Não tenho de me intrometer na disciplina interna de religiões que não sejam a minha e nem me desgosta que a Igreja Anglicana haja aberto o Sacerdócio às Senhoras, pois isso permitiu que o Catolicismo recebesse no seu seio muitos Britânicos infelizes com a decisão, atmosfera que propiciou, inclusivé, conversões na Família Real (Kent) e de um ex- Primeiro Ministro, Blair. Acho é que, a partir do momento em que se Lhes estende a Condição Clerical, não pode ser vedada a Episcopal. Uma coisa é seguir o modelo de Cristo e Maria, proporcionando às vocações os caminhos diversos dentro do universo religioso. Outra, bem diferente é interditar os lugares de liderança do culto, o que só pode resultar de e numa captis deminutio injustamente imposta ao Sexo pretensamente Fraco. Claro que os Bispos Ingleses devem ter tido em conta que o governo da respectiva confissão por Senhoras poderia descaracterizar a estrutura eclesiástica do País, por desconforme aos arquétipos do Sacro em que assenta o Cristianismo. Temos pena. Vários protestantismos tentaram desacreditar o Papado com a instilação do mito da "Papisa Joana". E quando um publicista menos desonesto, Blondel, apurou tratar-se de um facto forjado, outro mais faccioso, Bayle, logo o admoestou, por dizer conveniente aos que se haviam afastado de Roma que ele continuasse a ser tido como verdadeiro. Mas a conveniência nem sempre se coaduna com o jogo limpo... e jogatana sujíssima é, depois de uma votação, tentar mudar-lhe o resultado para o sentido oposto, à maneira do célebre referendo dinamarquês sobre o tratado europeu, das eleições na Argélia, ou da liberalização do Aborto, cá na terrinha.
Auto-retrato Com as Irmãs e Preceptora, de Sofonisba Anguissola
As Ossadas do Desejo
As fantasias sexuais despertam, habitualmente, em mim uma complacência divertida, mas confesso que a Necrofilia é uma excepção que se tem mostrado rebelde à compassividade. As melhores impressões que do conceito dela retive provêm das cenas inesquecíveis de «BELLE DE JOUR», de Buñuel. Tentando pensá-la, contudo, sempre me pareceu mais vocacionada para atingir homens do que Senhoras. Talvez esta impressão advenha da força do conto de Eça de Queirós em que um facínora ávido de gozo tenta utilizar o corpo de uma morta para o efeito e é mordido por um bicho vingador... O que eu esperava da Suécia, terra tão libertária em sede de transes corporais amadores, era maior frieza na análise da particularidade desta Senhora e, até porque ela só acumulou meia-dúzia de caveiras, que não fizesse da sua propensão um bicho de sete cabeças. Como tantas outras, vocacionadas para transportes mais activos, preferentes do brilhantismo face ao carácter, a detida deixou-se seduzir por crânios, mais do que por colunas vertebrais. E, finalmente, não reduz o amor ao prazer de um certo músculo, aqui de todo ausente, procura apenas a companhia que lhe sorria para sempre. Se eu lhe fosse nomeado defensor, esqueceria por completo a chachada do valor arqueológico, porque seria preciso comprovar anos e proveniências duvidosamente certificados. Diria antes que a encarcerada prometia estimar os restos que a comprazem melhor do que muitos herdeiros e funcionários de cemitérios. E que os materialistas só poderão louvar uma paixão que prescinde da alma, tal como os espiritualistas deverão exultar com um amor que é tudo menos carnal! Como aquelas pessoas mais ligadas ao par, que se acabam por assemelhar ao companheiro, também a esta desempregada a confusão de ócios com ossos assegura o Futuro em que o seu aspecto imite o da companhia.
A Promessa, de Madline von Foerster
A Virgindade e os Seus Vampiros
Como não podia deixar de ser, vem um novo biógrafo, surge uma revelação sensacional: Michael Jackson morreu virgem! Volta e meia, sempre que não se imponha um rasto de relacionamentos, há-de aparecer algum espertalhão a aventar hipóteses dessas sobre celebridades extintas, sempre estimulantes que são da venda dos volumes. Lembro, a propósito, uma extraordinária crónica publicada anos atrás por Alberto Pimenta, onde, com equanimidade, é desancado um "investigador" que resolvera centrar o seu trabalho na hipótese de Jorge Luís Borges também ter morrido sem conhecer (no sentido bíblico do termo) Mulher. Há em tais casos uma perversão intrínseca da definição de Biografia. Esta deve dar conta dos feitos dos seus temas, deter-se nos eventuais não-feitos é redigir sobre o Vazio, quer dizer, uma fraude. Alegar-se-á que, no caso do cantor Pop, a opção encontraria pernas para andar por desmentir suspeitas de pedofilia. Não estou tão certo, a negação do coito não eliminaria a hipótese de contactos sexuais de outro tipo. E o cuidado com que o Autor exclui «homens, mulheres e crianças» da vida íntima do falecido artista quase leva a especular acerca da razão de não referir outros animais... De resto, somos reconduzidos à dúvida tão bem expressa por Pimenta, no escrito supra aludido, apenas por hipótese absurda: um masturbador morrerá virgem?
