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De Dentro Para Fora

Quantos casos não haverá de impossibilidades semelhantes a esta? Mas se o Direito de Resistência é inalienável, com o Estado abjecto a que se chegou, ele não deve ser procurado na Constituição, mas à Constituição, como melhor quadra no exemplo da Restauração, em função das exacções que tornavam flagrantemente ilegítima a titulariedade do Poder. Que não se diga que a Representação Paralamentar colmata as essências tirânicas das imposições fiscais abusivas, pois sob a opressão dos partidos que escamoteiam a defesa real dos povos seus constituintes, ao pleitearem nominalmente por apenas parte deles e, de facto, pelas camarilhas que rodeiam as lideranças, estamos perante uma agravante em vez de em face de uma mitigação. Urge restaurar de novo, sim, mas já não apenas a independência nacional, há que modificar radicalmente a forma do Estado e a do Regime, as quais, mais do que nunca, estão intrinsecamente ligadas àquela.
                                                      Discussão Sobre a Constituição, de Daumier

A Nu... vidade

Há coisas que não percebo. Por que carga de água, mesmo considerando a pluralidade de bátegas em curso, é que uma alegada fotografia da Chanceler Merkel como Deus a pôs no Mundo há-de chamar tanta atenção? Não quero saber se é peta abrilina, coisa a que estou habituado tanto a 1 como lá mais para a frente. Menos me importa conhecer se a dominatrix da Europa será ou não a retratada, pois só nessa alheia linha de apelos posso perceber o interesse duma multidão de submissos pelo desnudamento dela. Assim como estou para saber o porquê da derrogação das regras de exposição do corpo nas redes sociais. Será que nem a consideram um ser humano? Prefiro olhar para a nutrição de outras medidas: mitigadas as restrições da Quaresma e da Semana Santa, mau grado o patrocinador da fotografia que nos desafia a optar por hot dogs vegetarianos, parece-me imperioso sublinhar que não nos devemos deter nos bikinis/alfaces de Jayde Nicole e da Amiga, mas dar à carne o papel alimentar que merece.

Lindos Serviços!

No Domingo por Excelência, em que Aquele Que veio para servir em vez de ser Servido Se e nos libertou da morte, não há Ponte possível para considerar  serviço público o que tantos viram simplesmente como uma sevícia pública.
E também é triste que o orgulho em ser a única das três mais belas livrarias do Mundo concebida ab initio para o efeito não leve a abdicar dos ganhozinhos extra resultantes de a explorar como museu, em vez de venda de volumes. Mas talvez seja consequência de, cada vez mais, o que nos livros interessa às pessoas ser a capa.
Com o Anjo falando às Mulheres no Sepulcro Vazio, de Baciccio, uma Santa Páscoa, apesar de tudo!

Amêndoas Amargas

O Arcebisbo Primaz disse tudo. Que esta classe política não presta, toda a gente a quem ela não passa cartão e que lho não retribui o vê. Que a Banca, em vez de instância de auxílio, se transformou num factor de desespero, cada dia se torna mais nítido. Estamos próximos de um panorama de revolta contra a escassez imposta de cima, a avidez bancária e a insegurança decorrente da conjugação de ambas, um quadro similar ao que, no Século XV,  levou ao alastramento do sentimento contra a Usura, que se viria a exprimir em escapes tão perturbadores como o aumento exponencial da relevância do anti-semitismo, ou em iniciativas de caridade tão imaginativas e altruístas como o Monti da Pietá, a instituição de crédito por nós conhecida por Montepio, criada em função dos esforços de São Marcos de Montagallo, para dotar a Comunidade de um prestador de crédito que tivesse primeiramente em vista as necessidades do que precisava do dinheiro, em vez dos interesses do credor. Mas a sede do ouro domina o mundo em que ele rareia, nesta Páscoa em que os ovos não são, decididamente, sequer, os preciosos sobrevivos das galinhas que mataram, fossem o entesouramento do Estado Novo, ou os cheques europeus. São-no sim os podres que as açoitadas audiências em fúria querem atirar aos Coelhos que nos saíram na rifa que usa o nome pomposo de "boletim de voto". Peço a Deus que os dois populares símbolos pascais voltem a ser da renovação, a começar pela dos sistemas de poder político e económico que, nas actuais circunstâncias, tanto dificultam a que verdadeiramente conta, aquela que nos torne melhores, rumo à Harmonia.

