Paris II


Em Paris, ao ouvir os dislates da classe mediático-política acerca das "convulsões" em certos países árabes: "França terra de acolhimento"; "os povos lutam pela de democracia e nós, afinal, somos a pátria desta", etc. E tudo com carradas de hipocrisia à mistura. Nas pegadas do Mestre, não pude deixar de recordar as palavras deste extraordinário historiador do futuro que foi Jacques Bainville, discípulo dilecto de Maurras e talvez o filho que este nunca teve.

"Não existe política velha, não existe política nova: existe a política eterna, aquela que se funda na experiência histórica, no conhecimento dos homens e dos povos."

Mas o nosso admirável mundo novo teima em fazer o exacto contrário. Cada dia estou mais convencido de que "isto" só acaba com o Juízo Final.

Paris I

Na Cidade Luz, a seguir as pegadas do Mestre.

Quadros

Abaixo está um dos quadros que mais aprecio e desde que voltou ao MNAA já lá fui vê-lo três vezes. Claro que tal não se deve apenas ao esplêndido retrato, mas também ao retratado. Tal vem a propósito do périplo sul-europeu que iniciarei amanhã, no qual verei, finalmente, o retrato de D. Sebastião da autoria de Cristofano Dell'Altissimo, entre muitas outras coisas...


Retrato de D. Sebastião
Cristóvão de Morais (actividade c.1551–c.1573)
Portugal, século XVI (c.1572–1574)
Óleo sobre tela
A 100 x L 85 cm

Apanhados na Rede

Passado e Presente: A Infidelidade Descoberta, de Augustus EggLongo tempo me irritou a candura com que gerações anteriores acusavam a Literatura de ser responsável pela proliferação de adultérios. Não poderia reagir de modo diferente quando as gentes opinativas do dia acham outro tanto do Facebook. Mas noto que, havendo percentagem tão elevada a acreditar piamente que a rede social estimula a infidelidade, não cessam as menos pias adesões a ela...
Encarar como fatal a permeabilidade aos exemplos, mesmo os nocivos, é incompatível com a dignidade da vontade individual, a única réstia de respeito que a nossa espécie vai podendo reivindicar. E nesse ponto é que a moda da ligação que adiciona pode degradar a Ligação que privilegia, adquirido que está o desvanecimento da firmeza resistente dos sentimentos ou dos compromissos, a um extremo que constata que é a ocasião que faz sempre o ladrão.
Mas claro que as causas são mais fundas, a separação entre perda de dignidade e aventuras do sector, a banalização das concorrências, a desculpabilização dos divórcios e a ideia peregrina da criação de terapeutas familiares, como se as crises fossem como as doenças e não resultassem da responsabilidade e decorrentes condenações.
O que reduz o querer humano no sentido de força ao desejo e na acepção de estima ao controlo.

Blogues pastilha-elástica

São os que só falam das actualidades (sociais, políticas e outras). Interessantíssimas, neste cantinho habitado por pacóvios deslumbrados. Não leio esses blogues, pela mesma razão que não leio jornais nem como pastilha-elástica. Gosto de coisas que perduram. Poder tirar um livro com cem anos da estante ou um disco com trinta do armário ou um vinho com vinte da garrafeira, e senti-los eternos, não tem preço. O resto é efémero. E não tenho espaço — mental ou outro — para armazenar lixo.

Na prateleira

Quando um livro me desilude ponho-o em segunda fila.

De Marca Maior

Num livro aparentemente a ele pouco predestinado, «Os Amores de Camilo» de Alberto Pimentel, encontro este ex-libris. E desato a divagar sobre como uma marca de personalidade expressa na posse - e dela expressiva - pode submeter-se, ao ponto de o seu utilizador se identificar completamente com uma transformação colectiva, mais fortemente do que qualquer totalitarismo, mesmo os dos Maos deste mundo, alcançaram.
Não será uma libertação mais alta, a da auto-imputação de importância, considerar um objecto privado como o livro, por si só um prolongamento do espírito individual, na medida em que é revelador de critério particular, aquela que prescinde de si, do nome aos brasões, para se simbolizar plenamente numa mobilização da Comunidade contra o que se vê como uma opressão?
Quanto invejei semelhante desapego!