As Belas Relações, de Magritte
Os Verdadeiros Trastes
O stress pós-traumático presta-se a usos e abusos, decerto. Muitos ex-combatentes com quem tenho falado troçam-no como meio de alguns conseguirem uns cobres, como a sua antecipação o era de escapar aos momentos mais difíceis. No entanto, as sensibilidades não são iguais e, a partir do momento em que exista como sequela identificada, há que enfrentá-la e deixar aos clínicos do ramo a aferição das condicionantes negativas dali emergentes. Temos é de não misturar alhos e bugalhos: diminuir também as pensões e os apoios aos medicamentos dos que andaram a arriscar o pelo por um país envia direitinhos para a sarjeta os responsáveis por tamanha ingratidão. Nos EUA, os Veteranos têm os seus assuntos tratados por uma pasta ministerial específica. De França, mais palavroso do que efectivo, chega, entretanto, um culto real aos que se aplicaram na defesa dos outros, sentimento e exteriorização que até tinham sido importados cá para o burgo, pela acção estimável da Liga dos Combatentes, por exemplo. Na Alemanha de entre-as-Guerras toda uma série de medidas de excepção, como a legitimação automática dos filhos dos que pegaram em armas também consagrava o esforço e o risco do Campo da Honra. Por cá, não. Como este triste regime deplora a Guerra de África, parece achar-se no direito de transferir esse mal-estar para indiferença e maus tratos àqueles que, sem meter o bedelho na Política, apenas fizeram por servir. É mais uma lápide que fixam a lembrar a ignomínia duma governação sem grandeza nem critério.
O Veterano, de Thomas Waterman Wood
O Apagão
O que sucedeu à Aldeia da Luz, com nome de tão irónica ressonância, é a condenação da Utopia, mesmo que em versão mitigada. O que se tentou foi, clonando uma povoação a submergir, evitar o choque e a falência certos de uma criação total a partir de um projecto inteiramente novo, mas não se percebeu nesta aventura urbanística o que de sobejo se sabe na vida íntima: um sucedâneo nunca chega aos calcanhares da real thing. Assim, com a burla das expectativas dos habitantes e a quota-parte de desertificação que lhe compete, a nova aldeola é um autómato desalmado, levando a que hajam sido dois os grupos de casas a meter água e não apenas o que se pretendia tomar por ela. Mas toda esta tristeza pode também ser vista como uma metáfora de Portugal. Ao tentarem construir um novo, com os melhoramentos da Europa evoluída sobre uma cultura tradicional decalcada para turista ver, arruinou-se a habitualidade que pacifica e reconforta, por carenciada que seja. E a aceleração inexorável para o fim bate, hoje, a cada porta angustiada e deprimida.
Portão de Entrada, de Marcelle La Cour
Pedras Para Que Te Quero!
Estava eu para aqui a massacrar-me com as ligações perigosas da lapidação da Polícia à delapidação do património que traduziram o arrancamento das pedras da rua e sequente lançamento contra as Forças da Ordem! Cheguei mesmo a cismar sugerir-Vos a Todos uma expiatória visita à exposição sobre «A Calçada Portuguesa no Mundo», presente até fins de Dezembro no Forte S. Jorge de Oitavos, em Cascais, e bebendo no trabalho do Autor do livro cuja capa se reproduz... Pura inconsideração, foi o que foi! Pois os calhaus dos fundibulários sem fundas tinham ao menos um... fundo pedagógico - provocando a substituição do piso em redor da malfadada Assembleia descalçada, estavam a repor a decência de não se misturar o instrumento de expansão da Cultura Nacional com os carrascos e torcionários que a têm vindo a supliciar e se assentam placidamente em S. Bento, nas bancadas da vergonha.
Confissões de Uma Máscara
No triste fim de tarde dos distúrbios em frente da Assembleia da República, viam-se, em lugar de destaque, alguns portadores de um disfarce estranho com bigodes à Salvador Dali, mas que, pelas implicações e remissões decorrentes, em muito transcendem a auto-restrição do verdadeiro Surreal. Trata-se de uma cadeia de alusões em jeito de caixinhas chinesas: filiam-se de imediato nas máscaras tornadas míticas nos meios contestatários de hoje por uma banda desenhada e um filme com audiência, «V FOR VENDETTA», as quais, por sua vez, se apropriaram dos traços fisionómicos de um bombista Inglês Católico do tempo de Jaime I, Guy Fawkes. Em comum querem ter a revolta contra as instituições, mas enquanto o malogrado precursor pretendia restaurar a Ordem Católica contra a coacção protestante dos legisladores arrivistas da época, V, o activo anarquista da distopia contemporânea, exime-se a qualquer vinculação a legitimidades, reconduzindo-se à versão radical da mensagem de que os governos devem temer as pessoas e não o contrário, funcionando o grotesco estado totalitário que motiva a sua rebelião apenas como maquilhagem da atmosfera indutora de simpatia. Uma semelhança há, porém entre os dois pólos expostos e os apedrejadores de S. Bento: todos querem atingir os respectivos parlamentos. No caso daquele triste e mesquinho que nos calhou, com a ironia maior de ver uma criação historicamente concebida para proteger das exacções fiscais ser a vergonhosa aprovadora de uma versão muito pesada delas. Mas é possível que os mascarados não tenham equacionado uma vertente de desconfiança inoculada pela filiação de que se reclamam - Fawkes, submetido a tortura, revelou os nomes dos conspiradores de que era cúmplice. Não é inspiração muito prometedora para o bando que os acolheu, se esperar bom comportamento político dos concernidos...
