A Bóia de Salvação

A evidência impõe-se e suscita simpáticos movimentos como o que quer uma salvação nacional com a óbvia necessidade terapêutica de a subtrair ao domínio dos partidos. De acordo, mas oponho-me frontalmente a que seja encontrada numa qualquer forma de iniciativa presidencial. Em Itália descobriu-se milagrosamente o Sr. Monti, muito mais honesto que Berlusconi e competente que Prodi, ao ponto de combater uma crise de natureza similar à de cá com a baixa de impostos, enquanto os serventuários dos nossos outros pretensos salvadores vão insuflando o País de aumentos. até que estoire.
Simplesmente, uma solução de "sábios" que tentasse encontrar legitimidade... num cargo ilegítimo, quer dizer, escolhido por uma parte do País contra a outra, seria uma contradição e um expediente transitório semelhante à Ditadura, como se sabe, historicamente, um recurso comissarial das Democracias. A enveredarmos por esse cabo que nos atiraram, só conseguiremos afundar-nos mais rapidamente. O que até já estive mais longe de considerar um mal.

O Aguilhão do Vazio

As correias de transmissão dos partidos com agenda revolucionária não estão proibidas de ter razão. Contra a insensibilidade ao crescimento da privação do meio natural de sustento, deixo o clássico da Fotografia de Auguste Sander O Desempregado, lembrando que à da própria dignidade mínima da subsistência se soma uma tragédia suplementar que não deve reduzir à fome as consequências de tão opressivo estado: constatando que uma comunidade não encontra emprego para si, no sentido de função, como poderá um desvalido identificar-se com o grupo em que, pelo nascimento, seria natural inserir-se?  Os Liberais da Guilhotina ainda compensavam a indiferença pelos perdedores na luta própria da mitificada Concorrência com uma transposição da afirmação individual para a Nação, posta em compita com as demais. Era vicioso subterfúgio, mas podia mobilizar.  Hoje, resta o desencanto anti-gregário a cada esquina.

Paracuellos


Na edição desta revista espanhola de divulgação histórica que está agora disponível nas bancas nacionais há a destacar a investigação que traz novos dados sobre o Massacre de Paracuellos, no artigo chamado “Moscovo puxou os cordéis”, que revela a intervenção da NKVD de Estaline como precursora da ordem dos fuzilamentos e os nomes dos verdadeiros responsáveis espanhóis, por este crime que vitimou mais de mil prisioneiros políticos na Guerra Civil de Espanha acusados de “direitistas”. Destaque também para o artigo sobre a nova biografia de Isabel de Portugal, a esposa do Imperador Carlos V.

Eles Comem Tudo, Tudo, Tudo...

Sou muito ingénuo! Na candente questão da redução do número de deputados estava pronto a opinar que mais meia dúzia, menos meia dúzia em nada contribuiriam para o melhor funcionamento do País e tudo o que não chegassse ao zero absoluto seria insignificante para a dignificação dele. Tinha-me escapado completamente a falta de senso e pudor que este nosso Colega noticia. O voto passa a ser uma senha deste irracional racionamento, mas estes Senhores não podem, doravante, esperar que todos os que passam dificuldades de sustento evitem dirigir-lhes antes uma sanha...
Passo a adepto da limitação, aspirando ao correlato incremento de decoro!
Ou será que leram apressadamente esta notícia e, pensando que as substâncias ingeridas vinham referidas por um adjectivo e não por um substantivo, temeram pela própria vida?
Veja-se, acima, a Gula, do sagaz James Ensor

