Leitura para tempos de bancarrota nacional - II

Oliveira Salazar. Discursos e Notas Políticas em 6 volumes + Entrevistas

Leitura para tempos de bancarrota nacional - I

Em síntese: fazer o exacto oposto do que tem sido feito nos últimos 37 anos.

Espelho, Espelho Meu...

A história é elucidativa, pela preocupação com a trivialidade de uns pontitos, em vez da consternação pela indigência nacional. Mas aí, nada de novo, qualquer político democrata, parasitando as vontades estranhas através do mecanismo de sucção que é o voto, faria outro tanto. O que terá (co)movido os Portugueses ao ponto de perderem tempo a mandar Uns aos Outros a prova da vaidadezinha ansiosa é a suave vingança de apanhar o PM nas vestes da Rainha Má da «Branca de Neve». Eu explico, onde aquela perguntava ao espelho se havia alguma beleza a preferir, o Demissionário de S. Bento inquire essa actualização reflectora que é o assessor acerca do olhar preferível. Ninguém estava enganado sobre a predominância avassaladora da forma, mas Àqueles que sofrem agravos sem possibilidade de reacção sabe tão bem ver a vulnerabilidade do inflictor deles a uma coisa desvalorizada como a opinião alheia...

São banalidades destas que fazem desabar a dimensão de um homem público na sociedade-espectáculo da globalização, maxime pela invasiva porfia televisiva dos disputadores do Poder. A parte infeliz está na maçã envenenada com que a historinha continuou. Alguém duvida de que também nos esteja reservada uma? Espero é que ainda seja tempo de recorrer a um Príncipe.

Caldo de Cultura (IX)


Num almoço onde faltaram o Marcos e o Miguel, mas onde esteve presente o Bruno Oliveira Santos, ninguém se esqueceu do habitual livro. Está lançado o desafio. Quem levou o quê?

Rescaldo

O Resgate, de Adrienne Sherman
Que será que os ratinhos Grego e Irlandês pretendem transmitir? Cai pela base aquela estafada crítica a Salazar, "por ter dado prioridade à estabilização financeira como alicerce do desenvolvimento económico", com os lindos resultados que os doutrinadores do investir no crescimento e do seu estímulo sem atentar no equilíbrio de contas conseguiram. Mas enfim, resignemo-nos com o que feito está, acrescentando uma das raras sentenças optimistas de génio, um provértbio com que os Ingleses - Who else? - se animam:

Hoje é o amanhã que ontem tanto temeste

Prestígio Por Empréstimo

Há enganos engraçados. Hoje, quando abri o Google, dei com a notícia que reproduzo a seguir a O Mercador de Veneza de Jozef Horemans. Pensei logo, com a faca afiada, que estavam a conferir publicitariamente seguimento à importância que a nossa triste sociedade dá a esta profissão outrora anatematizada. Desconsoladamente, ao abrir a ligação, verifiquei que se tratava de um r a mais e que biografados no Facebook apenas estavam, afinal, os usuários. Mesmo assim, não me apanham lá. Mas deitei a cismar em como os tempos e as vontades não cessam de mudar desde o Épico: antes da ameaça de bancarrota, as instituições financeiras eram os heróis do dia nas páginas da Imprensa. Agora que o financiamento apertou e alguns desastres sucederam, é ver a celebração da revolta Islandesa contra a Banca Rota. Não obstante, em toda esta iminência temível, ao menos há a saudar o basta que os principais bancos lusos gritaram à cumplicidade com a pedinchice irresponsável da governação.
Facebook já faz biografias dos usurários Diário de Notícias - Lisboa - ‎Há 49 minutos‎ Todas as imagens, 'posts' e comentários colocados online podem ser reunidos em livro. A aplicação EgoBook compila os dados e edita por um preço variável entre os 20 e 30 euros. A rede social Facebook criou uma aplicação que permite reunir e ... Facebook lança aplicação que permite criar livros personalizados Sol EgoBook: Facebook inverte a ordem da Internet Ciberjunta Ip Jornal - Terra Brasil - O Globo - TVI24 todos os 16 artigos de notícias »

