Mais Tintin na História
No ano passado, a revista francesa “Historia” e o jornal “Le Point” publicaram um número especial, em formato de álbum, onde são retratados momentos-chave do século XX que inspiraram a obra de Hergé e a criação de várias das personagens que habitam no universo de um dos mais famosos e apreciados heróis da banda desenhada. Talvez motivado pelo grande sucesso deste lançamento, os editores decidiram repetir a dose e publicar “Les personnages de Tintin dans l'histoire vol. 2” (encadernado, 130 páginas, 10,90 euros). Este segundo volume está disponível nas bancas portuguesas, reúne como autores vários historiadores, académicos e jornalistas e está dividido em capítulos que associam cada aventura de Tintin com uma personagem e um artigo sobre o período histórico no qual se insere.
Das dez personagens escolhidas, vejamos alguns exemplos. O primeiro álbum tratado é “Tintin na América”, e a personagem de Al Capone, inspirada na proibição do álcool nos EUA. Já em “A Estrela Misteriosa”, e escolhido é Philippulus e o tema são as viagens ao Pólo Norte. Depois, em “As Sete Bolas de Cristal”, descobrimos Bergamotte e viajamos ao Império Inca. Em “Objectivo Lua”, ficamos a conhecer Wolff e a saber mais sobre o projecto de conquista espacial alemã que nasceu nos anos 30. Mas o principal destaque vai naturalmente para o português Senhor Oliveira da Figueira, associado à aventura “Carvão no Porão”.
Este livro inclui ainda um artigo sobre a arte em Hergé e outro sobre o ‘affaire’ Legros. Por fim, os interessados em aprofundar os temas tratados podem recorrer às duas breves bibliografias, uma com obras sobre os momentos históricos referidos e outra sobre o mundo de Tintin.
Bastante interessante para os entusiastas de um dos nomes maiores da banda desenhada franco-belga, este é mais um álbum obrigatório na colecção de qualquer tintinófilo.
Poema para hoje
Rosácea d'Aljubarrota
À vista do Mosteiro
da Batalha
— há conquista
que resista,
há lá guerreiro
que valha?!...
... Deixai, então, que vos fale
(— porque me dá cuidado
e por mais nada!)
d'aqueloutro Portugal
talhado à espada
e condenado, afinal,
a não ser nada... —
... Sala d'aula do Além,
anfiteatro do Mar,
— que ninguém, que já ninguém
hoje vem
contemplar...
Rodrigo Emílio
in "Poemas de Braço ao Alto", 1982.
Cassiano
Uma óptima surpresa foi encontrar hoje na página principal do Google a imagem do Portugal dos Pequenitos, a propósito do aniversário de Cassiano Branco.
Ainda na semana passada passei em frente ao Éden e lembrei-me do que escrevi a propósito de um livro sobre este arquitecto genial: «Pena que tenham escolhido para a capa uma imagem (talvez demonstrativa daquilo a que chegámos) do Éden Teatro "recuperado". Um abastardamento que passou por pôr palmeiras no interior. Algo a fazer lembrar o "Mundo Perdido"... Só falta um pterodáctilo a voar!»
Heróis da piscina, nobre povo
Se Michael Phelps fosse português (género Obikwelu,
versão caucasiana), existiriam por cá ruas Michael Phelps, avenidas Michael
Phelps e alamedas Michael Phelps, para além de praças, esplanadas, auditórios,
bibliotecas, cine-teatros, hospitais, ginásios, escolas, pontes e até centros
comerciais (sob a marca registada "Phelpshopping").
Em postais distintos, os bloguistas lusos esfregariam nas
ventas da troika as vitórias do campeão como prova irrefutável do acerto português
e da superioridade de Keynes.
O Presidente da República ver-se-ia obrigado a contratar
mais um assessor de imprensa, por coincidência primo do actual, só para
escrever os comunicados laudatórios. E em cada 10 de Junho seria já o próprio
Phelps a impor as comendas de mérito nos pescoços derreados de tanto mourejador
pela Pátria.
Os jornais divulgariam, com indisfarçável incómodo, os
escândalos da Fundação Michael Phelps, tomada de videirinhos e comissários
políticos. As revistas esquadrinhariam a intimidade do nadador – e Lili
Caneças, campeã olímpica da vida cor-de-rosa, viria em socorro do atleta com
sentença aforística: «Viver a nadar é o contrário de morrer afogado».
Por força da popularidade crescente, o atleta figuraria
no cartaz dos carnavais de Ovar ou Torres Vedras, de bóia e braçadeiras em cima
de um carro de lavoura, como rei do corso.
Um grupo de intelectuais, sempre a farejar o "desenvolvimento" e o "progresso", exigiria em manifesto um tanque de 50
metros por cada freguesia como novo "desígnio nacional".
No parlamento, uma comissão de especialistas discutiria,
com ar solene e solerte, a mudança da própria bandeira: em lugar da esfera
armilar, uma piscina olímpica; em vez das 5 quinas, 8 pistas de natação.
Em séculos de história marítima, nadaríamos assim do
herói de elmo e espada para o herói de calção e touca de banho. O progresso é
acalorado, meus amigos. Não suporta armaduras nem roupa apertada.
A Braços Com os Olímpicos
Na sequência do magnífico postal do BOS que precede, gostava de relembrar alguns dados que poderão esclarecer equívocos comuns em torno dos braços estendidos no Olimpismo. A saudação em si não era conotada, à partida, com uma ideologia. Os Escuteiros usavam-na, como mostra a fotografia de cima; e ainda subsiste em muitos países, nalgumas solenidades militares, como no Juramento de Bandeira, por cá. Já nos EUA, fora instituída, por força da acção de Francis Bellamy ainda no Séc. XIX, como a saudação civil à bandeira, ensinada e exortada nas democratíssimas escolas da Federação. Pode parecer estranho, sabendo-se que nos States aos civis e a militares à paisana ou descobertos também é permitida a continência castrense. Mas há uma razão - não o é em todos os ramos, a Marinha não o consente, logo impunha-se um símbolo de universalidade maior. Só em pleno conflito mundial, em 1942, o Congresso Americano, com puritanismo típico, aprovou resolução formal de a substituir pela mãozinha no coração que, hoje, vemos nos atletas medalhados de tais paragens e da qual temos de suportar a macaqueação por juventudes europeias ignaras e inocentes, que nem desconfiam de o gesto, por cá, ser apanágio de Maçonarias...
