Se eu achasse que, em sistemas eleiçoeiros, as declarações dos políticos têm mais substância do que a de agradar à audiência que lhes calhe, desde que potencialmente votante, angustiar-me-ia com as declarações do candidato Republicano à Presidência dos EUA, Mitt Romney, dizendo que quase metade dos eleitores se vê como vítimas e está convicta de que deve ser ajudada pelo Estado, «nõo assumindo as suas responsabilidades». O caso é tanto mais estranho porquanto, na sua governação do Massachusetts, o autor do desabafo edificou um arremedo de sistema de saúde público, clamando contra os excessos dos puristas do não-intervencionismo. E alinhou, compreensível mas incoerentemente, com os apoiantes do resgate a bancos à beira da falência, para evitar as convulsões maiores do pânico dos depositantes. Apesar de movimentos populares das bases do Partido lhe torcerem o nariz, ninguém o olhou como aos liberais do Governo que nos aperta, os quais se querem ver livres de toda e mais alguma actividade estatal, sobretudo se lucrativa, mas, concomitantemente, aumentam os impostos! A meu ver, a coisa é simples: se o Estado se demite das funções a que nos habituou, tem de arranjar, muito bem arranjadinha, uma razão para continuar a existir. E inverter os papéis da vítima e do agressor é um demagógico truque oratório que não compensa pelo apreço de pequenas audiências a desconfiança das grandes massas (em sentido outro que o da concentração de riqueza). A levá-lo a sério, seria referida às arbitrariedades da demissão do Poder e não à iniciativa individual que passaria a entender-se a famosa citação de um dos próceres da teorização clássica do Mercado e da Concorrência:
Praça das Preocupações
Se me dissessem que eu acabaria a comentar o trânsito, daria o preditor de tão improvável facto como um doido varrrido. Mas tenho por líquido que o dever de um bloguista, como o de um entrevistado segundo Chesterton, é comentar todos os assuntos de que saiba algo, como aqueles de que perceba coisa nenhuma, E, assim, aventuro-me. Sabendo pela própria boca do Dr.Costa & Colaboradores que previam, no mínimo, maus começos para as voltas duplicadas à Rotunda, assaltou-me uma dúvida que não me parece de rejeitar liminarmente: não teria a republicaníssima edilidade tido em mente prestar um tributo ao local em que numa madrugada triste de 1910 nasceu a forma de Estado em que exulta? Talvez o melhor meio fosse construir a partir do nada, mas, encontrando-se o lugar ocupado por uma quase irremovível bolacha e os orçamentos entrevados pela míngua de cheta, aproveitar uns arruamentos para criar outro círculo, vicioso ao menos pela indexação ao primeiro, é capaz de ter surgido como uma saída. E a memória do entrincheiramento sobreleva a anunciada devoção à mobilidade... De resto, que importa a autarcas convencidos do seu génio que os munícipes automobilizados e os condutores das adjacências sejam usados como cobaias? Afinal, estamos no sítio em que, desde que atiraram para lá o monumento ao Ministro de D. José, a memória dele, pelo anti-jesuitismo e centralização, os deixa com a cabeça a andar à roda!
Cuzados do Delírio
Fazer um filme gratuitamente ofensivo de uma religião é a publicidade mais barata e certeira a que hoje se pode recorrer, pelo que pouca vontade tenho de abordar o pretexto cinematográfico dos atentados e manifestações que, pelo universo Islâmico, se vêm sucedendo, em desafronta a Maomé. O que me importa mais é chamar a atenção para o facto de só nas mentes que o odeiam o Ocidente, por conveniência do desforço, este não ser visto como decaindo sem remissão: ao imaginar um gregarismo vibrante que fizesse o todo conivente com a parte ínfima que congeminou esta fita, os sangrentos ou vocais desafrontadores do Profeta dão a imagem mais irrealista de um hemisfério hostilmente coerente em que cada cabeça não pensa para seu lado, ou seja, o contrário do que constatamos em redor de nós.
É uma concepção delirante que nem na reacção à película encontra sustentação: sem qualquer animosidade, o próprio Governo Alemão se pôs e dispôs a discutir o que fazer com a obra, quando, a um poder menos complexado, nada competiria salvo assegurar que a exibição das imagens não perturbasse a ordem pública. Quanto ao movimento político Pro Deutschland, que, na minha imensa ignorância, de todo desconhecia, de igual forna resvala para o declínio geral, ao fazer tábua rasa da História, na vertente da aliança privilegiada que o passado Nacionalista germânico estabeleceu com líderes da Comunidade Maometana, a começar pelo Grande Mufti de Jerusalém. Ninguém escapa. Será preciso ser primário para assegurar vitalidade?
Achei sugestivo ilustrar com Vingança, de Jogoku Dayu
Achei sugestivo ilustrar com Vingança, de Jogoku Dayu
As Cores do Paquiderme
Cesse o entusiasmo com o que a multidão canta! É, por certo, bom ver que as Pessoas tentam vencer a apatia que as trouxe à fossa onde se agitam. Mas indignarem-se em desfile contra o Governo troikado, por se assemelhar demasiado aos protestos contra o Socratismo em estado terminal, a breve trecho revelará ser este mar de gente triste e coerentemente assimilável às marés que, ciclo após ciclo, enchem e vazam, trazendo mais do mesmo. Só uma verdadeira conjugação de actos que rompa com o carrossel dos partidos na barraca da governação obviará à irrelevância dos protestos emblematizados por bombas de fumo, os quais não passam de fumaça, talvez pelo muito que todos estejamos a fumegar. De igual modo, a importação da macabra tendência para atear-se fogo como protesto é duplamente lúgubre: não é preciso tanto literalismo para sublinhar que todos estamos a arder e tem o perigo de, desviando as atenções, nem chamuscar mais um naipe de políticos doutra forma sobejamente queimados.