Que dizem os liberais disto?

Que se pode esperar de um País que nunca conseguiu edificar uma elite livre e realmente independente do Estado? Verdade seja dita, isso só aconteceu, mais ou menos, durante a I Dinastia da Monarquia Portuguesa. De lá para cá, sempre em crescendo, e culminando na bela da República, tem sido um fartar vilanagem, em regime de mancebia, com casa e pucarinho, entre elites e Poder!

As Vivências à Deriva


Por que nos atrairá a ideia da repescagem acidental em situações caracterizadas por alguma suave resignação nas perdas que experimentámos, desde que a Melancolia haja ocupado o lugar da Tragédia? Não posso acreditar que se deva unicamente ao tour de force já sabidamente condenado a pontual da recuperação hedonista de bons momentos. Parece-me haver muito mais, uma mola vital que se tenta activar pela alternância do mecanismo de reviver com o da escapatória fleumática, como que moldando um sentido salvador: o de que deixar-se vogar um pouco ao sabor das correntes que levam e trazem - que nos levam e nos trazem - ainda é a melhor maneira de não se deixar afundar, ou de não nos perdermos para sempre no mar imenso. Mesmo quando as bóias de sinalização, reciclagens de pontos de referência do Passado pessoal, mudaram de localização, tentamos amiúde investir a nossa sede na supersticiosa e informe ideia de que não tenham cambiado a função, ainda que reconheçamos no efémero uma fatalidade, ajudados pelo mesmo álcool que estimula nas vezes em que não faz esquecer.
Jeanne Moreau no mais belo «Tourbillon»

X

Com o objectivo de celebrar sessenta anos de existência, a «Coleccção Vampiro», da Editora Livros do Brasil, lançou, em Março de 2007, o seu volume n.º 700 — Memórias de um Chauffeur de Táxi, de Reinaldo Ferreira (Repórter X).
Tudo isto é um tiro no escuro, ou uma lança em África, num País sem tradição de literatura policial; e, surge, ainda, como um impulso para as novas gerações conhecerem a obra de um genial escritor — e jornalista, e cineasta, e tudo! — que introduziu por cá a novela policial.
Reunindo as diversas partes de um folhetim publicado na imprensa no início dos anos 30 (Reinaldo Ferreira morreria, como Fernando Pessoa, em 1935), o livro faz-nos viajar na Lisboa dos «loucos anos 20», com todas as suas personagens características — cheias de charme e mistério —, e por entre lugares para sempre perdidos — cafés, hotéis, cabarets e clubes nocturnos —, que faziam da Capital, nos anos 20 e 30, um centro cosmopolita — ponto de chegada e partida de enigmáticas figuras — e um verdadeiro cenário de filme policial.
Todas as histórias têm como fio-condutor Juca, «o Menju da Estefânia», taxista e profundo conhecedor do bas-fond alfacinha (ou underground, em vocabulário contemporâneo), que nos narra peripécias extraordinárias por ele observadas — qual voyeur — numa fascinante Lisboa que não volta mais.
Para ler de um só fôlego!

Incompleta trilogia


Em 2008, a Ulisseia editou «Castelos Perigosos». Em 2009, foi a vez de «Norte». São dois livros da chamada trilogia alemã de Céline, espécie de auto-retrato da louca odisseia que empreendeu pela Europa nos dias do fim da 2ª Guerra Mundial. É um relato intenso e poderoso, próprio de quem passou pelo Apocalipse e voltou para contar a história. Estamos em 2011, o ano que marca o cinquentenário da morte do doutor Destouches. Não será uma boa altura para lançar o capítulo final, «Rigodon»?

Caldo de Cultura (V)


Novo desafio, desta vez com um convidado especial, o Bruno Oliveira Santos, que também trouxe um livro. Como pano de fundo temos o "meu" primeiro "Diabo", por insistência dos presentes, e a vitória do nosso Benfica. Quem trouxe o quê? Faites vos jeux.

