Cádiz 1811
A capa é horrenda, é verdade, mas a sabedoria popular sempre aconselhou a não julgar um livro pela sua aparência. Neste caso o conselho é para levar a sério, já que «O Assédio» tem pouco de história de vampiros, ao contrário do que a primeira imagem leva a crer.
Desde logo, o que mais salta à vista é a forma como Pérez-Reverte condensa num só livro temas recorrentes na sua obra. Xadrez, literatura, náutica, reconstituição histórica, tudo tem espaço neste romance, que toma como pano de fundo o Cerco de Cádiz de 1811 pelas tropas francesas em plena Guerra da Independência. A diversidade dos temas é acompanhada pela narrativa, que adopta o ponto de vista de diversas personagens aparentemente desligadas entre si, cujos destinos se vão cruzando ao longo do livro: desde Pepe Lobo, capitão corsário de grande experiência a Gregorio Fumagal, um taxidermista jacobino, passando por Lolita Palma, importante mulher de negócios gaditana, Simón Desfosseux, antigo professor de Física tornado capitão de artilharia no Exército Imperial, e Felipe Mojarra, destemido guerrilheiro. No centro desta complexa teia está Rogélio Tizón, um comissário de polícia pouco escrupuloso responsável pela investigação de uma misteriosa série de homicídios.
Como sempre, é na caracterização das personagens que o autor espanhol mais se destaca, embora seja admirável a forma como orienta o leitor nesta complicada trama, sem nunca perder o ritmo ou afrouxar a expectativa. Nota ainda para o magnífico trabalho de contextualização histórica, que não só fornece um pormenorizado retrato de Cádiz (o sentimento de exiguidade da cidade sititada é uma constante), como confirma que nunca a História tem um sentido linear. Não é o melhor livro de Pérez-Reverte, mas está construído de uma forma tão cuidada e meticulosa, reflecte tanta preparação, que é impossível não o admirar.
Puxar os Cordelinhos

Longe de mim insurgir-me contra uma experiência que poderá minorar o sofrimento e alienação de muita gente, mas a reprodução de um cérebro a papel químico do nosso faz-me temer dois riscos, curiosamente de sinal contrário. Em primeiro lugar, pode-se diminuir o Humano pelo controlo, numa limpeza mais subtil mas cerceadora do que Lavagem ao Cérebro de Whielki Krasnal, usando os conhecimentos assim adquiridos para criar entes pré-programados, que já não quadram no conceito de Pessoa. Por outro lado, não tendo, apesar das tentativas da Psicologia, a certeza de que a Vontade, orgânica ou autonomamentemente, inexista com localização funcional, a reprodução a papel químico do substrato físico de uma mente pode, no limite, conduzir a uma revolta das criaturas. O que nem seria mau, considerada a baixeza a que chegou a nossa espécie. Mas seria péssimo na medida em que tamanho salto para o desconhecido levasse ao decalque em série dos vícios que nos conhecemos.
Estamos em 2011. O Mundo dos Replicants de «Blade Runner» não foi fixado em 2019?
Tanta coisa por causa disto?
«Patchouly», Grupo de Baile.
Estávamos em 1981, quando em pleno boom do rock português foi lançado o primeiro single do Grupo de Baile. O tema «Patchouly» tornou-se um êxito imediato, em grande parte devido à polémica frase que falava de «conversas parvas com mais buço que pentelho» e que motivou a censura da rádio e da própria editora. Exactamente trinta anos depois, os pentelhos voltaram a provocar um escândalo nacional. Temos «Portugal na CEE», mas há coisas que nunca mudam.
Caldo de Cultura (XIII)
O almoço foi ontem, mas só hoje o Blogger permitiu publicar a fotografia. Presentes estiveram o Paulo, o Duarte e o Miguel. A pedido de algumas famílias, desta vez a imagem não inclui azulejos. Mas o desafio mantém-se: quem levou o quê?
Santuário
Dom?
Leio a notícia do equivalente Romano ao pavor Gaulês de que o Céu lhes desabasse em cima e não posso deixar de sublinhar vários equívocos:
1- Chama-se «profeta» ao alegado preditor de um sismo, Raffaele Bendandi, o que é incorrecto, pois a palavra não significa originariamente "adivinho", mas "aquele que fala em nome de Deus" e o visado, embora autodidacta, apenas invocou como base a Ciência.
2- A reacção dos opinion makers do nosso mundinho canaliza-se contra os ditos profetas da Desgraça, enquanto que o Antigo Testamento alertava os leitores contra o seu inverso, os falsos profetas, entendidos como os que previam em bases optimistas. Como os políticos de hoje, para cativar.
3- A população da capital Italiana terá perdido a Fé no Divino, o que no ambiente descristianizado de hoje nem admira. Mas parece também ter deixado de acreditar em si própria: então Roma não se tornou conhecida como a Cidade Eterna?
4- Àqueles que celebram sem contenção a ultrapassagem do momento crítico à revelia do terramoto, gostara de fazer ver que o visionário acertou, embora de forma imprecisa, num grande cataclismo - depois de tanta expectativa, este horrível meio em que nos movemos continua infaustamente a singrar.
Deixo-Vos com a sugestiva Parada dos Falsos Profetas, de John Alexander
Príncipe da Dinamarca
- Schengen ou não Schengen, eis a questão!


