Caras ou Coroas?


Passou-se do anunciado ao cumprido e começa toda a gente a enganar-se: os Americanos a repetir compulsivamente que a Al-Qaeda odeia a Irmandade Muçulmana, sem uma palavra para o júbilo que outros figadais inimigos seus, como Teerão e o Hezbollah, denotaram no comentário à mudança em curso. Os comentadores lusos a reiterarem que a juventude e as habilitações dos cairotas mais em vista nas manifestações não convidam à instauração do islasmismo, nem se dando conta de que foi numa das mais letradas e jovens bases populacionais de países muçulmanos que os Ayatollahs vingaram. O povo ri porque vê alguém cair, os reporters porque têm notícias e envios especiais durante um par de dias.
Os militares do Egipto são hoje uns cãezinhos bem amestrados dos yanks. Não admirou pois o papel que tiveram, a partir do momento em que se percebeu que Barack tinha deixado de rimar com Mubarak. Mas as contas que o Departamento de Estado fará podem sair furadas: acreditam que se as facções religiosas radicais ganharem o élan (eleitoral, inclusivé) que as projecte, poderão repetir com as forças armadas o que fizeram na Argélia, metendo oportunamente a democracia na gaveta.
Eu, que não sou maometano, nem pró-americano, nem revolucionário, nem democrata, nem homem da imprensa, tenho também direito à minha ilusão privativa - a de que os detentores das armas naquela grande Nação desfarão a patifaria que empreenderam há quase 60 anos e possam vir a restaurar a Monarquia. Querem um bom prenúncio? o actual Herdeiro do Trono carrega o nome do fundador da Dinastia, Muhammad Ali...

Comboios


«Pra quem quer», Márcia.

Gosto de comboios. Habituei-me a esse tipo de viagens em miúdo, a bordo dos intercidades. Hoje em dia mantenho esse fascínio especial por comboios, sendo um cliente habitual de várias linhas. O tema da Márcia — mais um talento da nova música portuguesa — vale por si, mas confesso que este teledisco tem para mim um gosto especial, desvendando um percurso que consigo refazer de olhos fechados.

Voltas Alienantes

O rotativismo é uma praga no nosso Portugal. Aquele que se assumiu e lhe tomou o nome, na Monarquia Liberal, acabou por desgostar a fina-flor da intelectualidade lusa e de cansar o Zé, por só as moscas mudarem. Na sanguinolenta Primeira República os militares substituíram a Coroa na escolha dos momentos da circulação das cores ministeriais e acabámos em chacota da Europa, com as revistas parisienses a notarem que qualquer revolução em Lisboa não era notícia.
O regime que vamos tendo refinou esta Síndroma do Carrossel: não se trata já de injectar esperança nos ingénuos com uma rotatividade efectiva, embora de siglas, nas cadeiras governamentais. Não, o entontecedor paroxismo voltejante anuncia-se com o revezamento dos partidos no papel de salvador do executivo do Sr. Sócrates. Desta, o teatro de cumplicidades distribuiu o papel de denunciante pelo BE e o de pára-quedas pelo PSD, ao que parece.
Francamente, com Kelly Carlson ficou-me demonstrado à saciedade que há maneiras mais satisfatórias de pôr a cabeça a andar à roda!

A vida sem sentido

La Dolce Vita (Itália/França, 1960), de Federico Fellini.