O problema reside em o revezamento rotineiro das facções encartadas no Poder ter vindo progressivamente a assentar no consenso sem senso de que a População é o verdadeiro elefante branco, custoso de manter e, fora das cabinas de voto, inútill aos mandantes. Um caso de Daltonismo de enciclopédia, porque, desgraçadamente, o que vamos sendo é um gigantesco elefante cor-de-rosa, congeminado pelas mentes diminuídas de uma classe política ébria de coerção inclemente e incapaz de reparar que o contínuo abuso da autoridade, mais do que a escondida ilegitimidade dela, a desautorizou de todo. Compete à justa medida da nossa revolta conduzir os protagonistas e cúmplices desta tirania à persistente ressaca que se chama RESPONSABILIDADE.
A imagem é O Rejuvenescimento do Elefante Branco, de Velika Janceva
Do Sagrado ao Sacrílego
Ontem, na Sic Notícias, Maria de Belém Roseira chamava correctamente a atenção para um discurso em 1962, de Veiga de Macedo, Ministro das Corporações de Salazar, onde se reiterava a impossibilidade de afectar os descontos dos Trabalhadores para a Previdência a qualquer outro fim, por «ser sagrado esse dinheiro ganho por eles com o seu suor».
É de louvar a perscrutação do Passado, para reanimar noções consensuais sob fogo cerrado das sanguessugas ministeriais que chupam os menos defendidos, com objectivos de equilíbrio financeiro. Mas a coerência manda que enderecemos o olhar ainda mais para trás, para abarcarmos plenamente a razão da insensibilidade governativa do sistema ao que parecia adquirido como intocável. Nada como as palavras de um Papa do Século XV, Eneas Silvio Piccolomini (futuro Pio II), que, antes de ascender ao Trono Pontifício, já pontificava; «Nas repúblicas não se respeita a honra..., mas o lucro. Debaixo de um governo popular nada é sagrado ou santo». Está explicada a empresa de Gaspar & Cª
Este País Não é Para Velhos
Uma traumatizante razão biográfica faz com que em mim constate, passados 22 anos, alguma antipatia persistente para com a Dr.ª Manuela Ferreira Leite. O que não me impede de com ela estar em total e absoluta concordância quando denuncia como logro intolerável a infame diminuição das retribuições dos Pensionistas que descontaram uma vida inteira na esperança cada vez mais infirmada de escaparem à miséria. A insensibilidade imbecil destes governantes escolhidos pelo Povo traz-me à lembrança uma história que já contei na blogosfera, a do ancião da Grécia Antiga que procurava inutilmente lugar nas bancadas do recinto onde os jogos se disputavam, até que chegou à parte ocupada pela claque Espartana, onde todos os jovens e muitos dos de meia idade se levantaram para lhe dar o lugar, perante a ovação dos demais espectadores. Terá então exclamado o Beneficiário: «Todos os Helenos conhecem o Bem, mas só os Lacedemónios o praticam!». Da mesma forma, os ocupantes do Poder em funções, sempre cheios de boas palavras para com a dignificação da Terceira Idade, mas sonegando os meios que permitam concretizá-la, ao menos um poucochinho. Temo que seja mais que incompetência aliada a voracidade fiscal: pressinto neles uma raiva inconsciente contra a maior longevidade, que faz mal às Finanças, com os cofres públicos a gastarem mais e deixando nas ruas da amargura a Segurança Social. Pode ser que um dia uma sucessão vingadora os prive das benesses de que espoliaram os outros. Mas isso não me alegra, pela abrangência fatal das tributações que não permite isolar os responsáveis. Resta a hipótese de ao terrível peso da secura dos muitos anos virem a juntar a tortura de algum remorso redentor capaz de os fazer entender que velhos são os trapos é adágio bem contrário à estulta (ainda que abafada) conclusão "os velhos são trapos". Para que ao menos tenham ideia da lastimável condição dos Gerontes, penosa mesmo para os que amealharem do poleiro para o Futuro, fica a genialidade comovedora de Jacques Brel, com «LES VIEUX»:
Les vieux ne parlent plus ou alors seulement parfois du bout des yeux
Même riches ils sont pauvres, ils n´ont plus d´illusions et n´ont qu´un cœur pour deux
Chez eux ça sent le thym, le propre, la lavande et le verbe d´antan
Que l´on vive à Paris on vit tous en province quand on vit trop longtemps
Est-ce d´avoir trop ri que leur voix se lézarde quand ils parlent d´hier
Et d´avoir trop pleuré que des larmes encore leur perlent aux paupières?
Et s´ils tremblent un peu est-ce de voir vieillir la pendule d´argent
Qui ronronne au salon, qui dit oui qui dit non, qui dit : je vous attends?
Les vieux ne rêvent plus, leurs livres s´ensommeillent, leurs pianos sont fermés
Le petit chat est mort, le muscat du dimanche ne les fait plus chanter
Les vieux ne bougent plus, leurs gestes ont trop de rides, leur monde est trop petit
Du lit à la fenêtre, puis du lit au fauteuil et puis du lit au lit
Et s´ils sortent encore bras dessus, bras dessous, tout habillés de raide
C´est pour suivre au soleil l´enterrement d´un plus vieux, l´enterrement d´une plus laide Et le temps d´un sanglot, oublier toute une heure la pendule d´argent
Qui ronronne au salon, qui dit oui qui dit non, et puis qui les attend
Les vieux ne meurent pasils s´endorment un jour et dorment trop longtemps
Ils se tiennent la main, ils ont peur de se perdre et se perdent pourtant
Et l´autre reste là, le meilleur ou le pire, le doux ou le sévère
Cela n´importe pas, celui des deux qui reste se retrouve en enfer
Vous le verrez peut-être, vous la verrez parfois en pluie et en chagrin
Traverser le présent en s´excusant déjà de n´être pas plus loin
Et fuir devant vous une dernière fois la pendule d´argent
Qui ronronne au salon, qui dit oui qui dit non, qui leur dit : je t´attends
Qui ronronne au salon, qui dit oui qui dit non et puis qui nous attend.
