas da época, se celebrizou por uma dureza inusitada. Foi, lembrêmo-lo, o ministério do Democrático Republicano Sá Cardoso que criou a macabra figura do vagão-fantasma, posto na dianteira das composições e atulhado à força de anteriores grevistas, para que, na pele de escudos humanos, se tornassem os primeiros a perecer, em caso de sabotagem da via pelos companheiros de luta. Quando os avozinhos assim procederam contra quem apenas demandava melhores condições laborais que as mínimas de então, poder-se-á, fundadamente, crer que os netos idólatras desse lamentado exemplo se revelarão generosos, ou simplesmente justos, para os sucessores daqueles Trabalhadores, os quais tentam defender estatutos adquiridos melhores que os do vulgo? Ainda há quem acredite no Pai Natal!

E Depois da Confissão?

Gosto, sinceramente o digo, de ver os pecadores assumindo as culpas que lhes caibam. No caso das figuras históricas do regime, é bom ver que também o Dr. Jekyll delas junta o desencanto com a própria acção ao do Mr. Hyde, meses antes. Não tenho do ex-Premier a ideia de ser um homem mau, ou nojento, apenas um bem intencionado muito incompetente, deslumbrado com as palavras com que consegue adornar os bons instintos que papagueia. Não será portanto rebuscado publicar aqui a obra de Victor Arseni Arrependimento: Janízaros Chorando Sobre a Campa do Pai. Também estas Madalenas arrependidas têm muita lágrima a verter por haverem servido os inimigos de quem os gerou, o extinto Portugal. Mas espera-se consequência eliminatória da esterilidade, a bem dos próprios - que à proclamação dos pecados respectivos se siga a devida penitência.

Funeral das Consciências

Dou graças aos Céus pelos Comentadores com que me distinguiram, pois daqueles que vejo pelas edições on line dos jornais de referência sobressai, pela repulsa, uma escória ainda pior do que a dominante dos vários poderes. A propósito da inspectora da Polícia Judiciária despachante da Avó do Marido para se abotoar com meio milhão de euros que lhe cobrissem e, possivelmente, lhe recobrissem as dívidas, esperava encontrar, apesar de serem de sempre umas quantas e notórias excepções à Integridade dos Agentes da Lei, opiniões indignadas, mas, ao lado destas, deparei com não poucas indignas. Vários energúmenos culpavam os idosos de «estarem cheios da guita», enquanto os novos se encontravam sem trabalho e meios de pagamento! Ainda pior do que lera, anos antes, em blogues americanos, os quais desculpavam um mass killer por «ele ter apenas ido ao encontro do seu destino». Ao menos, aí, uma melancolia que até poderia passar por perdão cristão parava antes de dar o acto como natural...
Noutro lado, ainda a propósito do nome de Salazar rememorado que se negou ao vinho de Santa Comba, um pateta alegre incitava em baixo calão os leitores a defecarem na campa daquele «fascista». Sei que o mau exemplo vem de longe, já o infame Lord Byron apelava a que se urinasse sobre o túmulo de Castlereagh, mas queria, apesar dos pesares, pensar a sombra que somos de Portugal pouco atreita a prosadores estercorários deste jaez.

Restauração Sem Valor Acrescentado

Desafiou-me um Querido Amigo para participar num Jantar de Conjurados, hoje. Perguntou-me Outro se quereria acompanhá-lo num desfile comemorativo do 1º de Dezembro, em vias de extinção como dia livre, amanhã. A Ambos respondi que nestes tempos póstumos de Portugal só comprometeria os meus escassos cabedais e a minha reclusão voluntária na hipótese de os eventos em questão serem prefácios à defenestração dos traidores e à expulsão dos representantes do estrangeiro opressor  da actualidade. Caso contrário, não passarão de fantochadas que, embora polvilhadas de bons sentimentos, pretendem somente sossegar os espíritos com pios disfarces da inacção.

Semiótica dos Trapos

O Primeiro-Ministro não tem como deixar de gritar às eleições «que se lixem», um pouco como a Raposa das uvas que dizia verdes. Mas se prova adicional fosse necessária, procurá-la-ia no estilo de vestir da plausível Família que por aí me calhe: quem não percebe que os laranjas devorados pelas feras se resumem com perfeição no trajo excessivo de Sasckya Porto?

