Sem Ela...

Que a Caridade, hoje em dia, não pode ter boa imprensa é coisa que nos tende a avergonhar, mas jamais espantar, pois contraria a tenção dos Socialistas Revolucionários de usar a Pobreza como combustível para os tristes fogos que tentam atear e o projecto de vida dos adeptos do Capitalismo, os quais precisam do tónico do Sucesso material que os destaque dos menos bafejados. Já o Conforto é prezado não como o impulso de consolar e ajudar outrem, mas como o amaciamento da dureza que rodeia, supremo ideal da imensa maioria que nem está para se engajar nas más acções anteriormente indicadas. A toda esta gentinha a Renúncia teria de agradar ainda menos que o singelo acto da Esmola, pois não é susceptível de se explicar como oco alívio de consciência dos abonados contentinhos, ou como fraqueza perante a sorte de desgraçados que, no entender dos egoístas, têm o que merecem. Deste jeito, só poderiam sentir-se mal, ao ouvirem as palavras de Isabel Jonet. À uma, porque não suportam ver a Empatia com estranhos tomar o lugar que automaticamente julgam pertencer ao Conflito. Mas mais, porque se sentem desdenhados, vendo Alguém prescindir do que insistem em fruir e ostentar. Ao contrário do que julgam os papagaios que dão como miserabilista e salazarenta a pregação do despojamento, eu até entendo a frase de Oscar Wilde que diz «nada haver de tão essencial como o Supérfluo». É por isso que reconheço o valor de abdicar dele e de dar-Se ao dar. Nessa medida, como em muitas outras, rotular com o nome de Salazar a conduta é uma distinção, pese os intuitos impotentes dos que apostrofam terem em vista um insulto. Como deixou expresso o meu Santo Patrono, nada de bom nos valerá, se não tivermos a Caridade. De modo que, não sendo capaz de qualquer fé ou esperança nos detractores Dela, tento prodigalizar-lhes a porção caritativa de que, na minha imperfeição, sou capaz, evitando acrescentar o que penso deles.
                                                       Caridade, de Fiedor Bruni

Tenho a ousadia de juntar um poema que fiz e que pode ilustrar, mesmo se o autor pouco presta:

 TRIBULAÇÕES DA PARTILHA

Se é devido, onde assenta o dar?
Troçado como alívio de consciências
pelos reformadores de trazer por casa
sem siso para alcançar
o sentido profundo da Esmola.
Aquele que não abdica da emoção
nem rende o gesto sincero e pessoal
à cinzenta rotina duma máquina estatal
presente em cada mecânica atribuição
que, de chapa, nulifica e estiola
o gesto do desprendimento sem par.
Contra a obtusa frieza que arrasa
a permuta generosa das urgências
expostas na Cruz de Alguém Mais participar.

Afinal, sentir na carne a pungência do lamento
engrandece, sem tirar nem pôr,
para lá da nua dádiva de alento
ao Desprovido dum qualquer vigor.

Agitar a Malta

Desloquei-me ontem, com o Marcos Pinho de Escobar, ao Centro Cultural de Cascais, engodado pela aliciante temática que esperava ver abordada no lançamento de um livro sobre o Casticismo em Torga e Unamuno. Se muito aprendi com a Companhia, escasso proveito retirei do certame. Dos Escritores abordados pouco mais nos transmitiram que a leitura de um poema de cada; e quanto ao aspecto delimitador que prometia aproximá-los, quase ficou reduzido à troca de gentilezas do Autor e de um dos Apresentadores, os quais nos deram insistentemente a saber considerarem-se mutuamente Castiços. O livro será excelente e quem o fez até me pareceu ter Qualidade. Simplesmente, não nos brindaram com uma apresentação do volume, mas sim com um comício político. O ponto de partida até nem me desagradava, era o de atacar a actual tirania insensata, sob o pretexto de só pensar em números, esquecendo as Pessoas. Mas já não percebi os vivas à Democracia que acompanhavam a intenção. Não terá sido a tal senhora que nos trouxe a estas misérias? E não é a essência dela reduzir os seres humanos à expressão numérica que os seus votos ajudem a compor? Assim, temos o paradoxo equivalente ao do sujeito roubado que disso se queixasse, ao mesmo tempo que insistisse em dar vivas ao ladrão. E quando tentaram um duvidoso climax, com a leitura de uns versos de Torga em homenagem aos Vermelhos Espanhóis, apelando ao público para que entoasse em coro «não passarão!», tive de resistir, pensando na firme réplica do Tenente-Coronel Juan Arredondo Acuña ao General Miaja, que o intimava a juntar-se aos Republicanos: «A Minha Pátria, o Meu Deus e a minha consciência não o permitem». Com o que foi fuzilado pelas armas, enquanto que eu, mais afortunado, apenas o terei sido por alguns olhares que queriam ver ecos onde eu só podia arvorar nojo.
                                                     Propaganda, de Le-Quang-Ha