A Deserção dos Holofotes

Visto o último Woody Allen, «PARA ROMA COM AMOR», donde, entre muitos momentos bons, sobressai a extraordinária composição de Roberto Benigni num "vulgaríssimo" Leopoldo Pisanello, guindado à fama pelo capricho dos Media que promovem os gestos escancaradamente banais do seu quotidiano a objecto de interesse público. A sátira dá no vinte porque corresponde a uma vaga que também rebentou por cá. No tempo da minha adolescência havia concursos abertos a gente mais ou menos anónima, mas, como  em A Visita da Cornélia, que tivessem dado provas de um talento excepcional.
Com a passagem do Milénio, cresceu uma moda de revolta contra o monopólio da celebridade pelos mesmos de sempre; e a abertura ou o alargamento de concorrência em sede de canais de TV e revistas de bisbilhotices levaram à promoção e ao esquadrinhar de existências dignas de atenção geral inventadas ad hoc pelos meios de comunicação. A mesma concorrência que logo os faz largar sem piedade, com a precipitação cruel no anonimato de que se tinham convencido a salvo e em cujo afastamento enxergavam uma realização depressa revelada como miragem irredutível. A propalada democraticidade da invenção viu-se desmascarada no oportunismo opressivo que, prometendo mundos e fundos aos Zés deste Povinho, depressa os viu descambar nos devastados Zés Marias arrastados por esquinas e becos, com a cabeça nas semanitas de glória falsa dada e logo roubada, de forma análoga às benesses do Estado Social.
Meditem sobre a imagem, Dez Segundos de Fama, de Miram Van Cleemput

Louco Equívoco

Comemora-se o Dia da Doença Mental, o que não levanta, à vista desarmada, objecção de maior. Mas, vendo mais de perto, o caso é bem outro. a prioridade da atenção centra-se nas depressões e na crescente profusão delas na Sociedade em que temos o azar de viver. Não subestimo o peso paralisante destes estados psíquicos, apenas contesto que seja amalgamado com delírios e impermeabilizações ao que rodeia característicos das formas de loucura ancestralmente creditadas.
Com efeito, diminuição de auto-estima até é recomendável como antídoto contra os êxtases egocentristas e egoístas. O abatimento desiludido pelos golpes sofridos e testemunhados não será coisa outra que consequência da sensibilidade amolada. Achar que não vale a pena e procurar escapismos de excesso ou renúncia pouco mais contituirá do que um princípio de Realismo, como de desengano a verificação da inexistência de capacidades auto-fantasiadas. O problema está em não passarem de uma fase epidérmica, gerando-se assim a incapacidade de reagir. Se levadas a fundo, as percepções do absurdo colectivo que ajudámos a construir e que alfim nos desmentem a benignidade que lhe imaginámos facultariam a ressurreição da vontade consequente que permitisse debelar o pior do que nos condiciona. O resto é consequência nociva do esbatimento da fronteira rigorosamente patrulhada entre a insanidade e as dificuldades gerais. Decorre de várias fraudes centrípetas, como a extensão universal da necessidade de terapias psicanalíticas, o uso da rotulagem de loucura para diminuir adversários (veja-se Ezra Pound e Hamsun) e a própria derradeira instância de conchego esperada pelas Pessoas ao confessarem-se deprimidas.
Até o título da notícia linkada diz «Dia da Saúde Mental» o que parece ser o da Doença. Nada de novo, o Paralamento também assentou arraiais no estabelecimento religioso de S. Bento da Saúde, transformando-o no antro doentio que se sabe...
Segue-se a Manicómio, de Goya

A Pompa do Eufenismo

Na miserável semântica dos nossos organismos oficiais «erro informático» passou a ser a fórmula oficial de designação da asneira, de cada vez que os serviços metem o pé na argola. Veja-se a prova provada e confirmada aqui. Como se os computadores lessem os livros e os lhes apreciassem a aptidão, consoante as idades das audiências potenciais... A menos que o façam. E então, tirem-me já deste filme que é o mundo desumano, demasiado desumano, que me cerca, a um passo da catástrofe que deu pretexto a «BLADE RUNNER»!
Por outras, mas a calhar também para essas, eis como no Sydney Morning Herald viram a luta de morte entre livro e computador.