No Olimpismo, era a saudação habitual. Em vários Jogos atletas Franceses, Holandeses, Canadianos, entre outros, a adoptaram e ficou mesmo consagrada nos selos oficiais alusivos ao certame de 1924, em Paris. O próprio Jesse Owens se preparava para estender o braço, como lhe haviam ensinado em miúdo, até que algum elemento mais politizado da delegação Norte-Americana lhe sugeriu que, para evitar equívocos, levasse antes a mão à testa, mesmo carecida de pala. Ficou, sobreviva à avalanche do politicamente correcto, a estátua da Saudação Olímpica, pela Escultora Gra Rueb, em homenagem a um membro do Comité Holandês correspondente. Até quando se aguentará num mundo decadente onde, salvo no esbracejar preso a estas insignificâncias, «olímpico/a» passou a crismar o substantivo "indiferença" em vez de, como seria lógico, continuar a qualificar o esforço?
A Carta Olímpica e a extrema-direita
A remadora alemã Nadja Drygalla, após uma reunião com o Comité Olímpico da Alemanha, abandonou a aldeia olímpica depois de a imprensa do seu país ter noticiado que o namorado é militante da extrema-direita. Parece que a ideologia do rapaz põe em causa o compromisso da atleta com a Carta Olímpica.
Nadja Drygalla
Em 1936 os Jogos Olímpicos realizaram-se em Berlim, capital da Alemanha nazi de Adolf Hitler. Já havia Carta Olímpica, porventura em versão nem corrigida nem aumentada. Pela primeira vez a tocha saiu de Atenas para a sede da competição. A chama viajou durante 11 dias até chegar ao estádio de Berlim. Na cerimónia de abertura, Hitler recebeu das mãos de Spyridon Louis, campeão grego da maratona dos Jogos de 1896, um ramo de oliveira colhido em Olímpia.
Hitler e Spyridon Louis
Os jogos berlinenses ficaram marcados pelas técnicas inovadoras de Leni Riefenstahl, o escândalo de Dora Ratjen (a lembrar as mulheres-homens de hoje) e os mitos sobre Jesse Owens. Ao contrário do que costuma ser difundido pela "imprensa de referência", as quatro medalhas de ouro conquistadas pelo atleta norte-americano não causaram o menor engulho ao chanceler alemão. É o próprio Owens quem o confirma na sua autobiografia: "Quando passei pela tribuna do chanceler [Hitler], ele levantou-se e acenou-me com a mão" (The Jesse Owens Story, 1970).
Após os Jogos, Jesse Owens andou mesmo em tournée pela Alemanha, recebido e homenageado em diversas cidades. Fartou-se de dar autógrafos. Mal recebido foi ele no seu próprio país, obrigado a viajar nos bancos traseiros dos autocarros, que os da frente destinavam-se exclusivamente a brancos. Queixava-se Owens que não teve direito a convite para a Casa Branca. Pensava, decerto por ingenuidade, que o edifício fora crismado desse feitio só por causa da cor das paredes. Owens era preto, neto de escravos, considerado impuro para estender a mão ao democrático Franklin D. Roosevelt, que em véspera de eleições não queria ferir as susceptibilidades raciais dos eleitores sulistas.
A forma como Owens conquistou a medalha de ouro na prova de salto em comprimento merece ser contada. Durante a prova de qualificação, o alemão Luz Long, principal adversário de Owens, já tinha a presença na final assegurada. Owens, por seu lado, estava à beira da eliminação, após dois saltos nulos. Foi aí que se deu uma extraordinária manifestação de desportivismo (hoje diz-se fair play). Long abeirou-se de Owens e aconselhou-o a mudar a técnica de salto. Owens concordou e teve sucesso. Resultado? Na final, conquistou aquela que seria a sua quarta medalha de ouro, enquanto Luz ficou em segundo lugar. Saíram da pista juntos, o braço do nazi de olhos azuis por cima dos ombros do negro do Alabama. Por este gesto, Luz Long recebeu a título póstumo a medalha Pierre de Coubertin, concedida pelo Comité Olímpico Internacional a atletas que demonstrem um elevado desportivismo e espírito olímpico. Morreu em combate na II Guerra Mundial, vítima dos bombardeamentos dos Aliados.
Jesse Owens no pódio, vencedor da prova de salto em comprimento. De braço ao alto, Luz Long. Nos nossos dias o atleta alemão seria certamente afastado dos Jogos.
Pierre de Coubertin (conhecido como barão de Coubertin), pedagogo e historiador francês, foi o fundador dos Jogos Olímpicos da era moderna. As suas ideias sobre cultura física abonavam o programa nacional-socialista. Asseverava ele: "Há duas raças distintas: a do homem de olhar franco, com músculos fortes, com desenvolvimento assegurado, e a do doentio, de semblante resignado e humilde, e ar vencido". E de modo mais impressivo, registava: "Cinzelando o seu corpo pelo exercício, como faz um escultor numa estátua, o atleta antigo adorava os deuses. Fazendo o mesmo, o atleta moderno exalta a sua pátria, a sua raça, a sua bandeira".
Aos detractores da organização berlinense, respondeu o barão no jornal L’Auto, a 4 de Setembro de 1936: "O ideal olímpico foi sacrificado à propaganda? Isso é inteiramente falso. Os Jogos de Berlim serviram magnificamente o ideal olímpico". O francês manteve-se como Presidente Honorário do Comité Olímpico Internacional até à sua morte, em 1937. Talvez hoje o pobre Coubertin, tal como Luz Long, fosse banido da competição que ele próprio recriou. Não conheço o traçado actual da Carta Olímpica, porventura grafado por Vital Moreira ou outro jurista de alta competição. Provavelmente o notável documento já consagra a via para o socialismo, o antifascismo e o estabelecimento de uma sociedade sem classes. A ser assim, é a própria Carta que nega o espírito olímpico.