Novembro


Este é o mês certo para ler "Novembro", o recém-publicado romance de Jaime Nogueira Pinto, cujo lançamento é hoje às 18:30, no Café Império, em Lisboa, com apresentação de Vasco Graça Moura. É a primeira ficção deste autor, que viaja até ao início dos anos 70 para construir uma história que tem muito de si e daqueles que também tinham 20 anos no 25 de Abril, mas que estavam "do outro lado". Uma leitura fascinante.

Vamos a isso!


A reeleição de Barack Hussein Obama confirma a alegre descida dos EUA no plano inclinado do socialismo à europeia, experimento falido em avançado estado de decomposição. Mas como dizia o Prof. Marcello Caetano - que era expert nisso de ser parecido com a Europa moderninha -, como em democracia a asneira é livre, viva, pois, a liberdade de asnear.  Quanto a mim, creio que a única vantagem de dito sistema é que os povos que dele participam podem obter, não apenas os governantes que merecem, mas precisamente aqueles com os quais se parecem. Que bom, para os adoradores deste ungido e defensor do aborto, e para o próprio, que a sua mãe - de raça branca, vale recordar - não decidiu interromper voluntariamente a gravidez!

A Bolsa ou a Vida!

Há uma regra elementar que manda não jogar com o dinheiro ds outros, mas a Segurança Social portuguesa não a conhece. Talvez porque especular tem a mesma raiz que espelho, terá resolvido espelhar a sociedade em desespero de que reflecte o futuro comprometido e resolveu arriscar num fundo infeliz uma quantia, por direito, vinculada aos que, sempre com sacrifícios, haviam feito os respectivos descontos. Por que não dirigir-se a um casino, já agora? A instituição visava, justamente, impedir que por idade, doença ou outros acidentes de percurso, os Trabalhadores ficassem de mãos a abanar, evitando a possibilidade de esbanjarem ou arriscarem com maus resultados o remanescente das retribuições não dispendido no sustento quotidiano. Por isso até me via receptivo a não permitir muitas alternativas de investimento privado para as reformas, na inocente esperança de que o Estado seria depositário mais seguro. Simplesmente, cego pela ideologia ultra-liberal do risco, o forçoso guardião do Porvir vendeu a alma ao Diabo do Lucro e delapidou somas enormes no sobe e desce bolsista. A voragem das doutrinas em nada lhes é estranha, salvo na impunidade dos responsáveis.
                                       Os Especuladores e os Ideólogos, de John Keane

Voto na Matéria

Sabe Deus a quantidade desmesurada de atenção que presto às eleições norte-americanas, pela meridiana razão de querer alcançar conhecimento razoável sobre o funcionamento da verdadeira sede de poder. Mas, para aliviar da frustração da irrelevância das nossas opções, bem poderíamos, em vez de nos debruçarmos sobre a pugna Obama-Romney, escolher, para beldade maior dos Desportos, entre a saltadora de esqui Kristy Leskinnen e a corredora de automóveis Danica Patrick. Que slogans, os que prometessem "dar o salto" ou "uma condução virtuosa"!

