Fonte Revisitada

Deglutição de rara conferência de um Mestre Integralista hoje menos falado. Necessariamente breve, como convém a uma peça proferida em público, esta resumida prelecção continua mais actual do que muito do que, mais desenvolvidamente, noutros lados, foi escrito sobre o tema. Claramente aderindo ao Estado Novo, não hesita em sublinhar que a construção corporativa então alardeada pelo regime como resultado se encontra num estado de mera potência, que não de efectiva realização.


E não se fundamenta num saudosismo romântico da sociedade limitada pelos estamentos, em que a força das Corporações era o factor de equilíbrio face a poderes de outras classes, antecipa o que hoje por hoje é uma evidência, a necessidade de regulação pública do preço justo e de disciplina das actividades, como maneira de combater o escancaramento à invasão (ò clarividência!) da produtividade asiática e ao consumismo sempre instável, com as crises que acarreta.


Além do mais, tem palavras proféticas quanto ao descaminho de uma sociedade em que a educação secundária fosse deixada ao Deus dará e em que a célula familiar cedesse às investidas liberalonas que dela sempre fazem um alvo. Também pela preocupação com a Família, gostaria de dedicar um folheto que tanto gostei de ler ao meu Querido Amigo e Jovem Camarada João Marchante.

Dentro do rectângulo


«A Espera é um Arame», peixe:avião.

Para não ser acusado de trazer a esta mesa apenas bandas da capital, hoje vou ao Minho buscar os peixe:avião. Provenientes de Braga, foram imediata e injustamente comparados aos Radiohead. É uma prática recorrente em Portugal, a de colar instantaneamente um rótulo às novas bandas, como se estas fossem uma réplica à escala de grandes agrupamentos internacionais. A comparação é injusta não porque o grupo de Thom Yorke deixe de ser uma excelente banda (que é, isso ninguém duvida, nem o João Marchante me deixava dizer outra coisa), mas porque os peixe:avião valem bem pelo seu próprio talento e originalidade. Quanto ao tema, faz parte do disco de estreia, «40.02», lançado em 2008. Entretanto, o ano passado, a banda voltou à carga com «Madrugada».