No Change, ou há coisas que nunca mudam


Pouco interessa se Barack Obama desceu nos índices de popularidade norte-americanos como nenhum outro Presidente. No Velho Continente, continua a ser venerado e celebrado, seja quais forem as decisões que tome ou deixe de tomar. Este sentimento é particularmente notório na (bem-pensante) imprensa lusa. O i de ontem, por exemplo, no seu habitual semáforo (equivalente às setinhas do Público), começa por assinalar que «o mandato não tem sido um sucesso, segundo todas as análises, pelas indecisões, por uma política externa pouco coerente, pela dificuldade de estancar a crise nos EUA», para logo a seguir atribuir luz verde (?!) a Obama e ao anúncio da sua recandidatura. Mais à frente no jornal, António Rodrigues, coordenador da secção internacional, escreve que «se calhar não foi Obama que falhou e foi o mundo a falhar a Obama». Deve ser isso.

Um País das Arábias

Sempre estranhei que o Ministro Rui Pereira, com fama de bom Docente e de sensatez que lhe permitiu superintender as Informações da Nação, não tivesse aproveitado o caso em que não passou cartão (de eleitor) a uma data de gente para, após as últimas Presidenciais, fazer outro tanto ao patrão. Agora, com o estado das Finanças do País e este número de nomeações, tudo está explicado. Queria encarnar um conhecido herói:

Postura de Estado!

Nem culpo o Primeiro Ministro, afinal, com o vocabulário reduzido que é seu apanágio, deve ter confundido empréstimo intercalar com (em)préstimo para calar e terá pretendido inconscientemente que todos os Dignos Conselheiros de Estado guardassem idêntica reserva. Já os gladiadores de um e outro lado mostraram-se muito menos merecedores da dignidade de Conselheiro do que o Acácio do Eça: todas as declarações desta excelente personagem e personalidade eram repletas de pompa vazia. Mas nunca alguém o conseguiu censurar por fazer vir a público circunstâncias mais confidenciais da fatia de Administração de que participava. O Povo é que sabe - Casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão. Desgraçadamente, é a nossa comum.

Saudades do Futuro!

Em 1 de Abril de 1930, estreia simultaneamente no São Luiz e no Tivoli (parece mentira, mas é verdade; bons tempos!), Lisboa, Crónica Anedótica, de Leitão de Barros. Este cineasta tem como marca principal um apurado sentido estético, partilhado com a extraordinária geração de que faz parte — Chianca de Garcia, Jorge Brum do Canto, António Lopes Ribeiro, Cottinelli Telmo, e outros de igual qualidade.

José Júlio Marques Leitão de Barros nasceu no Porto, filho de um Capitão-de-Mar-e-Guerra, mas foi registado em Lisboa, onde veio a morrer em 1967. Depois de tirar o Curso da Escola de Belas-Artes, foi Professor dos Liceus — o seu manual Elementos de História da Arte é ainda hoje uma referência —, e destacou-se como pintor, estando representado em vários Museus portugueses e estrangeiros. Por outro lado, como dramaturgo, escreveu várias peças que foram representadas no Teatro Nacional e noutras salas. Foi também jornalista em O Século, A Capital e ABC, e, fundou e dirigiu Domingo Ilustrado, Notícias Ilustrado e Século Ilustrado; ficaram ainda célebres as suas crónicas semanais no Diário de Notícias, sob o título «Os Corvos» (publicadas em dois volumes, com ilustrações de João Abel Manta). Organizou os cortejos históricos das Festas da Cidade de Lisboa (1934-1935) e foi Secretário-Geral da Exposição do Mundo Português (1940). Tudo isto, e muitas outras actividades de idêntica relevância.