O Sumo do Fruto Proibido

Nos EUA, os Republicanos estão muito convencidos de que conseguirão apear o Senador Bob Menendez, de New Jersey, nas eleições de Terça-Feira, depois do ribombante escândalo que dá esse peixe grande como tendo recorrido aos serviços de duas profissionais do sexo, na República Dominicana. Alegam que a posição dele no caso relativo aos elementos do Serviço Secreto apanhados em transacções quejandas por terras de Cartagena teria sido a de «deverem ser todos despedidos», mesmo os que não fossem casados; e não poder haver dois pesos e duas medidas. Discordo quer do diagnóstico, quer da previsão. Acho que os eleitores daquele Estado, onde sobressaem os nossos Compatriotas de Newark, não se impressionam puritanamente com tão pouco, além de que os elementos da força de segurança se tinham deslocado ao estrangeiro em serviço, para proteger o Presidente Clinton, enquanto o Legislador Democrata estava somente a aproveitar as férias da Páscoa, provavelmente desforrando-se dos jejuns da Quaresma. Mas há um argumento ainda mais decisivo - como as parceiras comerciais em questão o acusam de só ter pago 100 dos 500 dollars que com elas acordara, daqui por diante cairá pela base o estribilho dos adeptos do GOP que o dão como incapaz de agir no âmbito da redução da Despesa...
                                                     P..., de Jarred Gutekunst

A Boca Para a Verdade?

Embora a minha gaffe de político favorita continue a ser a do Marechal Costa e Silva, antigo Presidente Brasileiro, «o Brasil estava à beira do abismo. Veio a Revolução e demos um passo em frente», a que ontem escapou a um fornecedor habitual, o Vice-Presidente Joe Biden, dos EUA, também não é má de todo: referindo-se a Obama, declarou que «não houve um único dia em que se tivesse orgulhado de ser seu vice».  As oposiçoes fazem, num e noutro dos casos, a chacota costumeira, dizendo que os subconscientes os levaram a escorregar para o reconhecimento da realidade. Mas o que mais importará é relembrar o gáudio em fazer da segunda figura dos States o alvo preferencial do desprezo e das sátiras do País. Quando têm um Quayle ou um Biden, deliram. Quando surge um Gore ou um Chenney, insusceptíveis da rotulagem de desmiolados ou desbocados, gera-se uma antipatia inamovível, como se faltasse o cano de escape do desdém pelo Governo, apesar do pudor em o descarregar sobre o chefe de Estado, talvez por resquícios do trauma republicano presente na mitificação da independência.
O certo é que sobre a segunda figura da Federação, um eterno suplente à espera de um desastre para subir ao palco, se concebeu o escárnio célebre: «dois homens muito promissores na sua juventude seguiram um mesmo destino. Um, viajou para paragens longínquas e desconhecidas, o outro foi eleito vice-presidente dos EUA. De um e de outro nunca mais se ouviu falar». Poucos foram eleitos, directamente, para o cargo máximo, porventura porque aos segundos está reservada a zombaria livre que dê a ilusão de uma inferioridade que aproxime.