Fellini antecipou metaforicamente, neste filme, a decadência da Civilização Europeia, tal como a vivemos desde há séculos. Ninguém quis olhar e ver, com olhos de pensar, a fita em profundidade. Ainda agora, os relatos da película apontam para um boémio e belo dolce fare niente de uma decadente alta sociedade romana. Mas, o que vemos e ouvimos, e do que realmente se trata, é muito mais do que isso. Obrigatório deveria ser exibir em todas as escolas a última parte de La Dolce Vita: Após uma triste orgia, e ainda mal refeitos do tédio, um grupo de bons vivants encaminha-se para a praia, ao nascer do sol. Lá, espera-os um monstro marinho, dado à costa e recolhido por pescadores. A estranha criatura mira-os — morta ou viva, nunca saberemos —, com um perturbante olhar fixo. Contudo a coisa não fica por aqui. O grupo de pândegos, derreado por uma ressaca brutal, decide retirar-se. No entanto, Marcello Mastroianni (colega do foto-jornalista Paparazzo, que assim dá origem à mediática designação profissional) fica para trás, atraído por uma angelical adolescente, que o chama por gestos e palavras, surgida do nada, sem estar ligada à referida pandilha. Ao longe, ele tenta entendê-la, percebê-la, compreendê-la... Mas, crueldade suprema, não consegue sequer ouvir as palavras que saem da sua boca. O som do mar está ali, como que criando uma barreira natural à comunicação. Hesitando, por um momento, em aproximar-se, logo é repescado por uma vamp semi-embriagada que o leva por um braço, enquanto a rapariguinha fica a encarar-nos de frente — agora a nós, espectadores. Nunca experimentei com tanta força e frieza o vazio e o silêncio numa sequência de fotogramas, porque senti que Fellini se dirigia a mim, a todos nós.
Os europeus renegaram as suas raízes espirituais, indo ao ponto de não se deixarem bafejar pela graça.
É só isto. E está lá tudo. O horror do nada. A vida sem sentido.

Officer and gentleman

Sem esta conquista d´abril que foi a greve dos comboios, este delicioso livrinho teria sido a minha contribuição - ainda que de reduzido aporte calórico - para o nosso Caldo de hoje. A propósito: como ainda sou jovem, e para mais do Restelo, quando for velho desejo parecer-me com o distinto senhor que figura na capa.

Dois Estranhos, Um Destino


Não, não se trata um palpite sobre paralelas iminências de Sócrates e Mubarak. É, pelo contrário, um pessoalíssimo escapismo deste torrão quase milenar que a tanto parecia prometido e tão desenganado se vê dia após dia. A música sempre foi melhor remédio do que o riso em alturas opressivas; e por isso Vos trago aquele que tenho como o melhor dueto de todos os tempos. Os intérpretes estão longe de apresentar traços perfeitos, as vozes não têm a envergadura de muitas outras, politicamente andavam pela extrema-Esquerda e o tema prestar-se-ia a uma melosa e arrastada cantilena a que só a ausência de agitação e de alegria saloia preservaria da vertigem pimba.

No entanto é o contrário. O contido risco da poesia que Chesterton dava como tentada universalmente por todo e qualquer homem, a incerteza da Desejada e a bruma donde ela surge, dando-se a conhecer como o resultado antecipadamente escrito da procura do trovador improvisado, o clic feérico das atracções que colmatam a angústia das demandas, que mais será preciso para nos deixarmos embalar por Barbara e Georges Moustaki em «La Dame Brune»

Livros ao almoço




Caldo de Cultura (II)


Novo desafio: quem levou o quê?
Ajuda: Ausências do Paulo e do Marcos, devido à greve dos comboios, e presença de dois convidados, o Francisco Cabral de Moncada e o Pedro Neves.

Artigo genuíno


Dei um salto ao Porto para conhecer e conversar com um fascista de verdade. Digo "de verdade" pois o vocábulo, esvaziado do seu conteúdo original e habilmente manipulado, foi transformado no pior insulto, usado pela metade da humanidade para desqualificar e condenar - definitivamente e sem perdão - tudo e todos de que/quem não gosta - isto é, a outra metade da mesma humanidade. Sim, este real McCoy, este autêntico nacional-revolucionário, este genuíno totalitário neo-fascista é o Professor António José de Brito. Do encontro com este monstro sagrado do pensamento anti-democrático português dos últimos cinquenta anos, cumpre registar neste curto espaço os aspectos que mais me impressionaram. Não vou referir a inteligência superior, a lógica implacável, a monumentalidade do saber, a trajectória "politicamente incorrecta" e rectilínea ao longo de toda uma vida - tal seria, na expressão de Nelson Rodrigues, o óbvio ululante. Chamo a atenção para a simplicidade e a simpatia, dois rasgos que dificilmente são associados à imagem do catedrático de nomeada. E para a espantosa memória e agilidade de raciocínio de alguém que, aos oitenta e três anos, é capaz de reduzir a pó de pedra interlocutores com um terço da sua idade. Se é certo que há momentos na vida que deixam uma marca indelével, este foi, com toda certeza, um deles.