Entre As Brumas da Memória...

A decisão INPIedosa de recusar o nome proposto Memórias de Salazar a um vinho da região de Santa Comba é uma bebedeira de patetices, desde a motivação ao pseudo-português em que vem expressa. Com efeito, diz-se por lá que o Estadista almejava doutrinar obrigatoriamente a população. Claro que o que os redactores de truz queriam dizer era que Ele pretendia obrigar a População à (observância da) sua doutrina, mas como pescam tanto da Língua Pátria como de História e de Política, o que disseram é que o antigo Governante desejava comprometer-se com a doutrinação das gentes, o que é verdade, mas não parece passível de motivar o indeferimento. No entanto, nem tudo é mau: estes figurões percebem de Lógica! Antes que os meus Leitores Se indignem, passo a explicar: o que eles vedaram, por contrária à Ordem Pública do dia, é a noção de Memórias de Salazar, confessando, sem constrangimentos, ser essencial às imposições que nos espartilham a Amnésia colectiva no que Lhe toque. Inteiramente de acordo, qualquer lembrança séria do Presidente do Conselho sublinha, com um traço indelével, a insignificância mentecapta de semelhantes burocratas ávidos de agradar aos que ocupam hoje a cadeira do Poder e dá estes últimos como sendo da mesma cuba de tais serventuários.
                                                       O Copo de Vinho, de Vermeer

O Meio e o Fim

De cada vez que sou bombardeado com uma variante de predição do fim do mundo, dou comigo a lastimar a decadência do ofício de Profeta, paralela à que atingiu outras profissões tradicionais. Tempos houve em que não podiam perder, porque o termo que os designava apenas queria dizer aquele que fala em nome de Deus. Na actualidade, aos que pevejam a proximidade apocalíptica, está vedado ganhar, pois, caso acertem, não perdurará o gozo do reconhecimento do bem fundado da sua antecipação, na medida em que o instante final anunciado lhes elimina ou abrevia o público. Acerca do alarme cataclísmico em vigor, o dos Maias, nem quero tentar a minha incredulidade com a bazófia do alívio, na linha do paganismo letrado e pessimista, nem refugiar-me quietisticamente na Vontade do Senhor que poderia não ser, activamente, chamada para o caso. Destaco apenas a interpretação erudita que assevera ser o conteúdo da inscrição não um término geral, mas uma reformulação depuradora. E, nessa medida, deixar a dúvida sobre se os tempos conturbados que atravessamos não prefigurarão um émulo desse final, não do Mundo, mas de um mundo tal como o conhecemos. O que reduziria os arautos dele aos espantalhos incompetentes que nós, nos nossos posts, também teimamos em ir sendo.
                                                         O Profeta, de Max Weiler

Fim de Império



Apepinado pelos abrileiros, o romance histórico volta a estar na moda. Nos últimos lustros, o género foi cultivado com talento entre nós por autores como João Aguiar, Fernando Campos, Mário Cláudio, Sérgio Luís de Carvalho, António Cândido Franco, Mendo Castro Henriques, o próprio Mário de Carvalho. Depois deles é Jaime Nogueira Pinto (JNP) quem atima o exercício exigente. Assinalado já como cronista e professor universitário, ensaia-se agora romancista de fôlego. Novembro cumpre a função primeira do seu género literário: juntar ao prazer da leitura a transmissão do conhecimento histórico. 

Em O Império dos Pardais, editado em 2008, João Paulo Oliveira e Costa resgatou num registo próprio o orgulho português do Império, fez à sua maneira as pazes com a história tão denegrida do Portugal ultramarino, d'aquém e d'além-Mar, do século XV até à era dos campeões da democracia e da libertação dos povos. Nesse livro curioso e imaginativo, o autor oferece-nos um enredo de espionagem, crime e sexo no período dos Descobrimentos. JNP, por seu lado, dá-nos a perspectiva do fim da aventura, o fim do Império, quando por descobrir só os podres e as derradeiras traições – a contracapa esfarelada de um livro de cinco séculos. E fá-lo apoiado na própria experiência pessoal, a de antigo militante nacionalista que se voluntariou para África, sem cobrar medo, optando por viver perigosamente, o que entre nós é pouco habitual.

