Decorre nos próximos dias 1 e 2 de Fevereiro, das 10 às 17 horas, na Sala Polivalente do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS-UL), o colóquio com o tema “O Estado das Direitas na Democracia Portuguesa”, organizado por Riccardo Marchi.
Na linha do seminário dedicado ao estudo histórico e político das direitas portuguesas intitulado “As raízes profundas não gelam? - Ideias e percursos das direitas portuguesas”, realizado em Novembro de 2010, o investigador italiano radicado em Portugal Riccardo Marchi, autor dos livros “Folhas Ultras - As ideias da direita radical Portuguesa (1939-1950)” e “Império, Nação, Revolução - As Direitas Radicais Portuguesas no Fim do Estado Novo (1959-1974)”, organiza agora o colóquio “O Estado das Direitas na Democracia Portuguesa”.
O foco de análise neste colóquio é o Estado no seu duplo significado de “Condição” e “Ordenamento político-jurídico”. Como nos explica a apresentação, “por um lado, a ‘condição das Direitas’ na sua dimensão política e cultural, numa perspectiva diacrónica desde a institucionalização da democracia até aos nossos dias. Por outro lado, o ‘projecto institucional’ das Direitas na sua dimensão nacional e internacional, numa perspectiva de futuro”.
O colóquio será dividido em dois painéis por dia, aos quais se segue um período de debate. No primeiro, “Direitas e partidos”, moderado por Riccardo Marchi, falarão Tiago Fernandes, sobre “Direita e qualidade da democracia: Portugal em perspectiva comparada (1974 – 2010)” e José Pedro Zúquete, sobre “Direita, genética: entre o passado e o presente”. O segundo, subordinado ao tema “Direitas e Cultura”, terá as intervenções de Patrícia Silva, com a comunicação “Direitas e discurso político: O CDS entre passado e presente”, Alexandre Franco de Sá, com “Direita, Hegemonia e Filosofia Política”, e Pedro Mexia, com “Direitas e Artes”, e será moderado por José Pedro Zúquete. No segundo dia, o painel da manhã, com o tema “Direitas e Estado”, será moderado por Tiago Fernandes e terá como intervenientes Pedro Lomba, com a comunicação “As Direitas e o Estado na arquitectura constitucional”, João Pereira Coutinho, com “As Direitas e a relação entre o Estado e os Corpos intermédios”, e António Araújo, com “As Direitas e a relação entre o Estado e a Sociedade”. O último painel, intitulado “Direitas e Poderes”, com moderação de António Costa Pinto, terá as comunicações “As Direitas, o Estado e o Supranacional (Europa e Comunidade Internacional)”, de Marina Costa Lobo, e “As Direitas e o Estado face ao mercado”, de André Azevedo Alves. A entrada é livre e aberta a toda a comunidade.
Andam distraídos...
1.º Ano de Vida!
Este blogue colectivo completa hoje um ano de vida. E fá-lo com oito veteranos bibliófilos e bloguistas no activo. Por estas e outras, é obrigatório visitar diariamente o Jovens do Restelo.
Caldo de Cultura (XXII)
Almoçaram ontem os jovens Bruno Oliveira Santos e João Marchante, acompanhados de Francisco Cabral de Moncada. Os três abancaram num restaurante do Campo Pequeno, por motivos gastronómicos e políticos. A comida é boa e, nos tempos que correm, para enfrentar os animais da governação, só mesmo na arena de pampilho em punho, para varejar cornúpetos e outros democratas. Quem levou o quê?Uma péssima notícia para estreia...
Desde sempre conheci a Portugal, na então aprazível Rua do Carmo, frequentei-a, comprei lá inúmeros livros e durante anos foi a minha livraria preferencial em Lisboa, seria pelo nome?
Passados 70 anos vai encerrar... Mais um símbolo da velha e boa Lisboa que acaba!
Passados 70 anos vai encerrar... Mais um símbolo da velha e boa Lisboa que acaba!
L'État c'est pas moi

O Estado que "está" aí - moderno, liberal, democrático ou como se lhe queira chamar - cai aos pedaços e o seu tempo está contado. Aqueles que o não têm em grande estima podem sentar-se confortavelmente, cruzar os braços e assistir ao seu desabamento. Mas também podem contribuir para acelerar o processo, mesmo que seja arrancando ao monstrengo uma só pedrinha da base.
Caldo de Cultura (XXI)
Um óptimo regresso do almoço dos Jovens, deslocado do local e do dia habituais, decorreu hoje com um belo cozido, como não podia deixar de ser. Sentindo a falta do mestre Paulo e dos verdadeiramente jovens Miguel e Lourenço, juntaram-se neste reencontro o Marcos, que mais uma vez atravessou o Atlântico, o João, o Duarte, e o nosso caríssimo Amigo Humberto Nuno de Oliveira. Cada um levou um livro e a fotografia aqui fica para o desafio do costume. Quem levou o quê?
Abastardar sim, mas depressa...
O que mais fez-me impressão neste meu - quase eliadeano - retorno pátrio é a rapidez frenética com que muitos trataram de adoptar o vil acordês cozinhado em altas negociatas interatlânticas. Lembrei logo do que foi a substituição das matrículas portuguesas (nossas) pelas ditas "europeias" (dos outros)... Tanta gente a querer ser avançada, cosmopolita, e parecer-se com alemães, franceses, etc.! Pois nisto da ortografia ainda é pior. Se há - e como! - os pacóvios de costume, convencidos de que escrever em brasilês é ser modernaço, há muitos que o fazem com a satisfação íntima de aplicar um bom par de coices ao que resta da identidade nacional. Quanto a mim, penso seriamente em voltar à ortografia pré-1911. Só para chatear a malta.
Mercado de Inverno
Para assinalar convenientemente o seu 1.º ano de vida — que se cumprirá já no próximo dia 31 de Janeiro —, o blogue colectivo Jovens do Restelo foi reforçado com uma contratação de peso. O capitão de equipa — Duarte Branquinho — anunciará em breve o nome do novo atleta das artes e letras.
Lisboa Sempre
Para além de tudo o que aqui atrás ficou escrito sobre a fita, acrescento: em Lisboa, Crónica Anedótica (Portugal, 1930), Leitão de Barros filma os ciclos da vida — da infância à velhice — de uma forma espiritual e bela. As caras e os corpos são retratados com profundidade e sensualidade. É um esteta voyeur que vampiriza as pulsões eróticas das mulheres e homens de Lisboa — nessa inebriante viragem de décadas —, sem, contudo, lhes retirar a energia, ou — muito menos — a alma. Afinal, este autor é também um humanista, com toda o peso histórico e estético que a palavra contém. Assim, atravessando bairros e estractos sociais, mostra várias personagens anónimas da Capital, com notáveis grandes planos de rostos, em toda as suas expressivas personalidades. Por outro lado, quando se trata de planos gerais, como na espantosa sequência das Forças Armadas, com Armada e Exército, os movimentos dos grupos adquirem um valor balético e coreográfico inexcedível até hoje no Cinema Português. Nestas cenas, o efeito de ralenti vem sublinhar a beleza plástica e rítmica das acções: os marinheiros do Navio-Escola Sagres são elevados, nas suas simples tarefas diárias — depois de captados pela sua câmara voyeurista e verista, e após a dinâmica montagem —, à categoria de heróis clássicos, na dimensão escultórica dos corpos atléticos e na coreografia dos marciais movimentos colectivos. Aqui cheira a Couraçado, de Eisenstein, como aliás ao longo de toda a película também se sente Vertov; mas, cá para mim (meu Deus, o que eu vou dizer...), vai-se mais longe em poesia do olhar, pois também pressentimos a influência das vanguardas cinematográficas francesas e alemãs. Leitão de Barros usa Lisboa e os lisboetas como matéria-prima para edificar um filme de arte, simultaneamente lírico e épico, original sinfonia de uma capital, com as fortes marcas identitárias da cidade à vista — onde, ainda hoje, todos nos reconhecemos. Destacaria, a finalizar estas notas de visionamento, escritas e reescritas ao correr das teclas, e só estas, porque este filme não se encerra — pois fugiria certamente! —, uma última sequência: o treino de uma belíssima carga (homens de espada em riste e cavalos galopando, em plena harmonia) levada a cabo pelo Regimento de Cavalaria 7 (onde o meu Pai foi oficial miliciano, diga-se de passagem) ; nestas imagens, em slow motion, é toda uma Ética de Cavalaria — para sempre perdida — que desfila à nossa frente. E, assim, através dessa simbólica manobra militar, vemos, claramente, o fim de toda uma Época. De arrepiar.
Cidade Branca

Em 1 de Abril de 1930, estreia simultaneamente no São Luiz e no Tivoli (parece mentira, mas é verdade; bons tempos!), Lisboa, Crónica Anedótica, de Leitão de Barros. Este cineasta tem como marca principal um apurado sentido estético, partilhado com a extraordinária geração de que faz parte — Chianca de Garcia, Jorge Brum do Canto, António Lopes Ribeiro, Cottinelli Telmo, e outros de igual qualidade.
José Júlio Marques Leitão de Barros nasceu no Porto, filho de um Capitão-de-Mar-e-Guerra, mas foi registado em Lisboa, onde veio a morrer em 1967. Depois de tirar o Curso da Escola de Belas-Artes, foi Professor dos Liceus — o seu manual Elementos de História da Arte é ainda hoje uma referência —, e destacou-se como pintor, estando representado em vários Museus portugueses e estrangeiros. Por outro lado, como dramaturgo, escreveu várias peças que foram representadas no Teatro Nacional e noutras salas. Foi também jornalista em O Século, A Capital e ABC, e fundou e dirigiu Domingo Ilustrado, Notícias Ilustrado e Século Ilustrado; ficaram ainda célebres as suas crónicas semanais no Diário de Notícias, sob o título «Os Corvos» (publicadas em dois volumes, com ilustrações de João Abel Manta). Organizou os cortejos históricos das Festas da Cidade de Lisboa (1934-1935) e foi Secretário-Geral da Exposição do Mundo Português (1940). Tudo isto, e muitas outras actividades de idêntica relevância.