Psicanálise
«No geral, não há nada a dizer sobre mulheres sujeitas a estas sessões. Uma mulher entregue às mãos de psicanalistas fica definitivamente imprópria para uso, o que vim a constatar inúmeras vezes. Este fenómeno não deve ser considerado como um efeito secundário da psicanálise, mas sim como a causa principal. Sobre o pretexto da reconstrução do eu, os psicanalistas procedem na verdade a uma escandalosa destruição do ser humano. Inocência, generosidade, pureza... tudo isto é rapidamente triturado por entre essas mãos grosseiras. Os psicanalistas, regaladamente remunerados, pretensiosos e estúpidos, exterminam de modo conclusivo toda a aptidão para o amor nos seus pacientes, tanto mental como física; comportam-se com efeito como verdadeiros inimigos da humanidade. Impiedosa escola de egoísmo, a psicanálise está apetrechada com o maior dos cinismos à conta das corajosas raparigas miseráveis para as transformar em ignóbeis parvalhonas de egocentrismo delirante, que pode apenas suscitar a mais profunda agonia. Não se deve confiar, qualquer que seja o caso, numa mulher que tenha passado pelas mãos de um psicanalista. A mesquinhez, o egoísmo, o disparate arrogante, a completa falta de sentido moral, a incapacidade crónica de amar: eis o retrato exaustivo de uma mulher “psicanalizada”.»
Michel Houellebecq
in “Extensão do Domínio da Luta”.
Michel Houellebecq
in “Extensão do Domínio da Luta”.
Don't cry for me (old) Argentina
Luanda? Rio de Janeiro? Lisboa? Londres? Paris?... Não! É a nova Buenos Aires. Sempre tive a esperança de que a Argentina voltaria a ser como Europa - a de hoje, é claro.
De cabeceira
Não, os elementos empíricos que sustentam esta teoria não foram recolhidos no Portugal da abrilada ´74 nem no que dele resta, vendido aos bocados pelos próprios coveiros. Mas bem que podia ter sido... Que me perdoe Georg Jellinek, mas parece valer mais que a sua teoria geral do Estado.
Pega de automóveis
Agora que as touradas estão praticamente proibidas pelos “amigos dos animais”, a esquerda festiva adoptou a pega de automóveis. O sindicalista da cara imobiliza a viatura à força de braços, acolitado pelos ajudas do PCP. Atrás deles exerce o rabejador, decerto engalanado com a bandeira arco-íris. Em fundo, o toque de cornetim tange A Internacional.
Este episódio da Covilhã lembra aquela cena do magnífico «Un singe en hiver», de Antoine Blondin, quando o maluco do Gabriel Fouquet se pôs a tourear automóveis na rotunda.
Elogio do imaginário
Fora do ‘dossier’, referência para a interessante reflexão subordinada ao tema “Podemos aprender a emancipar-nos?” e a grande entrevista com o filósofo francês Michel Onfray. Destaque para o artigo sobre o nascimento da ‘Beat Generation’, concretamente sobre o romance escrito em 1945 por Jack Keruoac e William S. Burroughs, “And the Hippos Were Boiled in Their Tanks”, mas que só foi publicado pela primeira vez em 2008.
Passagem
Inaugurada no passado dia 6 de Junho, num evento por onde passaram cerca de 500 pessoas, a exposição “Foto-Síntese” estará patente até 1 de Julho na Sala do Veado do Museu Nacional de História Natural e da Ciência, em Lisboa. É o regresso de João Marchante às exposições, confirmando-o como um dos grandes talentos da fotografia contemporânea no nosso país.
Como se julga o trabalho de um Amigo? Com a maior das exigências e o mesmo sentido de justiça. A resposta é para mim tão óbvia como imediata. Mas, vivendo no que é para muitos (demasiados)o “país das cunhas”, impõe-se um esclarecimento. Conheço o João há muitos anos e o encontro com este homem de cultura, com o qual rapidamente me identifiquei em tantas paixões comuns, como os livros, o cinema ou a fotografia, gerou uma amizade da qual muito me orgulho. Sempre fui um apreciador do seu trabalho de fotografia artística. A sua genuinidade, aliada a uma genialidade provocatória, conquistaram-me. Naturalmente, estava ansioso por esta exposição e com as expectativas bastante elevadas, mas não me desiludi.
Pelo contrário, vi, revi e vivi aquela série maravilhosa. Entrei nas fotografias pela minha porta, por aquela interpretação egoísta que nos exalta verdadeiramente o sentir. Dei conta das minhas impressões ao autor, conversámos, concordámos e discordámos. Apenas houve um ponto de encontro total: faltava ali um Amigo comum que infelizmente já deixou o mundo dos vivos…
O espaço da exposição não podia ser mais apropriado, já que o ambiente ‘rough’ das paredes em cimento se conjuga na perfeição com o grão das imagens, conseguidas com uma câmara Polaroid, recorrendo à película fabricada pela Impossible Project. Têm todas 100 x 124 cm e estão correctamente iluminadas. Ao entrar na sala percebemos instintivamente como se entra naquele percurso para o qual o João nos convida através da sua musa.
Cada fotografia é um verbo, uma acção, e, assim, vamos interagindo e aproximando-nos,em dez passos. Há uma ideia de transição nestas imagens de uma figura feminina que parece fazer a passagem à idade adulta. Mas não se fica por aí. Certas situações, certos objectos, certas perspectivas, certos pormenores, sugerem também uma passagem à idade dos adultos. A um tempo ao qual seria impossível chegar, da mesma forma que não podemos chegar totalmente àquelas imagens a cores com um aspecto anos 60, mas tiradas hoje. Há o encontro de dois mundos, com várias janelas por onde podemos espreitar e poucas portas por onde tentar entrar.