Um romance fascinante

Novembro é um romance fascinante, de extrema habilidade na construção e na escrita. Há personagens riquíssimas de saber e interioridade, outras bem caçadas pela mira do romancista. É o caso de Carlinhos Pestana, o infalível nazi de todos os grupos nacionalistas, que detestava Chopin ("Um polaco?! Como é que vocês gostam de um polaco?! Wagner, ponham Wagner, o‘Rienzi’, o ‘Navio-Fantasma’,isso é que é música!", p. 32), sabia de cor os nomes das divisões das Waffen SS e gostava de discorrer sobre o incentivo ao exercício físico no Terceiro Reich e a vida sexual de Hitler. Um daqueles para quem a História acabou com a tomada de Berlim pelos soviéticos.
 
A trama decorre entre o Verão de 1973 e o Outono de 1975. Depois da entrega de Angola, a 11 de Novembro, deu-se o 25 de Novembro. Empandeirado o Império, o rectângulo já podia entrar na ordem e na democracia. E com esta viria o desenvolvimento: assim havia quem o jurasse entre pessoas gradas pelo alfabeto e pela gravata. Era decerto ingenuidade lorpa ou mero ensaio para acalmar o vulgacho desaustinado. O pouco que se desenvolveu foi uma democracia de siglas, do MFA ao FMI, que começou de pôr os portugueses a reivindicar de mão fechada e os prostrou no fim a pedir de mão estendida.

A obra afigura-se importante porque nos dá a perspectiva da época vista do nacionalismo revolucionário ou da direita nacionalista (chamem-lhe o que quiserem). E daí incomum, uma vez que em Portugal é sempre a esquerda quem conta a história, a oficial e a de ficção, escreve as notícias, distribui as classificações, lança os foguetes e apanha as canas. E por isso, como o próprio JNP já referiu noutros trabalhos, as ideias dominantes sobre o nacionalismo e a direita vêm da esquerda e reflectem a visão esquerdista da vida e do mundo.

Hemiplégico, o novo regime nasceu paralisado da direita e, para se dar ares de pluralista, é forçado a chamar direita ao centro e às vezes ao centro-esquerda. De leitura obrigatória, pois, este romance de JNP sobre uma geração que, à direita, também viveu as suas utopias, os seus arremedos de clandestinidade, antes e depois do 25 de Abril, o combate político, o exílio, também criticou o regime anterior e foi vítima da censura, evitando porém a chorinquice da esquerda mais piegas. Uma geração que combateu nas ruas e nas universidades, que interveio no debate de ideias, fez amizades, apaixonou-se e ousou sonhos de aventura e revolução. A esses homens e mulheres, o que os separava dos radicais de sinal contrário era o nacionalismo esturrado, o pessimismo antropológico, o direito à diferença contra a obsessão igualitária, o repúdio do economicismo – e a defesa intransigente do Ultramar.

Mas o Império se desfez sem cumprir-se Portugal. Uns mantiveram-se de pé no meio de um mundo em ruínas, fiéis aos valores de sempre, exilados do interior; outros, mais arejados de ideias, trataram de fazer pela vidinha e breve descobriram as vantagens do regime nascente. De qualquer idiota formou-se um democrata de improviso. O costume nas revoluções. Felizmente, o livro não vai além de 26 de Novembro. Evita os cata-ventos e, à sua maneira, rende preito a essa forma superior de amizade que é a camaradagem.


 
Eduardo e Diana

Há nas principais personagens masculinas do romance alguma coisa do autor, o que poderá ser dissecado pelos críticos minuciosos. Mas o que no livro mais surpreende de beleza e astúcia narrativa é o relato de Eduardo e Diana, um dos mais belos pares da ficção portuguesa contemporânea. A história de Eduardo e Diana, admiravelmente narrada, convoca o leitor, a súbitas, para o universo de Brasillach, com René e Florence entre o amor, as viagens e a guerra, ou com Patrice e Catherine nas suas conversas sobre literatura e cinema, ou até para o Je vous écris d’Italie, de Michel Déon, também pela guerra, mais a visão de Stendhal e o itinerário de um homem fascinado pela História e por uma mulher.