Posso, finalmente, tomar partido na vetusta discussão sobre se o quadro de Frans Hals representa ou não Hamlet. Claro que sim, o pedaço de União Europeia que o retratado tem na mão torna inconfundível a identificação do princípio Dinamarquês, segundo Shakespeare.
Pesos Pesados
Podem dizer que é demagogia e fogo de vista, eu apenas vejo nesta atitude do Primeiro Ministro Japonês sentido de responsabilidade e pudor. Veja-se que lamenta não ter previsto a consequência de uma catástrofe supra-humana, bem como o facto de haver determinado o prolongamento da sua autopunição ao período pelo qual subsista a ameaça nuclear.
Cá, o flagelo é diferente. A pre-visão culposa em falta era menos inacessível, tratava-se somente de equacionar correctamente decorrências de actos humanos, admitindo que os nossos políticos ainda sejam merecedores da qualificação. Ou seja, a imputação ainda deveria ser maior, como o remorso, apesar de o resultado não ter sido a perda imediata de vidas, mas o arrastar delas em condições mais degradantes.
Enfim, sendo mais grave o caso, imaginar-se-ia que os governantes em xeque prescindissem, sei lá, quer dos salários, quer das reformas. Em vez disso, entrincheiram-se na espiral da negação do Real que os estigmatiza, em Alta Velocidade.
A obra é Consciência Culpada, de Aida Botan Suster
Realidade Espinhosa
Passado ontem mais um Dia da Europa, como cristão, deitei-me a meditar no Patrono escolhido para ela, São Bento. E estranhei que, ao contrário de Santo Antão, por exemplo, não seja, hoje em dia, muito recontada a parte da Hagiografia correspondente em que, tentado por uma moçoila quase irresistível, o Asceta se deitara às urtigas, para castigar os apelos carnais e avivar a resistência do Espírito.
Mas acabei por achar lógico um tão grande silêncio. Afinal, a meretriz continental que nos nossos dias Lhe ofereceram já não permanece em estado de tentar quem quer que coabite com ela, por muito maiores pecadores que sejam...A pintura é a da evocação do passo citado, por Filippo Vitale
O renascimento de um histórico
Na falta de outras alegrias, o destaque desta época futebolística vai para a prestação do Atlético Clube de Portugal, que joga neste momento o regresso aos escalões maiores do futebol português. Depois de tantos anos de infortúnio, o popular clube de Alcântara venceu este ano, e pela primeira vez, o campeonato da Zona Sul da II Divisão. Como recompensa, disputa agora o playoff de apuramento para a Liga de Honra (conhecido como liguilha), juntamente com o União da Madeira (Zona Norte) e o Padroense (Zona Centro). Em jogo está o regresso das grandes competições nacionais ao estádio da Tapadinha, que não posso deixar de saudar.
Uma Questão de Valores