Da intromissão de “Filmar” à submissão de “Ver”, há uma provocação progressiva que nos conduz implacavelmente num crescendo sensorial. Um percurso quase inebriante, no qual nos deixamos levar para onde queremos. Uma experiência que não podemos de forma alguma perder.
O João Marchante, para além de fotógrafo, é realizador, autor e professor, leccionando actualmente Imagem e Estética na ETIC. Não expunha fotografia desde 2007… Como valeu a pena a espera!
Como se julga o trabalho de um Amigo? Com a maior das exigências e o mesmo sentido de justiça. A resposta é para mim tão óbvia como imediata. Mas, vivendo no que é para muitos (demasiados)o “país das cunhas”, impõe-se um esclarecimento. Conheço o João há muitos anos e o encontro com este homem de cultura, com o qual rapidamente me identifiquei em tantas paixões comuns, como os livros, o cinema ou a fotografia, gerou uma amizade da qual muito me orgulho. Sempre fui um apreciador do seu trabalho de fotografia artística. A sua genuinidade, aliada a uma genialidade provocatória, conquistaram-me. Naturalmente, estava ansioso por esta exposição e com as expectativas bastante elevadas, mas não me desiludi.
Pelo contrário, vi, revi e vivi aquela série maravilhosa. Entrei nas fotografias pela minha porta, por aquela interpretação egoísta que nos exalta verdadeiramente o sentir. Dei conta das minhas impressões ao autor, conversámos, concordámos e discordámos. Apenas houve um ponto de encontro total: faltava ali um Amigo comum que infelizmente já deixou o mundo dos vivos…
O espaço da exposição não podia ser mais apropriado, já que o ambiente ‘rough’ das paredes em cimento se conjuga na perfeição com o grão das imagens, conseguidas com uma câmara Polaroid, recorrendo à película fabricada pela Impossible Project. Têm todas 100 x 124 cm e estão correctamente iluminadas. Ao entrar na sala percebemos instintivamente como se entra naquele percurso para o qual o João nos convida através da sua musa.
Cada fotografia é um verbo, uma acção, e, assim, vamos interagindo e aproximando-nos,em dez passos. Há uma ideia de transição nestas imagens de uma figura feminina que parece fazer a passagem à idade adulta. Mas não se fica por aí. Certas situações, certos objectos, certas perspectivas, certos pormenores, sugerem também uma passagem à idade dos adultos. A um tempo ao qual seria impossível chegar, da mesma forma que não podemos chegar totalmente àquelas imagens a cores com um aspecto anos 60, mas tiradas hoje. Há o encontro de dois mundos, com várias janelas por onde podemos espreitar e poucas portas por onde tentar entrar.
Da intromissão de “Filmar” à submissão de “Ver”, há uma provocação progressiva que nos conduz implacavelmente num crescendo sensorial. Um percurso quase inebriante, no qual nos deixamos levar para onde queremos. Uma experiência que não podemos de forma alguma perder.
O João Marchante, para além de fotógrafo, é realizador, autor e professor, leccionando actualmente Imagem e Estética na ETIC. Não expunha fotografia desde 2007… Como valeu a pena a espera!
Referência histórica
O número 60, referente aos meses de Maio e Junho, actualmente em quiosque, tem como tema central as “Campanhas da Rússia” e oferece um excelente ‘dossier’, com diversos artigos, entrevistas e cronologias. Para além da invasão napoleónica de 1812 e da Operação Barbarossa ordenada por Hitler, em 1941, e de Estalinegrado, em 1942, o destaque vai para a atenção dada à nova Rússia e à sua geopolítica. Como afirma Dominique Venner no seu editorial: “Pedimos ao passado para esclarecer o presente”.
Uma nota especial vai para a excelente entrevista com o romancista profético Jean Raspail, que aqui revela as fontes históricas da sua inspiração. Escritor e explorador, é autor de uma vasta obra onde se inclui o romance visionário, saído em 1973, “Le Camp des Saints”, que no nosso país foi publicado pela Europa-América, em 1977, com o título “Mortos: 200 Milhões - Todos Nós”.
Destaque ainda para o artigo sobre o recém-falecido Hervé Couteau-Bégarie, professor que reagiu contra o anti-militarismo da Universidade francesa e renovou o pensamento estratégico em França. Também de referir os artigos sobre Hjalmar Schacht, explicando como um conservador se tornou o improvável ministro da Economia de Hitler, e sobre Pierre Schoendoerffer, autor e admirável realizador de cinema que filmou a guerra e que faleceu recentemente. Para além de outros artigos e entrevistas, a revista inclui ainda um passatempo, criticas a livros, novidades e a crónica habitual de Péroncel-Hugoz.
DA MINHA NOVA EXPOSIÇÃO INDIVIDUAL DE FOTOGRAFIA
Acabei de chegar da inauguração da minha nova exposição individual de fotografia. Entre as 9 da noite e a 1 da manhã passaram por lá mais de 500 familiares, amigos, conhecidos, artistas, cinéfilos, e etc e tal. Ficarão para sempre ligados a um dos mais importantes dias da minha vida. Não tenho mais palavras. Bem-hajam!
As três idades do Arquitecto
É impossível pensar na Casa Portuguesa sem pensar em Raul Lino. Homem da cultura e das artes, amava a Pátria e a Natureza e procurou sempre uma identidade arquitectónica nacional. Bernardo d’Orey Manoel, arquitecto e docente na Universidade Lusíada de Lisboa, procura os “Fundamentos da Arquitectura em Raul Lino” através das três casas que o próprio projectou para viver com a família. São: “Três casas. Três obras de arte. Um só arquitecto. Uma vida.”
O autor divide esta obra em três capítulos, referentes às casas onde Raul Lino viveu, que para ele correspondem aos estádios propostos por Kiekegaard para descobrir o sentido da existência: estético, ético e religioso.