Recuando agora ao seu debute cinematográfico, há que referir 1918 como o ano dos seus primeiros (quatro!) filmes, de que se destaca o infelizmente desaparecido Sidónio Pais — Proclamação do Presidente da República. No entanto, é preciso esperar por 1930, para assistirmos ao seu arranque em duas frentes, ainda no Cinema Mudo, com duas obras de enorme beleza plástica: a já referida Lisboa e Maria do Mar — filme este que marca presença, com exibições habituais, nas principais cinematecas europeias e que a nossa Cinemateca Portuguesa em boa hora restaurou e exibiu, no ano passado, numa sessão onde se perfilaram dez pessoas (sim, eu estava lá com um par de alunos e vi com os meus próprios olhos!). Esta película tinha sido antecedida por Nazaré, Praia de Pescadores (1929), que cativou, de imediato, público e crítica — uma característica deste cineasta ao longo da sua extensa carreira, que coincidiu com uma época de profunda identificação dos portugueses com o seu Cinema.
O viveiro de todo este Novo Cinema, em pleno Estado Novo, seria a Brasileira do Chiado, os escritórios do São Luiz e do Trindade, e os estúdios da Tobis no Lumiar, de cuja fundação Leitão de Barros viria a ser um dos principais impulsionadores.
No início de 1929, Leitão de Barros e António Lopes Ribeiro partem em viagem, à descoberta dos principais estúdios de Cinema da Europa, onde conhecem e convivem com os maiores cineastas desse tempo — da Alemanha à Rússia…! Regressados à Pátria, Leitão de Barros lança-se na rodagem de Lisboa, Crónica Anedótica, a fita que hoje aqui trazemos, e que é um marco mundial na tendência europeia dos documentários poéticos, de matriz futurista, sobre a vida das grandes cidades, que tinha até aí em Berlim, Sinfonia de uma Capital (1926), de Walter Ruttmann, o seu mais alto expoente.
Lembremos aqui que Leitão de Barros, que trabalhava como professor de Desenho e Matemática (mais uma das suas aparentes contradições, mas expressão máxima da sua versatilidade criativa), era um nacionalista puro, sempre em busca da exaltação estética dos valores tradicionais de Portugal; conseguia extrair beleza da nossa Terra e do nosso Povo, numa linguagem moderna e apelativa. O seu apurado sentido de humor fazia-o evitar o ridículo e o mau-gosto (tão comuns na nossa burgessa e deslumbrada burguesia de hoje).
Homem de várias Vidas — pintor, professor, cineasta, jornalista, criador de grandes espectáculos —, foi no Cinema, porém, que encontrou o meio para explanar totalmente a sua Arte: estão aí A Severa (1930) — primeiro filme sonoro português —, As Pupilas do Senhor Reitor (1935), Bocage (1936), Ala-Arriba! (1942) — premiado no Festival de Veneza —, Inez de Castro (1944), Camões (1946), Vendaval Maravilhoso (1949), para o demonstrar, além de vários documentários, que são peças fundamentais para estudar a época histórica do Estado Novo.
Vamos então a Lisboa, Crónica Anedótica, que se faz tarde. Este filme é o mais autêntico documentário feito até hoje sobre a Capital; mas é também, ainda, muito mais do que isso: é uma fita onde aparecem os maiores actores da época — e de sempre?… — do Teatro e do Cinema de Portugal (Nascimento Fernandes, Beatriz Costa, Vasco Santana, Erico Braga, Chaby Pinheiro, Estevão Amarante, Josefina Silva, Eugénio Salvador, Adelina Abranches, Costinha, Alves da Cunha, e muitos outros… — caramba!). Todos eles interpretam personagens típicas de Lisboa, misturadas com as figurais reais do quotidiano da cidade.
Esta convincente articulação de realidade e ficção, de linguagem documental e fantasia, fazem desta obra um caso sério de inovação, qual precursora de fenómenos cinematográficos do pós-II Guerra Mundial, como o neo-realismo italiano. No caso da nossa Lisboa, o verismo antropológico conjuga-se com um requinte formal de artista sofisticado — Leitão de Barros era um esteta — e surge livre de visões marxistas, habitualmente transformadoras dos tipos sociais em estereótipos.
O filme avança em animado ritmo, com uma montagem que assegura a colagem dinâmica dos fragmentos — pitorescos, mas ao mesmo tempo poéticos — e cria um sentido para as imagens (magníficas, do grande operador Artur Costa de Macedo), ao som da Música de Frederico de Freitas, Juan Fabre e António Melo — interpretada ao vivo, pelas melhores orquestras, durante as projecções (Cinema Mudo oblige).
O que seria apenas um documentário, eleva-se, assim, à categoria de grande peça «cinegráfica» (na feliz expressão do meu Saudoso Mestre Luís de Pina, na sua História do Cinema Português).
Ao vermos este filme, sentimos a nostalgia de uma cidade branca, monumental, simples, luminosa, alegre, dinâmica, viva, habitada — com seus tipos genuínos —, com Alma! E, apetece-nos perguntar: — Por que será que agora Lisboa aparece sempre cinzenta e triste no Cinema Português a que temos direito e que pagamos com os nossos impostos?…
Lisboa, Crónica Anedótica apresenta-se, assim, como mais uma prova de que é possível alinhar Portugal com o «ar dos tempos» — a par de Ruttmann e Vertov, neste caso — sem abdicar da Identidade Nacional.
Veja-se e faça-se, de novo!
José Júlio Marques Leitão de Barros nasceu no Porto, filho de um Capitão-de-Mar-e-Guerra, mas foi registado em Lisboa, onde veio a morrer em 1967. Depois de tirar o Curso da Escola de Belas-Artes, foi Professor dos Liceus — o seu manual Elementos de História da Arte é ainda hoje uma referência —, e destacou-se como pintor, estando representado em vários Museus portugueses e estrangeiros. Por outro lado, como dramaturgo, escreveu várias peças que foram representadas no Teatro Nacional e noutras salas. Foi também jornalista em O Século, A Capital e ABC, e fundou e dirigiu Domingo Ilustrado, Notícias Ilustrado e Século Ilustrado; ficaram ainda célebres as suas crónicas semanais no Diário de Notícias, sob o título «Os Corvos» (publicadas em dois volumes, com ilustrações de João Abel Manta). Organizou os cortejos históricos das Festas da Cidade de Lisboa (1934-1935) e foi Secretário-Geral da Exposição do Mundo Português (1940). Tudo isto, e muitas outras actividades de idêntica relevância.
Recuando agora ao seu debute cinematográfico, há que referir 1918 como o ano dos seus primeiros (quatro!) filmes, de que se destaca o infelizmente desaparecido Sidónio Pais — Proclamação do Presidente da República. No entanto, é preciso esperar por 1930, para assistirmos ao seu arranque em duas frentes, ainda no Cinema Mudo, com duas obras de enorme beleza plástica: a já referida Lisboa e Maria do Mar — filme este que marca presença, com exibições habituais, nas principais cinematecas europeias e que a nossa Cinemateca Portuguesa em boa hora restaurou e exibiu, no ano passado, numa sessão onde se perfilaram dez pessoas (sim, eu estava lá com um par de alunos e vi com os meus próprios olhos!). Esta película tinha sido antecedida por Nazaré, Praia de Pescadores (1929), que cativou, de imediato, público e crítica — uma característica deste cineasta ao longo da sua extensa carreira, que coincidiu com uma época de profunda identificação dos portugueses com o seu Cinema.
O viveiro de todo este Novo Cinema, em pleno Estado Novo, seria a Brasileira do Chiado, os escritórios do São Luiz e do Trindade, e os estúdios da Tobis no Lumiar, de cuja fundação Leitão de Barros viria a ser um dos principais impulsionadores.
No início de 1929, Leitão de Barros e António Lopes Ribeiro partem em viagem, à descoberta dos principais estúdios de Cinema da Europa, onde conhecem e convivem com os maiores cineastas desse tempo — da Alemanha à Rússia…! Regressados à Pátria, Leitão de Barros lança-se na rodagem de Lisboa, Crónica Anedótica, a fita que hoje aqui trazemos, e que é um marco mundial na tendência europeia dos documentários poéticos, de matriz futurista, sobre a vida das grandes cidades, que tinha até aí em Berlim, Sinfonia de uma Capital (1926), de Walter Ruttmann, o seu mais alto expoente.
Lembremos aqui que Leitão de Barros, que trabalhava como professor de Desenho e Matemática (mais uma das suas aparentes contradições, mas expressão máxima da sua versatilidade criativa), era um nacionalista puro, sempre em busca da exaltação estética dos valores tradicionais de Portugal; conseguia extrair beleza da nossa Terra e do nosso Povo, numa linguagem moderna e apelativa. O seu apurado sentido de humor fazia-o evitar o ridículo e o mau-gosto (tão comuns na nossa burgessa e deslumbrada burguesia de hoje).
Homem de várias Vidas — pintor, professor, cineasta, jornalista, criador de grandes espectáculos —, foi no Cinema, porém, que encontrou o meio para explanar totalmente a sua Arte: estão aí A Severa (1930) — primeiro filme sonoro português —, As Pupilas do Senhor Reitor (1935), Bocage (1936), Ala-Arriba! (1942) — premiado no Festival de Veneza —, Inez de Castro (1944), Camões (1946), Vendaval Maravilhoso (1949), para o demonstrar, além de vários documentários, que são peças fundamentais para estudar a época histórica do Estado Novo.
Vamos então a Lisboa, Crónica Anedótica, que se faz tarde. Este filme é o mais autêntico documentário feito até hoje sobre a Capital; mas é também, ainda, muito mais do que isso: é uma fita onde aparecem os maiores actores da época — e de sempre?… — do Teatro e do Cinema de Portugal (Nascimento Fernandes, Beatriz Costa, Vasco Santana, Erico Braga, Chaby Pinheiro, Estevão Amarante, Josefina Silva, Eugénio Salvador, Adelina Abranches, Costinha, Alves da Cunha, e muitos outros… — caramba!). Todos eles interpretam personagens típicas de Lisboa, misturadas com as figurais reais do quotidiano da cidade.
