Mais do mesmo?

Neste restinho de Portugal que teima sobreviver, vejo muita gente ansiosa pela iminente queda do (des)governo, e oiço outro tanto a falar em democracia e instituições. Eu penso e digo apenas isso: não adianta mudar as moscas... É preciso atirar com este regime para o esgoto de onde saiu. E com ele todas as suas moscas.

"De origem"


Os caprichos semânticos dos abrilinos são uma delícia. Depois da "ditadura", do "fascismo" e da guerra "colonial", repetidos à exaustão, andam agora a martelar com o... "de origem portuguesa". Quer dizer: os brancos naturais do Ultramar - os euro-ultramarinos -, já não são mais portugueses tout court, mas apenas "de origem portuguesa", o que, claro está, não é a mesma coisa. E pensar que metade das pessoas que conheço viveram toda uma vida neste engano! Aproveitando o ensejo, e já que o nosso PCP não anda lá muito pródigo com as suas "piquenas", lembro aqui uma dessas "de origem portuguesa", a "moçambicana" Tasha de Vasconcelos.

Porque hoje é segunda-feira

Pedro Guedes da Silva, autor do Último Reduto e director da Alameda Digital, assina a sua coluna semanal «Expresso do Ocidente» no Eternas Saudades do Futuro.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

Estávamos na primeira metade da década de 90, essa Idade de Ouro portuguesa vivida à base de obras públicas e fundos comunitários. Eu era um miúdo a passear com os meus pais pelo centro de Almada. A certo ponto o meu pai parou, surpreendido, ao encontrar uma casa de penhores. Eu nunca tinha ouvido falar de tal coisa, mas ele lá me explicou, espantado por há muito tempo não encontrar estabelecimentos desse tipo. Os tempos mudaram e hoje é raro passear na rua e não encontrar uma casa de penhores ou um desses sucedâneos pós-modernos que são as lojas que «comercializam e reciclam ouro, jóias e metais preciosos». Mais uma face dessa crise que muitos já não estranham, e que teima em entranhar-se no nosso país.

Sugestão para Sábado à noite


Porque hoje é sexta, e na esperança de que o nosso professor e o nosso crítico não julguem que estou a meter a foice em seara alheia - e também inspirado por um postal do Miguel, deixo aqui uma das atribulações do Antoine Doinel, personagem à volta da qual o grande Truffaut realizou cinco filmes.

Caldo de Cultura (VI)


Mais um desafio, quem levou que livro? Mas desta vez com prémio. Quem será o nosso próximo conviva?

Prôfêçô Dôtô


Acabo de saber que o Sr. Luís Inácio Siuva, ex-presidente do Brasiu, será agraciado com um doutoramento honorário pela - nada menos! - Universidade de Coimbra. Os graus "académicos" deste tipo valem o que valem, e quando o exercício confina-se a uma dimensão verdadeiramente surrealista, então valem o que valem o ego de quem o recebe e a demagogia ou subserviência de quem o confere. Nada mal para o Sr. Siuva quem, entre frases do tipo nos meu governo teve menas infração (subida do nível de preços) ou quando o Napoleão foi na China, gaba-se de jamais ter lido um livro e trombeteia a inutilidade do estudo, sobretudo o universitário. A velhíssima instituição fundada por D. Dinis, alma mater de um Oliveira Salazar, um Cabral de Moncada, um António José de Brito, um Veríssimo Serrão, está mesmo de parabéns. E eu que julgava que neste crepúsculo nacional nada me poderia surpreender...

Drieu

Há 66 anos Pierre Drieu La Rochelle dizia adeus ao mundo dos vivos. Para recordá-lo releia-se, pelas mãos do amigo Nonas, o belo texto de Goulart Nogueira, publicado em Março de 1960 (Tempo Presente).

Angola - 15 de março de 1961

Há cinquenta anos, em Angola, milhares de portugueses foram massacrados, esquartejados à catanada, mulheres violadas e esventradas, bebés esmagados contra as paredes, homens castrados e decapitados, etc. Tudo em nome da liberdade e da democracia, da independência dos povos, do ideário de 1789, do socialismo, do anti-fascismo e outros mimos. Descontando o assalto à esquadra e à cadeia em Luanda, ocorrido a 4 de fevereiro, pela magnitude da selvajeria, os acontecimentos do "15 de março" marcam o início daquilo que seria conhecido como a Guerra do Ultramar: a defesa da integridade das gentes e das terras do Portugal d´além-mar. Meus pensamentos e minhas orações vão para as vítimas desta barbaridade e das que se seguiram, culminando com a demoníaca "descolonização exemplar", e para todos aqueles que tombaram na defesa intransigente da Pátria. Confiante de que todos estes dormem o sono dos justos na Divina Presença, espero que as bestas "humanas" responsáveis por tais monstruosidades - muitos deles e seus companheiros ainda andam e pontificam para aí! - recebam, uma vez chamados pelo Senhor da Vida, aquilo que lhes corresponde.