Só não é de citar o casal Gilles e Pauline, de Pierre Drieu la Rochelle, porque a argelina encontra mais o seu símile na Alice de Novembro, africana também, descarada e selvagem como ela, ambas vestindo-se sem gosto: "Abusas da crioula, dá-te gozo comê-la… ah, mas eu gosto! Sou tão tarada e desavergonhada como tu!" (p. 222)

Tal como o par de Comme le temps passe, Eduardo e Diana são dois seres que podem procurar-se, perder-se, encontrar-se, sem nunca deixarem de ser feitos um para o outro. De antologia o episódio em Madrid, debaixo do Arco de Cuchilleros, no topo das escadas seiscentistas que sobem para a Plaza Mayor, nesse instante convertidas em varanda dos Capuletos. Ou aqueloutro no Mesón Rias Bajas, num quadro de beijos na boca, conversas sobre a guerra, a honra, o nacionalismo revolucionário, e mãos por dentro da blusa dela, como brincando às escondidas com o empregado gorducho, de casaco branco e sotaque galego.

O dilema corneiliano

O trio Eduardo-João-Diana lembra longinquamente o triângulo formado por Régis, Michel e Anne-Marie no Les Deux Étendards.Como Régis no romance de Rebatet, também Eduardo se confronta com o dilema corneiliano entre a vida amorosa e a via heróica. Quando Diana lhe pergunta em Madrid onde iria estar ele daí por uma semana, responde decidido: "Volto para Angola, disse ao meu comandante que voltava […] Não quero desertar nem trair as minhas lealdades." (p. 476) E, todavia, era o mesmo apaixonado que a queria mais do que tudo na vida: "mais do que à Pátria, mais que à família, mais que às ideias, mais que à honra, mais que aos seus amigos e camaradas." (p.486)

Enfermidades

Mas no melhor pano cai a nódoa. A narrativa demasia-se em jantares de luxo, uísques, mexeriquices de banqueiros, tios e tias – e apresenta outros aleijões burgueses. A obra parece ter sido executada sem pretensões literárias, um pouco ao fluir da pena (agora decerto electrónica). Ao autor, porque culto e lido em bons romancistas, exigia-se um texto final mais de acordo com a sua capacidade.

Entre outras enfermidades do estilo, topam-se o uso recorrente da palavra coisa para designar situações que mereciam precisão descritiva, e da palavra muito antes do adjectivo, sinal de que este não foi bem escolhido ou que é fruste, e ainda o recurso abundoso a verbos inexpressivos e gastos. Entre estes avultam o que as gramáticas classificam de auxiliares, como ser, ter e estar. De alguns passos pouco merecedores de traslado, citam-se estes: "E tinham aproximado as cabeças e as bocas sôfregas. A dela sabia a uma especiaria qualquer. Tinham ficado assim por minutos, vencendo abismos de solidão e culpa. ‘Henrique, vamos embora! Leve-me para um sítio qualquer! Quero estar consigo. Agora.’ Fora a primeira vez que estivera com uma mulher desde a morte da Isabelinha." (p. 258); "Em Coimbra, o Baluarte e a Comédia também tinham sido invadidos e saqueados e o Miguel Cunha e o miúdo Pires tinham ido dentro […] No Porto também tinham sido detidos militantes."(p. 280); "A culpa não é tua, a culpa é minha que não tenho tentado compreender-te, ajudar-te. Tenho vindo ver-te mas não tenho estado aqui de corpo e alma. É essa a verdade. Tenho estado longe […] Sabes, João, há uma coisa que tinha resolvido não te dizer […]"(p. 391)

E ainda este, por derradeiro: "Dissera-lhe o primo Artur, que era do PPD, que era preciso irem todos ao comício do Mário Soares na Fonte Luminosa." (p. 525) A frase, já de seu natural rançada pela menção a Soares, folgava mais sem a repetição do verbo. Os méritos de um prosador, por muito que se encareçam, não vencem o tédio e a insulsez destes vícios do estilo. Fosse outro o autor e não haveria lugar a reparo. De JNP, porém, esperava-se ao menos uma revisão mais cuidada.