Nó Cego

Não falarei aqui do casamento da República para os gays, a que em devido tempo me recusei a desenvolver oposição, por achar que a entidade certificante e os certificados estavam bons uns para os outros. Venho, sim, bramar contra a possibilidade de enlaces deste teor dentro de uma força militarizada. O comando militar não é, a meu ver, compatível com nexos internos de comunhão de vida, os quais introduzem um grão de areia na engrenagem hierárquica, para além de plausível desconforto nos camaradas do elemento menos graduado. Simetricamente, esta cadeia de subordinação contraria o ideal de paridade que está apregoadamente presente no matrimónio.
O contra-senso de remeter militares para um consórcio necessariamente civil é desde logo perceptível para quem tenha bom ouvido. Mas pior ainda será fomentar uniões de semelhante jaez transversalmente, entre classes diferentes do meio castrense. Apesar de todas os abastardamentos a que vem sendo submetido, a razoável impermeabilidade de oficiais, sargentos e praças não encontrou ainda alternativa viável que garantisse a operacionalidade. Uniões como a que está em apreço podem redundar numa brecha irrevogável na base inelutável da disciplina.
Doravante, defunto que está o ideal de an officer and a gentleman, o virus do desentendimento ganha novo hipotético alento quer na equacionável destruição das vidas pessoais, quer nas profissionais dos (as) envolvidos (as). Reféns de ambos os seus estatutos e integrando uma força policial, este acessório do seu mister pode bem tomar a forma expressa na imagem...

Um retrato

A razão pela qual levei o livro "O Padrão dos Descobrimentos. Belém. 1960" para o nosso almoço da semana passada foi uma imagem em particular. A fotografia do genial arquitecto Cottinelli Telmo que reproduzo abaixo.

Toda a Nudez Será Mastigada

A nova de que se prepara na China um programa de culinária em que a apresentadora oferece um festim nu fez-me reflectir sobre a nossa relação com o despir. Num curto espaço de tempo um candidato à Presidência da República abominavelmente eliminado, Manuel João Vieira, propunha pugnar por uma polícia sinaleira nua em cada semáforo, o que se me afigura ser forma mais eficaz de parar o trânsito de que qualquer luz vermelha dos mesmos, embora não de outro género, não sejamos anjinhos.
Por outro lado, bem perto da sede do PP abriu um cabeleireiro de homens em que as penteadoras profissionais atendem em lingerie, o que me fez lamentar a escassez do pelo que poderia constituir o meu alibi para frequentar o estabelecimento...
E por aí fora...

Toda a moderna publicidade que conhecemos vive muito das meninas em fato de banho que concitam as iras dos vigilantes da moral incompatíveis com peles jovens destapadas. Bem diferentemente daquela puritaníssima tribo ugandesa de que fala Churchill no recentemente publicado relato da sua viagem pela África Oriental, dado que proibiam qualquer trapo que mitigasse a nudez integral, por se tratar, na sua óptica, de um apelo erótico!

Porquê, então, uma sinestésica produção televisiva que mistura tais tentativas de excitação? Tendo em mente a diversidade de mentalidades, consoante as civilizações, arrisco um palpite - ao oferecer à Gula e à Luxúria em simultâneo, dispersa-se a concentração do telespectador e impede-se que ele mergulhe, mas a fundo, num só dos Pecados Mortais, enquanto flirta alternadamente com ambos.
Caso para dizer que há moraldade e comem todos.