Eu desconfio de acções com o rosto escondido, salvo no caso do Zorro, por lhe conhecermos a identidade, D. Diego de la Vega. Porém, a Máscara tem muitas facetas e, em desagravo a algumas delas, escrevi:
Na estrita acepção, ou na social,
ODE À MÁSCARA
frustras bisbilhotices, sendo singela.
Caprichada, à alegria trazes bastante,
assumindo do Carnaval a chancela.
Fúnebre, prolongas do vivo o aspecto,
em muito sacro fazes parte do ritual;
E contra o gás, facultas vida, afinal,
frente à doença proteges do ar infecto.
Tapas vergonhas, mas nunca enfadas.
Como na Esgrima, páras as estocadas
que o inclemente quotidiano distribua,
cumprindo função de defesa muito tua.
Na estrita acepção, ou na social,
forças alguém distinto a vir à tona.
Adequada ao hábito de penitente,
levas a abstrair do egotismo abissal;
portanto, bendita sejas, cara Persona,
O Mundo de Sofia
Em dia de aniversário de Sophie Marceau, vejo como o tempo passa e sinto saudade das ingenuidadezinhas que lhe associo. Não só a das descobertas e frustrações desse «LA BOUM - A PRIMEIRA FESTA», que vi já em idade de sorrir delas mas não ainda a tempo de deixarem de me envergonhar, como da concepção estapafúrdia que na minha cabecinha jovem se gerou de que ela seria filha do Mímico, o artista Marcel do mesmo apelido. Tanta vida passada, no celulóide como cá bem na terra, ao ponto de lhe irem consagrando retrospectivas...

Talvez com a injustiça das condenações apressadas e o despeito que aquela beleza tocante e duradouramente juvenil desperte na minha irrelevância associada, nunca consegui perdoar-lhe o casamento com Zulawski, o autor do único filme que me fez sair da sala a meio, «A MULHER PÚBLICA». Desobedeci, dessa forma à velha regra de dar a qualquer fita a possibilidade de se redimir até ao final, acrescentando um ponto à melancolia emergente de vermos os que admiramos unidos a quem menosprezamos.

Talvez com a injustiça das condenações apressadas e o despeito que aquela beleza tocante e duradouramente juvenil desperte na minha irrelevância associada, nunca consegui perdoar-lhe o casamento com Zulawski, o autor do único filme que me fez sair da sala a meio, «A MULHER PÚBLICA». Desobedeci, dessa forma à velha regra de dar a qualquer fita a possibilidade de se redimir até ao final, acrescentando um ponto à melancolia emergente de vermos os que admiramos unidos a quem menosprezamos.
De modo que publico duas imortalizações adicionais Dela, como tributo à Própria, pelo dia, e presente a um Fiel Admirador, o nosso Marcos Pinho de Escobar, com as provas intangíveis de que, não obstante as diferenças ideológicas, a Homenageada também demonstra aspirar fervorosa e fixamente a algo maior e vê este mundinho de pernas para o ar...
Padre Castellani - No se puede servir a dos señores (sermón sobre el din...
A 16 de Novembro, mas de 1899, nascia o "Chesterton" argentino, o Grande Padre Leonardo Castellani. A modo de homenagem a esse Sacerdote, Filósofo e Patriota exemplar, vai aqui uma "charla" sobre o apego doentio do homem às coisas da terra, ao dinheiro, e sobre o "negócio" demagógico da falsa caridade dos Estados e das ONUs que por aí pululam.
16 de Novembro de 1952. Charles Maurras presente!
Há sessenta anos morria Charles Maurras. Latinista, helenista, poeta, ensaísta, crítico literário, jornalista político, polemista excepcional, foi sobretudo um filósofo político neo-monárquico e crítico demolidor do liberalismo e da democracia. Homem de génio, rompeu as coordenadas do seu tempo e efectuou a síntese do pensamento contra-revolucionário tradicional e do positivismo. Doutrinador de uma Contra-revolução actualizada ao século XX, teorizador do Nacionalismo Integral, lider da Action française, Maurras foi um dos principais referentes da chamada Direita Nacional em França e na Europa da primeira metade da última centúria. Creio não exagerar ao afirmar que a influencia que exerceu na formação do pensamento político de Salazar é, a muitos títulos, simplesmente extraordinária. Mas a voz deste Apóstolo da França e da Monarquia não ecoou apenas no velho Continente, conquistando adeptos nas Américas, de Norte a Sul. No Mestre de Martigues amalgamaram-se várias tendências, do tradicionalismo de Maistre e Bonald ao positivismo de Comte, do catolicismo social de Le Play de de La Tour du Pin à ciência histórica de Renan, Taine e Fustel de Coulanges. Monarquia tradicional, hereditária, antiparlamentar e descentralizada foi a sua fórmula. Inimigo histórico da "Alemanha eterna" e adorador da déesse France, é escandalosamente condenado à prisão perpétua - à partida exigiram a pena de morte - por "inteligência com o inimigo". Deixou o mundo dos vivos a 16 de Novembro de 1952, reconciliado com a Fé da sua infância, a Fé que tão bem soube defender, como declarou o Papa São Pio X. É, pois, com a "Prière de la Fin" que recordo o Grande Mestre, mais imortal do que nunca.