Um autêntico Sacerdote de Cristo


Hoje não posso deixar recordar o trigésimo aniversário da morte de um expoente católico e grande argentino, o Padre Leonardo Castellani, exímio tomista e Doctor Sacro Universal. Teólogo, filósofo, poeta, escritor de fina pluma, foi também um pensador político de referência, crítico implacável do liberalismo - o qual identificava como etapa do processo de destruição da Cristandade, iniciado com a Reforma protestante, continuado com o Ilustração e a Revolução francesa, e que vai desaguar, como consequência lógica, no comunismo.

Quando Lisboa Tinha Sorte...

Em Dia do Consumidor cumpre salientar o tempo que nos dava uma caixa de papel para cada gosto, em lugar de uma embalagem plástica padronizada. Mas, voltando à simbologia por detrás da superstição, o Trevo que denominava a loja é significativo a vários níveis. Entra pelos olhos dentro que a planta que Eva teria colhido do Jardim do Eden ao ser expulsa, para prolongar um pouco no mundo inferior a atmosfera das delícias, tem cada vez menos lugar, à medida que os nacos paradisíacos retrocedem na Capital.


Há porém mais. Queria o Folclore que a rapariga por casar que comesse um trevo de quatro folhas achado o faria com o primeiro homem livre que encontrasse. E que o sujeito solteiro que deparasse com tão rara planta e a colocasse pela manhã dentro do sapato encontraria noiva na moça que lhe surgisse pela frente. Não é preciso ser grande intérprete para perceber que se estava diante de um hino contra a fast food e pela naturalidade no fabrico do calçado, em épocas onde o Matrimónio era uma sorte e não se arriscava às contrafacções em curso.
Simplesmente, pode-se verificar como toda a Beleza está prestes a ser derrotada por outras vulgarizações igualmente multiplicadoras e deprimentes, como a da produção em massa - a plantinha que tão rara era vê hoje serem vendidas e empacotadas sementes dessa modalidade tetrafolhada. É o fim!

O mito do Portugal livre de energia nuclear


Não consigo evitar um sorriso sempre que encontro activistas conta a energia nuclear. Dizem eles que «Portugal Nuclear, Nem Pensar!». Talvez quando olharem para este mapa durmam um pouco menos descansados. É sabido que Espanha tem várias centrais nucleares em funcionamento. O que pouca gente sabe é que uma delas está aqui bem perto de nós. É a central de Almaraz, na província de Cáceres, cuja refrigeração está a cargo do rio... Tejo. Pois é, e está a 160 km de estrada da fronteira portuguesa, o que dá cerca de 100 km em linha recta. Com dois reactores, esta central gera 9% de toda a energia produzida em Espanha. Enquanto muitos se entretêm com debates sobre um Portugal livre de energia nuclear, é bom que se lembrem que o nosso país está na mira de todos os riscos, sem tirar qualquer benefício.

A ferro e fogo

Depois do festival de blasfémias do Prizidêntchi Siuva lá do Patropi, quem, a menudo, gabava-se da sua semelhança com Nosso Senhor Jesus Cristo, como "homem sem pecado", agora a moda parece estar a ser seguida na vizinha Argentina. Em plena construção do mito de São Néstor Kirchner, o Ministro da Agricultura compara um vinho, produzido sob a chancela estadual para fins de propaganda justicialista, com o sangue Divino e declara, em alto e bom som, que tal como Cristo dera a Sua vida pela humanidade, o antigo presidente dera a sua pela política. É pena que no país dos gaúchos aqueles que enchem a boca com o nome de San Martín não se lembrem do correctivo que o general reservava aos blasfémos: furar-lhes a língua com um ferro em brasa.

Queijo Suíço

Esta tacada no Orçamento já dava para desconfiar...mas a legislação fiscal, o nosso mais notório handicap , confirma-o inteiramente:
o actual (des)Governo só dá buraco!
A imagem é Para o Buraco de Jakub J. Ziolkowski

Vai Um Mergulho?