Da Estética à Ética

Da passagem de hoje pelo Alfarrabista ficou-me uma surpresa comovedora: dentro de uma pequena biografia Daquele que viria a ser S. João de Brito encontrei este bilhete postal com as marcas do regime precedente. O apelo aos meus sentidos é grande, de forma que achei por bem combiná-lo aqui com a expressão dos meus sentimentos. Não sendo grande espingarda a detectar sinais nas peripécias que me sucedem, resolvi substituir as pseudo-regras interpretativas pelo arbítrio do apetecimento. E escrever Aos que têm a paciência mais do que Evangélica de me seguir.


Onde as Quinas da Monarquia, a Esfera do Império e o lema do Estado Novo latejam convido Cada Qual a ver um convite de Comunhão. Mas para Os que a tal simbologia se mostrem mais avessos, eu que sou alérgico ao espírito de facção, mesmo que transmutado dos partidos para os ordenamentos, incito-os a tomarem-nos como remissões para a Nação a que, hélas, não nos devemos envergonhar de pertencer, o Mundo que - e a que nos - abrimos e a Conciliação, com C grande.
Não digam é que a concepção não é superior à dos postalecos de hoje, a época em que se fala da privatização dos Correios, o que nem admira, quando Países que sempre deram mais importância aos ditos, ao ponto de lhes atribuírem pastas ministeriais, veja-se França Reino Unido, EUA, falam em enveredar pelo mesmo carreiro.
Agora, liga ou não liga admiravelmente com o cromatismo do blogue?
Queria dedicá-lo em especial ao minucioso Memorialista do Passado não muito longínquo que deixámos esbanjar, de Sua Graça blogueira Bic Laranja.

Um caso perdido para a sociedade de consumo

Deleito-me com o visionamento de filmes publicitários. Fazem-me lembrar os bons velhos tempos do Cinema Mudo, com a sua linguagem sintética de imagens em movimento e sem andarem estas a reboque dos diálogos. Contudo, nunca fixo os produtos que essas curtas narrativas tentam impingir. Também me está cá a parecer que não serei o típico target de nenhum desses spots, pois não é fácil encaixar-me em «públicos-alvo».

Bibliocausto


Cruzei-me há dias numa loja com este livro, na versão original, em inglês. A edição que tenho, em português, foi publicada pela Livros do Brasil, enquadrada na colecção Argonauta, e para além de já não se encontrar com facilidade, está repleta de gralhas e erros grosseiros de tradução.

Edição emblemática da ficção científica, «Fahrenheit 451» é uma das obras de referência para qualquer bibliófilo, apresentando uma distopia em que os livros são proibidos e os seus possuidores enviados para o manicómio. Nesta realidade, adaptada por François Truffaut ao cinema em 1966 num filme homónimo que ganhou grande culto, a função dos bombeiros é incendiar os livros apreendidos. Daí o título, que remete para a temperatura a que arde o papel.

Com um remake do filme previsto para 2012, e ainda por cima num tempo em que se voltam a confiscar livros e prender livreiros, nada faz mais sentido que uma nova edição portuguesa (revista, se possível) desta obra essencial.

Perigosa Parábola

Jean Raspail
Publicado em 1973, em França, o livro "Le Camp des Saints", de Jean Raspail, foi uma verdadeira bomba incendiária. De uma qualidade literária indiscutível, versava sobre um tema polémico e provocou um intenso debate. Esta parábola sobre o futuro da Europa, na qual um milhão de pobres vindos do terceiro mundo desembarcavam nas costas francesas, alterando com a sua invasão pacífica toda uma civilização, foi considerada "racista" pelos sectores do costume e viria a revelar-se verdadeiramente profética.

Depois de vários anos sem ser publicado, o livro foi agora reeditado. Numa entrevista ao canal televisivo France 3, Raspail disse que "Le Camp des Saints" seria hoje impublicável, devido às múltiplas leis "contra o racismo". No entanto, a primeira edição saiu antes dessa legislação e numa altura em que, como ele diz, "a imigração era um problema menor".