As Tintas da História
Alegorias do Mau e do Bom Governo, pelos Irmãos Lorenzetti: o primeiro traduzido na divisão das facções e dos partidos, orientado pela Avareza, o Orgulho e a Vã glória da Vanglória:
Em contrapartida, o ideal, em falta, aquele exercido por um Rei informado pela Sabedoria, a Justiça e a Concórdia:
Não, não foi um documento do Portugal de Hoje, apenas um retrato da Florença e Siena dos Sécs. XIII-XIV. Mas inequivocamente premonitório do que temos de suportar hic et nunc. Nada há de novo debaixo do Sol!
Choque de civilizações
Em 2011 saiu uma segunda edição revista e aumentada que vai até às recentes revoluções árabes, passando também pelos despertares africanos, o desafio migratório mundial e o fim de Osama Bin Laden, enriquecendo esta obra essencial para compreender o nosso mundo e as lutas implacáveis das relações internacionais.
Ideias incorrectas
O caso é praticamente desconhecido fora de França. Em 2009, Aymeric Chauprade, um eminente geopolitólogo, foi afastado das suas funções docentes na Escola de Guerra por razões políticas, depois de ter publicado um livro onde refere algumas teorias que contestam a versão oficial do 11 de Setembro.
Doutorado em Ciência Política, Aymeric Chauprade é um geopolitólogo francês, discípulo de François Thual, responsável pelo nascimento de uma “nova escola” de Geopolítica em França. Ao longo da sua carreira tem publicado diversas obras, colaborado em várias revistas, sendo director da “Revue française de géopolitique”, e ensinado em várias universidades. Entre 1999 e 2009 foi professor no Collège interarmées de defense (CID), a antiga Escola de Guerra, até ser afastado pelo que escreveu.
No seu livro “Chronique du choc des civilisations”, Chauprade dedica um capítulo aos diferentes argumentos e teorias que contestam a versão oficial dos atentados de 11 de Setembro. Na sequência, jornalista Jean Guisnel publica um artigo no jornal “Le Point” criticando-o pelo que escreveu e duvidando da sua autoridade científica. Na sequência desta “denúncia”, o ministro da Defesa, Hervé Morin, decidiu afastar Chauprade do CID. Era a altura do segundo Governo de François Fillon e a França alterara a sua postura internacional para um atlantismo pró-EUA. Chauprade apresentou queixa contra o jornal e o ministro e o tribunal acabou por dar-lhe razão. Para além de vencer a batalha judicial, Chauprade contou sempre com o apoio dos seus alunos e mesmo do director do CID durante a controvérsia, que afirmaram que ele “nunca havia feito proselitismo nas aulas”.
Mesmo assim, o caso não deixa de ser uma mancha num sistema democrático, onde um ministro decidiu cercear a liberdade de um professor e investigador reputado.
Doutorado em Ciência Política, Aymeric Chauprade é um geopolitólogo francês, discípulo de François Thual, responsável pelo nascimento de uma “nova escola” de Geopolítica em França. Ao longo da sua carreira tem publicado diversas obras, colaborado em várias revistas, sendo director da “Revue française de géopolitique”, e ensinado em várias universidades. Entre 1999 e 2009 foi professor no Collège interarmées de defense (CID), a antiga Escola de Guerra, até ser afastado pelo que escreveu.
No seu livro “Chronique du choc des civilisations”, Chauprade dedica um capítulo aos diferentes argumentos e teorias que contestam a versão oficial dos atentados de 11 de Setembro. Na sequência, jornalista Jean Guisnel publica um artigo no jornal “Le Point” criticando-o pelo que escreveu e duvidando da sua autoridade científica. Na sequência desta “denúncia”, o ministro da Defesa, Hervé Morin, decidiu afastar Chauprade do CID. Era a altura do segundo Governo de François Fillon e a França alterara a sua postura internacional para um atlantismo pró-EUA. Chauprade apresentou queixa contra o jornal e o ministro e o tribunal acabou por dar-lhe razão. Para além de vencer a batalha judicial, Chauprade contou sempre com o apoio dos seus alunos e mesmo do director do CID durante a controvérsia, que afirmaram que ele “nunca havia feito proselitismo nas aulas”.
Mesmo assim, o caso não deixa de ser uma mancha num sistema democrático, onde um ministro decidiu cercear a liberdade de um professor e investigador reputado.
Foram Eles...
A vida, dificultada pelas más acções dos eleitos, traz à mole dos eleitores a depressiva raiva, por terem sido enganados. Estranho é que seja uma tomada de consciência hiperselectiva e sem critério, apenas incidindo sobre políticas específicas, exceptuando da premente conclusão a sempre impingida «bondade do regime». Um despertar consequente deveria trazer às pessoas a noção de que, tendo sido enganadas por tantos e por tanto tempo, elas, votantes, são completamente incompetentes para, dentro das peias em que as prendem, optar. Mas culpar-se a si, está quieto! E assim, numa fuga para a frente da cegueira da fé no sistema, histericamernte espernearão até que, introduzindo a papeleta, com alegria se precipitem na próxima burla, quais otários impenitentes.
A imagem é a do castigo do Orgulho, nos frescos de O Juízo Final, na Catedral de Santa Cecília, em Albi, Autor desconhecido.
Do Meio ao Fim
Prossegue em bom ritmo a demolição do Hotel Atlântico, sobre o Paredão, a alturas do Monte Estoril. Um indubitável mamarracho que, contudo, me deixa saudades pelo hábito de o ver lá. Preferiria que deixasssem desimpedidas as vistas para o mar dos chalets do outro lado da Marginal, mas o projecto do Arquitecto Paciência parece-me irrecusável melhoria estética. Só que há a História. E essa é a de décadas a fio integrando o charme estorilense, com as crónicas da função de quartel-general da espionagem Alemã à mistura e a lenda da passagem subterrânea desembocando no mar para recolher os passageiros das balsas que os submarinos largavam...