Recuando agora ao seu debute cinematográfico, há que referir 1918 como o ano dos seus primeiros (quatro!) filmes, de que se destaca o infelizmente desaparecido Sidónio Pais — Proclamação do Presidente da República. No entanto, é preciso esperar por 1930, para assistirmos ao seu arranque em duas frentes, ainda no Cinema Mudo, com duas obras de enorme beleza plástica: a já referida Lisboa e Maria do Mar — filme este que marca presença, com exibições habituais, nas principais cinematecas europeias e que a nossa Cinemateca Portuguesa em boa hora restaurou e exibiu, no ano passado, numa sessão onde se perfilaram dez pessoas (sim, eu estava lá com um par de alunos e vi com os meus próprios olhos!). Esta película tinha sido antecedida por Nazaré, Praia de Pescadores (1929), que cativou, de imediato, público e crítica — uma característica deste cineasta ao longo da sua extensa carreira, que coincidiu com uma época de profunda identificação dos portugueses com o seu Cinema.

O viveiro de todo este Novo Cinema, em pleno Estado Novo, seria a Brasileira do Chiado, os escritórios do São Luiz e do Trindade, e os estúdios da Tobis no Lumiar, de cuja fundação Leitão de Barros viria a ser um dos principais impulsionadores (mas, disso trataremos quando aqui falarmos de Cottinelli Telmo).

No início de 1929, Leitão de Barros e António Lopes Ribeiro partem em viagem, à descoberta dos principais estúdios de Cinema da Europa, onde conhecem e convivem com os maiores cineastas desse tempo — da Alemanha à Rússia…! Regressados à Pátria, Leitão de Barros lança-se na rodagem de Lisboa, Crónica Anedótica, a fita que hoje aqui trazemos, e que é um marco mundial na tendência europeia dos documentários poéticos, de matriz futurista, sobre a vida das grandes cidades, que tinha até aí em Berlim, Sinfonia de uma Capital (1926), de Walter Ruttmann, o seu mais alto expoente.

Lembremos aqui que Leitão de Barros, que trabalhava como professor de Desenho e Matemática (mais uma das suas aparentes contradições, mas expressão máxima da sua versatilidade criativa), era um nacionalista puro, sempre em busca da exaltação estética dos valores tradicionais de Portugal; conseguia extrair beleza da nossa Terra e do nosso Povo, numa linguagem moderna e apelativa. O seu apurado sentido de humor fazia-o evitar o ridículo e o mau-gosto (tão comuns na nossa burgessa e deslumbrada burguesia de hoje).

Homem de várias Vidas — pintor, professor, cineasta, jornalista, criador de grandes espectáculos —, foi no Cinema, porém, que encontrou o meio para explanar totalmente a sua Arte: estão aí A Severa (1930) — primeiro filme sonoro português —, As Pupilas do Senhor Reitor (1935), Bocage (1936), Ala-Arriba! (1942) — premiado no Festival de Veneza —, Inez de Castro (1944), Camões (1946), Vendaval Maravilhoso (1949), para o demonstrar, além de vários documentários, que são peças fundamentais para estudar a época histórica do Estado Novo.

Vamos então a Lisboa, Crónica Anedótica, que se faz tarde. Este filme é o mais autêntico documentário feito até hoje sobre a Capital; mas é também, ainda, muito mais do que isso: é uma fita onde aparecem os maiores actores da época — e de sempre?… — do Teatro e do Cinema de Portugal (Nascimento Fernandes, Beatriz Costa, Vasco Santana, Erico Braga, Chaby Pinheiro, Estevão Amarante, Josefina Silva, Eugénio Salvador, Adelina Abranches, Costinha, Alves da Cunha, e muitos outros… — caramba!). Todos eles interpretam personagens típicas de Lisboa, misturadas com as figurais reais do quotidiano da cidade.

Esta convincente articulação de realidade e ficção, de linguagem documental e fantasia, fazem desta obra um caso sério de inovação, qual precursora de fenómenos cinematográficos do pós-II Guerra Mundial, como o neo-realismo italiano. No caso da nossa Lisboa, o verismo antropológico conjuga-se com um requinte formal de artista sofisticado — Leitão de Barros era um esteta — e surge livre de visões marxistas, habitualmente transformadoras dos tipos sociais em estereótipos.

O filme avança em animado ritmo, com uma montagem que assegura a colagem dinâmica dos fragmentos — pitorescos, mas ao mesmo tempo poéticos — e cria um sentido para as imagens (magníficas, do grande operador Artur Costa de Macedo), ao som da Música de Frederico de Freitas, Juan Fabre e António Melo — interpretada ao vivo, pelas melhores orquestras, durante as projecções (Cinema Mudo oblige).