A causa duma coisa muito cá de casa

A expressão «Sétima Arte» anda na boca de toda a gente. Falemos, então, sobre a origem dessa — feliz — designação para o Cinema.
Foi o escritor, jornalista, crítico e dramaturgo italiano Ricciotto Canudo (Bari, 1879 — Paris, 1923) que baptizou o Cinema de Sétima Arte. Canudo fundou a revista Montjoie! (1913-1914), com sede em Paris, e manteve uma tertúlia com — entre outros — Léger, Apollinaire e D’Annunzio. Em 1920, cria o «Clube dos Amigos da 7.ª Arte», que é, assim, precursor do movimento do cine-clubismo. Edita, finalmente, em 1923, a Gazette des sept arts, revista fundamental como suporte teórico das vanguardas estéticas da época.
Se, por esta altura, já percebemos que estamos perante um teórico da Arte, não estranharemos saber que Canudo lança, em 1923, o Manifeste des Sept Arts, após uma série de outros textos preparatórios; o primeiro dos quais data de 1908, e num deles, em 1912, cunhou a nossa expressão. Esta publicação definitiva das suas inovadoras ideias, surge como legitimação estética do Cinema, elevando-o à categoria das restantes Artes.
Em primeiro lugar, chama a atenção, no seu Manifesto, para o facto de o Cinema ser muito mais do que apenas indústria e comércio, resgatando-o à mera tentação material e convocando-o para as fileiras da espiritualidade criadora. De facto, o Cinema é, até, antes de tudo — Arte.
Depois, Canudo diz-nos, do seu ponto-de-vista, quais são as seis Artes que antecedem cronologicamente o Cinema. Desde a Antiga Grécia que as Artes têm andado numa roda-viva, no que diz respeito à sua catalogação (convém nunca perder de vista as nove musas inspiradoras). Ainda bem que se trata de uma conversa em aberto, pois isso é um sinal da vitalidade dos pensadores e artistas da Cultura Ocidental. Para este escritor italiano do século XX, as Sete Artes são: Arquitectura, Escultura, Pintura, Música, Dança, Poesia e Cinema. Se as três primeiras — artes plásticas, porque do espaço — aparecem, segundo Canudo, por necessidades materiais (abrigo, no caso da Arquitectura, com as suas complementares Pintura e Escultura), para, no entanto, logo depois se afirmarem artisticamente, já a Música é fruto duma vontade espiritual de elevação e vai irmanar-se com os fundamentos rítmicos da Dança e da Poesia. Curiosamente, no pensamento do teórico italiano, a Dança e a Poesia antecedem a Música, que só se autonomizará destas quando se liberta e chega à sinfonia, como forma de música pura.
É óbvio que a génese das Artes aqui descrita tem de ser contextualizada na época em que foi criada — início do século XX, em toda a sua pujança Futurista (Graças a Deus!) — e entendida como visão pessoal do seu autor. No entanto, se aqui a trago, é porque sem ela não poderemos compreender a expressão «Sétima Arte».
Por fim, entramos naquilo que me parece ter resistido ao crivo do tempo (esse destruidor de mitos de vão de escada) e manter, ainda hoje, enorme actualidade.
Canudo apresenta o Cinema como síntese de todas as Artes e como Arte Total — ao que não é alheio o pensamento de Wagner; assim, na plenitude da sua linguagem estética, a Sétima Arte integra elementos plásticos da Arquitectura, da Pintura e da Escultura e elementos rítmicos da Música, da Dança e da Poesia, que se vão todos revelar nos filmes nas seguintes áreas técnicas (podendo nós tentar fazer um jogo de concordâncias): imagem ou fotografia (ainda a preto-e-branco, em vida de Ricciotto Canudo); som ou, mais tarde, banda sonora (note-se que, quando o italiano teorizou, o Cinema era Mudo e os filmes eram acompanhados, apenas, pela interpretação ao vivo de uma partitura musical durante a sua projecção nas salas); montagem, que confere um sentido às imagens; cenografia, que entretanto evolui para direccção artística, alargando o seu campo de intervenção; realização, que tem como missão a planificação do filme, a orquestração dos vários elementos aqui referidos, assegurados por outras tantas equipas técnicas, e a direcção dos actores; e, por último, sendo no entanto o princípio de tudo, argumento.
Mais ainda: como grande síntese criadora — para além de fusão —, o Cinema une Ciência e Arte, num casamento feliz, e produz uma novíssima Linguagem, para a qual as outras Artes tenderam desde sempre, de imagens em movimento e som — formas e ritmos à velocidade da luz!
É, pois, a última das Artes, fechando o ciclo da Estética; mas, essencialmente, a que, incorporando todas as outras, transporta o património histórico e estético da Civilização Ocidental e o projecta no tempo e no espaço através da permanente reformulação das suas ancestrais e intemporais narrativas.
Haja novos realizadores portugueses à altura desta missão universal.

Anatomia Dum Ridículo

Eu até concordo que nas relações entre Estados não se deva, ao contrário do que é abusivamente corriqueiro, vilipendiar a natureza do regime do outro, ou as características pessoais dos seus líderes. Eu até sei que ridículo, na boca do Sr. Sócrates é pouco mais do que um bordão linguístico num político de léxico curto, que já usou a palavra para classificar as conclusões da comissão parlamentar de inquérito ao caso PT/TVI e para se referir às desconfianças sobre pressões de Obama a países europeus. Eu até acho que o PM está sinceramente satisfeito por antever o chuto/desmentido de si que quase toda a gente espera para Khadaffi. E até concedo que o elogio de há uns anos não passasse de frase de circunstância duma diplomacia oleosa, o que não admira, estando em jogo petróleo.
Mas, tudo considerado, gostaria que o nosso chefe de governo estendesse a designação ridicula(rizante) a todos os que, da sua banda, se deleitam em denegrir Salazar por haver permitido que a bandeira nacional flutuasse a meia-haste, cumprindo uma regra do Protocolo de Estado, na ocasião da morte de Hitler; ou aos que do caso retiram conclusões absurdas de simpatia, quando escassas semanas antes a mesma havia sido aplicada no falecimento de Roosevelt.
O maior ridículo não é a amnésia selectiva para furtar-se a responsabilidades, mas a adulteração da História com interpretações que a distorcem ao sabor das vontades e das inclinações.