Jean Raspail foi também explorador e viajou durante trinta anos conhecendo pequenas civilizações em vias de desaparecer. Por isso, afirma que sabe muito bem o que é uma civilização que vai desaparecer e que esta "se deve defender antes de desaparecer".

Sobre o futuro, é categórico: "até pode funcionar uma civilização mestiça, mas já não representará os dezoito séculos que são a França". Acrescentando que, por volta de 2050, a população nas áreas urbanas será maioritariamente extra-europeia. Ao contrário daqueles que pensam que essas alterações serão melhores, Raspail diz: "sou francês desde há dezoito século e gostava de continuar a sê-lo, integralmente. (...) Eu não quero uma mistura total."

Em Portugal o livro foi publicado pelas Publicações Europa-América, em 1977, com o título “Mortos: 200 Milhões - Todos Nós”. Para quando uma reedição?

Tempos Moderníssimos

Chama-me um Querido Amigo a atenção para uma iniciativa que em rede social corre, de canalizar entusiasmos contra os responsáveis pelo triste estado de coisas que se eterniza na medida em que eles também o fazem. Tenho de responder-Te sem constrangimentos, Meu Caro João: fosse o Facebook capaz de ressuscitar Salazar e imediatamente aderiria a ele este Teu admirador que tanto lhe vem resistindo, pela timidez de se ver demasiado seguido. Meter medo com o papão dos Militares não cola, trata-se de Espécie em vias de extinção. E quanto aos Metalúrgicos, só virão à colação se lhes queres dar algum emprego, depois das consabidas liquidações siderúrgicas. Não, o problema que se coloca bem debaixo do nosso nariz é o do legítimo poder do computador para desencadear movimentos políticos, maxime vagas protestatárias. É estranho que no dia da Internet Segura os comentadores se hajam cingido ao pouco ambicioso repisar a mera protecção de dados pessoais, ou da vigilância dos acessos de crianças e adolescentes, sem equacionar o risco inerente à luta que a digitação de um teclado pode despoletar. Nos EUA Obama venceu, não só porque "herdou" a teia de contribuintes da campanha de Howard Dean, como pela mobilização de delegados afastados da elite, duas armas facultadas on line.
E no Egipto revoltado de hoje as concentrações viram os cordelinhos puxados pelo mesmo meio, até de fora do País, vencendo a própria clivagem de dialectos no Mundo Árabe. A fortiori poderia no nosso Rectângulo esse exemplo frutificar, tanto mais que a fruta está madura para tal colheita e o exemplo do apaziguamento pelos 15% de aumento no Cairo pode calar fundo numa Grei que pena sob o jugo das reduções salariais e de benefícios, vendo adiado o descanso. Seria um detonador muito mais eficaz e. espera-se. menos inconsciente, que o personagem de Chaplin vendo uma multidão reivindicativa correr atrás dele quando inadvertidamente agita uma bandeira.
A classe política que nos saiu na rifa merece isto e muito pior. Mas duvido que o desiderato seja alcançado - se ao (des)governo luso falta o petróleo para comprar os contestatários, também a instalada generalidade das pessoas com tempo carecerá de outra forma de energia.

Terapia

Uma fotografia por dia dá saúde e faz crescer.