Panos Para Mangas

Sou um admirador do esforço que conduziu à formação e manutenção do Estado de Israel, logo estou à vontade para denunciar a falta de diplomacia e de senso do Embaixador desse País. Diz o Representante Hebreu que o decreto de luto pela morte de Hitler é uma nódoa que estigmatiza o nosso País. Ou é ignorância, ou má-fé. O Protocolo estabelecia esse procedimento sempre que falecesse o Chefe de Estado de uma Nação com quem Portugal tivesse relações diplomáticas. Não era nenhuma manifestação de preferência, senão a observância do formalismo inerente à neutralidade que era õ nosso estatuto, colaborante com o outro lado, muito embora. Pouquíssimo tempo antes, finara-se Roosevelt e o Governo Português procedeu de igual forma, além de, aí sim, ter prodigalizado um tratamento especial, com a deslocação do Presidente do Conselho à Embaixada para a apresentação de condolências, o que não sucedeu na Legação do Reich. Se tivéssemos negado o cumprimento do preceito da bandeira a meia-haste, enfileiraríamos na longa bicha dos adesivos aos vencedores e, apesar de os termos ajudado mais do que muitos que à última hora declararam guerra ao Eixo, isso seria coisa que a decência estaria longe de aconselhar. Estou convicto de que S. Ex.ª pretendeu apenas dizer que Portugal (pelo que o Estado Novo fez) é o melhor pano. E quanto à mancha que nele cairia, decerto é uma confissão acerca das insuficiências da sua pessoa, que não aceito que macule a sua Nação.
Acresce que as relações das Autoridades Judaicas com a Alemanha Hitleriana foram mais dúbias do que se pensa. Em 1940, por intermédio de Avraham Stern, foi proposto a Berlim que se encaminhasse para a Palestina umas centenas de milhar de Judeus internados nos campos de concentração, em troca da entrada dos Sionistas no combate, ao lado dos Germano-Italianos e contra os Britânicos. É certo que nesse ano ainda não se pensava em Soluções Finais, mas era evidente para todos que a deportação e aglomeração em recintos tão tristemente vigiados não teria por objectivo proporcionar aos hóspedes forçados uma colónia de férias... De resto, não colhe a desculpa que dê o Lehi, ou Grupo Stern, como um mero bando marginal e fanático. Sempre foi usado pelo Governo então sediado em Tel-Aviv para os trabalhos sujos, como os assassinatos de Moyne e Bernadotte, entre muitos outros. Uma vez içado Israel a estado soberano, não tardou uma amnistia aos seus membros e hoje há mesmo uma condecoração atribuída aos que o integraram. Todos temos de içar a meia-haste a bandeira, pela coerência do Senhor Embaixador.

Ezra Pound


Hailey, 30 de Outubro de 1885 — Veneza, 1 de Novembro de 1972

Ora Abóbora!

Manifesto-me amiúde contra a importação de uma carnavalada jocosamente satânica e sem tradição como o Halloween e, ao ver, ontem, aqui no bairro uma tenda montada com abóboras e disfarces de bruxas para a pequenada, pus-me a reflectir sobre como é pleonástico o Gasparzinho envergar nova máscara, quando cada aparição sua em público já costuma acarretar susto bastante, por muitas moedas que se lhe entreguem.
O certo é que para mostrar a preceito que a vida política portuguesa é uma casa em que ninguém tem razão, o Governo esforça-se por dela fazer uma em que não haja pão. O desemprego, já se sabe, mas também, no que toca à Miudagem, o... Pão por Deus! Eliminando o feriado, reduzir-se-á drasticamente o número das pessoas em suas casas, que lhe possam dar o bolinho da praxe. É evidente que a invocação da Divindade seria sempre um espinho atravessado na garganta de um Governo demoníaco que se sente muito mais à vontade entre monstros e bruxas, mas há limites! Também o dia que tanta gente trabalhadora guardava para visitar os seus Mortos, nos cemitérios, ficará irremediavelmente empanado. Tamanho desgoverno pareceria completamente incongruente, não fora ter dado voltas ao miolo, até descobrir uma razão: incapaz de dar, pouco que fosse, aos nossos Compatriotas, o Executivo executor optou por atacar o Passado consubstanciado na ligação aos Desaparecidos, como o Futuro, traduzido no mimo às Crianças. Assim pode gabar-se de ter deixado o Presente. Que, como se sabe, é uma coisa linda. Subitamente, até concordo que temos todos de ir à bruxa!!!