Do romance histórico enquanto manual de conduta

Releio O Hussardo, de Arturo Pérez-Reverte. Este seu primeiro livro, de 1983, editado em Portugal a partir da revisão do autor feita em 2004, é um romance histórico, passado em 1808, na invasão napoleónica de Espanha.
O fio-condutor da narrativa é assegurado por dois jovens hussardos (oficiais da cavalaria ligeira francesa), que acamaradam a partir de sólidas afinidades de carácter e gosto, sendo provenientes, no entanto, de classes distintas. Os relatos intimistas, com deliciosos detalhes realistas, revelam uma fina sensibilidade para construir personagens e ambientes autênticos; por outro lado, as descrições das batalhas e de toda a militaria prendem pela sua escala grandiosa e revelam um profundo conhecimento de História Militar; e, a Andaluzia está pintada de tal maneira — telúrica e sensual — que sentimos o seu Sol queimar e a sua luz cegar. Os tradicionais valores de qualquer cavalheiro estão aqui bem esplanados: coragem, cultura, honra, fidelidade, heroísmo, hierarquia, camaradagem, sobriedade. Note-se bem que a acção decorre na sequência de todos os males erradiados a partir de França. Os nossos heróis remam, portanto, contra a maré dos novos tempos.
Perante uma obra assim, agradeço à Literatura por ser uma Arte que permite a pausa, a aceleração, o retardamento... — ou seja: possibilita ao leitor comandar o tempo e o ritmo de fruição da obra, para melhor a poder saborear. Aqui, não há ditadura do olhar, como, por exemplo, no Cinema. Posso parar para pensar, e reler, e acelerar à procura do desfecho de uma cena, ou abrandar numa passagem cativante.
Mas, afinal, o que é que esta obra tem?... Faz-nos interrogar sobre o que andamos nós aqui a fazer, neste século materialista. Leva-nos à nostalgia de um passado em que o espírito imperava. Sentimos saudades de um tempo em que os homens se olhavam nos olhos — enquanto amigos, adversários ou inimigos.

Por Um Fio!

A descoberta de que a proximidade do telemóvel de um dos lados do cérebro faz disparar os níveis de glicémia dessa zona não pára, paradoxalmente, de dar-me volta ao miolo. Nem é tanto a potencialidade dopante desse estranho instrumento, sabendo-se que o aumento do açúcar na nossa moleirinha estimula a capacidade intelectual. Estou já a ver o filme de jovens universitários de aparelhómetro no ouvido em pleno exame, defendendo a prática com o argumento de não estarem a cabular através de um cúmplice, do outro lado, senão, simplesmente a estimular a massa cinzenta.
Não, o que me faz espécie é a consequência na vocação que cada qual interiorizará, pois sabendo-se ser a zona direita do cérebro a que rege a percepção espacial e a fixação e ordenação de imagens, enquanto que a esquerda disciplina a memória e a compreensão mais abstractas, como se maximizará o suprimento das necessidades de cada um, compatibilizando a aspiração com a prioridade do uso de uma ou outra mão?
Reduzindo a miúdos: os destros entre os matemáticos, juristas e metafísicos, os canhotos entre os decoradores, artistas plásticos e artesãos, podem queixar-se de handicap que os coloca em inferioridade.
Percebe-se agora por que motivo Platão queria ver todas as crianças educadas para usar com igual facilidade ambas as mãos. E compreende-se a aversão deste Vosso servo à maquineta, quando a versão fixa do auxiliar de comunicação não despoletava tantos problemas e era susceptível de uma alargada panóplia de usos:

Aqui foi Portugal


Fundada por D. Manuel Lobo em 1680 na margem oriental do Rio da Prata, exactamente em frente à Buenos Aires, a Colónia do Sacramento, primeiro assentamento europeu em terras que viriam a ser o Uruguai, foi ponto de altíssimo valor estratégico na disputa hegemónica entre as Coroas de Portugal e de Espanha. E mudou de dono, quase sempre manu militari, sete vezes no espaço de um século. Já lá estive três vezes e é-me impossível traduzir em palavras o que se sente diante desta porta, encimada pela armas de Portugal gravadas na pedra várias vezes secular. Só consigo dizer que ao infinito respeito e orgulho pelos portugueses de antanho, que se batiam e morriam para defender e engrandecer a Pátria, junta-se o absoluto desprezo pela canalha abjecta que se empenhou no Seu esfacelamento e destruição. Tenho uma só certeza: Portugal ou é português ou não vale a pena.