Letras e Números

A Secretaria de Estado da Cultura alija do lombo a carga ominosa de, por causa da penúria orçamental, ter cortado as verbas destinadas à legendagem dos filmes exibidos pela Cinemateca. Diz que esse é um problema daquela instituição, fazendo por escamotear que a criação de hábitos de leitura, mesmo os surgidos de fitas, é - ou deve ser . preocupação de qualquer executivo que se preze. Maria João Seixas, directora da casa roubada pode conviver bem com a restrição, porque, ao menos nas línguas mais conhecidas, a pureza da obra a manter até se conserva melhor sem qualquer tradução sempre à beira da traição. O que temo é que este seja o primeiro passo para a dobragem dos filmes a exibir, uma reivindicada indústria parasitária para a qual não faltariam dotações, em nome da aproximação do Público à Cultura. Perante a pavorosa perspectiva, antes as legendas, mais vale um pássaro na mão...
                                             O Pássaro das Letras, de Kristy Gimbert

De que 5 de Outubro estamos a falar?

A propósito da abolição de feriados que está a ser tratada, espantam-se algumas pessoas mais ingénuas com o facto de os republicanos se prepararem para deixar cair o 5 de Outubro. Passo então a explicar: a partir do momento que, em boa hora, vários monárquicos se lembraram de recuperar o dia 5 de Outubro (de 1143) como data da Fundação da Nacionalidade, as acções associadas a esta comemoração logo agregaram milhares de pessoas — da internet à rua, de Norte a Sul de Portugal —, contrastando com a meia-dúzia de caquécticos pindéricos que insistem em continuar a celebrar 1910. Vai daí, toca mas é rapidamente a acabar com esse feriado, não vá ele ajudar a propagar a imparável dinâmica patriótica e monárquica em torno de 1143, a qual, se convenientemente orientada, num trabalho de longo prazo e idêntico alcance, poderá levar a repor um Rei no Trono.

O Respeito Sobre Rodas?

Há muito comprovei que algumas das pessoas mais urbanas e pacientes noutras áreas da vida civil ficam tomadas por uma susceptibilidade e irascibilidade avassaladoras enquanto conduzem. Mas esperava ver nos condutores profissionais uma postura diferente, já que a confinação à pista e o ideal do desportivismo sugeririam menos ocasiões e menor predisposição para se exaltarem. Nada disso, com a ajuda do twiter, dois campeões de Formula 1 revelam uma concepção do respeito tão diminuta como a resultante da concisão das respectivas mensagens. Lewis Hamilton lamenta que Jenson Button tenha deixado de ser seu seguidor nessa rede e acrescenta que, estando na mesma equipa, pensava que ainda se respeitavam! Mas então, mesmo no universo virtual, deixar de ser seguidor de alguém poderá porventura ser entendido como desrespeito? A resposta está na profissão dos protagonistas da desinteligência, afinal o hábito do volante quer por força fazer de cada um dos demais um eterno "seguidor", pois o cerne da sua acção é impedir que outro o ultrapasse...
                                              A Corrida de Quadrigas, de William T. Trego

Droga de Candidatos!

O escândalo só existe neste caso na estrita medida da assunção. Uma candidata a autarca, no Brasil, ofereceu paraísos artificiais aos eleitores com a ajuda do pó branco, enquanto que os seus colegas, um pouco por todo o Mundo, costumam fazê-lo apenas com recurso à imaterialidade das promessas. Não nos deixemos enganar, quer um, quer as outras, são igualmente capazes de viciar e, após muito consumo, apressar o fim do viciado na overdose de demagogia que subjaz em qualquer das situações. Com a diferença de que a desilusão emanada das jogatanas dos partidos é muito mais imediata. E não sejamos cegos, o voto, aqui, é um meio de pagamento, na sua rotunda essência de cheque em branco, sem, hoje por hoje, apresentar sofisticação maior do que a do numerário que os dependentes mais facilmente identificados entregam aos vendedores ambulantes de bem-estar instantâneo. Percebe-se que, com tantas e tantas vítimas, apesar da teórica capacidade de resistência individual, o consumo não seja crminalizado. Mas impõe-se a ilegalização e penalização de semelhantes tráficos.
                                                        Priminha Cocaína..., de Van Arno