O Destino da Lança

Quer a Tradição identificar como São Longino tanto o militar romano que espetou o ferro no Lado do Salvador Crucificado, para certificar a morte, quer o centurião que, em face dos prodígios imediatos, reconheceu audivelmente Nele o Filho de Deus. Teria levado a sua conversão ao ponto de sofrer martírio precedido de arrancamento de dentes e língua, tentativas infrutíferas de lhe vedar o Testemunho ou expressar facilmente o Júbilo, sabendo-se a transmissão maior a da sua biografia e a Alegria que contava a de seguir o Exemplo Auto-Sacrificial daquela Sexta-Feira às três da tarde, em que uma arma impotente tentara estabelecer como irrefutavelmente definitivo o que se revelaria sobrenaturalmente provisório. Assim como Santo Agostinho disse de São Dimas, o Bom Ladrão, que o «era tão bom que, à última hora, roubou o Paraíso», deste Partícipe na Execução podemos dizer que a que ficou conhecida como Lança do Destino o era, segundo a expressão, na maior das Áfricas, pois estava, afinal, fadada para demonstrar que todos podemos aceder à Misericórdia, desde que façamos por isso, confirmando a visão de Deus de Santa Catarina de Siena, em que lhe terá sido dito assentar o Desgosto Divino supremo não na traição do Iscariotes, mas em o desespero do arrependimento dele o ter levado a uma corda de má qualidade, em vez de à da procura da do Perdão a que se pudesse agarrar. Enfim, ao Pecado Contra o Espírito Santo, o tal que não será perdoado.
                Fra Angélico tinha a pintura por um estágio mais da Oração.    Não nos cansemos de contemplá-la, para lhe acentuar a razão.

O Regresso do Rei?

Não, não estou a coroar a fera que, televisivamente, voltou a rugir, apesar das petições desanimadoras. Quero simplesmente dizer que o que ele defendeu quanto ao Chefe do Estado, com o rol de queixinhas que se noticia, é que o mesmo deveria ser um Monarca. O jogo e, mais grave, o jugo das facções, levaram à recorrente recriminação dos Presidentes pelos Primeiros-Ministros que nos respectivos mandatos serviram. Sá Carneiro, Balsemão e Soares disseram de Eanes o que Maomé não disse do toucinho, Cavaco cobras e lagartos de Soares, enquanto que o caso de Santana Lopes com Sampaio, de tão flagrante, não permite reacções entre a pena e o gozo. Salvaram-se Guterres e Durão, pela simpatia oca, um, pela servilidade pueril, o outro. O que vem sendo próprio dos eleitos de uma maioria é ir obrando contra os de outra; e o País que aguente. Só alguém não-eleito, como nas Monarquias Norte-Europeias, poderia escapar à tentação do partidarismo, mas mesmo esse remédio, em Portugal, é duvidoso, com as orquestrações de campanhas do mais soez que se imagina a inventarem quebras de imparcialidade do Trono, como as do Partido Republicano Português contra D. Carlos. Então porquê esta catadupa de lamentos do Sr. Sócrates? Marcelo está obcecado com a próxima eleição presidencial e os adversários que lhe possam calhar, do Comissário-Mor Barroso, a este Animal Feroz. Mas é capaz de ter razão, o homem torna-se assim suspeito de estar interessado em Belém, dizer mal do exercício do precedente ocupante do cargo é quase um passo clássico no caminho. O que levaria a concluir que não querer voltar para já à política activa, mais do que não poder, é não lhe convir. O espectro da Coroa, todavia, mais tarde ou mais cedo, incendiará a República.
                                                         Coroa, de Aron Wisenfeld

Vamos, Filhos da Pátria!