Eu Hoje Acorrerei Assim...

Sem pinga de água na torneira, por culpa da ligação à distribuição da aberrante estação de caminho de ferro de que falei há dias, dou com a notícia de que o Sr. Sócrates volta a poder sorrir, ao despachar o Feitor Amaral para a TVI. O homem de mão para a (des)informação diz-se muito preocupado com a feição tabloidesca da cadeia televisiva. E para a combater vai buscar dois jornalistas conhecidos à outra corrente de transmissão, a pública. Devo asseverar que me parece um pretexto descabelado: os noticiários dos canais generalistas assemelham-se tanto como gémeos siameses. Os mesmos vinte a trinta minutinhos sobre a parangona do dia, ou enjoativa, como o escorropichar do caso Castro /Seabra, ou falhada, como o exagero das referências à arma eléctrica prisional que fracassou em electrizar o público prisioneiro destas redes emissoras. No resto, decalque da CNN de serviço em questões internacionais e, em tudo o mais, reprodução dos faxes das agências noticiosas e clips com as deslocações dos senhores ministros.
Nos canais especializados em actualidade que cada TV explora é que me parece haver diferença e menos falta de interesse. Suponho que será aí que se quererá mexer, de modo a assegurar à governação águas mais tranquilas. E os indícios do que aí vem são maus. Sem colocar em causa a competência de José Alberto Carvalho, lembro-o como um exemplo acabado do facciosismo informativo quando, posto perante a gritante desigualdade de tratamento dada ao BE dos primeiros tempos e aos outros partidos extra-parlamentares, arrumou a questão dizendo que se tratava de um critério editorial, como se tal dispensasse justificações acrescidas.
Ao menos a parcialidade do Khadaffi na ida para o éter corresponde a um esforço do próprio para salvar o pelo e, abstraindo da carnificina, chega a ser divertida.

Patente de Corso


Enquanto o mais recente romance de Pérez-Reverte aguarda publicação em português, resta aos admiradores do escritor espanhol seguir a excelente coluna na revista XL Semanal. A crónica desta semana, «sobre violaciones y fascistas», é um texto de antologia dedicado àquelas palavras ou expressões que, de tanto usadas, abusadas e mutiladas, acabam esvaziadas do seu sentido original e exacto. É o caso da palavra fascista, que «la necesidad, a falta de coherencia ideológica propia, de poner etiquetas al adversario, hace que ahora se aplique a cualquier persona o situación que se aparte, no ya de una posición de izquierda, sino de lo social y políticamente correcto, e incluso de la más fresca tontería de moda». Nem de propósito, ainda hoje no nosso almoço falámos deste fenómeno.

Prosit!

Não há borrego germânico que sempre dure!
Hoje, houve períodos em que as tabelas do meio-campo, com o adversário em cima, pareciam treino. E o magnífico quarteto de baixotes, Sálvio, Gaitan, Aimar e Jara reafirmaram que na habilidade para a bola tamanho não é documento. Já agora, podia-se contratar aquele japonês que dá não um mas dois litros em campo.

Caldo de Cultura (IV)


Mais um almoço e um novo desafio: quem levou o quê?
Desta vez não há ajuda. Todos presentes.

Sob o céu azul da luminosa cidade branca


No primeiro dia verdadeiramente de Sol deste ano, com aroma de Primavera no ar de Lisboa e tudo, vieram-me à mente estas poéticas palavras do grande Yeats na melódica voz rouca da musa Bruni.

SNS ou SOS?