Choque Em Cadeia

O Ministro Gaspar diz-se chocado por o compararem a Salazar e eu digo outro tanto. Afinal, tão Grande Estadista não merecia, morto, uma desconsideração destas. As acusações dos Deputados guchistes e gauchards não me espantam. De cada vez que querem demarcar-se de alguém, invocam o fantasma do Presidente do Conselho. A frágil base, desta feita, será a procura do equilíbrio financeiro à custa de sacrifícios. Seriam uns pitosgas, se não fossem vigaristas, pois o Político do Vimieiro estava a reparar as seríssimas avarias causadas ao País regime anterior, essa I República de triste memória, enquanto que o Gasparzinho remenda os estragos provocados pelo regime que integra, na habitual encenação de "alternativas" que não passam de faces da mesma moeda. Por outro lado, as austeridades salazaristas visaram sempre evitar que o Estrangeiro tomasse conta de nós, enquanto que as de hoje são, justamente, o sintoma mais nítido, assumido e notório de uma tutela infamante do exterior.
Finalmente, a conduta própria, Salazar viveu sempre com pouco, dando o exemplo, Na actual Classe Política, a renúncia, nos casos menos maus, cinge-se a abdicar de cargos com melhor remuneração.
Quanto à troca de mimos geracional com o Parlamentar Socialista, dizendo, trocado em miúdos, que o rapazinho não sabia do que falava, por não ter vivido os tempos a que aludia, eu, vendo tanto dislate nos escalões etários variados dos três intervenientes, convido-Vos a meditar a mensagem imparcial de Brassens, concluindo nada terem os anos a ver e que quem é palerma é-o :

O Real e o Seu Duplo

Pronto, já temos jurisprudência, ou antes, jurisimprudência para atulhar os tribunais e ganhar uns cobres com isso. Poder-se-á dizer que a idemnização, na China, também é um negócio da dita, mas, com a importação cada vez maior de hábitos orientais, depois desta notícia que dá a fealdade subvertida pelo bisturi como fundamento de acção civel, por que não vermos empresas a processar contratadas e espectadores accionando actrizes que se hajam transformado cirurgicamente? A parte macabra da questão é o estatuto dos recém-nascidos indesejados, em países submetidos a quotas de natalidade: se o género já levava ao morticínio de tantos bebés, imagine-se o que à legitimação do ilegitimável não fará esta anatematização das imperfeições! A Realidade, mesmo plástica, está doravante completamente prisioneira do Passado.
                                                 O Cirurgião Plástico, de Jose Perez

O Ovo ou a Galinha

Desconheço se alguma vez a ignorância foi menor, ou se apenas lhe era dado menos tempo de antena. Não chegando os recorrentes disparates com que periodicamente somos bombardeados em inquéritos ao público versando pontos básicos da História de Portugal, vemos que também nos EUA o abismo da asneira faz cada vez mais vítimas. A última vem-nos de uma percentagem importante do eleitorado Norte-Americano se dizer convencida de que o Presidente Obama é... Judeu! A coisa é tanto mais estranha quanto as raízes negras do ocupante da Casa Branca se acham no Quénia e não na Etiópia, donde ainda poderia resultar alguma indução em erro, com a Comunidade dos Falashas... Mas o facto de há quatro anos ser praticamente nula a quantidade de respondentes em idêntico sentido, contrariamente à estranheza manifestada pelos autores da sondagem, dá-nos uma pista para a solução: «Judeu», aqui, é aquele de que se não gosta, como "Fascista", para tanto bem-pensante, é aquele que se lhe opõe. Quer dizer, o desencanto com a presente Administração poderá ter levado a essa identificação. Uma outra consulta diz-nos que o sentimento contra o Negro também fez progressos numéricos. Abstraindo do facto sempre secundarizado de Obama ser Mestiço, poder-se-á outrossim dizer que o crescimento dessa aversão é motivado pela frustração sentida por muitos  face à actuação presidencial. Mas também não seria logicamente descabido aventar que o aumento de tal animosidade é que estará por detrás de muita contestação ao Chefe de Estado. Resumindo e concluindo, não haverá um critério formalmente inatacável que nos diga o que precedeu o quê?