Um grande livro

Seja como for, Novembro é um grande livro. Uma viagem de memórias, um regresso desencantado mas lúcido, com alguma nostalgia, ao tempo de uma geração convocada ao combate e ao sacrifício – e que sobreviveu à própria Pátria.

"Acho que perdemos todos", diz Eduardo ao taxista na última página do livro. Tem o rapaz carradinhas de razão. Perdemos todos e, se calhar, perdemos tudo.

[Novembro, Jaime Nogueira Pinto, A Esfera dos Livros, Lisboa, 637 págs., 2012] 







O Papel do Fogo

Sem alguma vez ter realizado investigações similares à que agora deu à luz este resultado, há muito que desconfiava de que fumar cigarros atrofiava o cérebro. Mas partia de um ponto de vista de leitor e lastimava tão-só a concorrência que o fabrico dos canudinhos a incinerar fazia ao papel que poderia ser usado na confecção de livros, sendo estes o meio mais apto ao desenvolvimento do intelecto. Até versejei sobre o caso, condoído de observar o lume dos isqueiros a substituir a ignição do Espírito. Nada como ver a Ciência vir ao encontro das nossas pretensões ao Estro...
CINZAS PENADAS

Chegada a hora das doze badaladas,
por entre alfarrábios, refúgio usual,
faliu de forma tétrica e assombrosa
o sabor do lido que repousa e regenera.
«Vingança!», clamaram e reclamaram
infindas aparições brancas na forma de páginas,
rompendo o tranquilo fumar do leitor,
roupagens de papel com propósito de turbar,
em lugar dos lençóis alvos do costume.

«É pesadelo, não pode ser real»
gritou-se o fum(eg)ante solitário.
«Nada fiz para tolher a vossa paz!
Deixem o meu canto, larguem a minha alma!».
Mas a piedade não abunda nessas bandas,
quem não descansa pouco tende a desculpar.
Bastou pois um revelar de identidade
para a perpétua inquietude condenar.
«Somos os milhentos livros que frustraste:
a celulose dos cigarros que, queimando,
de belos volumes vieste a desviar».
Todas mortalhas juntas para cavar a sua...

O Presente Grego

Quem manda nos restos da Europa acabou por ceder, com muito medinho de que um abandono forçado fosse a precipitação do fim. A Grécia lá terá a sua boa dose de perdão e dos estilhaços também nós ganharemos algo, sobretudo no que toca ao tempo para pagar, que era o óbice primordial do plano de reestrururação que nos tinham imposto. Tudo bem, nem sequer temos por onde nos indignar, ao ver os alunos mais ou menos cumpridores serem tratados de forma igual aos desleixados, já que sempre nos atiram uns rebuçados que a nossa decadência tornou não-dispiciendos. Há, entretanto, reservas a tanta alegria: não estou certo de que não se trate de um mero adiamento e que as concessões façam as actuais sombras dos Helenos entrar nos carris. Por outro lado, o título que me ocorreu para este post, na acepção de "oferta indesejável", tem um sentido útil assegurado no respeitante aos credores privados, a quem foram propostas novas perdas, possivelmente na significação mafiosa de proposta que eles não podem recusar. E, de cedência em cedência, esbater-se-ão os temores da sanção que expulsa e cobra, pelo que está instalada a paisagem ideal ao desafio: até por imputações civilizacionais, daqui para a frente, sempre que as Senhoras Merkel e Lagarde disserem não, verão as suas declarações interpretadas como um talvez. De resto, conservando o cavalo grego entre muralhas, no meio da festa, revelar-se-á a União Europeia como a Tróia do dia.
                                                    O Cavalo de Troia, de Tiepolo

Nada!