Quando envelhecemos, a cada derrubado alvo, ex-certeza da tranquila confiança que nos trazia pontos de referência repousantes, é um bocadinho de nós que morre, para lá das retóricas. Até que cheguemos à idade em que olhemos com indiferença e sem pena os desaparecimentos que pressintamos como guardas-avançadas dos nosso.
Karmas e Varões Assinalados
Dos noticiários às comunicações oficiais, tudo nos relembra que fomos arrastados para uma dança, da modalidade macabra, para mais. A dimensão dela, todavia, só nos é dada pelas leis da oferta e da procura, numa conjugação com a sensibilidade Feminina - a outrora pujantíssima actividade em torno dos varões encontra-se pelas ruas da amargura, em preços de saldo, sem ao menos a desculpa do aumento do IVA para 23%:
Na massa, entendida por Gentes como por Valores, isto é que vai uma crise, pura e dura! Estamos fadados para constatar que não há já Varões como antigamente!
Ó da Guarda!
A verdade dói muito, ao ponto de se não suportar a sátira. Os nossos Colegas do «Estado Sentido» reproduziram a pantomina do funeral da Pátria que fez o Poder moribundo manifestar-se no pouco que lhe resta, demitindo uma alta patente da força policial que carrega no nome o opróbrio da República, com a justificação ridícula de não ter impedido subordinados seus de participarem na encenação.
Mais do que a ultra-sensibilidade à flor da pele incapaz de conviver com a evidência de estar iminente para os seus restos mortais um lindo enterro, este estrebuchar é uma tentativa patética de prova de vida por um morto vivo que confunde a (co)acção com vitalidade, quando somente exterioriza um estertor. Nem paz se pode desejar a uma alma que não existe. Mas a Justiça não exigiria aos participantes no cortejo fúnebre verdadeiro que a todos nos toca uma retirada mais radical ainda do que a imposta aos responsáveis pela sua representação humorística?
A imagem sombria é Enterro de Verão, de Ross Braught
A Maralha de Adriano
Sem prévia intenção, sigo a entrevista de Adriano Moreira à RTP1. Poucas pessoas vi concitando juízos tão díspares entre os observadores do Poder e tão unânimes entre os detentores dele na vigência que nos desola. Aqui, apareceu nas roupagens de Elder Statesman, com a consequência tanto mais eficaz quanto pouco ostensiva de despromover, por comparação, os actores da vida pública em torno de si. Falou de dois «muros», ou de duas «quedas» deles, a propósito da revelação que teriam sido, para ele, o contacto com a legislação colonial em vigor, mas largamente herdada de sistemas anteriores, e os mecanismos de discussão nos areópagos das sociedades eleiçoeiras. Mas o essencial não esteve nessas derrubadas muralhas metafóricas, antes na clivagem pela qualidade que estabelece entre si e os outros. Com os próceres abrilísticos a coisa era relativamente fácil. Mas, abordando Salazar, debitou mais do mesmo, com maior subtileza aparente e banalidade substancial - insinuou, em paralelo com os velhos lugares comuns camuflados pela memorialística da proximidade, que o Presidente do Conselho não se retirara a tempo e que o seu maior defeito seria ser um homem... fora do seu Tempo.
Faz-me espécie como um Homem inteligente consegue encarreirar com os que consideram um defeito tentar moldar a sua época à concepção intemporal do Bem que perfilhem, em vez de se adaptarem às conformações coevas. Mas nisso se resume grande parte da solução do "enigma" do Entrevistado e da sua adesão ao sistema partidocrático. A razão mais funda, todavia, dever-se-á encontrar na conjugação com a anuência acrítica às pontuais posições da Igreja, lamentando a independência sem hostilidade dos Fiéis que isentam a Política da submissão exaustiva ao Ofício de apascentar as ovelhas. É uma suprema incompreensão, caso não seja hostilidade premeditada: se a Santa Madre garante a sua Dimensão à custa dos aggiornamentos no que lhe não parece essencial, a Governação por critérios diversos do oportunismo implica a aposta do tudo ou nada que não transija com o inaceitável, ainda que momentaneamente forte e dominante. Nessa medida, é em desdenhados por Adriano, apesar dos seus invulgares trato e capacidade intelectual, que se refugia a honra dos homens públicos, a superioridade que não quer ou não pode reconhecer.
A imagem é A Deriva (Drift) da Memória, de Richard Baxter. Também quadraria bem o título Portugal.
O Meu Setembrismo
Num dos seus melhores momentos, Woody Allen deu-nos Setembro como um «mês estranho». Porventura o será, pela ressaca das digressões estivais ainda presentes suficientemente para não engrenarmos por completo no frenesi sem chama das rotinas impostas nas metrópoles actuais & suas periferias. Para quem, como eu, não é receptivo aos hábitos dos veraneantes a sublinhar o calor em traços grossos revela-se um alívio. Mas penso, com melancolia, nas Crianças e Adolescentes de hoje, privadas da fruição inteira desse mês que, no meu tempo, integrava por completo as Férias Grandes e hoje lhes é parcialmente sonegado às ditas, "encolhidas". A civilização estava em conviver de novo com os Amigos de sempre, retornados cheios de descobertas para a troca, após o Agosto das migrações, sem a ameaça escolar impendendo sobre nós. E em voltar a comer o marisco evitado nos meses sem R. Como em tornar a ver futebol, com plantéis definidos há muito e a certeza de largar a aprendizagem que importava, voltando à opressão do ensino enquadrado, só bem entrados em Outubro. Foi um Mundo que se perdeu. Resta pois a volta ao Passado com a ajuda inestimável do inimitável Gilbert Bécaud.