Ricas Prendas

Numa circunscrição do estado Norte-Americano do Michigan o candidato ao Congresso à frente nas sondagens, Mr. Bentivolio, é professor primário reformado e um criador de renas que costuma mascarar-se de Pai-Natal, como complemento do seu modo de vida, havendo aliás confessado nem sempre conseguir separar a sua identidade civil da Figura que encarna. Tendo presente uma sondagem de 2011 que dava uma gigantesca maioria dos cidadãos dos States como crentes no Velho das Barbas durante a infância, será fácil atirar mais uma acha para a fogueira do infantilismo do debate político daquele País, eternamente consubstanciado nos diminutivos, na disputa eleitoral dita "corrida" e nas piadas, como reiterar que qualquer esperança num voto é sintoma de credulidade análoga à que faz esperar os presentes do idoso condutor do trenó.
Mas há outra linha de análise - a de que os falhanços dos governantes saídos do sistema que nos oprime nos levaram, no nosso canto, a redundar em Scrooges rabugentos, pelos golpes tornados impermeáveis e hostis à solidariedade e optimismo emanados da Quadra em apreço...

Variações Sobre Um Tema

Em resposta à declarada disponibilidade do Ministro Relvas, trago-Vos à lembrança uma exortação que creio muito adequada. Para bom entendedor...

A Madeira é independente?


Segundo uma notícia do «Correio da Manhã», que é o jornal português que mais vende, o "Dengue pode chegar a Portugal". Preocupante? Nem por isso, porque já chegou, como aliás se percebe logo a seguir: "Os casos de dengue detectados na Madeira não constituem perigo, mas a doença pode chegar a Portugal através de um mosquito originário do sudoeste asiático, disse à Lusa um investigador do Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT)".

Passos Dados

Está então explicado o porquê do apego do Coelho a Relvas - tem esperado de lá tirar com que comer bem:


A visão é de Josh Keyes

Igualomania

Vem um relatório despromover Portugal em sede da igualdade dos sexos, parece que na questão educativa e na de acesso a cargos públicos. Devo asseverar que a última parte nada me diz. Ninguém pode naturalmente ter direitos ou prioridades no preenchimento de tais lugares e as expectativas devem ser guardadas para si, a partir do momento em que não haja barreiras normativamente edificadas. Quanto ao Ensino Superior, estas conclusões até contrariam a minha percepção, de que, hoje por hoje, há muito maior número de elementos do Género Feminino a saltar para a miragem universitária, tanto que já se fala em promover quotas de rapazes, ao que vigorosamente me oponho. O mal maior está na fúria igualitarista que, desde os Levellers aos Comunistas de várias levas, assolaram o Planeta. Jamais se deveria olhar para o que o Outro é ou tem, salvo se o pudesse e quisesse ajudar. Já lembrava Gladstone «o Cristão diz "o que é meu é teu"; o Socialista diz "o que é teu é meu"». Mas não deixa de me assombrar que a fúria equalizadora não dispense a esmola de um olhar para a diversa cotação da virgindade, consoante brilhe no macho ou na fémea. Uma Moça Brasileira, Catarina Migliorini, deu, segundo a própria, em empreiteira e vendeu a sua por uma maquia reconfortante, enquanto que um jovem Russo, nos mesmos trilhos aventurado, pouco mais conseguiu que uns trocos para vodka, Mas urge responder com um clássico da Cultura Ocidental à tese da iminente passageira do projectado Avião de Tolerância; em «SOMBRAS E NEVOEIRO», a personagem de Woody Allen, respondendo à de Mia Farrow sobre se dormir com alguém uma única vez por dinheiro faria dela uma prostituta, aduziu lapidarmente que «só se fosse por definição de dicionário»...
                                                    Par Desigual, de Hendrick ter Brugghen

Aviso aos leitores

O Diabo desta semana traz um artigo deste vosso pobre escriba. É sempre um prazer ter um texto publicado no jornal dirigido pelo nosso caríssimo amigo Duarte Branquinho.