O Bode Expiatório

O Dr. Costa deu seguimento ao nome, mostrando que as tem largas o suficiente para avocar responsabilidades que lhe não cabem por inteiro, no triste episódio da bandeira invertida. É um político acima da média muito mediana que nos coube em sorte e sabe que oferecer-se em imolação figurada beneficiará, a prazo, as suas ambições, quando o Coelho estiver em vias de extinção e o Seguro tiver morrido, precocemente e não de velho. Há, no entanto que dizer que não deixar solteirona até ao enterro a culpa desta rábula carnavalesca não ilude as responsabilidades de participação no acto vil da opressão partidocrática e labora em instilar um engano de maior amplitude e perigo - sugere que o objecto virado às avessas e o que ele representa contêm alguma dignidade a defender. Digo-o com pena. Nos meus tempos de militar jurei precisamente aquele pano, fazendo das tripas coração e pensando nos Combatentes que por ele morreram abstraindo da representação do regime em prol do simbolismo pátrio. Hoje, porém, nada disso faz sentido, o verdadeiro estandarte é o que nos faz ver as estrelas e nos pertence tanto como a mais vinte e tal. Os emblemas de Portugal mais não servem do que de guiões regionais.
                                                    O Porta-Bandeira, de Harry Jackson

Apita (A)O Comboio

Os símbolos dos vencedores estão em grande velocidade a caminho da pia. Depois da bandeira da República, é o ícone do Progresso em toda a Idade Industrial - o comboio - que desaba na nossa Pátria. Mas que admira? Só o facto de a partidocracia ser tão rebarbativa que insiste em descarrilar o País na totalidade dos sentidos. E como uma via férrea é necessária para assegurar o nosso trem de vida, a que desolado, deserto e triste apeadeiro iremos parar?

Separados à Nascença?

LIÇÃO DE ZOOLOGIA: Paralelos de animais irracionais: repousam vendo o Mundo de pernas para o ar dois tipos de preguiças, o pequeno mamífero e a República Portuguesa, assim como os morcegos-vampiros, sendo que os dois últimos ainda compartilham as características de viverem de sugar outrem e de voarem às cegas. A espécie mencionada no meio, todavia, tem um radar para evitar os obstáculos muito primário e não mereceu ser considerada (e) "protegida". Ademais, também sofre quando se faz luz.

Restituição

Os limites temporais parecem-me estreitos, ou o próprio Dr. Medina poderia evidenciar telhados de vidro. Mas, porque creio nas virtudes e virtualidades do arrependimento, não posso senão esquecê-lo e secundar esta exortação ao julgamento dos responsáveis políticos da liquidação nacional. Se avesso a perseguições físicas sérias, encaro Carreira da mais elementar justiça o confisco dos bens daqueles que delapidaram o erário público.
                                                   Equidade, de Frederick Warren Allen

A Verdade da Mentira

É bem certo que os políticos são escrutinados de modo diferente, consoante os países. Ao debate entre Obama e Romney ligaram um detector de mentiras pela voz, expediente revelado inconclusivo por a maquineta não cumprir no caso de os palradores submetidos a ela acreditarem no que estão a dizer. Cá é que a questão não se põe, é impossível realizar experiências quejandas, o aparelhómetro não pararia de apitar de princípio a fim e tornaria impossível seguir a TV com o som ligado. Não que se perdesse grande coisa, claro.

De Estalo!