Fora de competição

O nosso Marcos está em Paris, mas mesmo assim enviou-nos o seu livro. Aqui fica.

Ceci N´est Pas Une Subservience

Dicionário, de Andrew Mayfield
Cada vez mais o dicionário essencial à compreensão da linguagem dos políticos se torna um manual de maus passes de ilusionismo. O Sr. Sócrates a negar a subserviência quando vai dar contas da condução da sua política financeira à Chanceler germânica, sem ao menos o habitual disfarce de Bruxelas para salvar a face, já é morbidamente divertido, como toda a negação da evidência. Os termos em que o fez é que precisam de dilucidação.
Diz que o nosso país não é subserviente com ninguém e que só é subserviernte com o povo. Bem, mas então País e Povo são coisas diversas? Aquele não é Este + o território? Será que o PM se referia, então, ao solo? Claro, à terra, durante muito tempo, não restou outra condição que a servil, mas com a destruição da Agricultura já se vai libertando...
Ná, a explicação tem de ser encontrada na História e nas enciclopédias. O nosso governante, decerto, soube que Luís XIV disse O Estado sou eu. E adaptou a coisa à sua medida megalómana, quer significar O País sou eu. Mau, mas então terá tido um rebate de humildade e estará a assumir um servilismo perante o Povo? Nem parece coisa de quem usa tanto carro do Estado. Ah, achei! Há um outro sinónimo para Subserviência na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, precisamente o de bajulação. E assim o país é subserviente com o povo quer simplesmente dizer eu, Sócrates, sou um bajulador do dito. Nada de novo, enfim. Assim se fala em mau português.

Futuro do Cinema Português

Um País que não tenha uma Cinematografia própria, reconhecida de imediato a olho nu pelos cinéfilos do mundo inteiro através das suas marcas identitárias, não tem futuro. Não se trata de filmar o folclore e de registar as belas paisagens — a publicidade (institucional e comercial) tomou conta desse departamento, para vender o seu peixe, e até o faz bem.

O que quero dizer com isto é que Portugal precisa de fazer um Cinema com uma linguagem autêntica, que corresponda de facto ao modo de pensar e sentir dos Portugueses. O teste parece-me fácil: se o público gostar é porque os filmes são genuínos. Este tornou-se, aliás, o principal problema; as pessoas andam zangadas com os filmes portugueses. Como às vezes sucede na vida, até se zangam com o que desconhecem; mas, cheira-lhes que nem vale a pena espreitar. E — atente-se —, o povo é sábio nos seus instintos, por mais ignorante que possa parecer e — hoje, infelizmente — ser.

O Cinema é uma necessidade cultural do século XXI, como já tinha sido, também, durante todo o século XX — ou, pelo menos, desde que criou, para si próprio, as bases estéticas para se exprimir de forma autónoma em relação às outras Artes (esse nascimento da linguagem cinematográfica deu-se com Griffith, em 1915). Portanto, se um País não for capaz de criar produtos no domínio da maior indústria cultural conhecida, é lícito afirmar-se que está a abrir uma brecha para a entrada de filmes estrangeiros que venham ocupar esse espaço. Não há aqui qualquer nostalgia do tipo «patriotismo da sardinha assada», que, desde sempre, me repugna. Há, isso sim, a consciência de que um Povo só tem futuro se existir culturalmente, e que, sendo o Cinema a maior e mais moderna forma de expressão artística, quem não tem filmes, a que possa chamar seus, é como quem não tem Língua.

Os filmes de uma Cinematografia Nacional reconhecem-se de imediato. Todos nos quedamos fascinados perante o Cinema Clássico Americano (o das décadas de 1930 e 1940), como certamente admiramos — os que o conhecemos… — o Cinema Mudo Alemão e Russo, ou, ainda, nos identificamos com o Cinema Moderno Italiano e Francês, para só falar dos exemplos mais divulgados da História do Cinema.