O primeiro trata da Casa do Cipreste. Para Bernardo d’Orey Manoel, esta “é o sonho de um jovem. É um sistema construído, um edifício de transições, conflitos, emoções, um jogo de luz. É a vida de Raul Lino inscrita na pedra, porque a paixão deixa sempre marcas. Funciona como um todo, um todo vivo. Tudo nasce no pátio. É a partir da intimidade deste pátio que todo o outro espaço se organiza, quer seja o espaço construído quer o espaço conquistado. O gesto do arquitecto instituiu um mundo novo”.
O segundo leva-nos às Azenhas do Mar e à Casa do Marco, aquela que Raul Lino decidiu construir porque achou que as suas filhas precisavam de sol. Este é, assim, “o abrigo de descanso do guerreiro e da sua família na mãe-natureza. A casa, as plantas, a arriba, o céu e o mar constroem momentos de relação. É a possibilidade do exercício da liberdade, expressão da ética na sua autenticidade. Uma casa da tradição portuguesa, que espreita o oceano e resiste ao vento. Integra as plantas no seu espaço, na construção do seu próprio mundo”. Mas o autor vai mais longe e afirma que esta “pode bem ser a casa portuguesa que Raul Lino perseguia”.
Por último, a Casa da Rua Feio Terenas, em Lisboa. Projectada e construída quando as filhas de Raul Lino estavam já casadas, “é um gesto amadurecido, sentido das coisas, verdadeira sustentabilidade da arquitectura em que tradição e modernidade se entrelaçam no acontecer. No interior da cidade a intimidade, o saber, os valores, o modo cuidado de Raul Lino fazer arquitectura. É o seu estilo em pedra transfigurado”.
Bem alicerçado nas fontes, em especial no Arquivo da Família de Raul Lino, este livro oferece-nos ainda vários Anexos que o enriquecem. Estes incluem uma bibliografia, uma cronologia ilustrada, alguns textos inéditos de Raul Lino e várias imagens referentes às três casas tratadas.
Em termos da edição, o livro está bem composto e bastante ilustrado com fotografias e reproduções das plantas. Pena que não se tivesse feito uma edição em formato maior que privilegiasse o aspecto gráfico, já que este trabalho daria um óptimo álbum.
Mas sabemos como os custos limitam as edições, principalmente as universitárias. Apesar deste pormenor, a Universidade Lusíada Editora está de parabéns pela publicação deste trabalho, tão útil para melhor chegarmos até um dos maiores arquitectos nacionais.
Neste trabalho vemos as três idades de um arquitecto e de um homem de raro talento que marcou para sempre a Arquitectura portuguesa. Como escreveu Raul Lino: “A Arquitectura, por ser uma Arte do corpo social, reflecte sempre a cultura do espírito de uma época. As suas obras representam um estado colectivo visto através de um temperamento individual”.
O autor divide esta obra em três capítulos, referentes às casas onde Raul Lino viveu, que para ele correspondem aos estádios propostos por Kiekegaard para descobrir o sentido da existência: estético, ético e religioso.
O primeiro trata da Casa do Cipreste. Para Bernardo d’Orey Manoel, esta “é o sonho de um jovem. É um sistema construído, um edifício de transições, conflitos, emoções, um jogo de luz. É a vida de Raul Lino inscrita na pedra, porque a paixão deixa sempre marcas. Funciona como um todo, um todo vivo. Tudo nasce no pátio. É a partir da intimidade deste pátio que todo o outro espaço se organiza, quer seja o espaço construído quer o espaço conquistado. O gesto do arquitecto instituiu um mundo novo”.
O segundo leva-nos às Azenhas do Mar e à Casa do Marco, aquela que Raul Lino decidiu construir porque achou que as suas filhas precisavam de sol. Este é, assim, “o abrigo de descanso do guerreiro e da sua família na mãe-natureza. A casa, as plantas, a arriba, o céu e o mar constroem momentos de relação. É a possibilidade do exercício da liberdade, expressão da ética na sua autenticidade. Uma casa da tradição portuguesa, que espreita o oceano e resiste ao vento. Integra as plantas no seu espaço, na construção do seu próprio mundo”. Mas o autor vai mais longe e afirma que esta “pode bem ser a casa portuguesa que Raul Lino perseguia”.
Por último, a Casa da Rua Feio Terenas, em Lisboa. Projectada e construída quando as filhas de Raul Lino estavam já casadas, “é um gesto amadurecido, sentido das coisas, verdadeira sustentabilidade da arquitectura em que tradição e modernidade se entrelaçam no acontecer. No interior da cidade a intimidade, o saber, os valores, o modo cuidado de Raul Lino fazer arquitectura. É o seu estilo em pedra transfigurado”.
Bem alicerçado nas fontes, em especial no Arquivo da Família de Raul Lino, este livro oferece-nos ainda vários Anexos que o enriquecem. Estes incluem uma bibliografia, uma cronologia ilustrada, alguns textos inéditos de Raul Lino e várias imagens referentes às três casas tratadas.
Em termos da edição, o livro está bem composto e bastante ilustrado com fotografias e reproduções das plantas. Pena que não se tivesse feito uma edição em formato maior que privilegiasse o aspecto gráfico, já que este trabalho daria um óptimo álbum.
Mas sabemos como os custos limitam as edições, principalmente as universitárias. Apesar deste pormenor, a Universidade Lusíada Editora está de parabéns pela publicação deste trabalho, tão útil para melhor chegarmos até um dos maiores arquitectos nacionais.
Neste trabalho vemos as três idades de um arquitecto e de um homem de raro talento que marcou para sempre a Arquitectura portuguesa. Como escreveu Raul Lino: “A Arquitectura, por ser uma Arte do corpo social, reflecte sempre a cultura do espírito de uma época. As suas obras representam um estado colectivo visto através de um temperamento individual”.
Livro do dia
«Repelir o invasor, restaurar as ruínas — tornavam-se assim motivações nacionais cada vez mais fortes e imperiosas. Motivação negativa, "contra", a primeira, e positiva, "a favor", a segunda. Mas ambas implicavam uma terceira, bem forte e sensível também, que no fundo a ambas por igual englobava.