« Seigneur, endormez-moi dans votre paix certaine
Entre les bras de l’Espérance et de l’Amour.
Ce vieux cœur de soldat n’a point connu la haine
Et pour vos seuls vrais biens a battu sans retour.
Le combat qu’il soutint fut pour une Patrie,
Pour un Roi, les plus beaux qu’on ait vus sous le ciel,
La France des Bourbons, de Mesdames Marie,
Jeanne d’Arc et Thérèse et Monsieur Saint-Michel.
Notre Paris jamais ne rompit avec Rome.
Rome d’Athènes en fleur a récolté le fruit,
Beauté, raison, vertu, tous les honneurs de l’homme,
Les visages divins qui sortent de ma nuit :
Car, Seigneur, je ne sais qui vous êtes. J’ignore
Quel est cet artisan du vivre et du mourir,
Au cœur appelé mien quelles ondes sonores
Ont dit ou contredit son éternel désir.
Et je ne comprends rien à l’être de mon être,
Tant de Dieux ennemis se le sont disputé !
Mes os vont soulever la dalle des ancêtres,
Je cherche en y tombant la même vérité.
Écoutez ce besoin de comprendre pour croire !
Est-il un sens aux mots que je profère ? Est-il,
Outre leur labyrinthe, une porte de gloire ?
Ariane me manque et je n’ai pas son fil.
Comment croire, Seigneur, pour une âme qui traîne
Son obscur appétit des lumières du jour ?
Seigneur, endormez-la dans votre paix certaine
Entre les bras de l’Espérance et de l’Amour. »
Charles Maurras, Clairvaux, 1950
A Preto e Branco
Sempre imaginativo e expansionista nas suas bandeiras, o lobby gay descobriu agora a luz na ética dos pinguins. Há muito que delirava com a constatação de que alguns machos da espécie - no sentido anatómico, claro - dessem para o mesmo lado. Escreveram-se epopeias sobre tão estimável arrojo. Mas a tal podridão difusa do Reino da Dinamarca levou os responsáveis de um jardim zoológico dessas bandas a interpretar o roubo de ovos a que o alegre casal se dedicava como um impulso para adoptar, pelo que lhes impingiram uma pobre cria(nça). A tese cai pela base, na medida em que tiveram de treinar o parzinho para chocar, coisa que esses tratadores às avessas, embora noutro sentido, fazem muito melhor. Quem diz que os passarocos homo não queriam, no País do Hamlet, fazer, simplesmente, uma omelette? Ou uma homolette, enfim? Afinal, eles não tinham tentado surrupiar um filhote! O tal ambiente pode ser zoo, mas revela-se bem pouco lógico. Claro que o que se pretende é passar a mensagem de que estas práticas, quer a sexual, quer a da paternidade de substitição, não são anti-natura. E assim legitimar os comportamentos equivalentes nos humanos. De bom, só notar que as aves, ao menos, não pediram para ser casadas, talvez porque aquelas paragens ainda sejam, nominalmente, uma Monarquia e, consequentemente, o casamento civil lá não esteja tão desvalorizado como o de certas Repúblicas que sabemos.
Coletes Salva-vidas, de Euan Mcleod
Cargas Pesadas
De minha inclinação natural, tendo a preferir o lado da Polícia de Choque ao dos desgrenhados manifestantes que insultam e arremessam. Não por prezar a ilusão da força, mas porque o combate desigual que se prefigura antes de cada enfrentamento me leva a simpatizar com quem tem de aguentar disciplinadamente insultos e provocações sem poder ripostar antes de uma ordem, por vezes de remota proveniência, ser emitida. Além de ver nas protecções dos elementos da força policial uns resquícios das armaduras dos cavaleiros medievos que só a lembrança de servirem governos votados, isto é, ilegítimos, reconduz à triste realidade. Há, todavia, que não abstrair do substrato dos confrontos. E apesar de ser muito duvidoso que os provocadores de ontem fizessem parte dos que mais sofrem, é triste constatar que já não é notícia a carga que impõem aos portugueses, mas o é uma cargazinha de trazer por casa contra manifestantes repelentes. Ou seja, àquela gentalha, pela desgarrada condução do País, é prometida uma espécie de redenção sem arrependimento, apenas por, televisionada e festivamente, cavalgarem o Mal que se consubstancia no uso imoderado de cocktails, de preferência do tipo Molotov.
Polícia de Intervenção, de Blek le Rat
ADÚLTEROS & CIA
Acerca do escândalo que fez o General Petraeus, ex-chefe da CIA, voltar à terra, depois de descoberto o adultério que mantinha com a sua biógrafa, parece-me absurdo que ninguém o suspeitasse de um relacionamento com aquela que, ostensivamente, tinha toda a sua vida na mão. Foi preciso um emaranhado de ciúmes sórdidos, com a amásia a exteriorizar ciúmes de uma cabecinha oca promotora de festarolas sociais apontada para as estrelas (dos ombros, desde logo), a qual terá substituído como alvo de uns namoricos e-mailados o oficial em questão pelo general de Marines John Allen, que lhe sucedera no Afeganistão e estava nomeado para a NATO. Tudo quanto tecla, por aqueles lados, diz temer que informação confidencial haja sido partilhada nas manobras de cama, enquanto que este Vosso servo pensa ser diverso o nó do problema. A saber, que não parece avisado nomear altas patentes das Forças Armadas para a agência de espionagem. Desde logo, porque coincidindo o campo de acção, parcialmente, com o da inteligência militar, dever-se-á canalizar os portadores de uniforme mais vocacionados para os departamentos dela. Mas mais, porque o romantismo e exposição do Herói, a virilidade das vozes e saudações marciais e as próprias fardas são de molde a exercer apelos mais eficazes sobre o Belo Sexo do que um obscuro funcionário com décadas de encafuado serviço nos corredores das "secretas". Além de que um soldado prestigiado acha sempre, inconscientemente, que a faceta erótica do repouso do guerreiro é parte devida da sua paga e não pode correr senão bem.