Local de Cultos

Durante muitos anos, enchia-me de pena o espectáculo de um templo relegado para garagem, ao ponto de merecer a alcunha de "Igreja de Nossa Senhora dos Mercedes", com as pedras numeradas a ameaçar transplante da Baixa Pombalina em que jazia. Mas a coisa tinha o ar de mero descuro com o Património, não sugeria premeditação. Hoje, surge desenlace mais capaz de me deixar melancólico: fazer acintosamente da Casa de adoração do Cordeiro de Deus um antro de veneração do Bezerro de Ouro encontra um único contraponto interpretativo que, pela pungência do Real para que remete, também nada alegra - dar o Dinheiro como objecto de Museu.
                                  A Adoração de Mamon, de Evelyn Pickering de Morgan

A Desprezada Herança

Os particulares sofrem o assédio emergente dos balcões compradores de ouro, mas o Estado há muito que está na mira de abutragem cobiçosa das reservas salazarmente acumuladas. Primeiro, tentaram pressionar-nos para que entregássemos parte delas, com o argumento de o III Reich se ter apropriado indevidamente dessa parcela de vil metal. A nossa Diplomacia lá provou que, qualquer que fosse a origem suspeita das barras, tinham entrado em Portugal no âmbito de um comércio legítimo, não estando em causa a boa fé do País, ao ponto de só tardiamente se ter feito uma entrega simbólica, mediante correspondente idemnização pela República Federal Alemã. Depois, tentaram convencer-nos de que gastar as toneladazitas áureas no Desenvolvimento era óptimo para a Economia e a ultrapassagem do caduco espírito de entesouramento. Uma certa porção foi delapidada, mas, por um acesso de sorte paradoxal, as regras monetárias da União Europeia obrigaram a conservar o grosso. Agora, pretendem que seja dado como garantia de empréstimos camuflados sob a designação delicodoce de "emissão de dívida". É remeter os restos da Pátria para a loja de penhores, como tantos idosos sacrificando as recordações preciosas de uma vida ao momentâneo prolongamento da sobrevivência. Mas, no que ao Colectivo que integramos toca, nem isso há a lamentar: há muito que a própria alma já foi vendida por tuta e meia.
                                                                  Pesando o Ouro, de Gerrit Dou

Parvos, mudei a casa!


Será que o infeliz boçal que com o peito estufado de coragem apeava o retrato de Salazar (faltaram-lhe tomates para o apear em carne e osso) desconfiava que, na verdade, estava a deitar abaixo Portugal? O "25" foi mesmo de "Abriu": abriu uma cratera sem fundo para onde Portugal foi atirado e desde então vai em queda livre. 

Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três!


A venda do Diário de Notícias a "capitais angolanos" - leia-se: MPLA - parece não ter tirado o sono a ninguém. Na nossa hora crepuscular, havendo transitado de velha Nação soberana e pluricontinental à mercearia de segunda, e mal gerida, a solução dos gerentes é pendurar a tabuleta à porta e dar início à liquidação total, seguida - tudo indica - da extinção definitiva de actividade. Pior do que vender-se aos bocados é não tentar ser minimamente selectivo ao atrair o comprador. Em outras palavras: mais grave do que a decadência é a decadência sem elegância.

Jornalismo de referência


Num dos suplementos do Expresso de hoje, o filólogo brasileiro Evanildo Bechara, que desatrema no acordismo, diz que "Fernando Pessoa não aderiu à Reforma de 1945". Não aderiu nem deixou de aderir: morrera dez anos antes. O que Pessoa nunca aceitou em vida foi a reforma ortográfica de 1911. Mas o desatino foi impresso assim mesmo, sem pudor do académico nem emenda do entrevistador.

Se Não Foste Tu, Foi o Teu Pai!

A desorientação emerge de tudo quanto é canto. O velho conselho de não brincar com o Fogo bem poderia achar uma base na ligeireza com que se abordou um pouco por todo o lado um outro Cavaleiro do Apocalipse, a Fome. Daqui e dali se levantaram vozes contra a responsável por negar o almoço com os condiscípulos a uma criança, insinuando a privação de alimento, que não ocorreu. Mas pouco eco para os Pais que votaram essa possibilidade. Num País em que muitos estão à beira da desnutrição, foi um alarmismo escusado que iludiu o verdadeiro problema - o de pôr de castigo inocentes pela eventual culpa dos progenitores descuidados nos pagamentos. Ao ver os colegas à distância, almoçando, rindo e brincando, sem que a consciência os acuse de terem feito algo de errado, como poderão os estigmatizados desenvolver alguma ideia de Justiça? E, quando esta inexiste, estão abertas as auto-estradas para os revoltados criminosos de Amanhã.
                                                         A Fome vista por Magritte