Esta convincente articulação de realidade e ficção, de linguagem documental e fantasia, fazem desta obra um caso sério de inovação, qual precursora de fenómenos cinematográficos do pós-II Guerra Mundial, como o neo-realismo italiano. No caso da nossa Lisboa, o verismo antropológico conjuga-se com um requinte formal de artista sofisticado — Leitão de Barros era um esteta — e surge livre de visões marxistas, habitualmente transformadoras dos tipos sociais em estereótipos.
O filme avança em animado ritmo, com uma montagem que assegura a colagem dinâmica dos fragmentos — pitorescos, mas ao mesmo tempo poéticos — e cria um sentido para as imagens (magníficas, do grande operador Artur Costa de Macedo), ao som da Música de Frederico de Freitas, Juan Fabre e António Melo — interpretada ao vivo, pelas melhores orquestras, durante as projecções (Cinema Mudo oblige).
O que seria apenas um documentário, eleva-se, assim, à categoria de grande peça «cinegráfica» (na feliz expressão do meu Saudoso Mestre Luís de Pina, na sua História do Cinema Português).
Ao vermos este filme, sentimos a nostalgia de uma cidade branca, monumental, simples, luminosa, alegre, dinâmica, viva, habitada — com seus tipos genuínos —, com Alma! E, apetece-nos perguntar: — Por que será que agora Lisboa aparece sempre cinzenta e triste no Cinema Português a que temos direito e que pagamos com os nossos impostos?…
Lisboa, Crónica Anedótica apresenta-se, assim, como mais uma prova de que é possível alinhar Portugal com o «ar dos tempos» — a par de Ruttmann e Vertov, neste caso — sem abdicar da Identidade Nacional.
Veja-se e faça-se, de novo!
Nota: Sobre esta fotografia, da rodagem de Lisboa, Crónica Anedótica, que ilustra o meu texto, aconselho a leitura do seguinte post. Com um beijo de bem-haja à confrade bloguista Vera Futscher.
La Nouvelle Revue d’Histoire n.º 58
O número 58 de «La Nouvelle Revue d’Histoire», relativo aos meses de Janeiro e Fevereiro, disponível nas bancas nacionais, tem como tema central “Os intelectuais e a esquerda na Colaboração” e oferece um excelente dossier com vários artigos de Dominique Venner, Julien Hervier, Francis Bergeron, Alain de Benoist, Philippe d'Hugues, Charles Vaugeois e Antoine Baudoin. Destaque ainda para os artigos “Hanna Reitsch, uma aviadora alemã”, de Yvonne Pagniez, “1912. O apogeu da corrida aos pólos”, de Philippe Conrad, e “Mackinder, teórico da supremacia anglo-saxónica”, de Aymeric Chauprade, e a entrevista com Françoise Autrand. Como sempre, há ainda outros artigos e as secções habituais de actualidade e crítica de livros. Uma referência na divulgação histórica.
Pioneiro Português

Manuel Maria da Costa Veiga inicia a sua actividade cinematográfica como exibidor de filmes estrangeiros em Lisboa. Embora residente em Algés, era uma típica figura da Capital na viragem do século XIX para o XX — dandy alto e espadaúdo, de farta mas cuidada barba à moda. Além do mais, era um curioso e especialista em mecânica e electricidade, o que lhe conferia uma aura de mágico, nesses tempos da iluminação a gaz.
Costa Veiga ajudou Edwin Rousby na primeira exibição em Portugal de imagens em movimento, que decorreu no Real Coliseu da Rua da Palma (hoje desaparecido, para dar lugar a caixotes pós-modernos); sessão essa que teve na assistência o Infante D. Afonso, irmão do Rei D. Carlos I, o que revela o empenho da Casa Real nas novidades científicas e artísticas que estavam a surgir, na Europa, na sequência da primeira apresentação pública — em Paris, a 28 de Dezembro de 1895 — de imagens captadas, reveladas e projectadas pelos irmãos Lumière, com a sua maravilhosa máquina Cinématographe.
A referida estreia lisboeta aconteceu em Junho de 1896 e nela foram projectadas fitas rodadas à volta do Mundo por operadores do pioneiro londrino Robert-William Paul. Foi um sucesso público, esta iniciativa do misterioso exibidor itinerante (húngaro ou americano, ninguém sabe) Edwin Rousby, «o electricista de Budapeste». Este, em Setembro, propicia nova sessão pública em Lisboa, agora com películas já filmadas no nosso País, pelo operador Harry Short, que Paul mandara para o sul da Europa à caça de imagens. A Cinemateca Portuguesa possui dois destes filmes: A Boca do Inferno e A Praia de Algés na Ocasião dos Banhos. Em Janeiro de 1897, Rousby parte definitivamente de Portugal, mas deixa em Lisboa a semente da cinefilia.
Depois deste flashback, para enquadramento histórico da aparição do Cinema («Animatógrafo», nas palavras de então) em Lisboa, vamos ao nosso pioneiro: Costa Veiga, após várias tentativas falhadas nesse sentido, conseguiu estabelecer-se como exibidor, inaugurando o Éden Concerto, aos Restauradores, e a Esplanada D. Luiz Filipe, em Cascais. Não tardou, no entanto, a dar o salto para a produção de filmes. Assim, aproveitando a estada sazonal do Rei D. Carlos em Cascais, no Verão de 1899, filma a Pessoa Real na praia, capta mais algumas vistas da então famosa estância balnear, e, finalmente, apresenta a sua primeira película: Aspectos da Praia de Cascais.
Foi o início de uma carreira de grande actividade como documentarista (palavra e conceito inexistentes à época, mas é disso que se trata), que atravessará toda a primeira década do século XX, registando os principais acontecimentos sociais e políticos, com a sua câmara inglesa Urban.
As vindas a Portugal de Chefes de Estado, e outras altas figuras, não lhe escaparam; e, temos, assim, a Série — interessante e fundamental para a compreensão da História da Europa — «Visitas a Lisboa»: Eduardo VII (1903), Afonso XIII (1903), Duques de Connaught (1903) Imperador da Alemanha Guilherme II (1905), Presidente de França Émile Loubet (1905), Rei de Saxe (1908).
Por este motivo, ficou conhecido por «Cineasta dos Reis», em oposição jocosa ao seu contemporâneo Aurélio da Paz dos Reis, «o Reis Cineasta», do Porto — primeiro português a dar à manivela uma câmara de filmar; e, revolucionário republicano, por sinal… Deste, falaremos noutro dia.
Entretanto, Costa Veiga fundou uma empresa produtora de Cinema — Portugal Filme —, continuando ainda a sua actividade profissional nos ramos da exibição e distribuição de fitas. Descobriu também, para o Cinema Português, Artur Costa de Macedo, que viria a ser um dos nossos melhores directores de fotografia, decisivo na Época de Ouro do Cinema Português (décadas de 1930 e 1940), e que trabalhava antes na garagem Auto-Palace, ao Rato.
Num tempo muito anterior ao advento da Televisão, era através do Cinema que os Estados comunicavam com os seus cidadãos e passavam para o exterior as imagens do País. Neste contexto, os filmes de Costa Veiga fizeram parte de uma grande e última ofensiva diplomática da Monarquia Portuguesa. A já referida Série «Visitas a Lisboa» foi distribuída por toda a Europa, com o apoio do Rei D. Carlos, mostrando Lisboa, como capital cosmopolita, acolhendo as principais figuras políticas do Mundo.
Note-se que os filmes, embora numa fase embrionária da Sétima Arte — em formato de curtas-metragens, a preto-e-branco, mudos —, eram um negócio rentável; e, Costa Veiga pôde enriquecer com a produção, distribuição e exibição de fitas, despertando, desta maneira, o apetite de muitos outros para esta indústria, os quais não tardaram a aparecer, em força, em Lisboa.
Sendo Costa Veiga «O Cineasta dos Reis», de facto, pode também dizer-se que a sua carreira sofre um grande abalo com o horrível Regicídio de 1 de Fevereiro de 1908 no Terreiro do Paço. Temos assim — simbolicamente — como uma das últimas obras do realizador: Os Funerais de S. M. El-Rei D. Carlos I e do Príncipe Real D. Luiz Filipe (1908).
Agora, depois de já passados cem anos sobre o cobarde crime do Terreiro do Paço, não será a hora de se desenterrarem e exibirem os filmes do pioneiro lisboeta — do Cinema Nacional — Manuel Maria da Costa Veiga?
No Olho!
Aviso à navegação
A brincar, a brincar (salvo seja!), este blogue colectivo completará 1 ano de vida já no próximo dia 31 de Janeiro. Será motivo, pelo menos, para uma rija almoçarada dos seus autores; e, espera-se, para simpáticas surpresas, feitas aos mesmos, por parte dos seus leitores...
Céline inédito
Disponível nos quiosques nacionais está o número especial da revista francesa “Lire” dedicado ao escritor “maldito” Céline. São cem páginas, a cores e sem publicidade, com vários conteúdos inéditos, para melhor conhecermos este mestre das letras francesas.
Em 2008, a “Lire” dedicou um número especial a Céline que foi um sucesso e rapidamente esgotou. Perante este êxito e as recentes polémicas que envolveram o escritor francês, decidiu agora fazer uma nova edição “enriquecida”, com vários conteúdos inéditos.
A abrir, um artigo de opinião reflecte sobre a ironia de ter sido durante o mandato de Sarkozy, um apaixonado pela obra de Céline, que este escritor foi banido das celebrações oficiais, pela mão do ministro da Cultura, Frédéric Mitterand. Como afirmou o actual presidente francês, “podemos gostar de Céline sem sermos anti-semitas, como podemos gostar de Proust sem sermos homossexuais”, mas nem assim se impediu a censura...