Les oliviers baissent les bras
Les raisins rougissent du nez
Et le sable est devenu froid
Oh blanc soleil
Maitres baigneurs et saisonniers
Retournent à leurs vrais métiers
Et les santons seront sculptés
Avant Noël
C'est en septembre
Quand les voiliers sont dévoilés
Et que la plage, tremblent sous l'ombre
D'un automne débronzé
C'est en septembre
Que l'on peut vivre pour de vrai
En été mon pays à moi
En été c'est n'importe quoi
Les caravanes le camping-gaz
Au grand soleil
La grande foire aux illusions
Les raisins rougissent du nez
Et le sable est devenu froid
Oh blanc soleil
Maitres baigneurs et saisonniers
Retournent à leurs vrais métiers
Et les santons seront sculptés
Avant Noël
C'est en septembre
Quand les voiliers sont dévoilés
Et que la plage, tremblent sous l'ombre
D'un automne débronzé
C'est en septembre
Que l'on peut vivre pour de vrai
En été mon pays à moi
En été c'est n'importe quoi
Les caravanes le camping-gaz
Au grand soleil
La grande foire aux illusions
Les slips trop courts, les shorts trop longs
Les hollandaises et leurs melons
De cavaillon
C'est en septembre
Quand l'été remet ses souliers
Et que la plage est comme un ventre
Que personne n'a touché
C'est en septembre
Que mon pays peut respirer
Pays de mes jeunes années
Là où mon père est enterré
Mon école était chauffée
Au grand soleil
Au mois de mai, moi je m'en vais
Et je te laisse aux étrangers
Pour aller faire l'étranger moi-même
Sous d'autres ciels
Mais en septembre
Quand je reviens où je suis né
Et que ma plage me reconnaît
Ouvre des bras de fiancée
C'est en septembre
Que je me fais la bonne année
Les hollandaises et leurs melons
De cavaillon
C'est en septembre
Quand l'été remet ses souliers
Et que la plage est comme un ventre
Que personne n'a touché
C'est en septembre
Que mon pays peut respirer
Pays de mes jeunes années
Là où mon père est enterré
Mon école était chauffée
Au grand soleil
Au mois de mai, moi je m'en vais
Et je te laisse aux étrangers
Pour aller faire l'étranger moi-même
Sous d'autres ciels
Mais en septembre
Quand je reviens où je suis né
Et que ma plage me reconnaît
Ouvre des bras de fiancée
C'est en septembre
Que je me fais la bonne année
La Crème de La Crème
Recorrer a um creme para dar e dar-se a ilusão da retoma da virgindade pode surpreender muito Boa Gente, mas não o cínico e atento sujeito que assina este postal. A imagem pública do estado incólome há muito que era mais questão de cosmética do que de verificabilidade efectiva. E, com as mudanças de costumes, apesar dos revivalismos da Luisiana, tornou-se um assunto por demais viscoso.
Que poderei, pois, acrescentar? Talvez que a culpa do sucesso deste produto de beleza deva a emanações do sucesso Pop «LIKE A VIRGIN, já que o "como" transfere o âmago da questão para a aparência, em prejuízo da biografia... Uma ridicularia comercial, é o que é. A desejabilidade que lhe apresentam como substrato estará por certo muito longe da Felicidade da passagem pela«Porta Estreita» da mensagem Évangélica, pelo que não passa dum retorno gelatinoso de mitos do tipo "Fonte da Juventude". E aqui, sim, sociologicamente, esta comercialização recente dá-nos matéria de reflexão: baptizar um inoculador de virgindade como «18 Again», só será intelígível na Índia ou arredores, a precocidade das adolescentes a Oeste tornaria incompreensível a alusão! Bem dizia Kipling que «O Leste é o Leste, o Oeste é o Oeste e os dois jamais se encontrarão...». A imagem é Handpicked, de Glen Tarnovski, que gostaria de traduzir por Escolhida a Dedo...
A Prússia e a França
Para começar, Jean-François Gautier recorda-nos que quando Voltaire chegou a Berlim, descobriu que aí se falava francês. Era a língua da cultura da altura e sobre é sobre a relação e as influências mútuas nos dois países que reflecte no artigo “A Prússia na escola da França”. De seguida, Henry Bogdan dá-nos uma perspectiva histórica das origens da Prússia, partindo dos cavaleiros teutónicos. Para conhecermos melhor quem foi Frederico, o Grande e qual a sua relação com a Alemanha, podemos ler a entrevista com Sven Externbrink. De referir, ainda, os artigos “A Prússia depois de Iena”, de Jean-Paul Bled, “Do patriotismo prussiano ao nacionalismo alemão”, de Thierry Buron, e a cronologia que traça uma breve História da Prússia. Mas o destaque vai para o excelente artigo de Dominique Venner sobre “O eterno mito prussiano”.
Para além do ‘dossier’, podemos ainda ler a entrevista com o historiador da guerra Henri de Wailly e vários artigos, dos quais se referem: um testemunho de uma francesa da Argélia sobre a Igreja e os franceses da Argélia, uma reflexão sobre o filósofo francês Michel Onfray, por Laurent Dartez, e a recordação da Batalhas das Navas de Tolosa, por Philippe Conrad. Sobre este último artigo, apesar de estar bem feito, deve dizer-se que não se compreende porque não refere a presença das tropas portuguesas que participaram na batalha. No entanto, na cronologia das grandes etapas da Reconquista, feita pelo mesmo autor e que acompanha o artigo, são referidos alguns momentos-chave ocorridos em território nacional, a saber: a Batalha de Ourique, a Reconquista de Lisboa e a tomada do Algarve.
Por fim, lugar ainda para ficar a saber mais sobre um assunto bastante actual, com o artigo de Annie Laurent sobre as causas históricas da crise síria. Como sempre, uma óptima revista a não perder.