O Apanhador de Sonhos, de Michael Cheval
Amadeo
Tal como havia feito para Cassiano Branco, o Google decidiu hoje recordar Amadeo de Souza-Cardoso a propósito do seu aniversário, com um novo doodle comemorativo.
Da Geral
Não tem a Greve Geral dos dias do Proletariado em vias de extinção o potencial mítico mobilizador que lhe reconhecia Georges Sorel. O protesto de hoje, por consequência, nada dará, salvo, porventura, o alívio fugaz do grito. Nem há a coesão de um grupo social unificado, nem afixação de objectivos concretos que permitam aos protestos escapar ao efémero inócuo da manifestação. Os partidos que se poderiam oferecer para enquadrar o esforço contestatário em vista à tomada do Poder descredibilizaram-se e a situação tornou-se de tal forma desesperante que a própria subsistência dos sindicatos é vista de viés, enquanto se gera o vago sentimento de que qualquer negociação com os ocupantes das cadeiras do Poder descamba numa forma de colaboracionismo. Nada aconselha pois a enveredar por uma paralisação que promete dar o zero absoluto, salvo atestar-se a inexistência da paralisia perante os golpes infligidos sem sensibilidade. O lixo andar pelas ruas não é novidade, entrevisto que é nos carros de alta cilindrada transitando nas entradas e saídas do assombrado casarão de S. Bento. Mas temos de dar-nos a ilusão de continuar a viver e agir em consequência com toda uma percepção de que são completamente outras as boas razões para se ficar na(s) Covas:
Kamila Covas
A Resgateira
A Chanceler Merkel mostrou-se contentinha da vida pela forma como está a decorrer o resgate do nosso País. Querem fazer passar tal substantivo por sinónimo de salvação, mas como dela não se descortinam sinais, temos de tentar encontrar-lhe outro sentido útil. E a Língua, mesmo torturada como vai sendo, dá-nos uma solução. Aqui, a palavra só pode querer significar o montante a prestar para que os raptores nos soltem. Ora, nesse sentido, decerto que está a correr bem para aqueles que nos capturaram, pois não há notícia de que o desinteresse haja chegado ao perdão de juros, ou seja, implorado sem condições pelos capangas feitores de Lisboa, o nosso cativeiro está assegurado. Cipião devolveu a virgem Cartaginesa aos seus, recusando-se a aceitar as riquezas que lhe queriam dar em troca da libertação, apenas com a recomendação de que não hostilizassem Roma. Com UE interposta, a actual detentora da faca e do queijo não prescinde da usurazita da ordem, ao mesmo tempo que nos põe na (sua) linha e visita os prisioneiros para comprovar o ritmo adequado dos trabalhos forçados.
A Continência de Cipião, de Gerbrand van den Eeckhout
Des-troçar!
Não se percebe o que querem dizer estes representantes castrenses com a solene afirmação de que a Classe não se oporá à indignação dos Portugueses. Penso que a desvergonha ainda não chegou ao ponto de lhes pedirem o desempenho de funções de policiamento, por forma que apenas deve querer dizer que não aceitam, doravante, manter-se como garantes do Regime. Não podem os Políticos queixar-se: estão a provar do próprio remédio, quem fez este sistema está a tirar com uma mão o que com a outra deu, numa apoteose reivindicativa de carreiras, em certa madrugada para esquecer, tal como eles sonegam com um dos membros aos governados o que deram com o restante. Não tenho em grande conta a transformação do ofício das armas numa profissão como as outras, apesar de também me não agradar muito a universalização forçada do Serviço Militar saída da Revolução Francesa. A segunda proporcionou a intromissão paroxística da I República, como forma periódica de mudar apenas a face dos governos ineptos, num panorama em que as eleições viciadas jamais o faziam. A redução a um simples sector laboral, no rescaldo da diminuição de benesses, essa ainda é pior - propicia chantagenzitas veladas como aquela em (pouco) apreço, mas sem sair do entorpecimento que deixa aos demais o ónus de corrigir a desgraça, sem defender a Pátria contra o Inimigo das Internacionais, na altura em que o doutros nacionais já teve melhores dias.