A estas fitas associamos rostos e corpos — as «estrelas» (do que os americanos chamaram «Star System»). Reside aqui uma lacuna nacional a superar urgentemente: o Cinema Português precisa de novas estrelas, como de pão para a boca. São elas que alimentam os sonhos dos espectadores na sala escura, através de processos de identificação ou negação, amor ou ódio, fascínio ou repulsa (sem entrar em tretas psicanalíticas, que só servem par esvaziar de magia e sensualidade personagens e pessoas). Certo, certinho, é que sem o brilho das estrelas o Cinema não cativa. Uma estrela é mais do que um bom actor. Tem aquele «não sei o quê» que só o espectador, no seu íntimo, sabe reconhecer; e, primeiro do que ele, o realizador — a quem cabe a tarefa de descobrir, revelar e lançar esses seres únicos. Apesar de tudo, Portugal teve já as suas «divas» do celulóide. Sobre elas falarei nesta revista em futuros artigos desta coluna.

Outro aspecto fundamental a não perder de vista são as histórias que estão na base dos filmes. Tecnicamente designados por argumentos ou guiões — após a sua passagem para linguagem cinematográfica —, é nestes que reside o segredo do sucesso das películas.

A propósito, ocorre-me dizer o seguinte: «Pela boca morre o peixe»; isto é, podemos ter uma iluminação magnífica, belos enquadramentos, actores irrepreensíveis, e tudo o mais; mas, se os diálogos forem ridículos — sabem do que estou a falar… —, a fita não tem pernas para andar.

Antes de chegar aos diálogos, no entanto, o tropeção pode ainda dar-se numa outra fase — na história, propriamente dita (aproveito a ocasião para perguntar se alguém sabe porque carga de água é que ultimamente aparece história impropriamente escrita?...). Esta, pode ser baseada numa obra literária (falando-se, assim, em adaptação), ou escrita de raiz (argumento original). Aqui, é obrigatório ter a noção de que escrever para Cinema não é o mesmo do que escrever um livro ou ser-se jornalista… Há toda uma técnica que urge aprender e dominar. Graças a Deus, temos bons exemplos portugueses para estudar.

Se o Cinema é a Arte da repetição (mas essa é outra conversa), aproveito para deixar aqui mais um dito que anda na boca do nosso povo há anos, e que reza mais ou menos assim: «Tendo nós novecentos anos de História, com tantas histórias, porque é que não retiramos daí inspiração para criarmos argumentos para os nossos filmes?». Pois… Não sei, ou prefiro não saber. Mas, é fácil de perceber que a vida de Dom Afonso Henriques daria uma extraordinária longa-metragem, com todos os ingredientes de que os espectadores gostam: um herói, acção, aventuras, perseguições, sexo, amor, batalhas, viagens, paisagens, mistério, segredos, traição, ódio, sangue, e por aí fora… Já que estamos lançados, aproveito para lembrar que todo e qualquer um dos nossos Reis daria um filme de fundo bom em qualquer parte do planeta. Não é exagero, é uma convicção formada no visionamento e análise de centenas de filmes históricos. Um possível slogan para estas películas de época seria: «Oitocentos anos de Monarquia são a nossa garantia».

Pelo meio — entre as histórias, que se escrevem e planificam a fim de passarem a imagens em movimento com som e tudo, e as estrelas, também já nossas conhecidas, que brilham na tela — ficam os recursos técnicos de várias áreas estéticas: imagem, som, montagem, direcção artística (cenários e guarda-roupa). Nestas matérias, não julgo haver problemas de maior. Afinal, temos dos melhores profissionais do mundo nestes ofícios artísticos. Bem sei que alguns andam lá por fora a lutar pela vida, mas talvez regressem para ajudar a criar, definitivamente, uma Indústria de Cinema em Portugal. Havendo mercado, haverá dinheiro e remuneração condigna para quem a merece.