Verdade Nua e Crua
Como é perigosa a rendição incondicional à literalidade! Até agora, o caso mais emblemático era o de uma comunidade religiosa muito minoritária que, tomando na sua imediata dimensão a passagem de S. Marcos onde se ordena que brandam serpentes, realizava umas reuniões rituais estranhas, com os participantes obedientemente apertando cobras vivas entre as mãos. Agora, temos o problema da Imprensa. Recomendaram-lhes que, sempre que os intereses hipócritas os mandassem calar em assuntos sérios e inconvenientes, gritassem «o Rei vai nu!». Pois estas luminárias pensaram que era para tomar à letra o conselho e, na indisponibilidade de um Soberano para o strip, alegremente chafurdaram nas brincadeiras atrevidas da juventude de um Príncipe, apregoando-lhe essa pouco alegórica nudez. Que admira que os súbditos não hajam sido sensíveis à proeza denunciante dos pseudo-jornalistas?
A Indefinição do Artigo
O passamento de Neil Armstrong reavivou-nos a memória sobre o Herói, uma das pessoas menos aluadas que saltaram para a ribalta, apesar da circunstância com que teve de conviver e o celebrizou. A correcção que, insistentemente, aduziu, de ter transmitido a impressão de ser o seu um pequeno passo para um homem e não, como passou à História, para o Homem, revela a renitência em, para lá dos aparelhos de ponta que pilotou, se deixar transportar pela embriaguez à base da própria glória. Ao recusar a personificação da Espécie no seu acto, introduziu uma travagem à sede de identificação com a Excelência e a superação de limites a que a maior parte dos humanos dispondo de tempo e interesse sucumbem. A mitificação generosa da viagem lunar havia, de resto, sido preparada pelos pioneiros do desembarque no satélite saídos da concepção de Hergé, os quais conviverão muito melhor com os holofotes e o simbolismo, estando, como estão, isentos de envelhecer e morrer. Já há quem reclame uma sepultura lunar para o Insigne Desaparecido. É estimável como projecto de homenagem, mas seria uma completa incongruência com a personalidade do Comandante da Apolo 11. «Cinzas às cinzas, Pó ao pó», como qualquer forma de inumação terrena, será muito mais consentânea com a essência cíclica de parte da condição que, dos feitos ao fim, é a dos nossos Melhores.
As Quatro Penas do Pavão
No momento em que se aguarda a sentença de Breivik, cumpre olhar a loucura envolvente nas penas em compita. O Gabarola homicida pede para si a Morte, que a sociedade mentalmente incapaz em que vive não lhe pode dar. Restam 21 anos de férias prisionais, com cela especial e espaço acrescentado, a mesma pena prolongada por razões de segurança e o internamento psiquiátrico. A primeira é fruto da alienação dos penalistas que, na Escandinávia como neste Jardim à beira-mar plantado, vamos tendo de aturar. Dar vinte anitos quase redondos a um premeditadíssimo assassino em massa é sofrer da doença psíquica que faz não reconhecer a proporcionalidade da culpa. Estender-lhe o encarceramento não cabe em qualquer lógica: a triste vedeta deste julgamento está satisfeitíssima da vida com os resultados que alcançou e não há sinais de que pretenda acrescentar currículo. Logo, só pode ser sancionado pelo Passado, não por representar perigo para o Futuro. Por fim, a loucura de declarar o arguido louco. Estamos, verdadeiramente, perante o caso em que o mentalmente incapaz considera os outros "os verdadeiros malucos". No caso, uma sociedade inepta no que toca a lidar com o crime mais repelente e que, para lá da verborreia televisiva, no íntimo, considera pior a inflicção de penas do que os factos que lhes dão azo, sem perceber que não é igual nem parecido despachar criminoso encartado ou matar a frio inocentes. 

Mais do que o expediente rotineiro de defensores sem capacidade de maior, a invocação da loucura faz aqui de consenso para qualificar o Mal com que se não consegue conviver, por partir do preconceito apatetado de que um membro da espécie não pode ser desumano a partir de um certo ponto. Ou seja, uma consagração da insanidade no caso vertente seria um meio tosco de a comunidade se tranquilizar quanto a uma inocência de que está desprovida. Só por isso se abstrai de que o estado de saúde cerebral do criminoso apenas seria relevante se o fizesse incapaz de reconhecer a distinção entre o Bem e o Mal, que, mesmo para as concepções mais laicas e indiferentistas, subsiste como pedra angular da colectividade. Quando pôs a bomba em Oslo o maçon homicida conseguiu muito mais do que matar pessoas, criar uma manobra de diversão e atacar o Governo: fez explodir a ficção de Justiça que nos rodeia. A pintura é de David Teniers o Jovem, A Remoção Cirúrgica da Pedra da Loucura
Até à Vista, Comandante!
O Comandante Vicente de Moura, Pessoa de afabilidade exemplar com quem, há uns anos, tive a honra de trocar breves palavras, vai largar o leme das participações olímpicas lusas e sugere, para aumentar a dimensão do Desporto nacional, uma «Mocidade Portuguesa despolitizada». Enfim, não posso concordar com a perspectiva de uma reedição asséptica desse grande enquadramento juvenil vir a trazer-nos algo de bom: a grandeza e importância do legado educativo dela estavam no cimentar da camaradagem e unidade acima de f(r)acções infra-nacionais, precisamente o contrário do que o espírito de concorrência, quer na Economia quer nas competições profissionalizadas, pretende implementar. O Regime que nos emagrece não tem lugar para um referencial gregário, salvo na embriaguês efémera das fugazes lides das selecções. Tendo-se extinto também o Remo da MP, não sobra uma alternativa de tão grata memória para remar contra a maré.
Mais Tintin na História
No ano passado, a revista francesa “Historia” e o jornal “Le Point” publicaram um número especial, em formato de álbum, onde são retratados momentos-chave do século XX que inspiraram a obra de Hergé e a criação de várias das personagens que habitam no universo de um dos mais famosos e apreciados heróis da banda desenhada. Talvez motivado pelo grande sucesso deste lançamento, os editores decidiram repetir a dose e publicar “Les personnages de Tintin dans l'histoire vol. 2” (encadernado, 130 páginas, 10,90 euros). Este segundo volume está disponível nas bancas portuguesas, reúne como autores vários historiadores, académicos e jornalistas e está dividido em capítulos que associam cada aventura de Tintin com uma personagem e um artigo sobre o período histórico no qual se insere.