A Sentinela Adormecida, de Carel Fabritius
Políticos de Segunda
O dia aprazado para a travagem seguramente sugerida diz tudo. Gostaria de ver políticos que batessem no peito, sim, mas como sinal de remorso por haverem participado em práticas ruinosas, não para exibirem capacidades de chefia que, de todo, lhes faltam. A conversa do crescimento também foi a que levou ao Eliseu o Presidente Hollande e vejam no que deu, rabinho entre as pernas após o responso de Berlim, sem ao menos o paliativo dos beijinhos da Chanceler a Sarkozy. Alguém acredita que Seguro, com currículo, miolos e País indiscutivelmente menores, fizesse diferente? Mas também a visitadora Merkel, ao reivindicar para os simulacros de Estados em volta uma espécie de interdição para incapazes, não escapa à menoridade de quem subordina o seu fado aos caprichos falhos de generosidade do eleitorado, ao contrário dos predecessores que souberam fazê-lo aderir à necessidade de abrir os cordões à bolsa por um ideal unitário que, não sendo o meu, tinha, ao menos, alguma dimensão. Vivemos a era dos gestorzinhos que deixaram de saber fazer os Alemães pagar pela guerra que perderam e as malfeitorias que os papás terão cometido, como dos que, desde a nova Germania, se tornaram suficientemente autistas para não mais identificarem o resgate da sua culpabilidade histórica de vencidos com a obrigação de financiar um bem-estar ascendente doutros povos que os aproximasse do seu.
Liderança, de Philip Verbruggen
Livro do Mês
Estou a devorar o romance Novembro, de Jaime Nogueira Pinto, acabado de editar e que mão amiga me fez chegar ontem pela noite dentro. Poucas vezes me tenho sentido tão dentro de um livro de ficção de um autor português como neste.
Sem Ela...
Que a Caridade, hoje em dia, não pode ter boa imprensa é coisa que nos tende a avergonhar, mas jamais espantar, pois contraria a tenção dos Socialistas Revolucionários de usar a Pobreza como combustível para os tristes fogos que tentam atear e o projecto de vida dos adeptos do Capitalismo, os quais precisam do tónico do Sucesso material que os destaque dos menos bafejados. Já o Conforto é prezado não como o impulso de consolar e ajudar outrem, mas como o amaciamento da dureza que rodeia, supremo ideal da imensa maioria que nem está para se engajar nas más acções anteriormente indicadas. A toda esta gentinha a Renúncia teria de agradar ainda menos que o singelo acto da Esmola, pois não é susceptível de se explicar como oco alívio de consciência dos abonados contentinhos, ou como fraqueza perante a sorte de desgraçados que, no entender dos egoístas, têm o que merecem. Deste jeito, só poderiam sentir-se mal, ao ouvirem as palavras de Isabel Jonet. À uma, porque não suportam ver a Empatia com estranhos tomar o lugar que automaticamente julgam pertencer ao Conflito. Mas mais, porque se sentem desdenhados, vendo Alguém prescindir do que insistem em fruir e ostentar. Ao contrário do que julgam os papagaios que dão como miserabilista e salazarenta a pregação do despojamento, eu até entendo a frase de Oscar Wilde que diz «nada haver de tão essencial como o Supérfluo». É por isso que reconheço o valor de abdicar dele e de dar-Se ao dar. Nessa medida, como em muitas outras, rotular com o nome de Salazar a conduta é uma distinção, pese os intuitos impotentes dos que apostrofam terem em vista um insulto. Como deixou expresso o meu Santo Patrono, nada de bom nos valerá, se não tivermos a Caridade. De modo que, não sendo capaz de qualquer fé ou esperança nos detractores Dela, tento prodigalizar-lhes a porção caritativa de que, na minha imperfeição, sou capaz, evitando acrescentar o que penso deles.
Caridade, de Fiedor Bruni
Tenho a ousadia de juntar um poema que fiz e que pode ilustrar, mesmo se o autor pouco presta:
TRIBULAÇÕES DA PARTILHA
Se é devido, onde assenta o dar?
Troçado como alívio de consciências
pelos reformadores de trazer por casa
sem siso para alcançar
o sentido profundo da Esmola.
Aquele que não abdica da emoção
nem rende o gesto sincero e pessoal
à cinzenta rotina duma máquina estatal
presente em cada mecânica atribuição
que, de chapa, nulifica e estiola
o gesto do desprendimento sem par.
Contra a obtusa frieza que arrasa
a permuta generosa das urgências
expostas na Cruz de Alguém Mais participar.
Afinal, sentir na carne a pungência do lamento
engrandece, sem tirar nem pôr,
para lá da nua dádiva de alento
ao Desprovido dum qualquer vigor.
Agitar a Malta
Desloquei-me ontem, com o Marcos Pinho de Escobar, ao Centro Cultural de Cascais, engodado pela aliciante temática que esperava ver abordada no lançamento de um livro sobre o Casticismo em Torga e Unamuno. Se muito aprendi com a Companhia, escasso proveito retirei do certame. Dos Escritores abordados pouco mais nos transmitiram que a leitura de um poema de cada; e quanto ao aspecto delimitador que prometia aproximá-los, quase ficou reduzido à troca de gentilezas do Autor e de um dos Apresentadores, os quais nos deram insistentemente a saber considerarem-se mutuamente Castiços. O livro será excelente e quem o fez até me pareceu ter Qualidade. Simplesmente, não nos brindaram com uma apresentação do volume, mas sim com um comício político. O ponto de partida até nem me desagradava, era o de atacar a actual tirania insensata, sob o pretexto de só pensar em números, esquecendo as Pessoas. Mas já não percebi os vivas à Democracia que acompanhavam a intenção. Não terá sido a tal senhora que nos trouxe a estas misérias? E não é a essência dela reduzir os seres humanos à expressão numérica que os seus votos ajudem a compor? Assim, temos o paradoxo equivalente ao do sujeito roubado que disso se queixasse, ao mesmo tempo que insistisse em dar vivas ao ladrão. E quando tentaram um duvidoso climax, com a leitura de uns versos de Torga em homenagem aos Vermelhos Espanhóis, apelando ao público para que entoasse em coro «não passarão!», tive de resistir, pensando na firme réplica do Tenente-Coronel Juan Arredondo Acuña ao General Miaja, que o intimava a juntar-se aos Republicanos: «A Minha Pátria, o Meu Deus e a minha consciência não o permitem». Com o que foi fuzilado pelas armas, enquanto que eu, mais afortunado, apenas o terei sido por alguns olhares que queriam ver ecos onde eu só podia arvorar nojo.