O que seria apenas um documentário, eleva-se, assim, à categoria de grande peça «cinegráfica» (na feliz expressão do meu Saudoso Mestre Luís de Pina, na sua História do Cinema Português).

Ao vermos este filme, sentimos a nostalgia de uma cidade branca, monumental, simples, luminosa, alegre, dinâmica, viva, habitada — com seus tipos genuínos —, com Alma! E, apetece-nos perguntar: — Por que será que agora Lisboa aparece sempre cinzenta e triste no Cinema Português a que temos direito e que pagamos com os nossos impostos?…

Lisboa, Crónica Anedótica apresenta-se, assim, como mais uma prova de que é possível alinhar Portugal com o «ar dos tempos» — a par de Ruttmann e Vertov, neste caso — sem abdicar da Identidade Nacional.

Veja-se e faça-se, de novo!

O Povo é quem mais ordena


«Vá Lá Senhora», Os Golpes com Rui Pregal da Cunha.

De início, estava previsto que este tema fizesse parte de um meio-disco, «G», com edição limitada e numerada, a distribuir em dois concertos especiais. E assim foi: o claustro do Museu da Marioneta, em Lisboa, e o Hard Club, no Porto, abriram as suas portas para dois grandes concertos d'Os Golpes, apadrinhados de forma simbólica pela voz dos Heróis do Mar. Só que as coisas começaram a fugir ao controlo quando «Vá Lá Senhora» invadiu as rádios, ao mesmo tempo que número de visualizações do teledisco explodia no Youtube (mais de 300 000 em cerca de seis meses). De repente, os membros da banda começaram a ser surpreendidos por vizinhos e simples desconhecidos, que perguntavam onde podiam adquirir um disco que, na realidade, não estava a venda. Por fim, Os Golpes cederam à vontade popular. Há poucas semanas, surgiu nas prateleiras o meio-disco «G», em edição revista e aumentada. Apesar de não ter o requinte da edição inicial (capa em pele, gravada com o monograma da banda), o novo registo conta com mais duas faixas que, curiosamente, faziam parte do alinhamento dos dois concertos referidos («A Brasileira» e «Paixão», versão de um incontornável tema dos Heróis do Mar).

Lindo Par de Jarras

Este dueto macabro veio opinar sobre Merkel e o Federalismo, no que está no seu pleníssimo direito. Mas o Prof. Freitas acrescentou que a Chanceler não deveria ser tão assumida no mando, a menos que se concluísse o processo federalista que os interventores despudoradamente defendem. Ou seja, as lições de Direito estão a dar-lhe a volta à cabeça e só discorda da forma, que não da substância, das ordens vindas de Berlim. Ainda há dias o Grande Bic Laranja afirmava que Portugal, hoje, não passa duma Ideia. De acordo, mas porque por ela morreram tantos Portugueses melhores que os do par linkado, há que preservá-la e cultivá-la, até pelo potencial de união que traga ao País. Já o Federalismo, também é uma ideia, mas, até ver, uma ideia peregrina. Como o era o propalado nos anos 1930´s pelo Sr. Lerroux, acolhido cá por Artur Portela e que motivou este panfleto de protesto dos Estudantes Integralistas:

Note-se que os subscritores não podiam ser acusados de anti-espanholismo. Seguidores dos ensinamentos de «A Aliança Peninsular», de Sardinha, foram também os autores de uma mensagem aos Estudantes Monárquicos Espanhóis, apelando à fraternal conjunção da acção política. Eram Patriotas, isso sim. Saibamos nós ser um pouco como Eles. Clicar em dose dupla, para ler.

Das desvantagens de uma boa audição

Ouvido hoje no Terreiro do Paço a um jovem casalinho brasileiro:

Ele:
- Alá, aquele cara ali é que f---u a gentchi.
Ela:
- Que cara?
Ele:
- Aquele da estátua, no cavalo.
Ela:
- Quem é?
Ele:
- É o Cabrau.
Ela:
- Ah é. É ele mermo.