Pernas Para Que Te Quero

Uma reflexão parece dever assaltar-nos, diante da repercussão mediática da bravata da Senadora Belga que incitou as Mulheres dos seus colegas à paralisação sexual como pressão para tornar o País, ao menos aparentemente, governável. Mais uma vez nada se inventou desde a Antiguidade: Já a Lisístrata de Aristófanes tinha provocado um movimento paralelo. Mas enquanto que aquela prosseguia um intuito de unidade, visando acabar com a Guerra do Peloponeso e aprofundar o pan-helenismo, no Século XXI a consequência mais provável da tomada à letra desta epígona seria, quase de certeza, a fragmentação do Estado que é o seu, entre as zonas francófona e flamenga. Já dzia o velho Karl, a História repete-se, mas à segunda como comédia.
Acresce que passada a Idade Pagã, oferece graves dificuldades uma iniciativa deste género, ao menos para as famílias do Mundo Católico. Com efeito, a recusa dos corpos dentro do Matrimónio está proscrita, pelo que a iniciativa mais parece enquadrar-se na ofensiva laicizante que um pouco por todo o lado se dirige contra os valores tradicionais.
Mas, ainda assim, a abstenção proposta não é consistente com os valores igualitários de que, ao menos moderadamente, se ufanam as Mulheres públicas (no sentido de Políticas, ai!) de hoje. Sempre se tendo insurgido contra as promoções profissionais através do uso do físico, estriam agora a reconhecer que na actuação pública não disporiam de autoridade e meio de pressão maior do que outra utilização dele, a sonegação chantagista, equiparada a uma tantalização gigantesca...
Pobre Women´s Lib...

O Ponto de Partida


«Supersticioso», Os Pontos Negros.

Este vídeo é assim uma espécie de ponto de partida do novo rock (em) português. Não que não houvesse bom rock antes, mas foi mais ou menos neste momento que se formou essa vaga de fundo que colocou finalmente as grandes rádios a cantar em português. Na altura deste vídeo, em 2008, Os Pontos Negros não tinham ainda lançado o seu primeiro disco, e o single «Conto de Fadas de Sintra a Lisboa» começava a rodar em algumas estações. Curiosamente, aparecem nas imagens dois penetras que ainda iriam dar que falar: Manuel Fúria (de t-shirt dos Iron Maiden), o frontman d'Os Golpes, e Samuel Úria (na pandeireta), esse gigante cantautor. Mesmo assim, o mais simbólico no meio de tudo isto é a música, um tema dos inesquecíveis Heróis do Mar, que muitos de certo reconhecerão.

Coleccionador conciso

Uma só musa, um só livro, um só filme, um só disco, uma só fotografia, uma só pintura, um só blogue, um só jantar, um só vinho, um só tabaco, uma só tertúlia, uma só casa, um só jardim, um só passeio, um só campo, uma só cidade, um só país, uma só viagem, um só jogo, uma só colecção.

Nova síntese

Evelyn Waugh dizia que o século XX era o século do common man. Será que este vai ser o século do homem que se esforça para estar entre o porco e o macaco?

Em Roma Sê Romano

Com uma surpresa pacóvia, descobriram os Britânicos, pela voz do Sr. Cameron que, por muitas festinhas que fizessem aos imigrantes islâmicos, estes não gostavam nem um niquinha deles. Há que reconhecer que John Bull estava mal habituado, as comunidades judaica e sikh, mantendo especificidades respectivas, atingiram um nível de coexistência e serviço que está longe de ser tão visível nos muçulmanos. E residentes de outros pontos do Ocidente, quais Henry James, esforçaram-se por encarnar um anglicismo de conduta à outrance, que surpreende, por vezes, os próprios naturais.
Qual a diferença, pois?
Em primeiro lugar, a qualificação inicial diversa da da prole, depois os conflitos de gerações, por último os anseios da dignidade intelectual reconhecida. A maior parte dos maometanos chegados nas últimas décadas ao Reino Unido fazia trabalhos menos reputados, como emblematicamente mostrava a voga das lavandarias paquistanesas. Os filhos destes, já alfabetizados nos primeiros degraus do ensino do país de acolhimento, revoltam-se contra a aceitação desta subalternidade pelos pais, tanto quanto os meninos do Ocidente se rebelam vocalmente contra o burguesismo exagerado que detectam nas suas famílias, embora nem tanto contra a mesada. Por último, entre os estudantes que conseguem integrar as universidades há sempre aqueles de pele mais sensível, que sentem numa carne viva pelos seus subconscientes criada a diferença de consideração histórica pelos seus pontos de origem colectivos quando os resultados individuais a que chegaram se aproximam dos dos colegas.