O sempre recomendável Dr. Johnson pôde escrever um panfleto contra os colonos norte-americanos indignados, dizendo que o levantamento de impostos não era tirania. Mas ele não conhecia a Dr.ª Ana Jorge. A Senhora quer, visivelmente, tratar-nos da saúde; e criar uma tributação arrepiante para financiar os cuidados com a mesma. Já as taxas moderadoras eram iníquas, porquanto não configuravam uma efectiva penalização casuística dos abusadores, mas constituíam uma quase geral e abstracta arma de dissuasão. Estendendo ao comum dos nacionais a prestação, em vez de a cingir aos utentes quer-se, unicamente, aumentar os patrimónios sobre que incide a colecta, num exagero fiscal nivelador que esmaga o contribuinte.
Até porque, para os que tiverem a felicidade de não recorrer ao Serviço Nacional de Saúde, um tributo para aquela consubstanciará um verdadeiro imposto sobre o estado são. Que seria o da sua constituição até aí, não cabendo a designação aos que - Constituição e Estado - se escrevem usual e injustamente com maiúsculas.

Umas miúdas da minha geração

Um dos "Cinco Mais"

Não; não é este o livro que levarei para o "Caldo de Cultura" desta semana. Não é mas poderia ser, pois trata-se de um dos meus preferidos, destes que entrariam na lista dos "Cinco Mais". Em poucas palavras, Au plaisir de Dieu mostra-nos a trajectória descendente de uma família nobre a través das convulsões e revoluções - i.e., involuções civilizacionais - que marcam o "avanço" do mundo moderno. Mas lembrei-me hoje de d´Ormesson não porque vivemos o auge da sociedade "rasca", mas pela sua prodigiosa memória. Capaz de citar textualmente largas porções de uma infinidade de obras, incluindo a numeração das páginas e a respectiva edição, foi durante uma entrevista televisiva que o autor explicou o segredo de tal aptidão. À pergunta de como fazia para memorizar tantas coisas, respondeu: "lembro disto e esqueço o resto". Assim é mesmo fácil!

Notícias à vista para rasgar o nevoeiro?

O muito nosso Duarte, mentor das manifestações gastronómico-culturais que deram origem a este blogue, anda, aparentemente, muito sossegado... Sendo ele um homem de pensamento e acção, cheira-me que deve mas é andar a preparar alguma...

Que Barbaridade!


Coube à Itália a fortuna de se tornar um apêndice privilegiadíssimo do Grand Tour, o périplo complementar da educação clássica que muitos membros das classes dminantes empreendiam, desde fins do Século XVII, mas com predomínio na centura de Setecentos. Mais em Inglaterra, porém o hábito de redigir um relato dessa viagem estendeu-se, como os casos emblemáticos de Goethe e Taine demonstram, em épocas diferentes. Procurava-se compensar a aridez da pura erudição que estiola, disponibilizando uma atractividade tangível capaz de fazer a ligação dos restos veneráveis da Antiguidade a pessoas de carne e osso, portadoras, à custa de algum pitoresco, do condão de abrir vistas e sensibilidades que os alfarrábios, o desporto e os serviços religiosos deixassem na sombra.Porquê a Itália, em vez da Grécia, ou da Palestina? Muito pelo domínio Turco que afligiu estas últimas e pelo semi-barbarismo que se lhe seguiu, mas também pelo apelo das gentes e da alegria de viver transalpinas. Transplantando para os nossos dias, a "Bota Mediterrânica" manteve o seu magnetismo, embora mais como anti-depressivo sem contra-indicações e evasão das opressivas condicionantes da rotina e do clima. Razão mais do que bastante, na hora de desanuviamento, para proporcionar um momento de escapismo, através daquela Barbara de que tanto gosto, dedicando «Gare de Lyon» ao Miguel Vaz, por todas as razões e mais uma.

Em que estás a pensar?

Anseio pelo «Caldo de Cultura» de amanhã.

Droga de Política!

De repente, os noticiaristas superficiais que temos passaram a chamar ao estandarte hasteado pelos rebeldes anti-Khadaffi em vários pontos da Líbia bandeira da Independência, o que, não sendo mentira, surge como versão esterilizada e politicamente correcta do que ela também é, ou seja da Monarquia. Faria, de resto, mais sentido dizer assim, como os meios de comunicação anglo-saxónicos vão fazendo, posto que a razão do arvorar dela não se prende com autonomias do jugo estrangeiro, mas com a contestação do regime enquadrada pela nostalgia do que precedeu.