Isto de exacerbar as paixões nacionais no âmbito desportivo não parece, claro está, a melhor política. Mas as declarações de Platini, a propósito da recusa canora de Benzema em entoar o hino francês não encontraram os melhores argumentos, aparentam ser uma reedição da tontice do Falecido Alçada Baptista, um Escritor que respeito, quando, nas vestes comissariais do 10 de Junho, queria banir os canhões e a marcha contra eles, bem como os apelos às armas do nosso cântico equivalente. Não, poder-se-ia, melhor, recusar a Marselhesa nos estádios porque os seus versos encerram um chorrilho de insultos contra os Reis e os que não simpatizavam com os ideais de 1789 e o insulto se quer banido dos palcos desportivos, como atesta a dureza contras invectivas raciais das claques. A Frente Nacional, por seu turno, deveria estar caladinha, já que a composição foi obra de maçons notórios, embora não tão extremistas quanto outros, o que levou o Barão Dietrich, autor da encomenda, à guilhotina e o compositor, o Capitão Rouget de Lisle ao arrependimento levado ao ponto de escrever uma canção de sinal contrário, «VIVE LE ROI!». Mas o mais avisado seria deixar as paixões fora disto, a menos que se encare o acto de cantar aqueles maus versos como um mero encorajamento, à laia de Sarah Bernhardt, que os declamou, imediatamente antes de lhe amputarem a perna. E, aí, não passará de um doping tolerado...
                                  A partir do monumento de Bartholdi em honra de Rouget

A Vaga Solução

Sem sombra de ironia, tenho boa opinião do Ministro Crato e sentiria pena de qualquer valente que sobraçasse a pasta da Educação. Anos de sobredimensionamentos, opções orçamentais discutíveis, decréscimo do número de criancinhas e um ministério cujos serviços e regulamentos se transformam facilmente num baluarte burocrático resistente às mudanças mais coriáceo que Sir Humphrey Appleby tornam ciclópica a tarefa de pôr ordem naquela casa. Mas esperar que uma vaga de reformas seja a solução para o absurdo número de docentes desocupados não é entender a palavra reforma num sentido diverso daquele que as necessidades apontavam como um imperativo? E esperar por tão milagroso desenvolvimento não é passar a batata quente da tutela do Ensino para a das aposentações? Ora, como o País é o mesmo para os dois departamentos, digamos que parece apenas uma alteração de mobília, destituída de ganhos de espaço relevantes.
                                                         Reformado, de Fred Wolf

O Fim dos Manda-Chuvas

                                  Papoilas Contra Um Céu Tempestuoso, de Bruce Cohen

Tenho a convicção de que a mudança do nome do Instituto de Meteorologia e Geofísica para Instituto do Mar e da Atmosfera, mais do que sublinhar a nossa vocação atlântica, importa a confissão de que o seu objecto não se desenrola no terreno de ciências propriamente ditas, como denunciava a jocosa adulteração para Mentirologia, mas no da submissão aos caprichos dos elementos. Vale que inexiste há muito entre nós a pena capital, ou poderia algum magistrado ocioso pleitear em favor da sua aplicação aos que enganam o público opiado para suportar a fraude sem revolta, à maneira do sucedido no Novo Mundo, com a pobre marmota adivinha, a qual, se menos frequentemente errou, não está protegida pela atenuante dum diploma universitário. Mas uns e a outra poderiam sempre defender-se dizendo que, antes deles, seria de executar alguém cuja total incapacidade de previsão é mais uniforme e grave, lembra-me o Ministro das Falhanças Gaspar, ou os técnicos do covil donde saiu...