A anunciada saída de Sá Pinto da liderança da equipa de futebol do Sporting fornece-me o ensejo para aliviar um poucochinho a abordagem da Política, num fim-de semana a que a détente convém. Apesar de saltar de uma crise para outra, centrar-me-ei num imbróglio linguístico que me atormenta: O Sr. Rui Santos e alguns colegas foram-se referindo ao despedimento, nas fases de previsto e verificado, dando o ex-treinador como «chicoteado». Temi logo o pior. Estaríamos a enveredar pelo exemplo histórico do regime iraquiano de Saddam, em que um filho, Presidente da Federação concernida, mandava açoitar os agentes desportivos que não se mostravam à altura do esperado? Parece evidente que, porque psicológica, a chicotada respeitaria antes à equipa que, com a mudança, se galvanizaria, não ao técnico posto no olho da rua.
O caso tem um antecedente célebre, de anos atrás, creio que em Manuel José, o qual se referira às dificuldades dum colega, admitindo a iminência de ele «ser chicoteado». Mas os treinadores lidam com as tácticas, a responsabilidade pelas palavras é incomensuravelmente maior nos jornalistas, por constituírem o seu campo de acção. Além de que há outro perigo - quem tenha lido o meu post anterior pode, influenciado pela metáfora da saída de sendeiro do "Mister" leonino, pensar que eu sugeria para os criminosos políticos que nos fizeram descambar o emprego de um chicote psicológico... Nada disso, para esses o merecido era mesmo o literal. Em tratando-se do tal estímulo psíquico e algo platónico, quem precisa da chicotada somos nós, que formamos o conjunto da Sociedade Portuguesa nestes tempos do fim.
Ilustrei com Van Amburgh e os Leões, de Sir Henry Landseer

Pau que nasce torto...

Um regime político que atenta contra a Natureza e a História é um enquadramento, no mínimo, impróprio para consumo. Quando é erigido sobre sangue inocente, premeditada e friamente derramado, então, mais que aberração, é abominação.    

O ignóbil trapo



«E o regime está, na verdade, expresso naquele ignóbil trapo que, imposto por uma reduzidíssima minoria de esfarrapados morais, nos serve de bandeira nacional – trapo contrário à heráldica e à estética porque duas cores se justapõem sem intervenção de um metal e porque é a mais feia coisa que se pode inventar em cor. Está ali contudo a alma do republicanismo português – o encarnado do sangue que derramaram e fizeram derramar, o verde da erva de que por direito mental devem alimentar-se.»

Fernando Pessoa

Psicanálise da Comemoração

O terminus da criminosa celebração com oficialidade de pausa laboral suscitou no inconsciente dos inconscientes que nos oprimem a necessidade de se auto-condenarem às galés, com foragido notório e tudo. Mas a admissão foi breve e inconsequente; visando iludir a realidade de se encontrarem no mesmo barco, sobrevieram as plásticas divergências do costume, desta feita incidindo sobre tão lanacaprinianas questões como a da confinação da festarola. Em tempos de ordem, os condenados a remar eram orientados pela chamada à razão do chicote. Para quando estará guardada o devido correctivo, correspondentemente brandido pelo nosso Povo?

O Barrete Que Nos Enfiaram

Como de costume, por importação acéfala de França, onde, bem o sabe Deus, já abundavam os equívocos: pretendendo uma genealogia ilustre, como Napoleão no querer-se descendente de Carlos Magno, ou os Franco-maçons arvorados em "vingadores" dos Templários, para melhor malharem em Trono e Altar, os Revolucionários gauleses diziam ser a barretina vermelha campesina que obrigaram Luís XVI a cingir, durante o assalto às Tulherias, directamente inspirada na dos libertos do Império Romano. Não era exacto, estes  usavam amiúde chapéus cónicos, mas de cores diversas e feitio um pouco diferente. Na Anatólia, sim, foi moda emblemática entre vários povos, mormente os da Frígia, de onde era dado como oriundo o lendário Rei Midas. O mítico talento para criar ouro transmitiu à região uma popularidade impar e terá levado os demais Helenos, cobiçosos, a, generalizando, baptizarem o seu conterrâneo capuz como "Frígio",  com toda a probabilidade por,  à revelia da  racionalidade, esperarem vir a colher de uma cobertura similar. Quem de todo não foi no conto do vigário foi António Sardinha, tratando a peça de vestuário em questão por «barrete grego» em «O VALOR DA RAÇA».
Com os desenvolvimentos eurísticos que testemunhamos, alguém dirá que tais miragens revolucionárias e auríferas não foram premonitoriamente percebidas pelo Tratadista de Monforte? A dose que nos impingiram desta burla, intensificando as desgraças pretéritas do Vintismo e se 1834, surgiu, exactissimamente com o mesmo símbolo, em 5 de Outubro de 1910.