De seguida, há a destacar a entrevista com François Gibault, autor de uma enorme biografia sobre o escritor francês, a publicação do capítulo das Memórias do Coronel SS Hermann Bickler sobre o seu amigo Céline, o artigo onde se questiona se não devia republicar os chamados panfletos anti-semitas, quando hoje estão facilmente acessíveis através da Internet, e a versão integral da entrevista feita por Madeleine Chapsal, em 1957, cuja publicação no “L’Express” causou polémica na altura. Nos vários conteúdos inéditos, há a destacar a obra de Céline mais cara do mundo, um exemplar de “Morte a Crédito” ilustrado por Gen Paul, com a reprodução de vários guaches, e uma carta inédita de Céline a Gen Paul. Por fim, temos três páginas com uma selecção de livros de e sobre Céline.
Para os incomodados do costume, recorde-se o que escreve François Busnel no editorial, parafraseando Gallimard quando decidiu colocar Céline na Pléiade: “Fico contente com todos aqueles que isto vai chatear...”
Em 2008, a “Lire” dedicou um número especial a Céline que foi um sucesso e rapidamente esgotou. Perante este êxito e as recentes polémicas que envolveram o escritor francês, decidiu agora fazer uma nova edição “enriquecida”, com vários conteúdos inéditos.
A abrir, um artigo de opinião reflecte sobre a ironia de ter sido durante o mandato de Sarkozy, um apaixonado pela obra de Céline, que este escritor foi banido das celebrações oficiais, pela mão do ministro da Cultura, Frédéric Mitterand. Como afirmou o actual presidente francês, “podemos gostar de Céline sem sermos anti-semitas, como podemos gostar de Proust sem sermos homossexuais”, mas nem assim se impediu a censura...
De seguida, há a destacar a entrevista com François Gibault, autor de uma enorme biografia sobre o escritor francês, a publicação do capítulo das Memórias do Coronel SS Hermann Bickler sobre o seu amigo Céline, o artigo onde se questiona se não devia republicar os chamados panfletos anti-semitas, quando hoje estão facilmente acessíveis através da Internet, e a versão integral da entrevista feita por Madeleine Chapsal, em 1957, cuja publicação no “L’Express” causou polémica na altura. Nos vários conteúdos inéditos, há a destacar a obra de Céline mais cara do mundo, um exemplar de “Morte a Crédito” ilustrado por Gen Paul, com a reprodução de vários guaches, e uma carta inédita de Céline a Gen Paul. Por fim, temos três páginas com uma selecção de livros de e sobre Céline.
Para os incomodados do costume, recorde-se o que escreve François Busnel no editorial, parafraseando Gallimard quando decidiu colocar Céline na Pléiade: “Fico contente com todos aqueles que isto vai chatear...”
Fado Filmado

Em Portugal, no ano de 1947, entre as sete longas-metragens produzidas, surge Fado, História d’Uma Cantadeira, que, dez anos depois, virá a ser o primeiro filme exibido pela Televisão Portuguesa, no arranque da RTP.
O seu realizador é Perdigão Queiroga, nascido em Évora, em 1916, e morto fisicamente num acidente de automóvel, em 1980. Este cineasta, depois de uma fase de aprendizagem das técnicas cinematográficas, trabalha como profissional nas áreas da imagem e da montagem. De seguida, em plena II Guerra Mundial, e Golden Age do Cinema Americano, ruma a Hollywood — para os estúdios da major Paramount (uma das cinco maiores empresas de produção cinematográfica dos E. U. A.) —, onde trabalha em montagem. De regresso à Pátria, inicia a preparação de Fado, que será o seu primeiro filme de fundo, numa obra com dezenas de títulos.
A sua filmografia divide-se, como era hábito nos autores clássicos completos, entre documentários (a que hoje chamaríamos «institucionais») e longas-metragens de ficção. Outro ponto alto da sua carreira viria a ser As Pupilas do Senhor Reitor (1961), a partir de Júlio Diniz, e que foi o primeiro filme nacional rodado em cinemascope (formato de ecrã largo).
Mas vamos ao nosso Fado, História d’Uma Cantadeira (1947), de Perdigão Queiroga, que a isso viemos e nisso estamos. Este filme baseia-se, muito livremente, na biografia da grande Amália Rodrigues, então no auge da sua carreira e beleza. Será esta formidável «cantadeira» a protagonizar a fita, com a qual iluminará a tela, como estrela deste melodrama romântico. Para que a musa lusa brilhe, em toda a sua plenitude, muito ajudarão os belíssimos fados de Frederico de Freitas, as letras de Amadeu do Vale, Linhares Barbosa, Gabriel de Oliveira e João Mota, as «sínteses de fados» de Frederico Valério e Jaime Santos, os versos de Silva Tavares e José Galhardo; e, toda esta equipa de luxo, sob a direcção musical de Jaime Mendes.
Abordemos então agora a história, propriamente dita: os cânones do melodrama, herdados — pelo Cinema — da Literatura e do Teatro do século XIX, estão lá todos; e, de uma forma não muito diferente daquela como eram praticados, à época, em Hollywood, mas convenientemente transpostos para a realidade social da Lisboa dos anos 40 do século passado, como se pretende.
Assim, temos uma fadista pobre de Alfama, com um namorado (o guitarrista Júlio — interpretado convincentemente pelo grande Virgílio Teixeira), que, tornando-se famosa, sai do seu bairro, abandonando o apaixonado companheiro e trocando-o pelos círculos da alta-burguesia e da aristocracia de Lisboa. Por fim, depois de peripécias várias, numa trama narrativa bem urdida, temos um final na boa tradição do happy end da Capital do Cinema. Se destaco esta ligação ao cinema clássico narrativo sonoro, que tinha as suas regras ditadas pelos norte-americanos, é porque o filme tem uma desenvoltura própria dos melhores produtos saídos dessas «fábricas de sonhos» que eram os Estúdios de Hollywood.
Perdigão Queiroga junta-lhe ainda os principais ingredientes da Cultura Popular Portuguesa — olhada por alguns arrivistas com desconfiança, pois talvez lhes faça lembrar o berço que renegam —, e, assim, conseguiu fazer um filme que é um dos maiores êxitos de bilheteira — até hoje — do Cinema Português, ao mesmo tempo que recebeu críticas muitíssimo positivas; conjugação esta não habitual. Capas Negras, de Armando de Miranda, desse mesmo ano e também com Amália, foi demolido pela crítica, e com toda a razão, devido ao cinema pobrezinho que revelava.
Neste caso — no nosso Fado —, o pano de fundo de carácter realista com que são pintados os bairros tradicionais de Lisboa, a excepcional representação do galã português de dimensão internacional — Virgílio Teixeira —, o rosto, a voz, e a naturalidade expressiva de Amália, o rigor fotográfico de Francesco Izzarelli, a fluidez da montagem do próprio Perdigão Queiroga — em «estilo invisível», à maneira de Hollywood —, as presenças de António Silva, Vasco Santana, Eugénio Salvador, Tony d’Algy, Raul de Carvalho, e mais uma mão cheia de outros grandes actores, fizeram toda a diferença.
Convém aqui realçar que o Fado e os Toiros são dois mitos permanentes da iconografia nacional; e, se convenientemente levados para a Cinematografia Portuguesa — com um tratamento narrativo e plástico sempre renovado, de acordo com o espírito dos tempos —, podem constituir-se como uma das matrizes estruturais de um verdadeiro género indígena. Os E. U. A. fazem exactamente o mesmo com os seus géneros: Western, Gangsters, Musical. Esta linha do Cinema Português foi, aliás, logo consagrada no primeiro filme sonoro (sonorizado, no entanto, ainda, em França): Severa, de Leitão de Barros.
Em relação a Fado, História d’Uma Cantadeira, diga-se que o Estado Novo — através do SNI, de António Ferro — pareceu gostar a atribuiu-lhe o Grande Prémio, nesse ano de 1947, demarcando-se, deste modo, de Capas Negras, que, apesar de tudo, teve um maior sucesso de bilheteira na época (e mesmo, também, um dos maiores de sempre, até à actualidade).
De facto, António Ferro, com o seu inovador bom-gosto, sabia o que fazia ao distinguir este filme, pois Fado tem tudo: por um lado, uma extraordinária beleza plástica — esse rosto de Amália nada fica a dever aos de outras divas do Cinema Mundial, muito graças ao já referido director de fotografia italiano, que tinha trabalhado no Camões, de Leitão de Barros, e que tem um estilo visual a fazer lembrar o expressionismo alemão; por outro, a banda sonora, já convenientemente aqui destacada, que reunia os melhores autores da música popular portuguesa de então. Finalmente, os diálogos — esse ponto fraco da Cinematografia Nacional — são convincentes e vivos, e ditos com boa dicção, e ainda melhor interpretação, depois de saídos da pena criativa de Armando Vieira Pinto.
E agora vou mas é rever a fita, que fiquei cheio de vontade, e esperar — pessimista, mas esperançoso que sou — que o Cinema Português se reconcilie com o seu público e possa voltar a erguer produções desta dimensão, para que, como neste caso, não abdicando da requintada expressão estética do autor, possa servir, com narrativas escorreitas e simples, temas onde as pessoas realmente se revejam, pois já basta de décadas de divagações umbiguistas, em tom hermético, para consumo próprio (com honrosas excepções, apesar de tudo).
Bem sei que já não temos Amália, aqui e ao vivo, nem Virgílio Teixeira — e que falta fazem! —, mas há por cá novos e bons actores — potenciais novas estrelas! Estarão os actores portugueses para sempre fadados a fazer telenovelas em manhoso estilo sul-americano, ou poderão voltar a brilhar em Filmes Portugueses populares e de qualidade?...
A ver vamos.
Máquina de escrever
Hoje decidi mostrar aos meus filhos uma máquina de escrever. Foi com a Rooy portátil, com teclado HCESAR, comprada pelo meu avô e que depois passou para a minha mãe e, finalmente, para mim, que lhes mostrei como se escrevia antes da era dos computadores. Foi bastante divertido, tanto para eles como para mim. Refira-se que, com mais de meio século de idade, ainda funciona perfeitamente. Um regresso ao passado. Uma máquina de escrever que serviu como máquina do tempo.