Não nas águas, que a temperatura ainda o não permite. Mas numa "piscina" como a da fotografia intitulada «O Leitor», da colecção Hulton-Deutsch e que um Querido Amigo me trouxe de Paris...
Ser amicalmente associado a um labor destes é não pequeno piropo para um acumulador que tenta ler qualquer coisita do que junta. Sempre com a prevenção do grande Mâncio presente: Se és daqueles que confiam totalmente no que os livros dizem, melhor será que não tenhas um único.


Mais, eternamente preguiçoso e anárquico nas incursões pelas páginas, pensando como pôde um Louis Barthou achar que o amor comum dos livros criava a melhor das solidariedades, a da ordem, da clareza, do trabalho, do estudo. Não deve ter lido os mesmos volumes que devorei, ou, ao menos, com a mesma intenção. Sossega-me muito mais Cocteau, com a neutralizante arte do paradoxo libertador - A maior obra-prima literária não passa de um alfabeto em desordem.
Combinando com a imagem de baixo, grudada que costuma estar à porta do meu frigorífico, tento retirar outra conclusão. A de que são precisos muitos anos de treino para nos não deixarmos extenuar em tão boa companhia.
Mas lá continuará, forçando-me a tomar o alimento numa acepção também espiritual, de cada vez que o estômago tentar impor a sua tirania.


A Lição do Passado

Corre uma certa discussão na Pátria do Tio Sam sobre o bem-fundado da decisão directiva de certa escola, de retirar do contacto directo com os alunos uma professora que na juventude tinha protagonizado cinema pornográfico. O caso é bicudo, sem trocadilhos. Não compro as cautelas quanto à idoneidade moral, crendo no arrependimento: a visada passou anos a fio a dar aulas, sem suscitar queixas, constituiu família estável, parece fugir mais do passado do que aqueles que o censuram. E a mesma sociedade que põe criminosos condenados por pedofilia a reinserir-se no lugar de vigilantes em estabelecimentos de ensino parece não ter grande fundamento para recusar a docência a quem nem sequer cometeu um delito. Um cínico poderia mesmo dizer que leccionando a Senhora a cadeira de Ciências, teria um curriculum invejável na parte do programa dedicada à anatomia,Por outro lado, há o problema da autoridade sobre a turma. Apesar de não ter caído em qualquer comportamento inadequado, ao contrário da portuguesa que se deliciava em trazer conversa erótica para as aulas, esta residente do Missouri - e não Minnesota como a notícia borrou - pode estar sujeita à risota geral de cada vez que um fedelho menos respeitador traga o assunto à baila. Além de que não papo a conversa da excelente relação que ela mantém com a miudagem, afinal foram alguns deles que a vieram por este meio embaraçar.
É árduo tomar posição (outra vez, sem segundos sentidos). Posso é opinar que penso merecer investigação e eventual reprimenda o comportamento dos delatores. Não só porque não devemos formar ou encorajar bufos, mas porque esta preocupação moral se terá aproveitado do visionamento de filmes com demasiados Xs.
A imagem, de um modelo sem desvio equiparável, é Professora de Marlene Dumas.

Graus no Desespero?

Oliveira Martins escreveu sobre Antero que a vida nem vale o trabalho de nos desfazermos dela. Mas uma constatação tão desiludida e cómoda não expressa o maior dos horrores, o do vazio, sempre existencialisticamente ávido de reacção dorida à miséria de um Outro que até de si se pode tirar. Quando não se consegue ser picado por esse pretendido aguilhão, ou, atingindo-o, se quer retroceder, o inconformismo face à própria insuficiência, expresso de forma residual mas omnipresente na incapacidade de prescindir do conhecimento frustrante, pode dar-nos lamento tão opressivo como a poesia do Filho desse Reporter X de que o João Marchante nos falava inda há dias. Muito mais esmagador do que a trombeteada tristeza dum António Nobre, sempre publicitário do seu sentimento em busca do efeito, ou da deixa testamentária dele, como O Desesperado de Courbet, abaixo, sempre me pareceu ser.


De Reinaldo Ferreira,

Desalento

A Deus pedi a dor que merecesse
O grande desvario a que desci
Mais perto do meu sonho me senti;
Não sei de pior mal que Deus me desse.

Contrito me mostrei que desfizesse
A teia das esperanças que teci...
Mas surdo se mostrou, em vão pedi,
Nem há talvez um Deus que tal pudesse.

Ao que Deus se calou, que direi eu
Se a esperança de esquecer-me se perdeu
E não suporto a dor de recordar-me?

Direi que sofro um mal que não se cura
E vivo deserdado da ventura
Que só a noiva-morte pode dar-me.

Rua!