Quanto ao líder do País, reputo das maiores vergonhas entre muitas por onde escolher, a reconversão permitida pelo Ocidente de um terrorista confesso, mediante uma indemnização simbólica às vítimas de um atentado aéreo que ele patrocinou, tanto mais que, embora acalmado, o condutor do País Norte-Africano continuou vocalmente a mobilizar outras zonas do Mundo contra a nossa. Depois de ver que entre os Árabes ninguém lhe dava atenção (muito, cheira-me pela extracção berbere tão desprezada pelos que se consideram de arabicidade mais genuína), tentou encabeçar um pan-africanismo agressivo, para dar utilidade à idolatria por Nasser que igualmente o levou a promover-se "somente" ao posto de Coronel.
De resto, os uniformes de largas dragonas, numa variedade de fazer inveja a Goering, a guarda pretoriana de Amazonas, com vrgindade associada e tudo, o folclore das recepções oficiais na tenda, à Saladino, conglomeram-se para revelar o tom de opereta do animal.
Como o último discurso, semi-desesperado, em que chamava aos opositores drogados e possessos do Diabo, nem percebendo que qualquer das acusações, a ser verdadeira, diminuiria as culpas que o seu ponto de vista lhes imputava. Coisa que se não verifica nele, salvo se atentarmos na embriaguez do Poder. Esperemos que a ressaca lhe seja iminente.

Acabadinho de sair


«Senhora do Monte», Os Velhos.

É verdade que Os Velhos têm temas melhores, mas este é o primeiro teledisco da banda mais lisboeta de Portugal. Como já é hábito nas produções da Amor Fúria, o vídeo baseia-se uma ideia simples, e apesar de não envolver grandes recursos é montado com extremo cuidado e atenção. Depois do excelente EP editado em 2009, a banda está a ultimar o primeiro disco de longa duração, do qual é extraída esta «Senhora do Monte». Com lançamento previsto para Abril, o novo registo ainda não tem título. As expectativas, essas, estão em alta.

Marcas de Oralidade


Os maços de cigarros foram consabidamente obrigados a carregar a prevenção sanitária que alerte para o cancro do pulmão e outros malefícios. Vivo no momento uma terrível perplexidade, a de saber onde afixarão paralelo aviso referido a estoutro flagelo...

Do melhor que a rede nos dá

Pedro Guedes da Silva, autor do Último Reduto e director da Alameda Digital, regressou à Internet com a coluna semanal «Expresso do Ocidente» no Eternas Saudades do Futuro.

Do Convento para o Cabaret


Katy Perry nasceu Katheryn Elizabeth Hudson, filha de mãe luso-descendente. Mais interessante que isso, os pais de Katy Perry são ambos pastores evangélicos. Foi assim que a jovem Katheryn se iniciou, entre cânticos da igreja e acampamentos cristãos. Em 2001, com 17 anos e assinando como Katy Hudson, lançou um álbum homónimo que misturava rock cristão com gospel. O disco não conheceu grande sucesso comercial, tendo a editora encerrado pouco depois do lançamento, mas uma revista evangélica elogiou o registo e anunciou que Katy chegaria longe no mundo da música. A profecia haveria de cumprir-se. Em 2007, a jovem assinou contrato com a major CMG, mudando o nome artístico para Katy Perry. A editora encarregou-se de transformar a artista cristã em ícone de massas. Mesmo assim, parece que ainda sobra algo das suas raízes. No pulso esquerdo, Katy Perry tem uma tatuagem com a palavra Jesus.

Sportsman & Gentleman (1935)

Ramerrão

Num repente muitos governantes das Arábias passaram a ser ditadores, i.e, alvos a abater. Não fosse o trágico espectáculo da miséria humana, seria mesmo delicioso apreciar a ilimitada hipocrisia da famigerada comunidade internacional e dos seus formadores de opinião. Esperemos, pois, pela apresentação da factura. Bem pesada, como de costume. Plus ça change...