Das dez personagens escolhidas, vejamos alguns exemplos. O primeiro álbum tratado é “Tintin na América”, e a personagem de Al Capone, inspirada na proibição do álcool nos EUA. Já em “A Estrela Misteriosa”, e escolhido é Philippulus e o tema são as viagens ao Pólo Norte. Depois, em “As Sete Bolas de Cristal”, descobrimos Bergamotte e viajamos ao Império Inca. Em “Objectivo Lua”, ficamos a conhecer Wolff e a saber mais sobre o projecto de conquista espacial alemã que nasceu nos anos 30. Mas o principal destaque vai naturalmente para o português Senhor Oliveira da Figueira, associado à aventura “Carvão no Porão”.
Este livro inclui ainda um artigo sobre a arte em Hergé e outro sobre o ‘affaire’ Legros. Por fim, os interessados em aprofundar os temas tratados podem recorrer às duas breves bibliografias, uma com obras sobre os momentos históricos referidos e outra sobre o mundo de Tintin.
Bastante interessante para os entusiastas de um dos nomes maiores da banda desenhada franco-belga, este é mais um álbum obrigatório na colecção de qualquer tintinófilo.
Poema para hoje
Rosácea d'Aljubarrota
À vista do Mosteiro
da Batalha
— há conquista
que resista,
há lá guerreiro
que valha?!...
... Deixai, então, que vos fale
(— porque me dá cuidado
e por mais nada!)
d'aqueloutro Portugal
talhado à espada
e condenado, afinal,
a não ser nada... —
... Sala d'aula do Além,
anfiteatro do Mar,
— que ninguém, que já ninguém
hoje vem
contemplar...
Rodrigo Emílio
in "Poemas de Braço ao Alto", 1982.
Cassiano
Uma óptima surpresa foi encontrar hoje na página principal do Google a imagem do Portugal dos Pequenitos, a propósito do aniversário de Cassiano Branco.
Ainda na semana passada passei em frente ao Éden e lembrei-me do que escrevi a propósito de um livro sobre este arquitecto genial: «Pena que tenham escolhido para a capa uma imagem (talvez demonstrativa daquilo a que chegámos) do Éden Teatro "recuperado". Um abastardamento que passou por pôr palmeiras no interior. Algo a fazer lembrar o "Mundo Perdido"... Só falta um pterodáctilo a voar!»
Heróis da piscina, nobre povo
Se Michael Phelps fosse português (género Obikwelu,
versão caucasiana), existiriam por cá ruas Michael Phelps, avenidas Michael
Phelps e alamedas Michael Phelps, para além de praças, esplanadas, auditórios,
bibliotecas, cine-teatros, hospitais, ginásios, escolas, pontes e até centros
comerciais (sob a marca registada "Phelpshopping").
Em postais distintos, os bloguistas lusos esfregariam nas
ventas da troika as vitórias do campeão como prova irrefutável do acerto português
e da superioridade de Keynes.
O Presidente da República ver-se-ia obrigado a contratar
mais um assessor de imprensa, por coincidência primo do actual, só para
escrever os comunicados laudatórios. E em cada 10 de Junho seria já o próprio
Phelps a impor as comendas de mérito nos pescoços derreados de tanto mourejador
pela Pátria.
Os jornais divulgariam, com indisfarçável incómodo, os
escândalos da Fundação Michael Phelps, tomada de videirinhos e comissários
políticos. As revistas esquadrinhariam a intimidade do nadador – e Lili
Caneças, campeã olímpica da vida cor-de-rosa, viria em socorro do atleta com
sentença aforística: «Viver a nadar é o contrário de morrer afogado».
Por força da popularidade crescente, o atleta figuraria
no cartaz dos carnavais de Ovar ou Torres Vedras, de bóia e braçadeiras em cima
de um carro de lavoura, como rei do corso.
Um grupo de intelectuais, sempre a farejar o "desenvolvimento" e o "progresso", exigiria em manifesto um tanque de 50
metros por cada freguesia como novo "desígnio nacional".
No parlamento, uma comissão de especialistas discutiria,
com ar solene e solerte, a mudança da própria bandeira: em lugar da esfera
armilar, uma piscina olímpica; em vez das 5 quinas, 8 pistas de natação.
Em séculos de história marítima, nadaríamos assim do
herói de elmo e espada para o herói de calção e touca de banho. O progresso é
acalorado, meus amigos. Não suporta armaduras nem roupa apertada.
A Braços Com os Olímpicos
Na sequência do magnífico postal do BOS que precede, gostava de relembrar alguns dados que poderão esclarecer equívocos comuns em torno dos braços estendidos no Olimpismo. A saudação em si não era conotada, à partida, com uma ideologia. Os Escuteiros usavam-na, como mostra a fotografia de cima; e ainda subsiste em muitos países, nalgumas solenidades militares, como no Juramento de Bandeira, por cá. Já nos EUA, fora instituída, por força da acção de Francis Bellamy ainda no Séc. XIX, como a saudação civil à bandeira, ensinada e exortada nas democratíssimas escolas da Federação. Pode parecer estranho, sabendo-se que nos States aos civis e a militares à paisana ou descobertos também é permitida a continência castrense. Mas há uma razão - não o é em todos os ramos, a Marinha não o consente, logo impunha-se um símbolo de universalidade maior. Só em pleno conflito mundial, em 1942, o Congresso Americano, com puritanismo típico, aprovou resolução formal de a substituir pela mãozinha no coração que, hoje, vemos nos atletas medalhados de tais paragens e da qual temos de suportar a macaqueação por juventudes europeias ignaras e inocentes, que nem desconfiam de o gesto, por cá, ser apanágio de Maçonarias...