Este rapaz compreensivo pensa que pode surfar sobre as multidões, dizendo que as entende. Sim, a mesma percepção que tem o assassino do estertor da vítima, o agressor dos gritos do ofendido e o ladrão dos lamentos do lesado, passe a comparação. Para quem esteja imerso na neutralidade de não apreciar a política de massas, nem a governação incompetente e arrogante, apoiar uma das partes em liça terá de assentar na observação de qual tomou a iniciativa de fazer mal à outra. No Portugal de hoje não restam dúvidas. Daí que seja um alívio ver um regime que nasceu na rua sofrer, ligeiramente, muito embora, na pele dos seus piores elementos, pelos ferros com que antes matou.


Tão nefasto é o balanço que até o próprio perpetrador é capaz de fazer, que não encontrou melhores medidas no curriculum do que a matança abortiva, a dupla desvalorização do Casamento - pela banalização dele e pela erradicação da responsabilidade na sua manutenção -, além de uma tímida estatuição de quotas políticas femininas, onde eu gostaria de ver nove décimos, em vez de paridade.
Mas ninguém é enganado, o que o declarante queria era dar graxa aos líderes visíveis da convocatória bem sucedida de ontem, sabendo que eram originários da Esquerda a quem estas bandeiras costumam agradar.

O Sol Continuará a Nascer!

Terramoto, maremoto (tsunami), incêndio(s). Que reedição do malfadado 1 de Novembro de 1755 na nossa terra! A catástrofe por definição que mobilizou as melhores penas do nosso Mundo no afã de tentarem encontrar um sentido para a perda mais emblemática. No momento em que um desastre decalcado assola o Japão, imagino a paralisia que impende sobre quem hoje tente escrevê-lo, aprisionado na voragem das notícias que não permite exprimir a Compaixão, salvo pelo horror instantâneo que nobilita... sem ilustrar.
Se a Ironia tivesse cabimento, haveria que pedir-lhe contas de o único Povo que sofreu as consequências da explosão nuclear belicamente infligida por mãos alheias se encontrar ameaçado de flagelo de natureza aproximada devido ao próprio e pacífico esforço. Mas a altura não é para inteligência, senão para Sentimento. E para nos assombrarmos com a constatação de que um tão belo mito da criação como a origem insular Nipónica devida ao agitar das águas pela lança dos Deuses Izanagi e Izanami se encontre tão horripilantemente estigmatizado pela odiosa retribuição da revolta dos elementos, que deve, Lá como cá, contribuir para nos tornar a todos mais humildes.
Vale que nenhuma Gente honra os seus Mortos como Esta.


Inclinando-me, trago a imagem do mito fundador por E. Kobayashi e fecho a caixa de comentários correspondente, por a tagarelice que ajuda à felicidade em circunstâncias mais amenas ser aqui totalmente descabida.
Sem ter falado com Eles, julgo que as condolências que desajeitadamente esboço são partilhadas por todos os Camaradas do blogue.

Mudar de Nome


Palavra de ordem do dia para toda uma Geração:
DESENRASQUEM-SE!

Todo um Programa


Apesar da magra vitória de ontem, ou talvez mesmo por causa disso, continuo em modo francófilo. Assim, aproveito para destacar um artigo da edição de ontem do i, que opõe dois grandes mestres da nouvelle vague — Jean-Luc Gordard e François Truffaut — a propósito de um documentário recém-estreado. Diz o texto que o realizador de «Les Quatre Cents Coups» e «Fahrenheit 451» tinha como programa «ver três filmes por dia e ler três livros por semana». A mim parece-me uma receita extraordinária.

Partindo a Loiça

Mais leal do que outras figuras estabelecidas da nossa política, as quais dirigiram à Juventude em efervescência cantos de sereia que julgavam tentadores, no sentido de os seus mais activos membros integrarem as suas instâncias decisórias, ou seja, as do inimigo identificado, o Dr. Marques Mendes tentou televisivamente defender o indefensável, quer dizer, a partidocracia.
E disse que não se podia dizer que tudo era bom no restante Portugal e que maus seriam os partidos, porque estes eram emanações da Sociedade, no seu todo.
É precisamente este ponto que eu contesto. Uma organização de cariz partidário, em monopólio ou em competição, não participa apenas da maldade difusa de alguns dos seus membros. Bem ao invés, incita muitos indivíduos ao mau caminho, na medida em que oferece cobertura para as más acções que empreendam e fornece atalhos para poleiros decisórios independentes de um chamamento superior não-faccioso. Além de que fracciona por definição o Todo, transferindo os instintos de solidariedade da Comunidade Nacional para amputações rivais umas das outras, salvo no que toque a quotas pré-acordadas de distribuição de cargos, ou da união esporádica contra a ameaça comum quando, como parece ser o caso, os seus expoentes se sentem acossados.
Melhor do que eu o jornal «A Monarquia» de 8 de Junho de 1921 fala da horrenda perversão, num texto em muitos passos actual. Clicai na reprodução em dose dobrada e, superiormente, fazei o Vosso juízo.
Há é que combater nos Revoltados a ideia de que a culpa não é do sistema, já que anseiam por encontrar uma responsabilidade concreta no conjunto desta classe política. Com a actual estrutura governativa estão condenados ao desânimo, pois qualquer epígona dela, mesmo a que os Puros Indignados de hoje viessem a gerar, fatalmente cairia na mesma viciação que dá vómitos. Há que reconhecer as organizações criminosas, para além do que estipula a legalidade provisória