Como toda a gente anda com a declaração de amor finlandesa na boca, antes de embandeirar em arco ou de meter o rabo entre as pernas, fui ver a correspondente cotação no mercado. Lamento ter de responder aos Lapões & Cª que, face às leis da oferta e da procura, o valor do que têm para permutar é nulo, ainda mais baixo do que os nossos ratings pós-especulação. Não estamos interessados, venha antes a maquia.
A Minha Luta
O vídeo de apoio de Futre aos Homens da Luta é tema interessante a vários títulos. Mas o mais evidente é o que se prende com as lateralidades que fazem apoiante e apoiados roçar a Ironia. Há um conceito muito british dela que pretende ser a que se exerce contra si próprio o sentido mais lídimo de humour. Ao jogar com as próprias dificuldades de expressão, o ex-Futebolista - ou quem sabidamente lhe gere a imagem - reinventa-se de uma forma regeneradora, na medida em que faz passar a percepção de não ser, ao contrário da aparência de muito cantor Pimba, tão falho de qualidade como levar-se inalteravelmente a sério poderia induzir.
A essência dos Homens da Luta é, cronologicamente, a inversa. tudo me leva a crer que a intenção originária era a da sátira aos anos 70; e que só quando a mensagem e a forma gozadas se cindiram, com a primeira a cair no goto de uma fatia grande de público através da apropriação em vez da risada, o Gel e o Falâncio terão optado por cavalgar à séria (ou quase) essa promoção entre os protocontestatários.

Muito mais do que sobre os intervenientes, um tal sucesso diz imenso sobre o público. Tendo passsado pela divulgação via Internet, antes de cativar os Media, ambos os protagonistas se fizeram o equivalente possível e anémico das manifestações e conflitos internos dos Árabes, muito mais ainda do que a grande manifestação de Março, já que nos povos decadentes a percepção paralisa o suficiente para esgotar no consumo de um espectáculo as energias de uma luta comum. Porque, aprofundando a "sociologia" da questão, a forma grunha exibida cala fundo numa audiência substancialmente jovem, mas já sem exclusividade etária, que solta assim o seu grito do Ipiranga contra os senhores de falinhas mansas e fatinho engomado que todas as noites aparecem na TV a tentar convencê-los de que são alternativa ou ases da Análise. Não só a tão cotada irreverência se estende à correcção da forma, como permite, pela paródia e o brandir cúmplice de conteúdos dela, uma espécie de airbag que salve do desmentido de ilusões partilhadas.
A luta daqueles que, fora do sistema, julgam conhecer uma linha de reciclagem do País tem de ser a de escalpelizar estas anestesias da Revolta, como combater a identificação da Lucidez como uma fraude dos estabelecidos. Mas reconhecendo o mérito de um potencial de afastamento que liberta das masmorras de eleições & partidos os elementos ainda não viciados da População.
A imagem é A Ironia É a Minha Sombra, de Mark Kostabi e ganha com a derivação da palavra inglesa para "ferro"- iron.
Evita!

A invenção do Coronel Pemberton faz hoje anos. Só o génio de Fernando Pessoa para explicar o sucesso de um xarope péssimo para dentes, diabetes e estômago - entranha-se. E como! De tal forma que nem Fidel Castro escapou, todos conhecemos a celebérrima fotografia dele a beber convictamente uma garrafa do mais famoso refresco líquido do mundo. Também nos chegam surpreendentes esclarecimentos acerca do fim de Bin Laden, sendo inteirados de que a bebida fazia parte das compras quotidianas do refúgio dele. Com uma infiltração destas, estava meio caminho andado para a submissão ao imperialismo associado se efectivar.
Nada de novo para o nosso País, onde a visão de Salazar descortinou a tempo os perigos da coisa, vedando-lhe, contra pressões de dentro do Regime e da Igreja, o acesso ao espaço luso europeu. E só transigindo na comercialização em África para fomentar a boa vontade Sul-Africana, essencial a uma cooperação que nos era útil em tempo de guerra. O Estadista, tendo chegado a provar a beberricagem, terá dito «ainda por cima é uma porcaria!», E, assim, só restou à Coca Cola contentar-se em tornar-se alcunha de Humberto Delgado, que por tudo dar e prometer aos Americanos que tanto passsara a idolatrar, ficou sendo, para a Situação como para os Comunistas e outros opositores, o General da Dita.
Não fora o meu amor aos outros animais, deixaria a ilustração como alvitre para a diversificação dos mercados.
Não fora o meu amor aos outros animais, deixaria a ilustração como alvitre para a diversificação dos mercados.
Evita
Hoje Evita faria 92 anos. Fica aqui a lembrança do seu último discurso, no qual, aos 33 anos e sabendo-se condenada pela terrível enfermidade, diz adeus ao povo que a adorava.
Investigação Atamancada