Animais, Nossos Amigos

Dedicado à Bomba Inteligente Que fez anos e sempre defendeu os nossos Irmãos sem Livre Arbítrio:

Nunca pensei ter de vir a dizer bem deste nosso Parlamento, mas a Vida não cessa de me ensinar que do pior pode surgir sempre um instante redentor. A cessação do abate horrendo sem justificação alimentar honra quem a favorece, mesmo que sob a mediata forma de desejo. Mas se mediata é, não quero crer que a emanação dela se deva apenas a ser... mediática. E o voto descrito, assim assumido em uníssono, não parece visar votos de papel, quer por os beneficiários directos não terem cartão de eleitor, quer por nós outros, os animais que o temos, não sermos postos perante a escolha de uma facção promotora deste passo em frente. Pouco me importa que a atitude possa ser apontada como um gesto estéril para aliviar a consciência. A prática do Bem nasce tanta vez de uma incomodidade diante do Mal, que não creio que o impressionante retrato de São Francisco de Assis do Anónimo Italiano, que se junta, hoje Lhe faça justiça. Lá do Alto, pensando neste torrão sofredor e em alguns responsáveis por essa Dor que para sempre pareciam perdidos, deve ter voltado à Alegria que tanto experimentou e pregou.

Sempre a Descer!

Voltámos a ser a chacota da Europa, ao jeito do sistema que vigorou até 1926, como se comprova pela peta de Abril que no dia primeiro do mês um importante jornal britânico (pes)pegou em destaque, a de irmos vender o Cristiano Ronaldo a Espanha para amortizar Dívida. Nisto tudo só espanta como ainda há para baixar o rating da República, se a entendermos como regime, já que recuso a designação para abranger todo o País. Entrementes, para os eternos optimistas que acreditam não poder a coisa piorar, vejam este mapa: É da minha vista, ou somos o único Estado da Europa Ocidental que não mereceu ser avaliado?

Sempre Bainville

Uma recensão no Figaro despertou-me o interesse por esta obra, mais uma a dar a conhecer o talento multifacetado de Jacques Bainville, cuja alcunha de "historiador do futuro" só lhe faz justiça. Discípulo de Maurras, especialista de política internacional com artigo diário na Action française, Bainville, através de uma serena mas aguda observação dos factos, da escrupulosa atenção ao princípio da causalidade, às lições da experiência e à psicologia humana, foi capaz de prever - com precisão quase matemática - muitos dos problemas, conflitos e alterações de paradigma que vão marcando a trajectória deste mundo - da II Grande Guerra ao fim da URSS.

Dois pormenores

Segundo informa uma recente publicação da Fundação Gulbenkian sobre a vida e a obra do ilustre coleccionador arménio, os trustees da instituição, convencidos de que Salazar não estava disposto a respeitar as disposições testamentárias do Senhor Calouste, tomaram as devidas precauções. Além disso fica-se a saber que no dia 25 de Abril de 1974 "a pacífica Revolução dos Cravos" derrubou a "ditadura" que durante meio século "atrasara" Portugal. Seria interessante que a instituição presidida pelo Senhor Rui Vilar esclarecesse: 1) como foi possível aos trustees impedir que o "ditador" Salazar fizesse o que lhe apetecia relativamente ao projecto; 2) por que raio de razão é que o magnate eurasiano escolheu justamente o Portugal "atrasado" pela referida "ditadura" para viver os últimos treze anos da sua vida e criar a sua Fundação.

Magnetizações

Ao contrário dos pintores, os artistas da Fotografia vivem um drama, no reconhecimento dos seus atributos. Quando o modelo é demasiado conspícuo, poucos fruidores imputarão a excelência ao autor da imortalização, em benefício da figura imortalizada, como qualquer tomada de top model da moda em revista de especialidade demonstra.