Círculo TVicioso

Coisa que a mim me faz espécie é a emergente mania de pôr a votação telefónica nas televisões uma qualquer escolha múltipla sobre os mais diversos temas, dando no final a percentagem atingida por cada opção como se fosse um dado válido. Sossega-me porém um pouco o facto de se ir estendendo a factos futuros tais escrutínios, como quem ganhará a eleição X, ou quem vencerá o jogo Y, uma vez que tal traduz a rutilante confissão de se estar a opinar acerca do que se desconhece.Outra animadversão contra o contraditório televisivo a que temos direito incide sobre a crescente tendência para fazer dos painéis de debate uma espécie de senado, agrupando elder satesmen e elementos com mais responsabilidades dos grupos parlamentares e das direcções partidárias, em vez de, como outrora, serem chamados preferencialmente jornalistas e universitários.
O prestígio dos programas de discussão da actualidade política cimentou-se com a primeira composição do radiofónico «Flashback», mas, aí, a reputação alicerçava-se no halo de heterogeneidade dos integrantes, apesar de todos estarem ou terem estado nos orgãos ditos de soberania. Vasco Pulido Valente dizia mal com uma constância generalizante, Pacheco Pereira e José Magalhães valiam-se das transferências de campo espectaculares. Hoje é a decadência, cada interventor parece acorrer para transmitir a posição partidária, como se duma extensão do tempo de antena se tratasse. E a mesma fraude que se constata nas eleições é complementada pelo que primeiramente referi: a ilusão de poder conferido ao espectador limitada pelas hipóteses escolhidas por outrem, cozinhadas algures pelo círculo sevicioso dos verdadeiros poderosos nas costas do target a que apontam. Ou seja, votar é sempre um apelo a interpretações parafreudianas que, neste caso sim, poderiam desempenhar um papel descritivo útil.
A imagem é Homem-Televisão, de Slowinski

Su Casa Es Mi Casa

Numa pendência que não estou para recordar, com a Academia Francesa, Samuel Johnson definiu o seu polemismo vigoroso: Sir, um cavalheiro inglês para quarenta franceses parece-me uma proporção perfeitamente equilibrada.
Outro tanto não se pode dizer de nove ou dez Benfiquistas, contra onze Sportinguistas. Os primeiros foram sempre superiores. Talvez reduzidos a uns oito...

Crimes e Castigos

Fogo de Hellenne Vermillion


O Coronel Khadaffi chamou à Líbia Jamahiria, isto é «Estado de Massas» e elas tomaram-no à letra.
Os Norte-Americanos rejubilaram com a transição no Egipto e apanham agora com o trânsito de navios de guerra iranianos pelo Suez, rumo ao Mediterrâneo.
Os Argelinos quiseram dar ideias ao Sr. Sócrates e desvalorizaram os resultados dos Estudantes para dar digno emprego aos que os não têm. Pois viram aqueles aliar-se aos desempregados.
Os Yemenitas mandaram para Israel, em Missão, a Rainha de Sabá, ela perdeu-se por lá em salomónicos amores e deixou ao País apenas os ódios que ainda hoje o dividem.
Os Xiitas do Bahrein comportaram-se mal e o Governo e as Federações cortam-lhes as corridas de carros.
Os Europeus celebraram a chegada da Democracia ao Mundo Árabe e pagam-na no depósito de combustível a peso de ouro, com aumentos do petróleo em cada dia, motivados pela instabilidade na região.
Um casal de Egípcios filo-revolucionários, grato pela mobilização na net deu à Filha o nome de Facebook e será humilhado no resto da vida, quando ouvir os colegas e demais concidadãos dizer que entraram lá ou que por lá passaram...
Não há dúvida, cá se fazem, cá se pagam!

Uma banda da minha geração

Pronto-a-pensar...

Julgava eu que aos escribas do regime faltava - entre muitas coisas - imaginação, pois nas constantes referências ao Estado Novo o que se lê é cantiga da ditadura e do ditador, em doses verdadeiramente cavalares. Pensei sugerir a estes iluminados que, doravante, qualificassem as ditaduras: a dos reis, a militar, a do Estado Novo, a dos partidos, dos políticos profissionais, do politicamente correcto, da contra-natura, etc. Assim ficávamos todos esclarecidos. Mas reconheço que me enganei. O melhor é que continuem - lépidos e fagueiros - a utilizar a sua taxinomia manhosa para o consulado de Salazar. Sim senhores: ditadura. Assim fica esta bem diferenciada daquilo - disto - que a substituiu: a tirania do número, ou, se preferirem, a dos partidos, dos políticos profissionais, do politicamente correcto, da contra-natura, etc.