Propaganda, de Le-Quang-Ha
Novembro
Vamos a isso!
A reeleição de Barack Hussein Obama confirma a alegre descida dos EUA no plano inclinado do socialismo à europeia, experimento falido em avançado estado de decomposição. Mas como dizia o Prof. Marcello Caetano - que era expert nisso de ser parecido com a Europa moderninha -, como em democracia a asneira é livre, viva, pois, a liberdade de asnear. Quanto a mim, creio que a única vantagem de dito sistema é que os povos que dele participam podem obter, não apenas os governantes que merecem, mas precisamente aqueles com os quais se parecem. Que bom, para os adoradores deste ungido e defensor do aborto, e para o próprio, que a sua mãe - de raça branca, vale recordar - não decidiu interromper voluntariamente a gravidez!
A Bolsa ou a Vida!
Há uma regra elementar que manda não jogar com o dinheiro ds outros, mas a Segurança Social portuguesa não a conhece. Talvez porque especular tem a mesma raiz que espelho, terá resolvido espelhar a sociedade em desespero de que reflecte o futuro comprometido e resolveu arriscar num fundo infeliz uma quantia, por direito, vinculada aos que, sempre com sacrifícios, haviam feito os respectivos descontos. Por que não dirigir-se a um casino, já agora? A instituição visava, justamente, impedir que por idade, doença ou outros acidentes de percurso, os Trabalhadores ficassem de mãos a abanar, evitando a possibilidade de esbanjarem ou arriscarem com maus resultados o remanescente das retribuições não dispendido no sustento quotidiano. Por isso até me via receptivo a não permitir muitas alternativas de investimento privado para as reformas, na inocente esperança de que o Estado seria depositário mais seguro. Simplesmente, cego pela ideologia ultra-liberal do risco, o forçoso guardião do Porvir vendeu a alma ao Diabo do Lucro e delapidou somas enormes no sobe e desce bolsista. A voragem das doutrinas em nada lhes é estranha, salvo na impunidade dos responsáveis.
Os Especuladores e os Ideólogos, de John Keane
Voto na Matéria
Sabe Deus a quantidade desmesurada de atenção que presto às eleições norte-americanas, pela meridiana razão de querer alcançar conhecimento razoável sobre o funcionamento da verdadeira sede de poder. Mas, para aliviar da frustração da irrelevância das nossas opções, bem poderíamos, em vez de nos debruçarmos sobre a pugna Obama-Romney, escolher, para beldade maior dos Desportos, entre a saltadora de esqui Kristy Leskinnen e a corredora de automóveis Danica Patrick. Que slogans, os que prometessem "dar o salto" ou "uma condução virtuosa"!
O Sumo do Fruto Proibido
Nos EUA, os Republicanos estão muito convencidos de que conseguirão apear o Senador Bob Menendez, de New Jersey, nas eleições de Terça-Feira, depois do ribombante escândalo que dá esse peixe grande como tendo recorrido aos serviços de duas profissionais do sexo, na República Dominicana. Alegam que a posição dele no caso relativo aos elementos do Serviço Secreto apanhados em transacções quejandas por terras de Cartagena teria sido a de «deverem ser todos despedidos», mesmo os que não fossem casados; e não poder haver dois pesos e duas medidas. Discordo quer do diagnóstico, quer da previsão. Acho que os eleitores daquele Estado, onde sobressaem os nossos Compatriotas de Newark, não se impressionam puritanamente com tão pouco, além de que os elementos da força de segurança se tinham deslocado ao estrangeiro em serviço, para proteger o Presidente Clinton, enquanto o Legislador Democrata estava somente a aproveitar as férias da Páscoa, provavelmente desforrando-se dos jejuns da Quaresma. Mas há um argumento ainda mais decisivo - como as parceiras comerciais em questão o acusam de só ter pago 100 dos 500 dollars que com elas acordara, daqui por diante cairá pela base o estribilho dos adeptos do GOP que o dão como incapaz de agir no âmbito da redução da Despesa...
P..., de Jarred Gutekunst
A Boca Para a Verdade?
Embora a minha gaffe de político favorita continue a ser a do Marechal Costa e Silva, antigo Presidente Brasileiro, «o Brasil estava à beira do abismo. Veio a Revolução e demos um passo em frente», a que ontem escapou a um fornecedor habitual, o Vice-Presidente Joe Biden, dos EUA, também não é má de todo: referindo-se a Obama, declarou que «não houve um único dia em que se tivesse orgulhado de ser seu vice». As oposiçoes fazem, num e noutro dos casos, a chacota costumeira, dizendo que os subconscientes os levaram a escorregar para o reconhecimento da realidade. Mas o que mais importará é relembrar o gáudio em fazer da segunda figura dos States o alvo preferencial do desprezo e das sátiras do País. Quando têm um Quayle ou um Biden, deliram. Quando surge um Gore ou um Chenney, insusceptíveis da rotulagem de desmiolados ou desbocados, gera-se uma antipatia inamovível, como se faltasse o cano de escape do desdém pelo Governo, apesar do pudor em o descarregar sobre o chefe de Estado, talvez por resquícios do trauma republicano presente na mitificação da independência.