Resta uma de duas saídas: ou introduzir no tratamento da foto uma alteração à reconhecibilidade do corpo focado, o que já não se poderá incluir na categoria do retrato. Ou forçar a nota técnica que maravilhe pelo pormenor, ou pela captação, ou diálogo com a luz, eliminação ou acentuação da cor incluídas, de forma a conseguir relegar para segundo plano o elemento passivo que, doutra forma, vampiriza os créditos. Passando da Mulher ao Livro, foi o que Jeffrey Martin fez com a Biblioteca de Strahov, a notícia do dia. Tornando ultra-panorâmica e hiperpormenorizada a obra, escrutina até à última o modelo, em duas vias que pareciam à primeira vista antagónicas: o máximo detalhe + a superlativa inserção. Assim consegue que o olhar, demorando-se diante do inusitado, não desvie do criador a atenção outorgante do mérito. Até que, como a cabeça esculpida de Robert Arneson, abra um dos volumes...

Laranjada mecânica


Talvez seja desta terapia de choque que precisam aqueles que se recusam a ver o estado do país...

Notícias da Frente (Literária)


Mircea Eliade foi historiador, escritor, jornalista, pensador, académico e diplomata. Antes da Guerra Fria, período em que se tornou conhecido como símbolo de uma Roménia Livre, Eliade manteve uma relação de grande proximidade com Portugal, onde serviu como adido durante os anos da Segunda Guerra Mundial. Observando o nosso país com interesse e admiração, Eliade não deixava de comparar estes dois países situados em extremos opostos do universo latino. Curiosamente, nos últimos anos, tem-se assistido no nosso país a um ressurgimento do interesse neste autor, com a publicação de várias das suas obras, algumas inéditas na nossa língua. É o caso do «Diário Português (1941-1945)», lançado em 2008 pela Guerra e Paz, e que transcreve as suas anotações durante a estadia em Portugal. Há poucas semanas, foi a vez de «Salazar e a Revolução em Portugal», publicado pela Esfera do Caos. Este livro, publicado originalmente em 1943 na Roménia, pretendia introduzir ao povo romeno a figura de Salazar e a natureza do Estado Novo. Refira-se ainda o facto de Eliade ter sido recebido pessoalmente por Salazar durante os anos da Segunda Guerra Mundial, uma época em que o acesso directo ao Presidente do Conselho esteve praticamente blindado a diplomatas estrangeiros.



Outra novidade é a reedição, pela Asa, de «O Clube Dumas» (a primeira edição era da D. Quixote e tinha uma capa bem melhor), do sempre recomendável Arturo Pérez-Reverte. Quando se fala desta obra, é obrigatório mencionar «The Ninth Gate», o filme ao qual deu origem, com realização de Roman Polanski e participação de Johnny Depp, numa adaptação que se pode considerar no mínimo muito livre. Embora esta não seja obra mais forte de Pérez-Reverte — está a quilómetros da complexidade de «O Pintor de Batalhas» —, aborda uma temática muito cá de casa, que é a bibliofilia. A personagem principal é Lucas Corso, um caçador de livros que se vê envolvido numa perigosa conspiração, enquanto percorre alfarrabistas e coleccionadores para validar a autoria de um manuscrito. Apesar da estrutura frágil, a obra vale pelo estilo cinematográfico do autor espanhol, que quase permite ao leitor sentir o cheiro das velhas bibliotecas visitadas por Corso, e por uma série de pormenores: desde a interessante sequência passada em Sintra, às personagens de Amílcar Pinto, de Gruber e do próprio Victor Fragas, passando pelas interessantes reflexões introduzidas por Pérez-Reverte.

Theirs But To Do And Die

Sim, mas a frase de Sir Winston dirigia-se aos Pilotos da RAF, isto é a quem tinha, na luta, uma hipótese de, com honra, escapar. Mesmo a mais acabada sinédoque do sacrifício no cumprimento do dever, a Carga da Brigada Ligeira, permitiu que Lord Cardigan e alguns dos seus Companheiros sobrevivessem à carnificina do Vale da Morte. O que comove é não terem procurado contestar um erro manifesto devido à precipitação de um mensageiro, por lhes haver sido comunicado como ordem. Em Fukushima há Cinquenta Condenados, sem engano possível, por se terem disposto a salvar os Outros. Sabem que, eles sim, não têm hipóteses. Se me toca ainda haver nos dias em que me arrasto no conforto do cepticismo estas Dignidades Redentoras do conceito de Homem, não posso deixar de lamentar que as protecções apropriadas à Sua função Os façam gravar-Se sem rosto visível nas nossas mentes, como se de terroristas - o Seu contrário - se tratasse. Tennyson, em título citado, encontrou aplicação ainda mais plena.