Resumindo e concluindo, o multiculturalismo falhou pela mesmíssima razão pela qual fracassam as (des)educações que mimam em demasia. Uma civilização, ainda que se trate de meros restos, tem de explicitar que quem quer nela viver deve respeitar e moldar-se aos seus usos e costumes, não pode ter a expectativa de querer as benesses do teritório alheio e combiná-las com hábitos ancestrais que gerem repulsa ou com revivalismos de identidade que choquem e, com o tempo, desagreguem. Por isso, contra Amigos que candidamente acreditavam estarmos perante uma ofensiva do laicismo contra todas as religiões, fui a favor da proibição francesa da burkha. Pela mesma razão achei uma cedência inqualificável a restrição dos pendentes com Cruz, na certeza de que o desigual deve ser tratado desigualmente. A persistência visível do modo próprio em terra doutros está reservada aos turistas.
Só essa décalage permite a convicção impositiva que diminua o tumulto interno no Primeiro Mundo. Pelo que o músculo do P-M de Londres parece dever ser recebido de braços abertos. A parte do liberalismo é que me suscita mais e maiores dúvidas...
A pintura é Revolta do Xadrez Islâmico, de Veru Narula.

Endiabrado


O excelente cartoon do semanário "O Diabo", que iniciou a série "O Diabo e o Animal Feroz" na edição da passada terça-feira. A acompanhar.

Jornalismo Turístico


Assim vai o nosso jornalismo. Este texto de Paulo Moura é um excelente retrato do espírito que tomou conta do Ocidente nas últimas décadas. Escrita muito provavelmente no lobby climatizado de um hotel do Cairo, entre um ou outro mojito, esta aventura tem o mesmo tom que muitos utilizam para fazer os filhos comer a sopa, relatando-nos um checkpoint com «dezenas de homens armados com paus e olhares a raiar a demência». Os bandidos revistaram até o iPhone do jornalista (certamente um aparelho da última geração), onde, para além de uma fotografia do filho, só encontraram alguns retratos «de um pastor da serra da Estrela que entrevistei há um mês». Ao ler esta suposta reportagem, é impossível não recordar o escritor Arturo Pérez-Reverte que, entre 1973 e 1994, percorreu inúmeros conflitos armados enquanto repórter de guerra. Em 1977, na Eritreia, esteve desaparecido durante vários meses e chegou a ser dado como morto, tendo sido obrigado a pegar em armas para sobreviver. A esse propósito, Reverte afirma que «adquirimos um hábito perigoso: acreditar que o mundo é o que nos mostram os folhetos de viagens; que se pode viajar de forma segura por ele, que temos direito a ele, e que Governos e instituições devem garanti-lo, ou resolver a peripécia quando o coronel Tapioca parte os cornos». O contraste não podia ser maior. É caso para dizer que já não se fazem repórteres como antigamente.

Posologia

Um livro por dia dá saúde e faz crescer.

Paris Está a Arder?

Num vislumbre de realismo, esse de Gaulle que alternava o prolongamento da dignidade das Nações com o retalhar sem escrúpulos delas disse que os seus contemporâneos eram os últimos europeus da Europa que foi a cristandade. Uma Europa desgarrada, mas que, apesar de tudo, existia. Outro tanto é difícil de dizer daquela em que vogamos, porque não há laço solidário cultural entre as populações. Apesar dos conflitos intestinos, a solidariedade Cristã na edificação política era um factor para que se remetia quando era preciso gerar o entusiasmo popular. Quem acredita que a moeda única, a que é de troca pela perda dos direitos sociais, encarne a mesma adesão das populações? Ao contrário, se ainda houver energia, com os trabalhos forçados que se vão incrementando, ela poderá ser é canalizada para a revolta.