Quando o que se lê não é exactamente o que se vê


A notícia caiu como uma bomba. Uma sondagem do Le Parisien colocou Marine Le Pen no primeiro lugar das intenções de voto para as próximas eleições presidenciais francesas. Os sinos tocaram a rebate e a notícia percorreu a Europa, anunciando nova ascensão desse bicho maléfico. A líder da terrível extrema-direita racista! O regresso do nazi-fascismo! O drama, a tragédia, o horror! Já estou a imaginar o filme: um novo grande armée em passo de ganso pelos Campos Elísios! Armas químicas usadas nos banlieues. Gregos, irlandeses e portugueses arrastados para campos de trabalho por não cumprirem as metas do défice. A invasão do Magrebe! A 4ª Guerra Mundial logo a seguir!

Como se vê, esta sondagem é um festim para as redacções da imprensa de referência, garantindo análises, debates e avisos mais ou menos enviesados para muitas semanas. A realidade, essa, é diferente. O programa do Front National, por exemplo, não difere muito de um partido de direita conservadora (não confundir com liberal), e a sua praxis está a milhas do sensacionalismo de uma Lega Nord, que participa na coligação governamental italiana. Quanto a Marine, apesar do sonante apelido e da sigla que representa, não é exactamente um Mussolini de saias. Pelo contrário, é conhecida precisamente pela sua moderação e desejo de respeitabilidade, tendo motivado cisões e dissidências entre as alas mais radicais do partido. A esse propósito, resgato o interessante artigo publicado pelo Duarte n'O Diabo no último mês de Janeiro, que cita declarações de Marine sobre o 25 de Abril português: “Na história política de Portugal, Mário Soares teve um papel fundamental, positivo, para o fim do regime, em 1974, e na luta contra o comunismo, a seguir”. Ou ainda: “Sou democrata e respeito a soberania popular: a revolução dos cravos respondeu ao desejo da maioria dos portugueses”. É caso para perguntar onde param os fascistas. A polícia (do pensamento), essa, acho que já todos sabemos onde está.

Ouvido Para as Coisas


Que a crise tem patamares é visível também no tipo de comércio que prevalece. A primeira fase dela consistiu na regressão das boas lojas de vestuário, acessórios e mobiliário, em proveito e benefício das agências bancárias e cabeleireiros: era a altura em que o consumo se canalizava para o efémero e deixava de assentar em disponibilidades imediatas, para recorrer ao crédito. O segundo estádio veio com a degradação dos alvos das compras e traduziu-se no boom das lojecas chinesas de qualidade falhas. Finalmente, o afundamento total surge com a proliferação vigente das casas de compra de ouro usado, tanto na modalidade de reconversão de ourivesarias, como na de criação ex-novum.
A alta aurífera será pretexto para investimento dos particulares, mas não é disso que aqui se trata, o vil metal demandado por esses estabelecimentos raramente assentará em lingotes ou moedas que hajam sido adquiridos como aplicação estudada. O que abunda é uma quantidade enorme de pessoas com anos e dificuldades em proporções concorrentes, dispostas a sacrificar presentes queridos para sobreviver à agressão de um Presente torcinário.
É o drama que se vivia outrora no recurso às casas de penhor e aos leilões de bens trocados em emergência por tostões para o sustento. Tanto mais grave quanto, ao arrancar a segunda pele que era formada pelas lembranças dos afectos e dos triunfos do coração, se aniquilava impiedosamente a parcela de Único que garante uns pós de auto-estima às vítimas do confisco da sorte a quem só restava(m) memória(s) para a manutenção de algum interesse em continuar a viver.
Para ilustrar a comoção tipicamente feminina de semelhante tensão, ensinando-nos a sensibilidade possível ao testemunho dos objectos, em «Drouot», uma vez mais Barbara, para tempos bárbaros.