Um pequeno grande livro
Na altura em que se assinalam os 150 anos da morte de D. Pedro V, a Texto Editores decidiu publicar o clássico de Ruben Andresen Leitão sobre este monarca que teve um reinado curto mas marcante. Um excelente retrato do nosso Rei Esperançoso.
Ruben Andresen Leitão é mais conhecido como romancista e pelo pseudónimo literário Ruben A., mas este autor fascinante foi também dramaturgo e historiador. Entre 1947 e 1974 dedicou a D. Pedro V, que considerava “o primeiro homem moderno do nosso país”, dezasseis obras. “D. Pedro V – Um Homem e um Rei” (capa dura, 128 páginas, 15,90 euros), escrito em 1947, tem um duplo objectivo segundo o autor – “servir de introdução às Obras Completas de D. Pedro V” e “perpetuar a memória dos verdadeiros homens da Casa de Bragança”. A sua admiração por este Rei em nada prejudica a obra, apenas lhe faz justiça. Para Ruben Andresen Leitão, “a História não pode idealizar figuras quando elas têm valor para transcender o ambiente literário – perde-se a lenda e fica o homem na mais pura concepção da actuação vivida”. No entanto, o escritor, em toda a sua qualidade, está aqui presente, oferecendo-nos uma belíssima prosa e uma leitura deliciosa, com um extraordinário poder de síntese.
O primeiro capítulo, intitulado acertada e singelamente “O Ambiente”, é uma reflexão sobre o conturbado período que antecedeu o reinado de D. Pedro V, fi lho primogénito de D. Maria II e de D. Fernando de Saxe-Coburgo e Gotha, com o qual pode fazer um impressionante paralelo com os dias de hoje. Inspiradoras e reveladoras da sua mente superior, bem como da sua profunda observação do País e do seu povo, são as citações do próprio Rei que encabeçam cada um dos capítulos. Como escreveu o jornalista e historiador Roberto de Moraes na revista “Futuro Presente”, aquando dos 150 anos da aclamação de D. Pedro V, este era “da estirpe de um D. João II a que se juntava algo da inteligência percutante e sombria de um D. Duarte” e “aliava as qualidades do homem de reflexão às do homem de acção, pois se era um realista que não podia ignorar o estado desgraçado em que se encontrava o Reino (muitos anos de guerra civil endémica, sucessão ininterrupta de Governos, humilhações face ao estrangeiro com a convenção de Gramido, revoltas como a da Maria da Fonte e a subsequente Patuleia, etc.), realista dobrado de pessimista, que não ocultava o idealista que também, lá bem no fundo, não deixava de ser”. Um Homem cuja morte precoce foi uma perda para Portugal, mais um daqueles azares históricos que parecem ser recorrentes na nossa História.
Até nas edições há curiosidades que saltam à vista dos mais atentos. Algo que Ruben Andresen Leitão considerava inacreditável era o facto de a data da morte de D. Pedro V estar incorrecta. Como ele escreve, “mataram o soberano em 1859, dois anos antes do seu desaparecimento!” Pois bem, na pequena nota biográfica do autor publicada, também este “morre” um ano antes... Apesar desta gralha, a editora está de parabéns. Tanto pelo sentido de ocasião, como pela edição cuidada, que felizmente não cedeu ao famigerado Acordo Ortográfico. E porque o livro enquanto objecto também é importante, há a destacar a bela e sóbria capa gravada que se esconde debaixo da esplêndida imagem impressa na sobrecapa.
Este é um livro pequeno em tamanho, mas grande em qualidade – tal como o reinado de D. Pedro V. [publicado na edição desta semana de «O Diabo»]
Ruben Andresen Leitão é mais conhecido como romancista e pelo pseudónimo literário Ruben A., mas este autor fascinante foi também dramaturgo e historiador. Entre 1947 e 1974 dedicou a D. Pedro V, que considerava “o primeiro homem moderno do nosso país”, dezasseis obras. “D. Pedro V – Um Homem e um Rei” (capa dura, 128 páginas, 15,90 euros), escrito em 1947, tem um duplo objectivo segundo o autor – “servir de introdução às Obras Completas de D. Pedro V” e “perpetuar a memória dos verdadeiros homens da Casa de Bragança”. A sua admiração por este Rei em nada prejudica a obra, apenas lhe faz justiça. Para Ruben Andresen Leitão, “a História não pode idealizar figuras quando elas têm valor para transcender o ambiente literário – perde-se a lenda e fica o homem na mais pura concepção da actuação vivida”. No entanto, o escritor, em toda a sua qualidade, está aqui presente, oferecendo-nos uma belíssima prosa e uma leitura deliciosa, com um extraordinário poder de síntese.
O primeiro capítulo, intitulado acertada e singelamente “O Ambiente”, é uma reflexão sobre o conturbado período que antecedeu o reinado de D. Pedro V, fi lho primogénito de D. Maria II e de D. Fernando de Saxe-Coburgo e Gotha, com o qual pode fazer um impressionante paralelo com os dias de hoje. Inspiradoras e reveladoras da sua mente superior, bem como da sua profunda observação do País e do seu povo, são as citações do próprio Rei que encabeçam cada um dos capítulos. Como escreveu o jornalista e historiador Roberto de Moraes na revista “Futuro Presente”, aquando dos 150 anos da aclamação de D. Pedro V, este era “da estirpe de um D. João II a que se juntava algo da inteligência percutante e sombria de um D. Duarte” e “aliava as qualidades do homem de reflexão às do homem de acção, pois se era um realista que não podia ignorar o estado desgraçado em que se encontrava o Reino (muitos anos de guerra civil endémica, sucessão ininterrupta de Governos, humilhações face ao estrangeiro com a convenção de Gramido, revoltas como a da Maria da Fonte e a subsequente Patuleia, etc.), realista dobrado de pessimista, que não ocultava o idealista que também, lá bem no fundo, não deixava de ser”. Um Homem cuja morte precoce foi uma perda para Portugal, mais um daqueles azares históricos que parecem ser recorrentes na nossa História.
Até nas edições há curiosidades que saltam à vista dos mais atentos. Algo que Ruben Andresen Leitão considerava inacreditável era o facto de a data da morte de D. Pedro V estar incorrecta. Como ele escreve, “mataram o soberano em 1859, dois anos antes do seu desaparecimento!” Pois bem, na pequena nota biográfica do autor publicada, também este “morre” um ano antes... Apesar desta gralha, a editora está de parabéns. Tanto pelo sentido de ocasião, como pela edição cuidada, que felizmente não cedeu ao famigerado Acordo Ortográfico. E porque o livro enquanto objecto também é importante, há a destacar a bela e sóbria capa gravada que se esconde debaixo da esplêndida imagem impressa na sobrecapa.
Este é um livro pequeno em tamanho, mas grande em qualidade – tal como o reinado de D. Pedro V. [publicado na edição desta semana de «O Diabo»]
Uma arma contra o Acordo Ortográfico
Aqui partilho a entrevista que fiz com João Pedro Graça, responsável pela Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico (ILCAO), publicada no semanário “O Diabo” de 20 de Dezembro de 2011.
Todos os que se opõem ao Acordo Ortográfico (AO) podem agir. É este o propósito de uma Iniciativa Legislativa de Cidadãos com o objectivo de revogar o diploma legal que o aprovou. João Pedro Graça é o responsável por esta iniciativa. O DIABO, Jornal que recusa o Acordo, entrevistou-o.
O DIABO – O que é a Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico (ILCAO)?
João Pedro Graça – É um Projecto de Lei redigido e submetido a aprovação parlamentar por parte de um grupo de cidadãos, com o objectivo de revogar de imediato a Resolução da Assembleia da República que determina a entrada em vigor do Acordo Ortográfico de 1990.
O que é necessário para que seja admitida?
Para que a ILCAO seja admitida para discussão e votação pelo plenário da Assembleia da República é necessário que o texto legal e respectiva sustentação sejam subscritos, em papel e com a identificação civil e os dados de recenseamento eleitoral de cada subscritor, por um mínimo de 35 mil cidadãos.
Como surgiu a ILCAO?
Tudo começou no dia 25 de Setembro de 2008, num “post” em que se referia a possibilidade de avançar com uma Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra a entrada em vigor do Acordo Ortográfico. A ideia foi depois lançada através da internet, em 2009 e começou a registar um número imparável de adesões. Redigida e publicada a ILCAO, começaram a ser recolhidas assinaturas no dia 8 de Abril de 2010.
Quais são as razões principais para esta acção de cidadania pela revogação do Acordo Ortográfico?
São inúmeras, mas abreviemos. O AO nem é acordo, porque num acordo se pressupõe cedências de ambas as partes e neste houve apenas de uma, nem é ortográfico, pela simples razão de que nega e renega o próprio conceito de ortografia. Tratou-se de um “cozinhado” exclusivamente político, entre cúpulas partidárias nacionais, e isto apenas entre Portugal e Brasil. Acresce que nenhum dos fundamentos aduzidos para a sua defesa contém um mínimo de credibilidade, vindo pretensamente “resolver”… um problema que nunca existiu.
A partir de 2012, o Acordo Ortográfico (AO) vai ser adoptado na Administração Pública, nas Escolas, no Diário da República, etc. Acha que isso vai desmoralizar os que se batem contra o AO?
Não, porque há um período de transição, previsto no AO, até 2015. Mais: o instrumento legal que aprovou o AO, a Resolução da Assembleia da República n.°35/2008, não prevê um regime sancionatório. Estamos sempre a tempo de anular, revogar, modificar ou substituir esta resolução.
As pessoas podem continuar a escrever como escreviam?
Não estão previstas sanções ou penas. Não há, assim, consequências legais neste aspecto. No entanto, no que respeita ao regime disciplinar, é diferente. Num organismo do Estado, depois de adoptado o AO, quem continuar a escrever da mesma forma pode ser alvo um processo disciplinar.
Não podem ser objectores de consciência?