Efectivamente: por um lado, políticos e intelectuais (desiludidos, uns; adversários de sempre, outros) combatiam no sistema o seu afastamento dos valores centrais da sociedade portuguesa, o alheamento em que os responsáveis se mantinham de quanto era profundamente nacional ("os portugueses estrangeiros que nos desgovernam", a quem se referia Fernando Pessoa em 1912); por outro lado, a grande massa da população, desentendida das altas especulações da filosofia política e dos bastidores da governação, sentia que no fundo os seus males vinham daí, de se ter dado prioridade a subalternos interesses partidários perante os superiores interesses nacionais, de se anteporem, às concretas necessidades das realidades próprias, preocupações de abstractos esquemas políticos alheios.
Dessa forma, excluída a minoria dos políticos profissionais, todo o País desejava ardentemente que a Nação recuperasse os seus direitos — havia tanto tempo e tão criminosamente postergados. Algumas instituições, por definição mais sensíveis — em especial — ou à superioridade do conceito de Pátria sobre meras perspectivas parcelares (como as Forças Armadas) ou à consideração da primazia dos valores morais (como a hierarquia da Igreja) ou às exigências da razão e da inteligência (como a Universidade e a Imprensa) ou às preocupações da justiça (como a Magistratura), tinham chegado a essa conclusão geral com mais aguda consciência da restauração necessária e, chegado o momento, não deixariam de contribuir decisivamente — cada um a seu modo — para vertebrar o consenso popular em favor de qualquer movimento político disposto a sobrepor o bem comum aos privilégios particulares, o conceito integrador de Nação à acção desintegradora dos partidos políticos.
De tal forma — ao fim de um século de parlamentarismo, primeiro monárquico e depois republicano — se havia identificado o sistema político cristalizado na Carta Constitucional do Imperador D. Pedro com a ideia de que se tratava de modas e fórmulas estrangeiras importadas, por tal modo a degradação e as carências materiais generalizadas humilhavam e ofendiam o orgulho nacional, que ambas as correntes de opinião — a que era movida pela ânsia de se libertar daquela imposição como a que se sentia estimulada pela nobre ambição de sanar estas feridas e mutilações operadas no corpo da Nação — vinham a convergir num renovado patriotismo, ao mesmo tempo racionado e emocional.
Em tempos del-Rei D. Pedro V, as primeiras tímidas iniciativas de fomento haviam despertado uns primeiros lampejos desse patriotismo sempre latente mas, desde os "afrancesados" de princípios do século, quase troçado como coisa de "cavernícolas" e analfabetos; com os africanos del-Rei D. Carlos, esse patriotismo profundo vivera algumas das suas horas altas; mas esse sentimento instintivo do povo português, depressa se via de novo frustrado e abatido pela mediocridade e a chateza da agitação partidária, cada vez mais vazia de sentido.
Era um terceiro componente do ambiente pré-revolucionário que estava também a chegar ao ponto de ruptura, ao limite para além do qual se tornava inevitável (e de imprevisíveis consequências) a explosão. Anos mais tarde viria a condensar-se essa aspiração aguilhoante e incoercível num lema que se popularizou: "Tudo pela Nação, nada contra a Nação". Mais do que uma linha de orientação, a fórmula resumia o que havia sido a síntese de todas as motivações anteriores: o movimento político esperado por tudo quanto no País se mantinha imune às politiquices rasteiras dos partidos havia de responder, na essência, a esse imperativo fundamental: era cada vez mais urgente reaportuguesar Portugal.»
Eduardo Freitas da Costa
in "História do 28 de Maio", Edições do Templo, 1979.
Desculpas no Cartório
Como são trazidas a lume muitas dúvidas acerca da culpabilidade exclusiva ou primordial do mordomo do Vaticano detido por uma espionagem tosca traduzida em desvios de documentação, espero que o motivo inconsciente dela não haja sido a procura da saída mais fácil, consubstanciada no lugar-comum de que o culpado é sempre o mordomo.
Até porque também as ideias feitas são como as cerejas, atrás de uma vem facilmente outra; e já antevejo um qualquer advogado preguiçoso a defender o eventual arguido com base na balela de que a culpa de qualquer crime não é do seu autor, mas da Sociedade...
Portugal e o Estado
Diariamente ouvimos falar no Estado, provavelmente nunca nos questionando acerca da sua origem mais remota.”O Estado em Portugal (séculos XII-XVI)” (capa mole, 236 páginas, 16,96 euros) é uma óptima síntese, bem sustentada cientificamente, feita por uma académica, mas acessível ao público interessado. Judite Gonçalves de Freitas, Professora Catedrática da Universidade Fernando Pessoa, leva-nos às raízes medievais do chamado “Estado Moderno” para melhor percebemos como aqui chegámos.
Felizmente que há muito que se vem dissipando a ideia errónea de olhar para a Idade Média como sendo a “das trevas”, ao mesmo tempo que a própria divisão da História em períodos estanques deixa de ter sentido. Não só os tempos medievais foram de desenvolvimento, de descoberta e até do que podemos considerar uma “revolução científica”, como a História implica em si própria uma continuidade. Pese embora haja marcos incontornáveis e a separação por períodos facilite a análise é exactamente passando por cima destes que se é bem sucedido na procura das origens. A autora define muitíssimo bem esse exercício no subtítulo desta obra – “Modernidades Medievais”.
De facto, como afirma a autora, “a construção moderna do Estado implicou um conjunto de modificações lentas, edificadas dentro dos limites do domínio territorial da monarquia”. Para chegar a esta conclusão, Judite Gonçalves de Freitas traça a evolução das estruturas políticas e sociais desde o Portugal Medieval até ao início da Época Moderna. Esse trajecto está dividido em quatro grandes unidades temáticas, a saber: Realeza, Governo e Poder dinástico; Monarquia, Parlamento e Direito; Estado, Poder e Administração e, finalmente, Estruturas do poder político: a monarquia renovada.