As notícias do fim de semana torturaram-se com o espanto de haver desaparecido dos mares, lá nas proximidades dos Antípodas, uma Ilha Sandy creditada pelos mapas. Acreditando que não se mudou paras Caraíbas, onde um ilhéu homónimo alegremente subsiste, poderemos interrogar a nossa capacidade de aceitação do Absurdo acerca da plausibilidade de se haver transformado em vento e, sob o formato de furacão, sem esconder a identidade, ter assolado a costa norte-americana em busca de mais aprazível morada. A menos que tenhamos presente a canção de Serge Lama e expliquemos o enigma através das figuras de Estilo que nos iluminem sobre a essência insular e a sua perda se resumirem à expansionista ambiência opressiva e indutora de prioridades conducentes à falência da recapitulação de si que permita apreender a inescapabilidade da magnética rendição da Entrega:

Abordagem à Catalunha

Mas terá razão? O Argumento-suspeição do Candidato/Presidente da Autnomia Catalã é reversível. Se ele instila ser um relatório sobre corrupção a si imputável uma manobra eleitoral para o prejudicar, também esta negação genérica em função dos antagonismos pode ser vista como uma escapatória fácil rumo à impunidade. E a colagem à precipitação de um independentismo face a Madrid uma tentativa de cavalgar o orgulho particularista da Região, à semelhança da instrumentalização da invasão das Falklands pelo General Galtieri e os seus pares, em altura de dificuldades internas.
Nos meios Nacionalistas de cá, as posições face ao separatismo catalão são de sinal oposto e ambas ancoradas em preconceitos: há os que, em nome de um ódio ancestral ao Espanhol, na linhagem de Franco Nogueira, o estimam e lembram a ajuda que a sublevação seiscentista por lá deu à nossa Restauração. E outros existem que, fiéis à missão imperial da Cristandade, se mostram nostálgicos da uníão entre Madrid e Lisboa contra os Protestantismos, deslizando ou não para o Iberismo de jure.
A minha praia é outra: acima de tudo, em Política, sou monárquico e desconfio de todos os arroubos Nacionalistas fragmentários, como os que desataram a gritar por países no Liberalismo ejaculado da Revolução Francesa, numa transposição da pretensa relevância das vontades individuais para as nacionalidades. Continuo a achar que um Soberano reinando por igual sobre Povos diversos, com bondade paternal e uma burocracia sem opressões partidárias seria a melhor receita para salvaguardar a paz sem o totalitarismo das facções ou dos particularismos étnicos. Como no Império de Carlos V, mas, muito mais, no Austro-Húngaro, de que hoje cresce a nostalgia.
O caso Catalão do momento apresenta-se com um aspecto bem pior: historicamente, o seu ressabiamento contra a Espanha e a respectiva Capital levou-o, não a erguer-se sob um Príncipe genuinamente seu, mas a aclamar o Rei de França, no Século XVII, ou a dar em colaboracionista dos ditames do Internacionalismo Vermelho às ordens de Estaline, na triste Guerra Civil de 1936-1939. Na agenda do dia, ressaltam as invocações mais mesquinhas, de se tratar de uma região rica e não querer sustentar outras menos produtivas, um pouco como os Flamengos contra os Valões e faltando-lhe a atenuante de, como aqueles, querer corrigir um Estado artificial e arrivista; ou a de estar submetida a exacções fiscais para sustentar belicismos conduzidos sem aptidão, como no tempo de Olivares.
Mas nem equacionam o desgosto que lhes advirá, permanecendo na União Europeia, da transformação, pelos reduzidos valores demográfico e territorial, em pouco menos que um micro-estado. Nessa perspectiva, a irrelevância que os esperará, caso consigam o corte com que sonham, não lhes trará emancipação, mas somente substituição de senhores e decréscimo de peso. A independência será uma Miragem à Catalunha
                                                        Selo com Alegoria de Espanha (1909)

Big Sister

Desde o início, desconfiei da possibilidade de criação de televisões particulares, porque temia delas o abaixamento e rebaixamento do nível que a RTP monopolista ainda conseguia assegurar. Dito e feito, vieram as privadas e as grandes séries inglesas, o bom cinema e a divulgação histórica de qualidade viram-se relegados para o mais restrito canal, o de Memória, com a estação estatal a imitar as concorrentes para sobreviver-lhes, à custa do embrutecimento dos concursos e de telenovelas sem a qualidade das de outrora. Ou seja, o tal serviço público, tão incensado resume-se a quê? Na semana em que estoirou esta celeuma oca e sem sentido, de a Polícia pedir às cadeias difusoras imagens dos tumultos de S. Bento, vejo enfim uma pista para identificar a tal utilidade e conveniências gerais distintivas - se as outras retêm as gravações para fazerem um figurão de ética e independência profissionais, a cedência pelos canais pagos por nós faria toda a diferença, precisamente a de participar na contenção do crime, como auxiliar das forças de segurança. As demissões e comunicados directivos não passariam, portanto, de epifenómenos tradutores de meras teimosias em garantir a visibilidade do estatuto dentro da empresa.