Os cientistas holandeses prescindiram dos diques e inundam-nos com uma torrente de prevenções. Odeio até a sombra da sigla AVC, que me levou o meu Pai. Mas dizerem que ele é favorecido notoriamente pelo sexo, exercício, assoar-se, esforçar-se no WC, tudo isso me obriga a tentar repor alguma sanidade mental. Claro que a condição imprescindível para um destes derrames que funcionam como vias rápidas para a trombose é viver. Dir-se-á que raciocínio paralelo pode justificar todos os vícios, mas não me parece que limpar o ranho, eliminar toxinas, prolongar normal e fisicamente um instinto natural e aliviar-nos de impurezas sejam coisas tão equiparáveis como isso a drogas duras...
Chegamos assim ao risco mais cadastrado, o do café. Se fossem portugueses, estes cientistas seriam troçados na rua de um País em que se encontrou como chavão para exprimir orgulho sem soberba por alguma habilidade especial a frase «são muitos anos a tirar bicas!». Só na Lusitânia que nos resta, no Brasil e em Itália vejo este culto a qualquer hora do dia pelo ouro negro ao alcance de todos. Nos Anglo-Saxónicos é mais visto na linha de conforto contra dificuldades matinais ou agruras do clima, tal como doping para dias previsivelmente duros das classes que têm trabalhos mais pesados. Em Espanha juntam-lhe leite, aaaargh, uma diluição subversora muito minoritária por cá, apesar da imposição dos galões em meios mais restritos. Portanto, deveria haver pudor na divulgação entre nós de uma predisposição que tanto alarmismo pode causar. A vida numa redoma também não retarda a morte; se estivéssemos distraídos , Michael Jackson ter-nos-ia elucidado. Não nos privem das alegrias mínimas que permitem alguma suportabildade na e à Existência.
Semper Fidelis!

Na hora da desgraça da Cidade dos Arcebispos, quero dedicar à Minha Querida Amiga Ariel, que foi Águia Emblemática muito antes da Vitória despedida, uma canção de Barbara a que se costuma atribuir a nostalgia de um Passado Feliz: «L´Aigle Noir», que vejo noutra vertente, a do luto que carrega. Como os redactores deste antro.
A Solução do Problema
Respondendo a uma dificuldade do Duarte Branquinho, o Designer Job Koelewijn prova que quase todas as resoluções não-metafísicas têm um modelo matemático - A Estante dos Livros Infinitos:
Caldo de Cultura (XII)
Com um dia de atraso, aqui ficam os livros do almoço de ontem. Dizendo que estiveram presentes o Paulo, o João, o Miguel e o Duarte, resta esperar pelos vossos palpites. Quem levou o quê?
Chuva Dourada

De repente, deixei de me preocupar com a contenção de dívidas, desequilíbrios orçamentais & Cª, porque acreditei resolvido o problema energético nacional. Com efeito, a notícia do dia ameaçava deixar demodé e pedindo pelos cantos o automóvel eléctrico e todos os híbridos de que a o espírito inventivo humano seja capaz de se lembrar: a concepção do carro movido a urina! Essa, pelo menos, é uma matéria-prima em que, salvo os dependentes da hemodíálise, somos auto-suficientes.
Mas, com mais algumas horas de reflexão, cheguei à conclusão de que, afinal, a coisa não tem asas que lhe permitam levantar voo - a ortodoxia do edifício axiológico Politicamente Correcto nunca permitiria uma solução que, tendo presente a falta de rentabilidade da exploração de redes de abastecimento, em situações de emergência colocasse o Género Feminino numa posição de tão opressiva desigualdade no tocante à capacidade de encher o depósito...
Grades versus Degradações
No Estado Norte-Americano do Wisconsin dezoito votos de Freiras retiradas num convento foram invalidados por carecerem da assinatura de uma testemunha. Muitos bem-intencionados lastimarão semelhante nulidade, como um episódio mais da perseguição às Ordens Religiosas que assombra o Ocidente há pouco mais de duzentos anos. Os mais desconfiados admitirão até que os poderes públicos teriam encontrado o móbil ideal para introduzirem na clausura um agente provocador.