Acto de Contrição

Resolvi aderir à Democracia!

Knut Hamsun contra a crise


Habitualmente, não gosto de fazer compras na Fnac. Apesar de reconhecer o grande impacto que a chegada desta cadeia provocou no consumo cultural em Portugal, não esqueço as consequências que as suas agressivas técnicas de marketing tiveram no resto do mercado. Na área da música, por exemplo, a Fnac fulminou (quase) toda a concorrência, a ponto de hoje, em Lisboa, apenas resistirem algumas pequenas mercearias musicais (como a Carbono, a Flur ou a Louie Louie). No entanto, não resisto a partilhar uma promoção lançada há pouco tempo por esta cadeia. Até dia 8 de Abril, na aquisição do recém-editado «Victoria», de Knut Hamsun, a Fnac oferece um desconto de 50% na compra de «Fome», do mesmo autor. Ou seja, o pacote fica por 23 euros, um bom negócio nestes tempos de austeridade e crise económica. Sobre o escritor norueguês, recomendo ainda o texto do Duarte Branquinho publicado há umas semanas n'O Diabo, a propósito de «Pan», outra obra de Hamsun editada recentemente pela Cavalo de Ferro.

Não Há Crise!

A Classe Política insiste em dar-se ares de não ser composta por desclassificados, insistindo na tecla de que crise se resume à incompetência de um governo, que não existe a concernente à incapacidade de um regime. E por tanto vai propondo solucioná-la com mais uma dose do que nos levou a ela, ou seja, outra eleição. Há poucas vozes que se mostrem, a um tempo honestas e criteriosas. Uma dessas raras, a de um insuspeito António Barreto, é das escassas a sugerir que a capacidade de resolução do problema nacional está prestes a esgotar-se, no actual quadro constitucional. Por outro lado, ainda ontem, à mesa, Marcos Pinho de Escobar me alertava para o quanto a invocação de governos de salvação nacional, agora tão em moda, era a negação da bondade da luta nas urnas, até ao momento ultra-propagandeada. Trata-se de falsíssimo remédio. Mitríades VI, Rei do Ponto, terá tomado, ao longo de anos, quantidades não-letais de veneno, desenvolvendo uma tolerância que contra ele se voltou, impedindo o efeito da droga, doutra forma mortal, que tomou no momento da derrota. Também estes grandes pontos que nos conduzem facultaram em alternância os partidos que degradaram o Rectângulo e querem agora resolver radicalmente a coisa com a reunião deles, sem excepção, o que, evidentemente, não surtirá. Só há um caminho, a abolição da partidocracia. Ou figuraremos todos, acorrentados, nos triunfos alheios.

Não à crise!

Caldo de Cultura (VIII)


Desta vez o nosso almoço foi na Universidade Lusíada e contou com a presença do Humberto Nuno de Oliveira, que não se esqueceu do livro, e com a sentida falta do João Marchante. O convidado que anunciei no post anterior não conseguiu infelizmente aparecer. O novo desafio fica assim lançado. Quem levou o quê?

Vox Populi

Esgotar a bateria do iPod pode ter consequências inesperadas. Foi o que me aconteceu hoje, num autocarro da Carris, levando-me a reparar inadvertidamente num interessante diálogo que se desenvolvia a meu lado. Não resisto a replicar aqui a troca de palavras entre um par de adolescentes lisboetas, utilizando descaradamente o título de uma fabulosa série de postais desenvolvida pelo Eurico de Barros.

Primeira jovem: «Uma pessoa tem todo o direito de não saber onde ficam os países.»
Segunda jovem: «Pois é, afinal isso serve para alguma coisa?»
Primeira jovem: «Ainda no outro dia, perguntaram-me onde fica o Paquistão. O que é que isso interessa? Por acaso até sei, fica na Ásia. Ao pé daqueles países que acabam todos em ão. Paquistão, Cazaquistão... esses todos.»