Tomar o Bispo

Não tenho de me intrometer na disciplina interna de religiões que não sejam a minha e nem me desgosta que a Igreja Anglicana haja aberto o Sacerdócio às Senhoras, pois isso permitiu que o Catolicismo recebesse no seu seio muitos Britânicos infelizes com a decisão, atmosfera que propiciou, inclusivé, conversões na Família Real (Kent) e de um ex- Primeiro Ministro, Blair. Acho é que, a partir do momento em que se Lhes estende a Condição Clerical, não pode ser vedada a Episcopal. Uma coisa é seguir o modelo de Cristo e Maria, proporcionando às vocações os caminhos diversos dentro do universo religioso. Outra, bem diferente é interditar os lugares de liderança do culto, o que só pode resultar de e numa captis deminutio injustamente imposta ao Sexo pretensamente Fraco. Claro que os Bispos Ingleses devem ter tido em conta que o governo da respectiva confissão por Senhoras poderia descaracterizar a estrutura eclesiástica do País, por desconforme aos arquétipos do Sacro em que assenta o Cristianismo. Temos pena. Vários protestantismos tentaram desacreditar o Papado com a instilação do mito da "Papisa Joana". E quando um publicista menos desonesto, Blondel, apurou tratar-se de um facto forjado, outro mais faccioso, Bayle, logo o admoestou, por dizer conveniente aos que se haviam afastado de Roma que ele continuasse a ser tido como verdadeiro. Mas a conveniência nem sempre se coaduna com o jogo limpo... e jogatana sujíssima é, depois de uma votação, tentar mudar-lhe o resultado para o sentido oposto, à maneira do célebre referendo dinamarquês sobre o tratado europeu, das eleições na Argélia, ou da liberalização do Aborto, cá na terrinha.
                  Auto-retrato Com as Irmãs e Preceptora, de Sofonisba Anguissola

As Ossadas do Desejo

As fantasias sexuais despertam, habitualmente, em mim uma complacência divertida, mas confesso que a Necrofilia é uma excepção que se tem mostrado rebelde à compassividade. As melhores impressões que do conceito dela retive provêm das cenas inesquecíveis de «BELLE DE JOUR», de Buñuel. Tentando pensá-la, contudo, sempre me pareceu mais vocacionada para atingir homens do que Senhoras. Talvez esta impressão advenha da força do conto de Eça de Queirós em que um facínora ávido de gozo tenta utilizar o corpo de uma morta para o efeito e é mordido por um bicho vingador... O que eu esperava da Suécia, terra tão libertária em sede de transes corporais amadores, era maior frieza na análise da particularidade desta Senhora e, até porque ela só acumulou meia-dúzia de caveiras, que não fizesse da sua propensão um bicho de sete cabeças. Como tantas outras, vocacionadas para transportes mais activos, preferentes do brilhantismo face ao carácter, a detida deixou-se seduzir por crânios, mais do que por colunas vertebrais. E, finalmente, não reduz o amor ao prazer de um certo músculo, aqui de todo ausente, procura apenas a companhia que lhe sorria para sempre. Se eu lhe fosse nomeado defensor, esqueceria por completo a chachada do valor arqueológico, porque seria preciso comprovar anos e proveniências duvidosamente certificados. Diria antes que a encarcerada prometia estimar os restos que a comprazem melhor do que muitos herdeiros e funcionários de cemitérios. E que os materialistas só poderão louvar uma paixão que prescinde da alma, tal como os espiritualistas deverão exultar com um amor que é tudo menos carnal! Como aquelas pessoas mais ligadas ao par, que se acabam por assemelhar ao companheiro, também a esta desempregada a confusão de ócios com ossos assegura o Futuro em que o seu aspecto imite o da companhia.
                                                A Promessa, de Madline von Foerster