Não assim o escrevinhador que vai botando faladura. Acho que as Religiosas ficam a ganhar, penso que retirar-se do Mundo só é consequente se não se ceder à tentação de participar em votações, não vejo que se possa querer ficar mais perto de Deus através da mediocridade malévola de escolhas eleitorais - como todos sabemos desde Barrabás - e, finalmente, lembraria que o Voto que Lhes concerne é o que significa Compromisso com a Cruz, não o que se esgota no comprometimento de uma cruzinha.
A imagem é O Parlatório do Convento de São Zacarias, de Francesco Guardi
A verdade e os jovenzinhos
Não me espanta a forma crédula como a versão da morte de Bin Laden foi aceite pelas massas tenras e divulgada pelos média. Estes, por uma vez sem exemplo, abandonaram-se dos "alegados" a que recorrem para notícias bem mais verosímeis.Custa ver, porém, a ingenuidade da juventude d'aquém e d'além Atlântico. Em vez de cépticos e exigentes, a apontar o dedo ao sistema, os mais novos conformam-se no remanso da mediocridade.
Era Jorge Luis Borges quem dizia, já não sei onde, que as pessoas tendem a confundir a verdade com o corpo 12. Referia-se, bem entendido, o grande escritor ao papel dos jornais. Eu, nesta matéria, vou mais pelo que afiançava Chesterton. Os jovenzinhos de hoje só não acreditam em Deus; de resto, papam qualquer história.
Sem... Espinhas
Não acreditam que não há como a Economia, mesmo a da crise, para ajudar a interpretar uma obra de arte?
Pois, tendo lido certa notícia, lembrei-me de como, há poucos anos, os bancos aliciavam as pessoas para contraírem empréstimos... sem se contraírem. E apercebi-me da razão de ser da Invenção Colectiva, de Magritte: onde antes só vira na nuance ostensiva prioridades inconfessáveis ou uma justificação do anzol libertadora da necessidade de redes de captura, compreendi de súbito que se tratava do atalho mais curto para eliminar os cantos de sereia!
Com o Tejo no Horizonte
«Juventude Sónica», Linda Martini.
Se muitas bandas fazem esporadicamente referências a Lisboa, são raros os grupos que incorporam na sua identidade a Cidade e o seu imaginário de uma forma consciente. Os Linda Martini são um desses casos. Seja através de temas cujo título remete para ícones populares lisboetas como a Severa ou o pugilista Belarmino, ou de um inconfundível travo urbano e boémio, misturado com ecos de fado, que transparece na sonoridade da banda. Apesar do título da faixa que ilustra este postal remeter para outra referência fundamental dos Linda Martini, o teledisco mantém essa ligação, por vezes invisível mas sempre presente, a Lisboa.
Dos Disparos Marcantes

Devo ao respigo de um fragmento de diálogo entre Duarte Branquinho e Miguel Vaz a leitura duma obra que se me tornou capital, a saber «O Pintor de Batalhas», de Arturo Pérez-Reverte. Inapagável esquisso de uma fase da História onde predomina a busca da técnica expressiva pronta a substituir a força crua da percepção pela sensibilidade possível e se traduz na passagem da Fotografia à Pintura de um protagonista, outrora testemunha ocular interiormente couraçada de vários confrontos bélicos por todos nós acompanhados, à primeira vista mais envolvidamente, mas à distância.
A oposição do esforço plástico ultra-memorialista contra o desvanecimento das impressões que antes se furtaram a ser emoções não escapa à descoberta evidente mas trabalhosa de, afinal, a neutralidade não ser possível, em face de episódios dos conflitos, como nos afectos. Com a certeza de que o Adversário se apresenta quando menos se espera, cobrando a consequência, mesmo involuntária ou por equacionar, de acções diminutas e participações amputadas como o mero registo pretendidamente impessoal. Até a decadência física ou a ameaça alheia despoletarem o remorso sem a coragem aliviante da confissão, último passo antes de um fim cuja mera faísca antecipatória consegue corporizar a derradeira simulação do auto-domínio.
A imagem de cima colhi-a aqui.

Uma das melhores frases do volume, atribuída à Mulher/Fotógrafa que age, vivendo e morrendo, pelo intimo do personagem principal, sob o pretexto de o acompanhar, diz: «a guerra põe no seu devido lugar o Surrealismo». Talvez a obra, no seu todo, faça outro tanto com qualquer figuração hiperdistanciada do Cruel, acabando, possivelmente, na do próprio Leitor.
Circo Contra Pão?
Constatei ontem que, em variados meios, dos inevitáveis taxistas aos frequentadores de alfarrabistas, passando por homens na rua por identificar, se gerava um concerto de sentenças no sentido de atribuir a cobertura e o interesse do Casamento Inglês, da Beatificação Papal e da solução de Bin Laden a uma imprecisa coligação da Imprensa com os políticos, no propósito sinistro de desviar as atenções "do que realmente interessa". Que coisa fosse este último bicho não se explicava, porém concluía-se que andaria pelas dificuldades promanadas da Crise.