Dos Fortes e dos Fracos

Devo, em primeiro lugar, dizer que nunca prezei o Instituto de Odivelas, por não me ser simpática a aplicação de ritos e disciplina militares ao Belo Sexo, cujo encanto associei sempre a uma certa indisciplina e... civilidade. Posto o que, em nada me surpreende a extinção ora decidida. Num País onde é reconhecidamente fraco o aproveitamento escolar e consabidamente forte a obsessão de igualar por baixo, um estabelecimento que produzisse elites era uma afronta, além de que, para um regime eternamente em convivência penosa com as Armas que utopicamente defendessem a Nação, núcleos de casta formadores até passam por afronta. Nada de novo, portanto. Mas quando já não se detecta grande vontade de salvaguardar património humano, ao menos que se poupe as pedras: o Forte de Santo António, no Estoril, foi um dos espaços físicos onde mais se decidiu quanto à sobrevivência nacional, no Século XX. Veio a ser, depois, afectado a colónia de férias do colégio em vias de extinção. Fica o voto de que o não liquidem, como o vizinho de S. João da Cadaveira, que era da Guarda Fiscal, servira para o repouso de filhos de militares e está transformado numa ruína à espera do dinheiro duvidoso que o transmute em espaço turístico. Com a importância que tem o monumento, ao menos que o cuidem, com a má motivação - mas eficácia plausível - de ter sido onde o seu (deles) odiado Salazar terminou a carreira de governante, com o célebre acidente da cadeira.

A Civilização e a Selva

Diz a Senhora Ministra do Governo Francês que estender o Casamento aos homossexuais constitui uma mudança civilizacional. Cada um muda o que pode, porque se isto é mudar o que quer, não há maneira, considerando as implicações físicas da modificação, de evitar reconhecer que se estará perante um passo à rectaguarda. A mim pouco importaria que o nó da República, para mais de uma com origens sanguinárias e destruidoras da Grandeza que fez a Europa, amalgame essa gente aos seus outros cúmplices. Conquanto não se alargue o Sacramento da minha Religião a tal gente, é-me igual ao litro. A "conquista" não abona muito é em favor do conceito em que os invertidos se têm: querem ser iguais aos outros no modo de vida das aparências que mascaram a oposição fundamental da sua desorientadora orientação. Os Puritanos de muitas seitas Calvinistas Britânicas, no Século XVII, ciosos da bondade comparativa que imaginavam nas suas preferências, embarcaram para a América, a fundar comunidades moldadas à sua medida, em que pudessem permanecer como eram. Estes, ao invés, tão má opinião têm de si que macaqueiam os outros e querem impor essa imitação barata como um equivalente ao original. Mas isso é entre eles, como será a desatenção aos números dos manifestantes, num mundo mesquinho que os hipervaloriza se na vertente de votos..
                                                          O Plágio, de Magritte

O que se exige, porém, é que não continuem a falar em declínio demográfico. Quando os reconhecimentos institucionais equiparam uma realidade edificada para fomentar a natalidade a uma que dela abdica, na mesma instituição, está a entregar os pontos e a neutralizar muitas cegonhas que trariam os bebés de... Paris!!!

Vertigem da Desagregação

O Poder, quando é fraco, desagrega. Se, além disso, se entrega a partidos e partidas de baixo nível, fragmenta. Mas, ao estupidamente tentarem extinguir os poucos traços de união que restam às Pessoas no patamar do Desespero, pulverizam. Têm carradas de razão os argutos e revoltados intervenientes no debate de que resultou o grito de alarme e angústia contra a opressão do abastardamento linguístico proveniente de definições magistrais de uns especialistas a quem cabe por inteiro o dogma da falibilidade. Simplesmente, se para os adultos é péssimo ter de reescrever pior o que se aprendeu, para a garotada em idade de aprendizagem é de insuperável gravidade. Embora as mais novas possam não sentir tanto a diferença entre o antes e o depois, todas ficarão com um acrescido factor de antagonismo familiar, expresso na desconformidade do Português escrito dos familiares e o da Escola. Que, injectatando um motivo adicional de desprezo ou de incompreensão pelo modo dos mais velhos, alegremente se chega à frente para destruir de vez o que de compacto reste aos laços do lar.
                                                      Criança Em Cinzento, de George Luks