Caldo de Cultura (XXVII)


Podemos dizer que este é que foi o verdadeiro almoço da rentrée. Ao Marcos, ao Paulo, ao João e ao Duarte, juntaram-se dois convidados de peso, desta vez num histórico restaurante nas Avenidas Novas. Para além de sermos novamente brindados com uma visita do Francisco Cabral de Moncada à capital, tivemos pela primeira vez a presença de uma senhora nos nossos almoços. Essa honra coube à Leonor Martins de Carvalho, que assina a coluna "Carteira de Senhora" no blog pessoal do João, às sextas-feiras. Foi um prazer imenso que os Jovens esperam que se repita em breve.

Como sempre, todos levaram um livro e o desafio mantém-se: quem levou o quê?

O Dilema Como Lema

Espantam-se as Pessoas de Boa-Fé pelo facto de os arautos do corte na Despesa terem embicado, sem pudor nem competência, para a obtenção da mais fácil Receita. Que admira? Os políticos do Tempo, como o Deus do mesmo, têm duas caras e, por tal, não conseguem decidir-se sobre em qual delas deva assentar a vergonha...

O Fardo e os Burros

Só não vêem os que estão em campo, quiçá por não quererem ver. Da bancada, todas as vozes responsáveis avisam, carregar mais de impostos os sujeitos passivos que demasiadamente encarnamos nem da perspectiva governamental pode trazer bons resultados. Dir-se-á que não sabem mais. Eu penso, ao invés, que sabem muito. Os observadores, apesar da ambiguidade linguística da formulação, temem que aumentar ainda mais o peso tributário sobre quem está tão mal desencadeie, verdadeiramente, um fenómeno análogo ao da tolerância, em Farmacologia, com a perda do efeito do remédio no organismo em que ele foi continuadamente ministrado. Ora, eu creio coisa diferente, penso que no País dos cursos de papel e lápis, os mandantes olham mais para constatações da Psicologia e confiam em que se verificará um paralelo com o mecanismo de habituação, evaporando-se a resposta ao estímulo, quer dizer, neste caso lúgubre, a revolta. Mas o cemitério da História está cheio de vorazes optimistas, entretanto justiçados. Veremos se o estômago não fará a População reconhecer o seu verdadeiro inimigo, o regime que lhe impõem... nos dois sentidos do termo.
                                         O Colector de Impostos, de Pieter Brueghel O Jovem

Mama...

O folclore desenraizado das chamadas de atenção irritantes pode, neste caso particular, ser substituído pela interpretação simbólica que resgate o acto do espavento a raiar o ridículo. A escalada pelo pequeno empresário italiano Marcelo de Finizzio da altura maior da Basílica de São Pedro aproxima-o do Paraíso na exacta medida em que o afasta do império das multinacionais, burocratas delas serventuários arrogantes para com os fracos e governinhos de cócoras. Ao escolher como suporte o cume físico da mais penetrante Fonte de crítica ao actual estado de coisas, o manifestante alpinista atingiu o verdadeiro topo do Mundo, porque, contrariamente a James Cagney em «WHITE HEAT», os gangsters vão estando no lado oposto...
                                                Escada para o Céu, de Dennis Kotelko

Viagem aos anos 40


Anteontem fui entrevistar uma escritora espanhola que veio a Lisboa e ficou hospedada no Hotel Britânia. Um dos locais no centro da capital, que passa despercebido à maior parte das pessoas, que é um abrigo belo, sóbrio e encantador. Uma verdadeira máquina do tempo que nos transporta à década de 40 do século passado.


A primeira coisa que transmiti à minha entrevistada foi o meu gosto por aquele espaço e a minha admiração pela obra do seu genial autor. Este era o antigo Hotel do Império, projectado pelo arquitecto Cassiano Branco no estilo art déco e inaugurado em Outubro de 1944. O restauro que foi feito cerca de 60 anos depois manteve os pormenores e foi fiel ao original. Um exemplo de como se pode e deve preservar o património arquitectónico urbano no nosso país.