Falemos então agora de mercado, palavra que aparentemente não cola com Arte. Mas se não casar é que é o diabo, pois a Arte ficará solitária e estéril… É chegada a hora de deitar fora todos os preconceitos contra a relação dos filmes com o público. As fitas só têm razão de ser na medida em que comuniquem com as pessoas e que estas se revejam nas películas. Tudo isto pode — e deve — ser feito sem cedências de carácter artístico. Um bom filme deve ser fruído por toda a gente (note-se que o público não é uma massa e é composto por indivíduos de culturas e sensibilidades distintas), com prazer e proveito, à medida dos seus apetites estéticos, ou, simplesmente, lúdicos.

Entendamo-nos: os mais simples contentar-se-ão com a superfície do filme, os mais atentos mergulharão na história, e os mais exigentes tirarão as suas próprias conclusões. As grandes fitas estão assim construídas. São feitas a pensar em todos, mas à medida das necessidades e capacidades culturais de cada um.

É tudo tão simples que quando oiço para aí certos pequenos e médios intelectuais da nossa praça a escreverem palavras extraordinárias sobre Cinema, que só servem para complicar o que é claro como a água límpida, até me arrepio todo.

Finalmente, guardei ainda um pouco de tinta para falar de financiamentos. Embora Portugal tenha hoje — mais do que nunca — uma burguesia burgessa, inculta, e pouco dada a investimentos culturais (salvas raríssimas e honrosas excepções), é aí — apesar de tudo — que reside a esperança para um salto de escala da produção nacional. Os cineastas do futuro terão de libertar-se dos subsídios, e começar a pensar na preparação dos seus projectos com outras mais saudáveis engenharias financeiras. Todas as grandes Cinematografias estrangeiras (tirando a Soviética) se edificaram sobre uma estrutura económico-financeira empresarial privada. Já tinham reparado nisso?

E, por aqui me fico, antes que ofenda alguma alma mais sensível de algum confrade cinéfilo...

Apesar de todo o meu desgosto atrás expresso em relação ao actual panorama do Cinema Português (sendo sério, não poderia ter dito outra coisa), o meu entusiasmo é muito maior do que o meu pessimismo, e acredito no surgimento, no século XXI, de uma Indústria de Cinema em Portugal (feita por portugueses, mas aberta às co-produções lusófonas e europeias) capaz de produzir obras suficientes, em qualidade e quantidade, para serem exportadas para o planeta inteiro, superando barreiras linguísticas com boas traduções e legendagens; e, especialmente, tratando assuntos que cativem os públicos mundiais pela sua originalidade e identidade.

Em frente, Cineastas do meu País!

Dúvida Metódica

A primeira página de «O Diabo» no dealbar da Época Duarte Branquinho encheu-me de ganas de reler um volume que recorre a um título semelhante, mas para desenvolver matéria diferente. As memórias de Assis Gonçalves não abordam a vida particular do Estadista, «Intimidades», lá, tomam o sentido de "proximidade", através da narração de eventos testemunhados por um colaborador próximo. E eis que dou com um capítulo que me suscitou uma incerteza que me parece relevante. A páginas tantas lê-se:
Alguns oficiais, nomeadamente do E. M., como Luna de Oliveira e Humberto Delgado, queixavam-se da insuficiência dos soldos, dentro da escala social em que os oficiais de Exército tinham de viver, e que os lugares de Bancos e Companhias, a preencher pelo Governo, eram dados a civis com outros rendimentos e sinecuras(...).
A minha hesitação deve-se a saber se este episódio concreto, ou a imagem do biografado que dele emana estarão presentes na epopeia em preparação. É que nem se trata de especular a propósito de motivações, sempre passíveis de vistas diversas, como a induzida pela observação de Jaime Nogueira Pinto em «Portugal Os Anos do Fim», onde se nota ter a passagem do general com armas e bagagens para a oposição sido antecedida pela escolha de rivais para as funções de Chefe de Estado Maior da Força Aérea e para Governador de Angola. Não, apenas de incluir ou não um episódio constante duma fonte. E não há como o amor à bolsa para deitar por terra o ficcionado idealismo dos heróis forjados.