É de bradar aos Céus. Já nem espero de muita gente opinativa que reconheça como realidades do máximo interesse a esperança do consórcio de jovens atraentes com responsabilidades congregadoras pela identificação que promovem, nem a assunção de o Sobrenatural ser possível a Seres melhores que o vulgo, ou ainda a eliminação do inimigo público número um, que só não é tido por tal até ao momento em que uma bomba dele os ameace. O que me deixa de cara à banda é que estes democratas auto-proclamados não admitam à maioria dos outros um critério próprio nas matérias a que prestam atenção. Que os Marxistas carpissem a alienação que lhes adiava a precipitação revolucionária, compreendia-se: era o despeito de agitadores falhados. Nestes, todavia, nenhum nexo tão directo se constata. Talvez se veja neles unicamente a tentativa de impressionar com uma aura de sagacidade pretensamente favorecida por um pessimismo superficial e inconclusivo, através da facilidade da demarcação dos interesses gerais. É o tipo de gente que daria por enganado qualquer um que lhes fizesse ver que nada tem sido mais falado, analisado, debatido e dissecado que a situação económico-social. E que a viragem do olhar das pessoas para episódios mais altos advém em muito da própria saturação daí resultante.
Um Dia de Cólera
Há poucos episódios na História que ilustrem tão bem o carácter dos povos ibéricos como o 2 de Maio de Madrid. Povos fatalistas, que suportam aparentemente com resignação e passividade as dificuldades e as injustiças; mas que, de um momento para o outro, por qualquer pretexto banal, são tomados por uma fúria irracional e assassina, tão impiedosa quanto imparável. Foi o que aconteceu em Madrid, numa manhã de 1808 que começou como tantas outras. Até que começou a circular o rumor de que as tropas napoleónicas que ocupavam a cidade e a Península se preparavam para levar aprisionado o infante D. Francisco de Paula. Por toda a cidade se ergueu um clamor popular, enquanto nos quartéis (quase todos) os militares espanhóis permaneciam recolhidos e os nobres silenciosos. Nas ruas, a agitação transformou-se em turba e rapidamente começou uma autêntica caça ao francês, com soldados a serem espancados, esfaqueados e degolados sem piedade. Para dispersar a revolta, Murat ordenou uma carga de mamelucos e dragões sobre a Puerta del Sol, mas ao ataque das tropas veteranas reagiram centenas de populares em fúria, armados de navalhas e uma grande dose de loucura, numa cena que seria imortalizada por Francisco de Goya.
O Nome da Tosa

Pode ser que, finalmente, a Sobrinha de Osama Bin Laden que se viu na contingência de ter de mudar o nome para Wafah Dufour obtenha agora um pouco de sossego, tantas foram as ameaças e portas que se lhe fecharam à dupla carreira de cantora e modelo. É a agressividade dos impotentes, com uma longa escola que remonta ao lobo que acusava o cordeiro de uma qualquer patifaria e, perante a negativa veemente deste, para o devorar, disse: se não foste tu, foi o teu pai!.
O Jogo e as Cinzas

No fim da linha das aversões ou indiferenças que muitos se criam e queriam será apenas uma vitória de Obama sobre Osama. Mas não é, trata-se do fim de uma era. Bin Laden, neste momento já não era um homem. Nem falo na humanidade esgotada na adstrição ao objectivo exclusivo da matança de gente sem culpa, quero simplesmente significar que se tinha transfigurado num símbolo. Sob esta perspectiva, tendo o fantasma de uma década inteira encontrado os seus ghostbusters, a sensação que fica é a de as Twin Towers, como a Fénix renascidas das cinzas, terem recuperado a sua erecção. E com elas o Ocidente, por muita demarcação que se procure da coisa americana.
Foi uma cegueira de vingança simbólica que guiou os autores do atentado do 11 de Setembro, pois os maiores edifícios de Nova Iorque eram por eles vistos como o paradigma do orgulho alheio. O Engenheiro Saudita transmutado em terrorista tornou-se por sua vez a bandeira do equivalente sentimento, agitada por todos os que no mundo Islâmico são sensíveis à dor de uma subalternização da sua esfera, numa Religião em que o Poder sobreleva em tudo o Amor.
Esta morte, objectivamente um acto de justiça, por a retribuição do mal ficar aquém da medida da vingança, a qual exigiria mais sofrimento infligido, comparativamente com o sofrido, não escapa porém ao travo da desforra, em virtude das identificações em que muitos de nós, mesmo a contragosto, tenhamos sucumbido, na contemplação dos milhares de inocentes desaparecidos nos edifícios em chamas. Mas se requinte houve nesta revanche, residiu em, mesmo que involuntariamente, só executar o líder dos responsáveis após a contemplação por ele dos morticínios e guerras civis que as "aspirações democráticas" por Facebook interposto levaram ao universo Muçulmano. Era a única compensação psicológica possível de punição a operar contra um ser para quem a imagem de um auto-construído martírio estava longe de ser desagradável.
Um assassino em fuga tem de ter sorte todos os dias. Aos seus perseguidores basta serem bafejados num só. Foram-no neste.
Bem-Aventurado!