Aqui não está prevista a figura da objecção de consciência, mas as pessoas podem invocá-la constitucionalmente.
Tem notado alguma alteração no apoio à ILCAO?
Sim, agora que se aproxima o dia 31 de Dezembro. As pessoas começam a ficar preocupadas e mobilizam-se mais. Muitas delas achavam que isto era uma coisa que ainda ia demorar. Mas agora entra-lhes em casa, seja pela RTP ou em muitos manuais escolares. Muita gente teve esse choque e decidiu apoiar a nossa iniciativa.
Mas muitas acham que o AO está para ficar?
Está, se as pessoas deixarem. Assinem a ILCAO e revoguem a entrada em vigor do AO. Não vale a pena refilar e achar que não há nada a fazer. Foi exactamente devido a essa postura que o AO acabou por ser aprovado. É preciso actuar. Não há outra forma de parar isto.
Como podem fazê-lo?
Todas as informações estão na nossa página na intemet (http://ilcao.cedilha.net/). Vão até lá e leiam, assinem e divulguem.
Tem alguma previsão de quando será entregue a ILCAO?
Isto podia ser feito num mês, bastava que tivéssemos visibilidade num grande órgão de comunicação social, um canal de televisão, por exemplo. Assim, temos que esperar mais algum tempo até conseguirmos reunir as 35 mil assinaturas necessárias.
Acha que os ‘media’ têm silenciado a ILCAO?
Têm, e de que maneira! À excepção do “Público” e de “O Diabo”, mais nenhum órgão de comunicação social refere a ILC. Há uma tendência para silenciar a ILC. E fazem pior, dão relevo a tudo o que é favorável ao AO.
A ILCAO está ligada a algum grupo ou interesse político?
Não. Temos uma comissão representativa, que inclui pessoas de todo o espectro partidário. Da extrema-esquerda à extrema-direita. Também na nossa página na internet se pode ver que temos apoiantes em todos os partidos, incluindo os que votaram favoravelmente o AO. Não nos identificamos politicamente. O nosso único interesse é que a ILC vingue e não qualquer aproveitamento partidário. O que está em causa é a Língua de todos.
Todos os que se opõem ao Acordo Ortográfico (AO) podem agir. É este o propósito de uma Iniciativa Legislativa de Cidadãos com o objectivo de revogar o diploma legal que o aprovou. João Pedro Graça é o responsável por esta iniciativa. O DIABO, Jornal que recusa o Acordo, entrevistou-o.
O DIABO – O que é a Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico (ILCAO)?
João Pedro Graça – É um Projecto de Lei redigido e submetido a aprovação parlamentar por parte de um grupo de cidadãos, com o objectivo de revogar de imediato a Resolução da Assembleia da República que determina a entrada em vigor do Acordo Ortográfico de 1990.
O que é necessário para que seja admitida?
Para que a ILCAO seja admitida para discussão e votação pelo plenário da Assembleia da República é necessário que o texto legal e respectiva sustentação sejam subscritos, em papel e com a identificação civil e os dados de recenseamento eleitoral de cada subscritor, por um mínimo de 35 mil cidadãos.
Como surgiu a ILCAO?
Tudo começou no dia 25 de Setembro de 2008, num “post” em que se referia a possibilidade de avançar com uma Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra a entrada em vigor do Acordo Ortográfico. A ideia foi depois lançada através da internet, em 2009 e começou a registar um número imparável de adesões. Redigida e publicada a ILCAO, começaram a ser recolhidas assinaturas no dia 8 de Abril de 2010.
Quais são as razões principais para esta acção de cidadania pela revogação do Acordo Ortográfico?
São inúmeras, mas abreviemos. O AO nem é acordo, porque num acordo se pressupõe cedências de ambas as partes e neste houve apenas de uma, nem é ortográfico, pela simples razão de que nega e renega o próprio conceito de ortografia. Tratou-se de um “cozinhado” exclusivamente político, entre cúpulas partidárias nacionais, e isto apenas entre Portugal e Brasil. Acresce que nenhum dos fundamentos aduzidos para a sua defesa contém um mínimo de credibilidade, vindo pretensamente “resolver”… um problema que nunca existiu.
A partir de 2012, o Acordo Ortográfico (AO) vai ser adoptado na Administração Pública, nas Escolas, no Diário da República, etc. Acha que isso vai desmoralizar os que se batem contra o AO?
Não, porque há um período de transição, previsto no AO, até 2015. Mais: o instrumento legal que aprovou o AO, a Resolução da Assembleia da República n.°35/2008, não prevê um regime sancionatório. Estamos sempre a tempo de anular, revogar, modificar ou substituir esta resolução.
As pessoas podem continuar a escrever como escreviam?
Não estão previstas sanções ou penas. Não há, assim, consequências legais neste aspecto. No entanto, no que respeita ao regime disciplinar, é diferente. Num organismo do Estado, depois de adoptado o AO, quem continuar a escrever da mesma forma pode ser alvo um processo disciplinar.
Não podem ser objectores de consciência?
Aqui não está prevista a figura da objecção de consciência, mas as pessoas podem invocá-la constitucionalmente.
Tem notado alguma alteração no apoio à ILCAO?
Sim, agora que se aproxima o dia 31 de Dezembro. As pessoas começam a ficar preocupadas e mobilizam-se mais. Muitas delas achavam que isto era uma coisa que ainda ia demorar. Mas agora entra-lhes em casa, seja pela RTP ou em muitos manuais escolares. Muita gente teve esse choque e decidiu apoiar a nossa iniciativa.
Mas muitas acham que o AO está para ficar?
Está, se as pessoas deixarem. Assinem a ILCAO e revoguem a entrada em vigor do AO. Não vale a pena refilar e achar que não há nada a fazer. Foi exactamente devido a essa postura que o AO acabou por ser aprovado. É preciso actuar. Não há outra forma de parar isto.
Como podem fazê-lo?
Todas as informações estão na nossa página na intemet (http://ilcao.cedilha.net/). Vão até lá e leiam, assinem e divulguem.
Tem alguma previsão de quando será entregue a ILCAO?
Isto podia ser feito num mês, bastava que tivéssemos visibilidade num grande órgão de comunicação social, um canal de televisão, por exemplo. Assim, temos que esperar mais algum tempo até conseguirmos reunir as 35 mil assinaturas necessárias.
Acha que os ‘media’ têm silenciado a ILCAO?
Têm, e de que maneira! À excepção do “Público” e de “O Diabo”, mais nenhum órgão de comunicação social refere a ILC. Há uma tendência para silenciar a ILC. E fazem pior, dão relevo a tudo o que é favorável ao AO.
A ILCAO está ligada a algum grupo ou interesse político?
Não. Temos uma comissão representativa, que inclui pessoas de todo o espectro partidário. Da extrema-esquerda à extrema-direita. Também na nossa página na internet se pode ver que temos apoiantes em todos os partidos, incluindo os que votaram favoravelmente o AO. Não nos identificamos politicamente. O nosso único interesse é que a ILC vingue e não qualquer aproveitamento partidário. O que está em causa é a Língua de todos.
O Chalet da Condessa d’Edla
Este belíssimo edifício romântico caracteriza-se pelo uso exaustivo da cortiça como elemento decorativo e pelo seu enquadramento com a paisagem envolvente, o Jardim da Condessa. Também a pintura mural das escadas e o estuque decorativo da sala das Heras são aspectos a destacar. Um extraordinário trabalho de restauro do património, ainda em curso, que é possível visitar, num agradável passeio. Uma viagem ao romantismo do século XIX.
Houellebecq: "O Mapa e o Território"
Por largo tempo prevaleceu em alguns círculos a ideia de que Michel Houellebecq era um escritor pornográfico, um Henry Miller de segunda edição, enxertado em Sade e Laclos.
"O Mapa e o Território", que chegou há semanas aos escaparates portugueses, editado pela Alfaguara, com tradução de Pedro Tamen, veio revoltear esse entendimento simplista. O quinto romance de Houellebecq venceu o Goncourt, o mais importante prémio literário francês, e parece ter fixado definitivamente o autor como um romancista fundamental do nosso tempo. Com toda a justiça, diga-se.
"O Mapa e o Território", que chegou há semanas aos escaparates portugueses, editado pela Alfaguara, com tradução de Pedro Tamen, veio revoltear esse entendimento simplista. O quinto romance de Houellebecq venceu o Goncourt, o mais importante prémio literário francês, e parece ter fixado definitivamente o autor como um romancista fundamental do nosso tempo. Com toda a justiça, diga-se.
O livro é uma paródia certeira ao mercado da arte e da cultura. Jed Martin, o protagonista, torna-se um artista de sucesso sem saber ler nem escrever, e pede a um escritor chamado Michel Houellebecq que lhe escreva o prefácio para o catálogo da sua exposição. Aberta assim a porta à auto-ironia mais desbragada, o livro dá-nos um Houellebecq-personagem essencialmente bebedolas e depressivo, embezerrado na sua misantropia — e que acaba por ser violentamente assassinado.
Michel Houellebecq é um escritor pessimista e desencantado, reaccionário até, que expõe a profunda solidão do homem actual, no quadro de um sistema político e económico risível. À sua maneira, escreve uma revolta contra o mundo moderno. As suas tiradas mais obscenas confundiram a crítica pouco especializada. Houellebecq pertence a uma raça de prosadores franceses que, na linha de Barbey d’Aurevilly, pensam como Joseph de Maistre e escrevem como o Marquês de Sade. É de ler agora, antes que seja tarde.
Michel Houellebecq é um escritor pessimista e desencantado, reaccionário até, que expõe a profunda solidão do homem actual, no quadro de um sistema político e económico risível. À sua maneira, escreve uma revolta contra o mundo moderno. As suas tiradas mais obscenas confundiram a crítica pouco especializada. Houellebecq pertence a uma raça de prosadores franceses que, na linha de Barbey d’Aurevilly, pensam como Joseph de Maistre e escrevem como o Marquês de Sade. É de ler agora, antes que seja tarde.