Uma obra que não ignora os principais trabalhos produzidos sobre o tema e que assenta em fontes e bibliografia, cuidadamente discriminadas no final de cada capítulo. Inclui ainda dois mapas e três organogramas das instituições políticas, bem como uma útil cronologia dos principais acontecimentos políticos.
Um livro bem construído e clarificador. Uma reflexão necessária para compreendermos a formação do Estado no nosso país. Como escreveu no Prefácio Martim de Albuquerque, Professor Catedrático da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, “este livro ostenta, de facto, uma discursividade atraente, inclusive sedutora. Claro, sistemático, lógico. São três adjectivos que ocorrem naturalmente e a propósito. Concitar tantos autores portugueses e estrangeiros, os respectivos contributos de forma coerente e em concatenação, sem os desvirtuar, antes em encaixe admirável uns nos outros e sem jamais perder de vista as fontes da época respectiva, constitui um desafio que a autora acatou e venceu, todavia, sem dificuldade aparente.”
Felizmente que há muito que se vem dissipando a ideia errónea de olhar para a Idade Média como sendo a “das trevas”, ao mesmo tempo que a própria divisão da História em períodos estanques deixa de ter sentido. Não só os tempos medievais foram de desenvolvimento, de descoberta e até do que podemos considerar uma “revolução científica”, como a História implica em si própria uma continuidade. Pese embora haja marcos incontornáveis e a separação por períodos facilite a análise é exactamente passando por cima destes que se é bem sucedido na procura das origens. A autora define muitíssimo bem esse exercício no subtítulo desta obra – “Modernidades Medievais”.
De facto, como afirma a autora, “a construção moderna do Estado implicou um conjunto de modificações lentas, edificadas dentro dos limites do domínio territorial da monarquia”. Para chegar a esta conclusão, Judite Gonçalves de Freitas traça a evolução das estruturas políticas e sociais desde o Portugal Medieval até ao início da Época Moderna. Esse trajecto está dividido em quatro grandes unidades temáticas, a saber: Realeza, Governo e Poder dinástico; Monarquia, Parlamento e Direito; Estado, Poder e Administração e, finalmente, Estruturas do poder político: a monarquia renovada.
Uma obra que não ignora os principais trabalhos produzidos sobre o tema e que assenta em fontes e bibliografia, cuidadamente discriminadas no final de cada capítulo. Inclui ainda dois mapas e três organogramas das instituições políticas, bem como uma útil cronologia dos principais acontecimentos políticos.
Um livro bem construído e clarificador. Uma reflexão necessária para compreendermos a formação do Estado no nosso país. Como escreveu no Prefácio Martim de Albuquerque, Professor Catedrático da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, “este livro ostenta, de facto, uma discursividade atraente, inclusive sedutora. Claro, sistemático, lógico. São três adjectivos que ocorrem naturalmente e a propósito. Concitar tantos autores portugueses e estrangeiros, os respectivos contributos de forma coerente e em concatenação, sem os desvirtuar, antes em encaixe admirável uns nos outros e sem jamais perder de vista as fontes da época respectiva, constitui um desafio que a autora acatou e venceu, todavia, sem dificuldade aparente.”
MAIS UM LUGAR NA REDE
Convido todos os «jovens» e nossos leitores a porem nos seus favoritos o meu website que está a ser construído pela Oficina do Site.
Dança Macabra
Um mandamento há a que, sintoma da idade em avanços confrangedores, ultimamente, vou tentando obedecer: Não rias dos dias!
Hoje, o dito Mundial da Segurança Social, até me desperta simpatia, a mesma de qualquer outro pretexto para lembrar as demais espécies em vias de extinção...
Pensar a Civilização
Niall Ferguson é hoje um dos historiadores mais conhecidos e influentes no mundo. Os seus trabalhos recentes sobre História financeira e económica têm chamado a atenção do público. Várias das suas obras são também séries de televisão bastante populares. É o caso de “Civilização – O Ocidente e os Outros” (capa mole, 512 páginas, 18,90 euros), publicado agora entre nós.
De uma forma provocatória, o autor afirma que se em 1411 déssemos uma volta ao mundo ficaríamos maravilhados com as civilizações do Oriente e nunca imaginaríamos que o Ocidente viria a dominar os Outros durante a maior parte da metade do milénio seguinte. Foi o que aconteceu e, segundo Niall Ferguson, tal só foi possível porque Ocidente desenvolveu seis “aplicações-chave” que os Outros não possuíam: competição, ciência, democracia, medicina, consumismo e ética de trabalho.
A grande questão é saber se hoje o Ocidente perdeu o seu monopólio nestas seis áreas. Principalmente, desde que os Outros começaram a dominar essas aplicações, nomeadamente a China. Se assim for, avisa Ferguson, podemos estar a viver o fim da ascendência ocidental. Mas será que esse declínio se deve à ameaça das outras civilizações ou a nós próprios? Uma causa fundamental, muito bem observada pelo autor, é a ignorância histórica. Como ele afirma: “Durante os últimos trinta anos, incutiram aos jovens das escolas e universidades ocidentais a ideia de uma educação liberal sem a substância do conhecimento histórico. Ensinaram-lhes 'módulos' isolados, não lhes ensinaram narrativas e muito menos cronologias. Foram treinados na análise das fórmulas de excertos documentais e não na competência-chave de ler muito, de forma generalista e depressa. Foram encorajados a sentir empatia por centuriões romanos imaginados ou pelas vítimas do Holocausto mas não a escrever ensaios sobre os 'porquês' e os 'comos' das respectivas condições.”
Esta edição portuguesa tem uma boa tradução e várias notas do tradutor, que são bastante úteis para enquadrar o leitor menos preparado nestes temas. Tem também um aspecto negativo, que é o facto de a editora ter aderido ao famigerado Acordo Ortográfico.