Alguém com pretéritas responsabilidades episcopais declarou, sobre a décalage de fervor e prática que um Padre cativante desperte, comparativamente com um desprovido de tais atributos: O que é que a Caneta tem a ver com a Escrita?
Claro que o Essencial na Religião é o Divino. Seria mais realista considerá-Lo o Essencial em Tudo, mas para tanto teríamos de ser sobre-humanos, quer dizer, muito menos imperfeitos também pela clarividência.
Na minha infância e princípio de adolescência a Igreja definhava. Estudando-Lhe mais tarde a História, era tendência contínua desde S. Pio X, pois os Papas das Guerras ficararam com o rótulo dos esforços infrutíferos e os Conciliares, apesar das aclamações, com o da cedência. Ora, o insucesso e a transigência nunca foram boa semente para a fascinação.
Depois chegou Ele. Treinado na luta contra um materialismo ateu que nem se dava ao trabalho de disfarçar sob a capa da convivência a investida e o investimento anti-religiosos, endureceu com o contágio do Exemplo e a solidificação da Doutrina um Corpo Místico de Cristo que ameaçava tornar-se gelatina estragada.
Foi o maior Político sem que, por um instante, tivesse posto esse domínio à frente da Função Pastoral. E usou a arma mais forte assestada à Santa Madre Igreja, para devolver os golpes, sem sombra de hostilidade: na época da Televisão a Sua telegenia ímpar levou o apostolado a cantos onde o simples Dom das Línguas - que também detinha - talvez não o conseguisse fazer chegar. Mas não descansou sobre a comodidade dos circuitos, fez-Se à estrada e assim completou o alcance universal da Mensagem.
Admirará a Juventude alguma classe mais do que a dos Desportistas, a dos Músicos e a dos Viajantes? Assumindo a tríplice vantagem de ser excepcional nestes campos, não os fez subalternizar a Tarefa Principal que Lhe incumbia - a transmissão do Perdão, mesmo no caso concretíssimo em que foi a imediata vítima de agressão. E Isto, paradoxalmente, é O Que acredito que qualquer outro Pontífice saberia fazer, pois a absolvição partícipe da Misericórdia Divina é a incumbência por definição de qualquer Sacerdote, do Herdeiro de S. Pedro ao Cura mais escondido.
Atraiu, recuperou. Os Jovens amaram-no com as adesões ruidosas mas desinteressadas de que só Eles e os Místicos serão capazes. Os que se marginalizaram da Benção Romana viam a cada recepção de milhões um adiamento na expectativa que tinham depositado na volubilidade e no cansaço. Quando Paris, o reduto sonhado dos adversários do Catolicismo, Lhe fez um acolhimento colossal, a voz culta mas melancólica de Eduardo Lourenço só conseguiu deixar escapar o desabafo segundo o qual «os Jovens amam a intolerância».
Era nada perceber. Como impermeabilizar-se artificiosamente à constatação de que a Paz de Cristo é Comunhão e Amor, em muito mais sentido do que palavras bonitas de padres. O que também iam sendo, mas não entendidas como falatório desprovido de realidade. Porque, vendo-O envelhecer num Pontificado longo que nos parece tão curto, conseguimos exergar na decadência física a Cruz que o Trono do Vaticano esconde por vezes, na miopia que a pressa, o conforto e as revoltas provocam.
O retrato, em imagem, é de Elizabeth Zeller
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