Natal Up-To-Date
Em vez da consoada há um baile de máscaras
Na filial do Banco erigiu-se um Presépio
Todos estes pastores são jovens tecnocratas
que usarão dominó já na próxima década
Chega o rei do petróleo a fingir de Rei Mago
Chega o rei do barulho e conserva-se mudo
enquanto se não sabe ao certo o resultado
dos que vêm sondar a reacção do público
Nas palhas do curral ocultam-se microfones
O lajedo em redor é de pedras da lua
Rainhas de beleza hão-de vir de helicóptero
e é provável até que se apresentem nuas
Eis que surge do céu a estrela prometida
Mas é para apontar mais um supermercado
onde se vende pão já transformado em cinza
para que o ritual seja muito mais rápido
Assim a noite passa e passa tão depressa
que a meia-noite em vós nem se demora um pouco
Só Jesus no entanto é que não comparece
Só Jesus afinal não quer nada convosco
David Mourão-Ferreira
Na filial do Banco erigiu-se um Presépio
Todos estes pastores são jovens tecnocratas
que usarão dominó já na próxima década
Chega o rei do petróleo a fingir de Rei Mago
Chega o rei do barulho e conserva-se mudo
enquanto se não sabe ao certo o resultado
dos que vêm sondar a reacção do público
Nas palhas do curral ocultam-se microfones
O lajedo em redor é de pedras da lua
Rainhas de beleza hão-de vir de helicóptero
e é provável até que se apresentem nuas
Eis que surge do céu a estrela prometida
Mas é para apontar mais um supermercado
onde se vende pão já transformado em cinza
para que o ritual seja muito mais rápido
Assim a noite passa e passa tão depressa
que a meia-noite em vós nem se demora um pouco
Só Jesus no entanto é que não comparece
Só Jesus afinal não quer nada convosco
David Mourão-Ferreira
Roberto de Moraes (1939 – 2010). In memoriam.
Passou um ano desde que o meu Amigo Roberto de Moraes deixou o mundo dos vivos. Fica a saudade e a eterna memória. Em sua homenagem, reproduzo aqui o artigo que então publiquei no semanário «O Diabo».
“Tive sempre o sentimento de não estar conforme com a ordem estabelecida – Quer seja politicamente definida pela monarquia, pelas repúblicas ou pela ditadura, quer sirva economicamente de pasto ao “homo faber” e aos seus satélites, quer esteja teologicamente desmitizada pelas raposas da inteligência. Por isso precisei de nadar contra uma corrente cada vez mais forte (…) em plena “terra de ninguém” (…) muitas vezes com a pergunta de Molière, sete vezes repetida: “Que diabo estou eu a fazer nesta galera?” De ano para ano tenho suportado, também, o sofrimento que Hölderlin atribui a Hyperionte: o sentimento de ser estrangeiro na própria pátria.”
Este curto texto que o escritor alemão escreveu por ocasião dos seus 80 anos, citado pelo Roberto de Moraes num excelente artigo que sobre ele escreveu na sequência da primeira entrevista que lhe fez, pode dar pistas para tentarmos perceber um pouco da quase impenetrável personalidade deste historiador e jornalista, mas principalmente estimado Amigo, que recentemente deixou o mundo dos vivos.
A sua pátria – a sua grande pátria –, tal como a minha, era a Europa. Dela conhecia a fundo a História, a Geografia, as gentes, línguas e tradições, a sua cultura nos mais variados aspectos. Mas, indo – como sempre – para além de todo este saber, sentia, principalmente, como do turbilhão da sua diversidade poderia nascer uma força invencível capaz do Sonho.
Encontro
Foi exactamente a Europa que nos aproximou, já lá vai uma década. Após uma intervenção polémica que fiz num congresso, que suscitou amores e ódios, o Roberto de Moraes veio saudar-me e convidar-me para a sua tertúlia semanal. Agradeci educadamente, com algum orgulho, mas sem no entanto imaginar o que aquele gesto realmente significara.
Não era pessoa de cumprimentos fáceis, muito menos de tiradas de ocasião para agradar a quem fosse. Esta característica, que tantos lhe apontaram como maior defeito e gerou inimizades, tinha outro lado – conferia um valor muito mais elevado à sua aprovação.
Desde logo, sempre com o seu estilo directo e frieza militar, começou a trocar comigo impressões sobre inúmeros assuntos. Era uma verdadeira aprendizagem. Só muito mais tarde me apercebi do significado profundo e da força que tinham certas expressões que proferia ao ler textos meus. “Muito bem, é isso mesmo” ou “está escrito em português de lei”, eram verdadeiras classificações de 20 valores no seu sistema avaro. Por outro lado, a discordância era tão implacável como desagradável.
O jantar do Moraes
A sua tertúlia semanal, mais conhecida por “jantar das quartas”, tornou-se para mim obrigatória. Não preciso de agenda para me lembrar que é dia de jantar com amigos. A meio da semana atravesso a cidade rumo a esta tertúlia, que já passou por vários sítios da capital, e onde se cruzam gerações e opiniões, numa discussão de ideias que rompe noite adentro. Este encontro regular chegou mesmo a dar origem a um blog colectivo que durou quatro anos.
O jantar continua, claro, e o nosso Amigo nunca deixará de estar para nós presente. Lembro-me de um caso que o Miguel Freitas da Costa contou numa das tertúlias. O de um clube onde os mortos não deixavam de ser sócios, apenas estavam dispensados de aparecer.
Jünger
Seria impossível – para não dizer desonesto – falar do Moraes sem referir o grande mestre das letras germânico do século XX, já que foi o único jornalista português a entrevistá-lo, por várias vezes. Para além da correspondência mantida, traduziu ainda partes da sua obra e fez a revisão de várias traduções, contribuindo para a divulgação da obra e pensamento do escritor alemão no nosso país.
Roberto de Moraes deslocou-se a Wilflingen por três vezes para visitar Ernst Jünger e manteve com o escritor uma troca de correspondência esporádica. A primeira visita foi em 1973 e deu origem a um artigo publicado na revista “Vida Mundial” n.º 1897, de 22/7/1976, intitulado “Ernst Jünger: O Mago da Floresta Negra”. A entrevista feita na segunda visita, em 1978, seria publicada na revista francesa “Nouvelle École” n.º 33 (Verão de 1979) subordinado ao tema “L’idée nominaliste”, com o título “Rencontre avec Jünger. Un témoignage”, e que foi registada pelo próprio Jünger no seu diário, onde também recorda a visita do jornalista português. A última visita foi no dia 24 de Fevereiro de 1984, tinha Jünger 89 anos de idade, na qual foi tirada a fotografia inédita que se publica.
Obrigado
Um dia descreveu-me como “sólido camarada e jovem colega de História, disciplina que o não tolhe, antes lhe areja o espírito e lhe estrutura o sentido de humor”. Pois eu, na falta de palavras, recorro a um sentido e sincero obrigado, expressão que, juntamente com o “por favor”, era proibida numa instituição de camaradagem que ambos bem conhecíamos. E foi com grande prazer egoísta que soube que uma das últimas coisas que leu foi um texto meu, publicado aqui, no nosso “O Diabo”. Até qualquer dia...
Ernst Jünger e Roberto de Moraes
“Tive sempre o sentimento de não estar conforme com a ordem estabelecida – Quer seja politicamente definida pela monarquia, pelas repúblicas ou pela ditadura, quer sirva economicamente de pasto ao “homo faber” e aos seus satélites, quer esteja teologicamente desmitizada pelas raposas da inteligência. Por isso precisei de nadar contra uma corrente cada vez mais forte (…) em plena “terra de ninguém” (…) muitas vezes com a pergunta de Molière, sete vezes repetida: “Que diabo estou eu a fazer nesta galera?” De ano para ano tenho suportado, também, o sofrimento que Hölderlin atribui a Hyperionte: o sentimento de ser estrangeiro na própria pátria.”
Ernst Jünger
Este curto texto que o escritor alemão escreveu por ocasião dos seus 80 anos, citado pelo Roberto de Moraes num excelente artigo que sobre ele escreveu na sequência da primeira entrevista que lhe fez, pode dar pistas para tentarmos perceber um pouco da quase impenetrável personalidade deste historiador e jornalista, mas principalmente estimado Amigo, que recentemente deixou o mundo dos vivos.
A sua pátria – a sua grande pátria –, tal como a minha, era a Europa. Dela conhecia a fundo a História, a Geografia, as gentes, línguas e tradições, a sua cultura nos mais variados aspectos. Mas, indo – como sempre – para além de todo este saber, sentia, principalmente, como do turbilhão da sua diversidade poderia nascer uma força invencível capaz do Sonho.
Encontro
Foi exactamente a Europa que nos aproximou, já lá vai uma década. Após uma intervenção polémica que fiz num congresso, que suscitou amores e ódios, o Roberto de Moraes veio saudar-me e convidar-me para a sua tertúlia semanal. Agradeci educadamente, com algum orgulho, mas sem no entanto imaginar o que aquele gesto realmente significara.
Não era pessoa de cumprimentos fáceis, muito menos de tiradas de ocasião para agradar a quem fosse. Esta característica, que tantos lhe apontaram como maior defeito e gerou inimizades, tinha outro lado – conferia um valor muito mais elevado à sua aprovação.
Desde logo, sempre com o seu estilo directo e frieza militar, começou a trocar comigo impressões sobre inúmeros assuntos. Era uma verdadeira aprendizagem. Só muito mais tarde me apercebi do significado profundo e da força que tinham certas expressões que proferia ao ler textos meus. “Muito bem, é isso mesmo” ou “está escrito em português de lei”, eram verdadeiras classificações de 20 valores no seu sistema avaro. Por outro lado, a discordância era tão implacável como desagradável.
O jantar do Moraes
A sua tertúlia semanal, mais conhecida por “jantar das quartas”, tornou-se para mim obrigatória. Não preciso de agenda para me lembrar que é dia de jantar com amigos. A meio da semana atravesso a cidade rumo a esta tertúlia, que já passou por vários sítios da capital, e onde se cruzam gerações e opiniões, numa discussão de ideias que rompe noite adentro. Este encontro regular chegou mesmo a dar origem a um blog colectivo que durou quatro anos.