A biblioteca "maldita"

A Civilização publicou um olhar sobre a biblioteca particular de Hitler que tenta revelar os livros que mais o influenciaram. Um campo novo para tentar descobrir o pensamento do führer


Adolf Hitler é visto normalmente como uma “encarnação do mal” e deve ser a figura do século XX sobre quem mais obras se publicaram. No entanto, muitas delas raramente trazem algo de verdadeiramente novo sobre o líder do III Reich, que viu o seu fim num dos períodos mais trágicos da História da Europa. Agora, para colmatar a falta, eis que com agrado chega pela mão da Civilização Editora, “A Biblioteca Privada de Hitler – Os Livros que Moldaram a sua Vida” (capa mole, 316 páginas, 18,90 euros).

As pilhagens e a destruição do pós-guerra fizeram desaparecer grande parte dos mais de 16 mil volumes que compunham a biblioteca de Hitler. Do que sobrou, Timothy W. Ryback seleccionou alguns para contarem a história do seu proprietário, do Guia de Berlim de Max Osborn, comprado durante a Primeira Guerra Mundial, à biografia de Frederico II, de Thomas Carlyle, oferecida por Goebbels em 1945, passando pela “bíblia” rácica norte-americana de Madison Grant.

Segundo ele, Hitler tinha "D. Quixote", "Robinson Crusoe", "A Cabana do Pai Tomás" e "As Viagens de Gulliver" entre as grandes obras da literatura mundial e considerava Shakespeare superior a Goethe e Schiller.

O autor não se refere apenas ao conteúdo das obras e à sua influência. É bastante interessante a forma como descreve fisicamente os exemplares, o seu estado, dedicatórias e anotações.

Nota positiva também para a imagem da capa, uma belíssima fotografia de Heinrich Hoffmann, que na edição portuguesa está maior e a cores, ao contrário da versão reduzida e a preto e branco da edição original.
Esta obra não chega a ser uma biografia intelectual de Hitler, nem uma análise sistemática da sua biblioteca. É uma interpretação feita num estilo mais ligeiro, claramente destinada a um público mais abrangente. Não obstante deixar muito a desejar, tem o mérito de despertar a curiosidade para um aspecto pouco conhecido e por vezes até ignorado da vida de Hitler. Kubizek, amigo de juventude de Hitler, disse que “os livros eram o seu mundo”. Que melhor sítio para tentar compreendê-lo do que na sua biblioteca? [publicado na edição desta semana de «O Diabo»]

Pesos & alteres

Estive a arrumar e a organizar os livros de arte da biblioteca.

Esta vai para todas as amigas bloguistas

Assumpta Serna no filme El Maestro de Esgrima (Espanha, 1992), de Pedro Olea, realizado a partir do romance homónimo de Arturo Pérez-Reverte.

À laia de relatório & contas

Ainda agora acabámos de nos fazermos ao mar e já fomos visitados por mais de 5000 outros navegantes que também andam nesta circum-navegação da esfera dos blogues.

Votação fútil, como todas


Depois da noticia da fé, um momento de relax, apelando à votação de Quem leia.As imagens acima são de:
a) um momento de gula do condutor.
b) Uma vingança das feministas, iradas por mais uma utilização do corpo da Mulher para publicitar uma máquina.
c) Um instante de inspiração.
d) Um fenómeno de lipoaspiração incontinente.
A decisão c´est a Vous. Depois não digam que não sou democrada, naquilo que, de facto, importa.

Sim, Creio!

Tendo-me chegado às mãos este histórico documento, uma ficha de inscrição no Integralismo Lusitano, acho por bem dá-la à blogosfera. Apesar da repugnância que me enforma, no que toca à adesão a um movimento político, gostaria de sublinhar a coincidência do ideário expresso nesta iniciação vocacionada para o recrutamento no mundo estudantil.
Ressalvo a parte relativa aos Estrangeiros, com quem defendo uma relação de convivência e intercâmbio próxima de um certo ideal de cosmopolitismo. Se tomarmos, porém, a letra do texto, no sentido expresso de excluir cada um do governo do País do Outro, ainda que por influência ou agentes interpostos, não tenham dúvidas, assino de Cruz, em todos os sentidos.
Fazei a fineza de clicar duplamente. Espero que a dimensão permita a leitura.