De imediato, lembrei-me as palavras sábias de Ortega y Gasset, que acusava a era moderna, a tal época do «homem-massa», de ter consagrado «a vulgaridade como direito».

Outras paragens

Devido à minha participação na conferência "O Desenvolvimento das Relações Luso-Sérvias", hoje na Universidade Lusíada de Lisboa, o almoço dos Jovens muda-se para o outro lado da capital. Mas o melhor é que vai contar com um ilustre convidado. Notícias em breve.

Do Fim e da Língua

Neste tempo que cada vez mais parece de fim de Pátria, um dos sinais que mais me incomoda e preocupa é o da banalização e consequente perda da nossa Língua. Disto tive oportunidade de falar com o Prof. Artur Anselmo após a sua excelente Lição de Jubilação, subordidada ao tema “Filologia e História do Livro”, no passado dia 28 de Março, na FCSH da UNL. Foi também a esta questão que dediquei a minha coluna na edição desta semana do semanário «O Diabo», chamada exactamente Língua, que concluí assim: “Porque se não soubermos quem foi Camões, a "Língua de Camões" deixará mais tarde ou mais cedo de ser a nossa. Perdendo o seu significado profundo e mecanizando-se passará a ser apenas um "meio" desprovido de conteúdo.

Feios, Porcos e Maus

Três problemas de emprego que não advêm da recessão impõem umas curtas linhas, para dissipar perplexidades. O primeiro reitera a noção de que os estudos na área de Psicologia servem, sobre o mais, para dar ares de pesquisa a percepções a que se chega com uma olhadela. Vêem a novidade deste? Que as Beldades obtêm mais contratações, são mais benignamente avaliadas e classificadas e triufam nos julgamentos! Alguém desconhecia a coisa, Santo Deus? E a parte que refere ser contraproducente o aspecto das Senhoras nas funções tipicamente masculinas também não espanta: no seguimento tradicional de que um homem, quanto mais feio, mais confiável, remete a constatação para consequência da mera igualdade dos sexos essa velha luta de certa Condição Feminina...


Os avanços e recuos da Oposição Líbia, mais do que levantar chatíssimas prelecções sobre a diferença de preparação e armamento das partes, reenvia para a essência da Guerra no Deserto, em que tais solavancos se mostraram adequados, desde o segundo conflito mundial. Hoje, entre reprovações de parlamentares importantes, Falcões incluídos, Obama mostrou o que venho repetindo há anos - a Política Externa dos States obedece a constantes que não dependem de eleições: em clara desconformidade com os limites das decisões internacionais; já entregou à CIA o comando dos entusiastas que, sem ele, seriam carne para canhão Khadaffiano. De imediato se demitiu o MNE de Tripoli, com o incrível nome de Moussa Koussa. O caso é revelador, já que, como antigo chefe dos serviços secretos, detém informação privilegiadíssima sobre as chances de prevalência do (ex-)patrão: e torna fantasista qualquer credibilidade de só agora ter descoberto os massacres de civis que afirmou determinarem a sua deserção. Os ratos são sempre os primeiros a abandonar o barco.


Um conceito de Emergência de cinquenta anos é coisa abstrusa, na acepção de "urgência grave". Poderíamos tentar encontrar-lhe um sentido útil, entendendo esse Estado como uma esperança de permanência na manutenção do sentido ascendente do partido que tem o Poder na Síria desde os anos 1960's. Do que sempre desconfiei foi de que ele viesse a ser levantado no preciso momento em que... emerge uma pressão inesperada. O regime veio, desmentindo tais expectativas, provar que a notícia posta a circular era para jornalista ver.

Machadada na Cultura

Recebi hoje, por correio tradicional, uma carta que, como amante da Sétima Arte, me impressionou bastante. É igualmente um sinal do estado a que o Estado chegou. Deixo aqui o link para a referida missiva on-line. Ora clicai aqui, Amigos Cinéfilos.

Post Scriptum: O «Aviso sobre o Programa de Abril», que também me foi enviado hoje, pela Cinemateca Portuguesa, traz ainda mais uma mão-cheia de más notícias.