O jantar continua, claro, e o nosso Amigo nunca deixará de estar para nós presente. Lembro-me de um caso que o Miguel Freitas da Costa contou numa das tertúlias. O de um clube onde os mortos não deixavam de ser sócios, apenas estavam dispensados de aparecer.
Jünger
Seria impossível – para não dizer desonesto – falar do Moraes sem referir o grande mestre das letras germânico do século XX, já que foi o único jornalista português a entrevistá-lo, por várias vezes. Para além da correspondência mantida, traduziu ainda partes da sua obra e fez a revisão de várias traduções, contribuindo para a divulgação da obra e pensamento do escritor alemão no nosso país.
Roberto de Moraes deslocou-se a Wilflingen por três vezes para visitar Ernst Jünger e manteve com o escritor uma troca de correspondência esporádica. A primeira visita foi em 1973 e deu origem a um artigo publicado na revista “Vida Mundial” n.º 1897, de 22/7/1976, intitulado “Ernst Jünger: O Mago da Floresta Negra”. A entrevista feita na segunda visita, em 1978, seria publicada na revista francesa “Nouvelle École” n.º 33 (Verão de 1979) subordinado ao tema “L’idée nominaliste”, com o título “Rencontre avec Jünger. Un témoignage”, e que foi registada pelo próprio Jünger no seu diário, onde também recorda a visita do jornalista português. A última visita foi no dia 24 de Fevereiro de 1984, tinha Jünger 89 anos de idade, na qual foi tirada a fotografia inédita que se publica.
Obrigado
Um dia descreveu-me como “sólido camarada e jovem colega de História, disciplina que o não tolhe, antes lhe areja o espírito e lhe estrutura o sentido de humor”. Pois eu, na falta de palavras, recorro a um sentido e sincero obrigado, expressão que, juntamente com o “por favor”, era proibida numa instituição de camaradagem que ambos bem conhecíamos. E foi com grande prazer egoísta que soube que uma das últimas coisas que leu foi um texto meu, publicado aqui, no nosso “O Diabo”. Até qualquer dia...
Amor à Arte

António Lopes Ribeiro (Lisboa, 1908 — Lisboa, 1995) é cineasta, jornalista e crítico de Cinema. Entenda-se aqui a palavra cineasta na sua acepção total: Lopes Ribeiro foi realizador, argumentista, produtor, director artístico e montador. Temos, assim, um homem que respira Cinema.
Estudou engenharia no Instituto Superior Técnico, mas logo o abandonou, em 1929, para se entregar à Sétima Arte a tempo inteiro.
Nos anos 20, dedica-se ao jornalismo; e, estreia-se na crítica cinematográfica no Diário de Lisboa com uma página própria, «Arte Cinematográfica — O Claro-Escuro Animado», onde usa as iniciais A. R. e o pseudónimo Retardador, a partir de 1927; esta rubrica terá sido a primeira — em todo o Mundo — dedicada exclusivamente ao Cinema num jornal diário. De seguida, funda e dirige as revistas especializadas Imagem (1928), Kino (1930) e Animatógrafo (1933). Colabora ainda, ao longo de toda a sua longa vida, nas seguintes publicações, entre outras: A Bola, Diário Popular, Cine-Jornal, A Revista de Portugal e A Rua.
Inicia-se como realizador, em 1928 — aos 20 anos de idade —, com o documentário artístico Bailando ao Sol. Lança-se, a partir daí, numa carreira que terá mais de 100 títulos e que só será interrompida — à força! — em 1974. Nessa vasta Obra, encontramos documentários, adaptações literárias, dramas, e comédias. O arranque da sua actividade cinematográfica encontra-se fortemente enraizado nos conhecimentos técnicos que adquiriu em visitas aos estúdios alemães e russos (um bom exemplo do amor à arte e à estética quebrando fronteiras políticas e ideológicas).
Foi, enquanto teórico, um apologista do Cinema Sonoro, contrariando muitos dos seus camaradas de ofício da época, que viam no Sonoro um desvirtuar do Cinema como forma de expressão artística, pois passaria a ser — segundo eles — um mero meio de reprodução da realidade. Lopes Ribeiro viu, antes de todos, que o Som — se bem utilizado — poderia ajudar o Cinema a crescer como Arte. Assim foi.
Os seus documentários são, na sua maior parte, encomendas do Estado Novo, através de vários Organismos. Mostrar-se-á, neste domínio, um Autor rigoroso, do ponto-de-vista histórico, e com um fino sentido estético. Destacaria, nesta área, os seguintes documentários: A Exposição do Mundo Português (1941), Inauguração do Estádio Nacional (1944), A Morte e a Vida do Engenheiro Duarte Pacheco (1944), O Cortejo Histórico de Lisboa (1947), Jubileu de Salazar (1953), Rainha Isabel II em Portugal (1957). Se quisermos conhecer a História de Portugal do Século XX, teremos de vê-los a todos — dezenas de títulos, de semelhante nível técnico-artístico e igual valor histórico, repartidos entre curtas-metragens e longas-metragens documentais. Um olissipógrafo que se preze deverá visionar os seus documentários sobre Lisboa, antes de escrever o que quer que seja sobre a antiga Capital do Império.
Quanto ao Cinema de ficção, Lopes Ribeiro saberá integrar muito bem nas suas equipas um conjunto de luxo de técnicos provenientes da Alemanha, e assegurar, desta forma, um sentido visual apurado — na luz, nos enquadramentos, e nos movimentos de câmara — nos seus filmes. A sua primeira longa-metragen de ficção — Gado Bravo (1934) — irá logo deixar bem à vista do público essas marcas. Note-se que a propósito desta fita rodou um documentário («making-of», no vocabulário técnico de hoje; coisa inédita à época).
António Ferro — que sabia, como ninguém, detectar talentos — vai desafiá-lo a rodar uma película sobre a Revolução Nacional de 28 de Maio de 1926, a fim de Comemorar os seus 10 anos. O argumento é escrito por António Lopes Ribeiro e pelo próprio António Ferro (com os pseudónimos de Baltazar Fernandes e Jorge Afonso, respectivamente) e terá a produção assegurada pelo Secretariado de Propaganda Nacional. Sobre esta fita — A Revolução de Maio (1937) —, não resisto a relembrar aqui o sucedido, há uns anos atrás, quando algum «especialista» de programação da RTP decidiu exibir este filme, no 1.º de Maio, julgando tratar-se de uma película panegírica da data...! Ia caindo o Carmo e a Trindade!...
A partir de 1938, na sua nova responsabilidade de director artístico da Missão Cinegráfica às Colónias de África, visita e trabalha — supervisionando e dirigindo produções — nas Províncias Ultramarinas. Resultante desta aproximação a África, surge Feitiço do Império (1940); ainda hoje um filme de grande escala e enredo cativante, e a necessitar de urgente reposição para que as novas gerações digam de sua justiça.
Em 1941, cria as Produções Lopes Ribeiro, com o objectivo de produzir longas-metragens de ficção, ou filmes de fundo, entre os quais temos a nata do Cinematografia Portuguesa do Século XX: O Pátio das Cantigas (1942), de Francisco Ribeiro (seu irmão «Ribeirinho»); Aniki-Bóbó (1942), de Manoel de Oliveira; Camões (1946), de Leitão de Barros; para além de todas as Comédias Portuguesas que iluminaram a Época de Ouro do Cinema Nacional.
Para podermos avaliar convenientemente a genialidade heterodoxa deste Autor, esplanada em géneros cinematográficos tão distintos, basta referir O Pai Tirano (1941), que representa um certo paradigma da Comédia Portuguesa, e Amor de Perdição (1943), exemplo perfeito de como se pode obter êxito comercial com adaptações de qualidade de clássicos da Literatura Portuguesa.
Toda esta Obra Cinematográfica foi construída a par de uma outra carreira como Homem de Teatro. Fundou a Companhia «Os Comediantes de Lisboa», que actuou sucessivamente no Teatro da Trindade, no Teatro Avenida, e no Teatro Apolo; e, em 1952, fundou o «Teatro do Povo», que levou à cena desde Gil Vicente até peças da sua própria autoria.
Numa outra frente, traduziu Tchekov, Maeterlinck, Pagnol, Maugham e Giradoux, entre outros.
Como escritor, publicou O Livro de Aventuras (1939) e O Livro das Histórias (1940) — colectâneas de sonetos e poemas; editou ainda as várias compilações das suas crónicas, destacando-se: Esta Pressa de Agora (1962), Anti-Coisas & Tele-Coisas (1963) e Belas-Artes & Malas-Artes (1964).
Na televisão, ficou na memória de várias gerações de famílias portuguesas com o seu programa semanal Museu do Cinema, fazendo dupla com o famoso pianista «mudo» António Melo, entre 1957 (ano de fundação da RTP) e 1974 (ano do não desejado fim da sua brilhante carreira).
Homens destes já não se fazem hoje. Saibamos merecê-los; e, para isso, comecemos por conhecê-los.
Goa
Há cinquenta anos a nossa Goa era brutalmente invadida e ocupada. Quatro aspectos ficaram, então, claríssimos: 1) a natureza do "pacifismo" do inenarrável Nehru; 2) o valor da famigerada aliança luso-britânica, a tal mais antiga e mais inútil do mundo - pelo menos quanto a nós; 3) a infinita hipocrisia do torto - perdão! - do "direito" internacional; 4) a essência dos "fumos" que já circulavam pelos corredores do Vaticano. E lembrar que já em tempos abrilinos um homenzinho desclassificado, sorridente coveiro de Portugal, vai de abalada abraçar a filha do invasor e desculpar-se, envergonhadíssimo, pela nossa presença quase cinco vezes secular. Registo aqui a minha homenagem aos construtores e defensores desta jóia civilizacional que foi o Estado Português da Índia, e a todos os goeses que, espalhados pelo mundo, trazem a vibrar no coração o nome de Portugal.
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