Daí que as declarações do Presidente Barroso, dizendo que a cimeira que se escancarou ao diktat de Merkel lhe não usurpara poderes, quando o ultrapassou em toda a linha, é pouco menos que patética. E as do Sr. Sócrates, refugiando-se formalmente na "importância do entendimento", aqui usado como sinónimo de rendição, são tão-só patetas. Este Pacto de Competitividade, ao consagrar a liderança alemã de jure, fazendo todos correr atrás das decisões que Berlim toma na respectiva economia, transforma cada pretenso governante doutro parceiro europeu num gauleiter, o que, apesar de tudo, é mais perceptivelmente humilhante para o cidadão comum do que o director-geral de Bruxelas que cada um deles ia sendo.
A CEE fez-se para, além de fomentar a elevação dos rendimentos da agricultura, impedir uma nova Guerra, com a Alemanha como catalisador. Sem confronto militar, estamos perante a dominatrix germânica, na medida em que o contrapeso previsto no motor comunitário (o eixo-franco-alemão) se remeteu à correlata condição de submisso.
O problema da Europa já não está em ela gostar da violação pelo seu raptor, como Sardinha expôs perspicazmente num poema todavia mal ritmado. O mal, hoje, é que ela está prestes a jazer na praia à espera que alguém pegue e... sem o conseguir, a menos que se reduza por inteiro à condição valeryana de um cabo da Ásia.
A imagem é Europa de Oleg Bogomolov.

La Nouvelle Revue d'Histoire


La Nouvelle Revue d'Histoire é uma revista indispensável que felizmente é possível comprar nas bancas do nosso país. Dirigida por Dominique Venner, esta publicação de referência tem como objectivo principal dar uma outra visão da História, ao contrário da interpretação que domina actualmente o ensino e os media, uma visão puramente maniqueísta entre os bons e os maus.

O número mais recente tem como tema principal "Os Homens e a Guerra" e oferece um excelente dossier, bastante completo, com a participação de vários especialistas. Destaque também para a entrevista com Stéphane Courtois, o "historiador de esquerda que demoliu o comunismo". Uma publicação de qualidade ímpar, a não perder.

O Sol Quando Nasce...

A Flórida tem como alcunha Sunshine State e percebe-se porquê: tudo por lá é melhor. O clima nada tem a ver com frialdades doutros cantos da Federação. E, para cúmulo, elegeu em Novembro como Attorney General uma Política que quase me fazia transigir com a Democracia...
Vale que passei os olhos pelos rostos dos restantes eleitos e sarei de imediato.

Ei-la apresentando-se ao público Tuga:
My name is Bondi, Pam Bondi.

As Vozes do Dono

O Discurso-Programa de Sandor Bihari

A magna polémica em volta do pouco lacónico Lacão e da sua proposta de reduzir o número de deputados tem um mérito: o de fazer os membros da partidocracia ultrapassar a fase da negação infantil, reconhecendo que o parlamento funciona mal. Ecoando a proposta no Dr. Marques Mendes, ganha uma oportunidade de debate que, de outro modo, não obteria.
Desde já devo dizer que, para mim, o problema dos deputados não é de número, mas de essência. A solução, se quantitativa tem de se considerar, seria reduzi-los não para 180, ou para 150, mas a zero, já que, mesmo à (minha) Esquerda, neste caso particular, um só - o do algarismo - não seria igual a muitos, aqueles que em S. Bento assentam.
Da perspectiva dos amarrados ao regime o problema reside, porém, na forma de eleição: são raros aqueles que, mendigando votos, conseguem manter uma independente dignidade. Eleitos por circunscrições uninominais, com primárias abertas, contudo, a legitimidade própria permitir-lhes-ia ao menos fazer-se soar. Ao contrário, as trocas de favores e cumplicidades por detrás das listas elaboradas por cliques partidárias mais não fazem do que transformar meia dúzia em moços de fretes e a maioria em comparsas a que se comprou silêncio só interrompido pelos aplausos cúmplices de claque.