Na análise deste historiador escocês, nota-se uma acentuada perspectiva anglo-saxónica que talvez justifique muitas das suas interpretações. Ainda assim, esta é uma obra feita para o grande público que, mesmo não se concordando com os seus pressupostos e conclusões, tem o mérito de trazer a discussão e a reflexão sobre a Civilização, numa altura em que a superioridade do Ocidente está a ser posta em causa.
De uma forma provocatória, o autor afirma que se em 1411 déssemos uma volta ao mundo ficaríamos maravilhados com as civilizações do Oriente e nunca imaginaríamos que o Ocidente viria a dominar os Outros durante a maior parte da metade do milénio seguinte. Foi o que aconteceu e, segundo Niall Ferguson, tal só foi possível porque Ocidente desenvolveu seis “aplicações-chave” que os Outros não possuíam: competição, ciência, democracia, medicina, consumismo e ética de trabalho.
A grande questão é saber se hoje o Ocidente perdeu o seu monopólio nestas seis áreas. Principalmente, desde que os Outros começaram a dominar essas aplicações, nomeadamente a China. Se assim for, avisa Ferguson, podemos estar a viver o fim da ascendência ocidental. Mas será que esse declínio se deve à ameaça das outras civilizações ou a nós próprios? Uma causa fundamental, muito bem observada pelo autor, é a ignorância histórica. Como ele afirma: “Durante os últimos trinta anos, incutiram aos jovens das escolas e universidades ocidentais a ideia de uma educação liberal sem a substância do conhecimento histórico. Ensinaram-lhes 'módulos' isolados, não lhes ensinaram narrativas e muito menos cronologias. Foram treinados na análise das fórmulas de excertos documentais e não na competência-chave de ler muito, de forma generalista e depressa. Foram encorajados a sentir empatia por centuriões romanos imaginados ou pelas vítimas do Holocausto mas não a escrever ensaios sobre os 'porquês' e os 'comos' das respectivas condições.”
Esta edição portuguesa tem uma boa tradução e várias notas do tradutor, que são bastante úteis para enquadrar o leitor menos preparado nestes temas. Tem também um aspecto negativo, que é o facto de a editora ter aderido ao famigerado Acordo Ortográfico.
Na análise deste historiador escocês, nota-se uma acentuada perspectiva anglo-saxónica que talvez justifique muitas das suas interpretações. Ainda assim, esta é uma obra feita para o grande público que, mesmo não se concordando com os seus pressupostos e conclusões, tem o mérito de trazer a discussão e a reflexão sobre a Civilização, numa altura em que a superioridade do Ocidente está a ser posta em causa.
Defesa Dum Ménage A Trois
Nunca tendo sido apanhado na rede dos admiradores de Julio Iglesias, sou livre de dizer o quanto prezo a actuação deste Trio. As duas Excelentes Cantoras da nova geração, Natasha St-Pier e Julie Zenatti, ao jogarem o jogo de substituir as meninas que povoavam os clips de juventude do romântico Intérprete Espanhol, subvertem-no, na medida em que conferem à disponibilidade uma dimensão diversa da de simples elemento visual da história sugerida como estando por detrás da letra. Nas caretas da bela canadiana e na mímica gestual empenhada da pequena Grande Francesa reside o contraponto adequado aos apartes de um senhor entrado em anos a que a imagem da experiência dá cariz de profundidade vivida e sentida, em lugar de se apresentar como mera arma e acréscimo de arcaboiço lúdico ao serviço da libidinosa inclinação.
Assim, o diálogo, em alternadas assunções duma derrota resignada, torna mais plena e credível a atmosfera da tristonha complacência perante o que não foi, ou já não é; além de que supera, de longe, a superficialidade plástica e desprovida de equação interior do simples enunciado sem drama dum absorvível unhappy ending.
O resto está nas vozes. E, apesar da terrível pronúncia francesa de Julito, ou por causa dela - como factor de verosimilhança -, quem canta assim não é gago.
A Verdadeira Besta Negra
A tara de transformar um orangotango fémea em escrava sexual nem é bem notícia, mas merece reflexão. Prostituta é que não parece que tenha sido, já que a intencionalidade do ganho em troca do servicinho não consta.
Quanto à "fantasia", como agora se insiste em chamar a baixezas de variado recorte, execro o eufenismo Zoofilia com que a rebaptizaram, por ser uma ironia sinistra, em função do acto forçado a que refere. Seria como chamar "ginófilos" aos violadores de Mulheres. Prefiro de longe a antiga designação de Bestialidade, não, como criam os nossos antepassados, por a felicidade descritiva assentar no ente que sofre, antes por elucidar quanto ao inflictor do sofrimento.
Mas há outro ponto a considerar: Orangotango, na língua do Burnéu e de Sumatra, significa "Homem do Bosque" e assim procurou designar o bicho que os optimistas naturais da zona achavam mais parecido com a nossa decaída espécie. Foi uma intuição, lá isso foi, mas prefiro-a na formulação retirada de Pio Baroja, quando definiu o grupo animal a que me envergonho de pertencer:
«O Homem? Um milímetro acima do Macaco, quando não está um centímetro abaixo do Porco». Sem ofensa para os Suínos
Descubra as diferenças
Nas notícias sobre o julgamento do assassino Breivik, algum iluminado "descobriu" que ele fez uma "saudação de extrema-direita" (?) na sala de audiências. O problema deve ser meu, mas o punho fechado lembra-me outras coisas...
De facto, na nossa História recente, esta "saudação" já foi utilizada. Quem se recorda do Famoso "juramento de bandeira revolucionário" feito no RALIS no dia 21 de Novembro de 1975? Os recrutas, de punho fechado, juraram "estar sempre, sempre ao lado do povo" na luta "pela vitória da Revolução Socialista"...
De facto, na nossa História recente, esta "saudação" já foi utilizada. Quem se recorda do Famoso "juramento de bandeira revolucionário" feito no RALIS no dia 21 de Novembro de 1975? Os recrutas, de punho fechado, juraram "estar sempre, sempre ao lado do povo" na luta "pela vitória da Revolução Socialista"...
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