A Cegada

Vem a público uma declaração do pobre Presidente Francês, depois de calado e humilhado por Berlim no concernente às programáticas boas intenções desenvolvimentistas da campanha eleitoral que o levou ao Eliseu. Não podendo já falar dos que contam, vinga-se nos que pedem. E, segundo ele, parece que, ao contrário do Espanhol e do Grego, o nosso PM não alertou para a tremenda situação social do País. Imaginando que não se trate dum esquecimento, por não sermos tão grandes como os Vizinhos ou irreverentes como os Helénicos, resta lembrar que o pior cego é o que não quer ver. Mas qual o melhor candidato ao lugar? A Chanceler Merkel, com a dureza de olhar que intimamente creia um apertão neste cantinho da Europa bem merecido castigo por termos gasto à tripa forra? O Sr. Hollande, por ostensivamente ignorar a nossa crise que, no entanto, prefigura misérias mais que muitas? Ou o Dr. Passos, o qual, a ser verdade ter-se calado, só poderá explicar tal conduta por um temor reverencial indigno, mesmo num capataz dos donos da Europa, ou por a sua avaliação dar o momento que vivemos como "não tão grave como se diz"?
                                                Três Ratos Cegos, de Randy Bennett

Tiradas À Sorte

Uma eleição é sempre um jogo de azar, no qual a Fortuna só por excepção pode bater à porta. Mas não é mau que uma eminência parda (como o dia) desta desgovernação, ainda que seja um desbocado como o Doutor Borges, o venha reconhecer. Diz que temos uma «sorte enorme» por sofrermos a Sangria à Moda de Gaspar, precisamente o adjectivo com que o elogiado reconheceu a voracidade confiscatória das tributações com que nos arrumou. O caso poderia ser apenas, mais que do elogio mútuo de circunstância, a retribuição de um encómio há dias expelido pelo Ministro das Finanças, por alturas da célebre ignorância imputada aos Empresários discordantes. Mas, a haver mais, este dueto da corda quereria à viva força que nos contentássemos em comer trevo, na esperança de, como o felizardo Gastão, por detrás de um de quatro folhas, encontrarmos soluções para a vida? Pus-me a pensar se seria assim tão bafejado. E descobri o que o Economista esbanjador de palavras queria dizer. Sortudo não era o nome do gato da série televisiva «ALF, UMA COISA DO OUTRO MUNDO»? Por conseguir não ser comido pelo extraterrestre felinófago, como, mas só no sentido denotativo, ainda vamos alcançando, face a este par des aliens que nos dá caça.  Mais um prego para o nosso caixão, com a desculpa de visar prender-nos ao pé a ferradura, a pretexto de ser talismã. Nada que espante, consequências que são duma tal Revolução de Cravos...

É Dar-lhes Tampa!

Se necessidade houvesse, teríamos agora, manifestada no protesto de ontem, a prova de que não há como a Restauração para unir empregados e patrões. A eles, prejudicados em maior intensidade de perigo pelo risco do fim da actividade, se deviam somar todos os clientes em que a avidez fiscal pretendia repercutir os acréscimos tributários, convicta de que na comida se não pode cortar e inconsciente da versatilidade lusa que se defende com o regresso da marmita à jornada laboral das classes médias. Neste tiro pela culatra acabam por ser, desde logo, os prestadores a sofrer, pelo que me soube bem vê-los bater em tachos, figurada contestação e antecipação de acções justiceiras que se concebem pouco a pouco contra os dos figurões do assombrado casarão que nos desgoverna. Quando as cabeças de um grupo passam a ferver, ocupadas em full time por algo que já não se tem e se vê pletoricamente impante naqueles que o sonegaram não pode esperar-se bom resultado, pelo que só resta, para evitar violências maiores, a solução do título, quando a nossa já de todo saltou.
    Sirva de sinal a divertida manipulação fotográfica revelada por Prakash Ghodke