À Frente do Diabo


O João Marchante notou há alguns dias que o Duarte andava demasiado sossegado. Conhecendo nós a habitual e proverbial hiperactividade do nosso amigo, sabíamos que alguma ele andaria a tramar. Não nos enganámos: o Duarte assumiu hoje o lugar de director do semanário O Diabo.

Nas bancas há 35 anos, O Diabo é um jornal verdadeiramente independente, sem qualquer ligação aos consórcios económicos ou grupos de comunicação que dominam a imprensa em Portugal. Fundado pela mítica Vera Lagoa, este jornal é desde sempre uma voz livre, irreverente e muitas vezes incómoda. Estou certo que é neste espírito que o Duarte assume a missão de dirigir o semanário. Numa época em que os jornais se transformaram em produtos de marketing, em que a ditadura do politicamente correcto tornou reféns as ideias, tenho a certeza que o Duarte fará tudo para que O Diabo marque pela diferença, para que seja o tal jornal de «combate e cultura» sonhado pela fundadora. Desta casa desejamos-te os maiores sucessos: bom trabalho, Duarte!

Riscas à Risca

Anda o Diabo nos EUA, por o congressista do Oregon David Wu ter adoptado uma conduta estranha, com a escrita de mensagens infantis aos colaboradores; e se ter vestido de tigre no Carnaval lá da terra, o Halloween. Faz-me estranheza tanta preocupação, como a incidência maior dela. Talvez por ser compatriota do Dr. Alberto João Jardim, nada de extraordinário vejo numa mascarada sazonal de um político, por muito avesso que seja a tais festividades. E toda a gente reconhece que o infantilismo é uma constante da política norte-americana, desde o uso semi-oficial de diminutivos à concepção de concorrer a cargos públicos como uma corrida (to run, em ambos os casos), à obrigatória piadinha de conserva nos debates e conferências de imprensa.
Mais grave me parece a confissão do visado, defendendo-se, de que tem andado sob o efeito de medicamentos que lhe teriam alterado as faculdades mentais. Isso sim, soa-me perigoso, ter num cargo de responsabilidade alguém que não está na posse plena dos seus recursos psíquicos.

Quando, de repente, percebi! O político em apreço é de origem chinesa. Ora, partilhamos a ideia, creio, de que na China o tigre é o símbolo por excelência do Poder. Num sistema que vive do espectáculo, deve alguém ter achado que se impunha uma denúncia dessa assunção pelo eleito, como avatar mais capaz da eterna e enganosa teorização da limitação dos poderes.
Não há como puxar pela cabeça!

Bon Voyage!


Ao nosso Querido Amigo Marcos Pinho de Escobar, intimando-O a não ficar por lá...

Macacos de Imitação

Após a publicação destas conclusões é que vou passar a andar na rua com máscara anti-gás ajustada. Com efeito, quem duvida de que uma espécie que fez de tudo para aumentar o magnetismo sexual, desde os filtros de amor às missas negras, do culturismo ao Viagra, vá recorrer ao simpático odor natural que tão bons resultados aparenta dar? Nem se diga que a natureza do produto é impeditiva, afinal nas tribos do Deserto Arábico os chefes usavam urina de camelo como... tónico capilar. E, quanto a mim, está explicado o fenómeno de excitação ou satisfação conhecido por chuva dourada. Nem é, como pensava, uma esquina do masoquismo, deve simplesmente tratar-se de imaginar que na Fémea funcionam idênticos mecanismos, combinando com a ânsia de se ser mais atraído por ela. O amor justifica tudo, não é? Mesmo que este primata, o Homem, desate a imitar os primos que prescindiram de indústrias perfumistas caríssimas. Ora, em época de crise(s)...

Flor do Lácio


Cá venho eu outra vez com o raio do aborto ortográfico... Para mais enfaticamente vincar o meu rechaço penso adoptar a grafia anterior à reforma de 1911.