O certo é que sobre a segunda figura da Federação, um eterno suplente à espera de um desastre para subir ao palco, se concebeu o escárnio célebre: «dois homens muito promissores na sua juventude seguiram um mesmo destino. Um, viajou para paragens longínquas e desconhecidas, o outro foi eleito vice-presidente dos EUA. De um e de outro nunca mais se ouviu falar». Poucos foram eleitos, directamente, para o cargo máximo, porventura porque aos segundos está reservada a zombaria livre que dê a ilusão de uma inferioridade que aproxime.
Panos Para Mangas
Sou um admirador do esforço que conduziu à formação e manutenção do Estado de Israel, logo estou à vontade para denunciar a falta de diplomacia e de senso do Embaixador desse País. Diz o Representante Hebreu que o decreto de luto pela morte de Hitler é uma nódoa que estigmatiza o nosso País. Ou é ignorância, ou má-fé. O Protocolo estabelecia esse procedimento sempre que falecesse o Chefe de Estado de uma Nação com quem Portugal tivesse relações diplomáticas. Não era nenhuma manifestação de preferência, senão a observância do formalismo inerente à neutralidade que era õ nosso estatuto, colaborante com o outro lado, muito embora. Pouquíssimo tempo antes, finara-se Roosevelt e o Governo Português procedeu de igual forma, além de, aí sim, ter prodigalizado um tratamento especial, com a deslocação do Presidente do Conselho à Embaixada para a apresentação de condolências, o que não sucedeu na Legação do Reich. Se tivéssemos negado o cumprimento do preceito da bandeira a meia-haste, enfileiraríamos na longa bicha dos adesivos aos vencedores e, apesar de os termos ajudado mais do que muitos que à última hora declararam guerra ao Eixo, isso seria coisa que a decência estaria longe de aconselhar. Estou convicto de que S. Ex.ª pretendeu apenas dizer que Portugal (pelo que o Estado Novo fez) é o melhor pano. E quanto à mancha que nele cairia, decerto é uma confissão acerca das insuficiências da sua pessoa, que não aceito que macule a sua Nação.
Acresce que as relações das Autoridades Judaicas com a Alemanha Hitleriana foram mais dúbias do que se pensa. Em 1940, por intermédio de Avraham Stern, foi proposto a Berlim que se encaminhasse para a Palestina umas centenas de milhar de Judeus internados nos campos de concentração, em troca da entrada dos Sionistas no combate, ao lado dos Germano-Italianos e contra os Britânicos. É certo que nesse ano ainda não se pensava em Soluções Finais, mas era evidente para todos que a deportação e aglomeração em recintos tão tristemente vigiados não teria por objectivo proporcionar aos hóspedes forçados uma colónia de férias... De resto, não colhe a desculpa que dê o Lehi, ou Grupo Stern, como um mero bando marginal e fanático. Sempre foi usado pelo Governo então sediado em Tel-Aviv para os trabalhos sujos, como os assassinatos de Moyne e Bernadotte, entre muitos outros. Uma vez içado Israel a estado soberano, não tardou uma amnistia aos seus membros e hoje há mesmo uma condecoração atribuída aos que o integraram. Todos temos de içar a meia-haste a bandeira, pela coerência do Senhor Embaixador.
Ora Abóbora!
Manifesto-me amiúde contra a importação de uma carnavalada jocosamente satânica e sem tradição como o Halloween e, ao ver, ontem, aqui no bairro uma tenda montada com abóboras e disfarces de bruxas para a pequenada, pus-me a reflectir sobre como é pleonástico o Gasparzinho envergar nova máscara, quando cada aparição sua em público já costuma acarretar susto bastante, por muitas moedas que se lhe entreguem.
O certo é que para mostrar a preceito que a vida política portuguesa é uma casa em que ninguém tem razão, o Governo esforça-se por dela fazer uma em que não haja pão. O desemprego, já se sabe, mas também, no que toca à Miudagem, o... Pão por Deus! Eliminando o feriado, reduzir-se-á drasticamente o número das pessoas em suas casas, que lhe possam dar o bolinho da praxe. É evidente que a invocação da Divindade seria sempre um espinho atravessado na garganta de um Governo demoníaco que se sente muito mais à vontade entre monstros e bruxas, mas há limites! Também o dia que tanta gente trabalhadora guardava para visitar os seus Mortos, nos cemitérios, ficará irremediavelmente empanado. Tamanho desgoverno pareceria completamente incongruente, não fora ter dado voltas ao miolo, até descobrir uma razão: incapaz de dar, pouco que fosse, aos nossos Compatriotas, o Executivo executor optou por atacar o Passado consubstanciado na ligação aos Desaparecidos, como o Futuro, traduzido no mimo às Crianças. Assim pode gabar-se de ter deixado o Presente. Que, como se sabe, é uma coisa linda. Subitamente, até concordo que temos todos de ir à bruxa!!!
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