Arte da Fuga

Qualquer motivo vai sendo bom para ver o Dr. Passos pelas costas, mas a sua ausência no fatídico 5 de Outubro que se avizinha suscita uma reflexão: se é certo que (esta) faz o ladrão, não resulta vantagem de maior em trocar os amigos de(a) ocasião por aqueles outros ditos da Coesão. A mesma está pelas ruas doutra amargura, mantém-se, hoje por hoje, alicerçada em fundos apenas a propósito da porta que mais facilmente prepare uma retirada. Os pés de barro já eram, a pobre unidade europeia está pelo fio em que, politicamente falando, se enforcarão os correntes ocupantes do Poder.
                                                      Europa, de Jacek Yerka

A Razão do Freguês

Na ânsia de mostrar serviço, vem o Governo fazer soar as trombetas de uma grande reforma (para compensar a pequenês galopante da que se expressa em pensões), a qual seria a da extinção de freguesias. O ridículo é que já se reformou da função de matador, ou não restariam políticos destes a zumbir por aí. O peso das mais pequenas autarquias é pequeníssimo, comparativamente com outras gorduras que por aí prosperam. Logo, apertamos o cinto nas moeditas e deixamos as notas de quinhentos mal aplicadas multiplicarem-se.
É possível que se pretendesse um efeito propagandístico com algum equívoco fonético: garantindo-se como exterminadores de freguesias, talvez conseguissem uns gramas de receptividade entre os distraídos que julgassem tratar-se da renúncia a cadeias de dependentes que, por favores políticos, o Poder alimenta. As tais que dão, junto do Homem Comum, mau nome ao Poder Local, tudo fazendo por esconder que a eficácia e justeza descentralizante se encontra pervertida não pelo número de divisões do território, mas pela condicionante das listas partidárias que as deformam. Vedem aos partidos a corrida aos cargos inerentes, cingindo-a a nomes sem mácula das facções instituídas e tudo reentrará nos eixos que fizeram a nossa sobrevivência, antes de Mouzinho da Silveira, Cª & Sucessores.

Pormenor


Se Eric Hobsbawm tivesse sido fascista, membro da Legião do Arcanjo São Miguel ou historiador da Action française, será que a imprensa dita de referência estaria hoje a tecer-lhe rasgados e incondicionais elogios?

Igno!

O Doutor Borges é um ignorante. Comprovadamente, das regras mínimas de convivência; de forma certa e segura, da repugnância que o despeito causa. A sua invectiva de «ignorantes», porque dirigida aos Empresários, teria, à partida, a potencialidade mobilizadora do insulto que ferisse os ricos, eterno e triste consolo das massas em tempos de dificuldades. Mas, porque o homem é um ignorante da realidade que o rodeia, não percebe que o sofrimento que o governo de que é guru causa se revela tão agudo que, excepcionalmente, a população não cai na demagogia dos manipuladores de massas e dá a culpa a quem a tem, a Política e respectiva classe, que melhor se define pela falta da mesma, embora noutro sentido.
O frustrado economista poderia, como no passo eciano célebre, ter chamado de «bêbados» todos aqueles que não cantassem hossanas ao planozito que tão triunfalmente congeminara. Mas não era bastante para uns ingratos, certamente, no seu conceito, enriquecidos por acasos ou vias piores, que se recusaram a celebrá-lo! Afinal, a bebedeira passa depressa... Lembrou-se, então de que lhe restavam diplomas e reputação académica. E, vai daí, toca a desabafar, brandindo um epíteto que marcasse a diferença, face à autoridade que ainda pensava ostentar. Esquece que um especialista está (de)pendente de um único fio que o segura. Se ele cede, nada lhe resta. A presente administração, por si tão informada, meteu os pés por todo o lado na previsão da receita fiscal, para não irmos mais longe. Lá foram as certificações do arrogante e impenitente expert sabe Deus para onde, levadas pelo autoclismo do desengano correspondente ao cataclismo que vivemos. Que resta do Dr. Borges? A Ignorância que nem os títulos universitários tornam douta!
A pintura é Do Especialista Para os Conhecedores, de Goran Djurovic´