A Defesa das Fugas

Não sou como o Ministro Santos Silva que se refugia na impropriedade da abordagem de conteúdos de documentos confidenciais para se eximir ao incómodo de outras fugas. E dou de barato que as opiniões do Embaixador Americano sobre as fragatas holandesas sejam sintoma de puro despeito exalado pelo representante de um concorrente preterido, como tranquiliza o General Loureiro dos Santos.
Sobre os submarinos, a referência à ausência dos mísseis parece revelar uma certa ignorância por parte do diplomata, as principais utilizações deles para nós prendem-se com o auxílio à vigilância e o aumento da eficácia de treino de forças anti-submarinas, sem o qual ficaria a área marítima, territorial e de exploração económica, completamente desprotegida. Sugiro , aliás a leitura de um ponderado estudo sobre o tema, publicado pelo Contra-Almirante Miguez Chagas. Por outro lado, finda a razão de ser combatente de Portugal, com retiradas africanas e capitulações a interesses determinados por burocratas supra-nacionais, até aceito que se costarriquize o País, eliminando as Forças Armadas, desde que se assuma abertamente a opção.
Há porém um ponto em que o representante dos EUA tinha toda a razão: a bananesca abundância de oficiais superiores para o número de praças, que transformou uma das Nações mais antigas da Europa numa réplica da caricatura:

Ai Tempo, ai costumes!

É muito difícil no nosso tempo manter o valor literário num panfleto. A época dos Swifts e Defoes era outra, a contemporaneidade guarda com avidez o talento para outros empreendimentos e aproveita para descambar nestes instantes, como atesta o célebre desafio do Almada, Autor que venero em muitas outras publicações, mas que, sem qualquer simpatia pelo Dantas, me deixa frio no fácil rastilho de fama do «Manifesto...». Já nas polémicas é mais habitual continuar-se grande, porém a concretização panfletária não passa de um desesperado e precoce apelo a elas. Reconheço uma só concretização coeva do género que tenha conseguido manter intacta a valia artística, o livro de Jacques Laurent contra Mauriac e De Gaulle.
Assim, o apelo que produzirá um escrito do tipo falado repousará sempre nos sentimentos de repulsa que nos inspire a realidade que visa denunciar. Razão mais do que bastante para publicar o poema que segue, inconformado que estou com o que me rodeia, uma multiplicação hiperbólica do que motivou o grito de 1977 que se reproduz. A ponto também de me fazer vencer o temor de ferir com o derradeiro e vernáculo vocábulo, por considerar que as sensibilidades mais exigentes há muito se devem encontrar calejadas pela mediocridade que magoa qualquer patriota.

Encimado pela suína do Bordalo, com epígrafe de Ramalho, de Silva Resende:

TACHISTAS, OPORTUNISTAS
E OUTROS ISTAS

Ave João Felix! Todos os que vão falar
te saudam. Ò Cesar da retórica, ó
boca de ouro, ò sarça ardente,
ò salamandra, ò coluna de fogo! Tu és a
árvore do bem e do mal do palavreado.
Tu és o sicómoro da ciência portuguesa.
Ó monte de civilidade, vaso de gramática latina,
seirão de opúsculos, odre de pedagogia,
torre de nominativos,
cidadela de gerúndios... Misere nobis


Subservientes, rasteiros,
de gesto fácil p´ra vénia...
Atentos como rafeiros,
nojentos como a ténia.

Polulam por todo o lado.
Partem, repartem o bolo,
comendo o melhor bocado,
passando o sábio por tolo.

Não têm credo, política,
do que vontade somítica
de D. Pedro ou D. Lacerda...

Um só tema, um só facho:
a conservação do tacho!
Uf! Que nojo. Que merda.

Música para (ex-)noctívagos e boémios (como eu)

Comme il faut


Inspirado pelo douto postal do Amigo João Marchante, faço aqui a sugestão de "Le Clan des Sciciliens" para a noite de Sábado. Jean Gabin, Lino Ventura e Alain Delon, direcção de Henri Verneuil, música de Ennio Morricone, anos sessenta, politicamente incorrecto, Europa europeia - uma delícia.