A Virgindade e os Seus Vampiros

Como não podia deixar de ser, vem um novo biógrafo, surge uma revelação sensacional: Michael Jackson morreu virgem! Volta e meia, sempre que não se imponha um rasto de relacionamentos, há-de aparecer algum espertalhão a aventar hipóteses dessas sobre celebridades extintas, sempre estimulantes que são da venda dos volumes. Lembro, a propósito, uma extraordinária crónica publicada anos atrás por Alberto Pimenta, onde, com equanimidade, é desancado um "investigador" que resolvera centrar o seu trabalho na hipótese de Jorge Luís Borges também ter morrido sem conhecer (no sentido bíblico do termo) Mulher. Há em tais casos uma perversão intrínseca da definição de Biografia. Esta deve dar conta dos feitos dos seus temas, deter-se nos eventuais não-feitos é redigir sobre o Vazio, quer dizer, uma fraude. Alegar-se-á que, no caso do cantor Pop, a opção encontraria pernas para andar por desmentir suspeitas de pedofilia. Não estou tão certo, a negação do coito não eliminaria a hipótese de contactos sexuais de outro tipo. E o cuidado com que o Autor exclui «homens, mulheres e crianças» da vida íntima do falecido artista quase leva a especular acerca da razão de não referir outros animais... De resto, somos reconduzidos à dúvida tão bem expressa por Pimenta, no escrito supra aludido, apenas por hipótese absurda: um masturbador morrerá virgem?
                                                  As Belas Relações, de Magritte

Os Verdadeiros Trastes

O stress pós-traumático presta-se a usos e abusos, decerto. Muitos ex-combatentes com quem tenho falado troçam-no como meio de alguns conseguirem uns cobres, como a sua antecipação o era de escapar aos momentos mais difíceis. No entanto, as sensibilidades não são iguais e, a partir do momento em que exista como sequela identificada, há que enfrentá-la e deixar aos clínicos do ramo a aferição das condicionantes negativas dali emergentes. Temos é de não misturar alhos e bugalhos: diminuir também as pensões e os apoios aos medicamentos dos que andaram a arriscar o pelo por um país envia direitinhos para a sarjeta os responsáveis por tamanha ingratidão. Nos EUA, os Veteranos têm os seus assuntos tratados por uma pasta ministerial específica. De França, mais palavroso do que efectivo, chega, entretanto, um culto real aos que se aplicaram na defesa dos outros, sentimento e exteriorização que até tinham sido importados cá para o burgo, pela acção estimável da Liga dos Combatentes, por exemplo. Na Alemanha de entre-as-Guerras toda uma série de medidas de excepção, como a legitimação automática dos filhos dos que pegaram em armas também consagrava o esforço e o risco do Campo da Honra. Por cá, não. Como este triste regime deplora a Guerra de África, parece achar-se no direito de transferir esse mal-estar para indiferença e maus tratos àqueles que, sem meter o bedelho na Política, apenas fizeram por servir. É mais uma lápide que fixam a lembrar a ignomínia duma governação sem grandeza nem critério.
                                                   O Veterano, de Thomas Waterman Wood

O Apagão

O que sucedeu à Aldeia da Luz, com nome de tão irónica ressonância, é a condenação da Utopia, mesmo que em versão mitigada. O que se tentou foi, clonando uma povoação a submergir, evitar o choque e a falência certos de uma criação total a partir de um projecto inteiramente novo, mas não se percebeu nesta aventura urbanística o que de sobejo se sabe na vida íntima: um sucedâneo nunca chega aos calcanhares da real thing. Assim, com a burla das expectativas dos habitantes e a quota-parte de desertificação que lhe compete, a nova aldeola é um autómato desalmado, levando a que hajam sido dois os grupos de casas a meter água e não apenas o que se pretendia tomar por ela. Mas toda esta tristeza pode também ser vista como uma metáfora de Portugal. Ao tentarem construir um novo, com os melhoramentos da Europa evoluída sobre uma cultura tradicional decalcada para turista ver, arruinou-se a habitualidade que pacifica e reconforta, por carenciada que seja. E a aceleração inexorável para o fim bate, hoje, a cada porta angustiada e deprimida.
                                                        Portão de Entrada, de Marcelle La Cour