No Olimpismo, era a saudação habitual. Em vários Jogos atletas Franceses, Holandeses, Canadianos, entre outros, a adoptaram e ficou mesmo consagrada nos selos oficiais alusivos ao certame de 1924, em Paris. O próprio Jesse Owens se preparava para estender o braço, como lhe haviam ensinado em miúdo, até que algum elemento mais politizado da delegação Norte-Americana lhe sugeriu que, para evitar equívocos, levasse antes a mão à testa, mesmo carecida de pala. Ficou, sobreviva à avalanche do politicamente correcto, a estátua da Saudação Olímpica, pela Escultora Gra Rueb, em homenagem a um membro do Comité Holandês correspondente. Até quando se aguentará num mundo decadente onde, salvo no esbracejar preso a estas insignificâncias, «olímpico/a» passou a crismar o substantivo "indiferença" em vez de, como seria lógico, continuar a qualificar o esforço?
A Carta Olímpica e a extrema-direita
A remadora alemã Nadja Drygalla, após uma reunião com o Comité Olímpico da Alemanha, abandonou a aldeia olímpica depois de a imprensa do seu país ter noticiado que o namorado é militante da extrema-direita. Parece que a ideologia do rapaz põe em causa o compromisso da atleta com a Carta Olímpica.
Nadja Drygalla
Em 1936 os Jogos Olímpicos realizaram-se em Berlim, capital da Alemanha nazi de Adolf Hitler. Já havia Carta Olímpica, porventura em versão nem corrigida nem aumentada. Pela primeira vez a tocha saiu de Atenas para a sede da competição. A chama viajou durante 11 dias até chegar ao estádio de Berlim. Na cerimónia de abertura, Hitler recebeu das mãos de Spyridon Louis, campeão grego da maratona dos Jogos de 1896, um ramo de oliveira colhido em Olímpia.
Hitler e Spyridon Louis
Os jogos berlinenses ficaram marcados pelas técnicas inovadoras de Leni Riefenstahl, o escândalo de Dora Ratjen (a lembrar as mulheres-homens de hoje) e os mitos sobre Jesse Owens. Ao contrário do que costuma ser difundido pela "imprensa de referência", as quatro medalhas de ouro conquistadas pelo atleta norte-americano não causaram o menor engulho ao chanceler alemão. É o próprio Owens quem o confirma na sua autobiografia: "Quando passei pela tribuna do chanceler [Hitler], ele levantou-se e acenou-me com a mão" (The Jesse Owens Story, 1970).
Após os Jogos, Jesse Owens andou mesmo em tournée pela Alemanha, recebido e homenageado em diversas cidades. Fartou-se de dar autógrafos. Mal recebido foi ele no seu próprio país, obrigado a viajar nos bancos traseiros dos autocarros, que os da frente destinavam-se exclusivamente a brancos. Queixava-se Owens que não teve direito a convite para a Casa Branca. Pensava, decerto por ingenuidade, que o edifício fora crismado desse feitio só por causa da cor das paredes. Owens era preto, neto de escravos, considerado impuro para estender a mão ao democrático Franklin D. Roosevelt, que em véspera de eleições não queria ferir as susceptibilidades raciais dos eleitores sulistas.
A forma como Owens conquistou a medalha de ouro na prova de salto em comprimento merece ser contada. Durante a prova de qualificação, o alemão Luz Long, principal adversário de Owens, já tinha a presença na final assegurada. Owens, por seu lado, estava à beira da eliminação, após dois saltos nulos. Foi aí que se deu uma extraordinária manifestação de desportivismo (hoje diz-se fair play). Long abeirou-se de Owens e aconselhou-o a mudar a técnica de salto. Owens concordou e teve sucesso. Resultado? Na final, conquistou aquela que seria a sua quarta medalha de ouro, enquanto Luz ficou em segundo lugar. Saíram da pista juntos, o braço do nazi de olhos azuis por cima dos ombros do negro do Alabama. Por este gesto, Luz Long recebeu a título póstumo a medalha Pierre de Coubertin, concedida pelo Comité Olímpico Internacional a atletas que demonstrem um elevado desportivismo e espírito olímpico. Morreu em combate na II Guerra Mundial, vítima dos bombardeamentos dos Aliados.
Jesse Owens no pódio, vencedor da prova de salto em comprimento. De braço ao alto, Luz Long. Nos nossos dias o atleta alemão seria certamente afastado dos Jogos.
Pierre de Coubertin (conhecido como barão de Coubertin), pedagogo e historiador francês, foi o fundador dos Jogos Olímpicos da era moderna. As suas ideias sobre cultura física abonavam o programa nacional-socialista. Asseverava ele: "Há duas raças distintas: a do homem de olhar franco, com músculos fortes, com desenvolvimento assegurado, e a do doentio, de semblante resignado e humilde, e ar vencido". E de modo mais impressivo, registava: "Cinzelando o seu corpo pelo exercício, como faz um escultor numa estátua, o atleta antigo adorava os deuses. Fazendo o mesmo, o atleta moderno exalta a sua pátria, a sua raça, a sua bandeira".
Aos detractores da organização berlinense, respondeu o barão no jornal L’Auto, a 4 de Setembro de 1936: "O ideal olímpico foi sacrificado à propaganda? Isso é inteiramente falso. Os Jogos de Berlim serviram magnificamente o ideal olímpico". O francês manteve-se como Presidente Honorário do Comité Olímpico Internacional até à sua morte, em 1937. Talvez hoje o pobre Coubertin, tal como Luz Long, fosse banido da competição que ele próprio recriou. Não conheço o traçado actual da Carta Olímpica, porventura grafado por Vital Moreira ou outro jurista de alta competição. Provavelmente o notável documento já consagra a via para o socialismo, o antifascismo e o estabelecimento de uma sociedade sem classes. A ser assim, é a própria Carta que nega o espírito olímpico.
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