A Filosofia da Normalidade

Sabendo da clivagem que o Dr. Seguro, numa surdina notória, em tempo, alimentou contra o Socratismo, tentaram os jornalistas entalá-lo, pondo-o perante o incómodo da hipótese de o Comentarista caloiro que o antecedeu no partido vir a corporizar alguma assombração vingadora dessa desconformidade pretérita. O Secretário-Geral do PS retorquiu com a normalidade, o que é facilmente perceptível: não só, ao estabelecer esse padrão, assegura o Futuro, uma ribalta pós-liderança, a modos que um senado onde repousem os políticos depostos ainda jovens para a Reforma, como dá uma estocada no putativo rival. Com efeito, para além do nome, nada fazia prever que aquele aguentasse o estudo da Filosofia como substituto da intervenção política em que foi nado e criado. No seu íntimo, a especulação e os livros do pensamento traduziriam a prisão irremediável que fere a sensibilidade dos que se habituaram a mandar sem reflexões maiores que as do debate superficial e orientado para a vantagenzinha paralamentar. De resto, onde antes se faziam apenas comendadores, produzem-se hoje comentadores.
                                                          O sugestivo quadro é de Jim Warren

Verdade Prima e Vera

Neste tempo de escassez impregnado pelo odor de mais um ciclo primaveril, penso no mito de Pomona, a Abundância que se recusava a todos, como no estratagema a que Vertumnus o Deus das Estações, recorreu para a induzir a entregar-se: disfarçado de Velha conseguiu aproximar-se e convencê-la da necessidade de espalhar a Alegria para não desperdiçar os seus frutos, quer dizer, para ser fecunda. No dia em que se quer comemorar a Poesia e o fim do Inverno no Calendário, saibamos terminar o do nosso descontentamento insuflando a atmosfera espiritual propícia à Partilha, na certeza desinteressada de não ser o nosso protagonismo volitivo ou actuante o que releva, mas sim o quinhão que pudermos dar para esbater os antagonismos ávidos e concorrenciais provocadores do definhar geral. E tendo em atenção que, por vezes, a aparência vetusta não é mais que um disfarce da eficácia que soluciona.
                                                       Vertumnus e Pomona, de Paulus Moreelse

Por Alberto Caeiro:

Quando vier a primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.

Se soubesse que amanhã morria
E a primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

O Real Gaseado

Passada a primeira e traumatizante impressão, o caso Cipriota reconduz-se ao que, de facto, espreita por detrás da míngua de papel, ou seja o papelão que o pequeno País pode desempenhar nas Relações Internacionais. Quer dizer, na reedição das desconfianças que os Europeus Ocidentais têm pelas aspirações mediterrânicas da Rússia, num ressurgimento da relevância das zonas de influência que a fraqueza da União Europeia torna risível. No Século XIX deu a Guerra da Crimeia, com Franceses, Britânicos, o embrião Sardo da Itália e um cheirinho de dinheiro germânico, o Austríaco, a sustentarem uma guerra contra-natura de apoio aos Turcos, para impedir a hegemonização do Oriente do Mare Nostrum pelo gigante euro-asiático. Hoje, a falta de jeito dos Comissários e demais eurocratas presididos pelo Dr. Barroso, deu em propor, pensando que não poderia recusar, soluções draconianas a Nicosia, sem alcançarem que a pletórica abundância de depositantes russos ameaçados de extorsão poderia levar Moscovo a corresponder com entusiasmo a qualquer pedido de ajuda alternativa, em nome dos interesses dos seus nacionais, enquanto a Ankara ocupante do resto da ilha resfolega a bom resfolegar. É que, com a descoberta de gás natural naquelas paragens, se, porventura, os endividados naturais da Terra de Afrodite não tenderão a dizer, como Salazar ao encontrar-se petróleo em Angola, «só me faltava mais esta», pode bem calhar-nos ter de gritar o mesmo, caso os precipitados gestores europeus que por aí andam continuem a hostilizar sem Norte ou força a política muito mais coerente do Presidente Putin. Mesmo achando que conseguem pintar ou reescrever a Realidade com louvores de circunstância aos grandes Artistas desses campos que ligariam o Continente.
                 Ruínas dum Castelo de Chipre, Saranta Colones, de Azat Galimov

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No filme de terror constante que se revela a actualidade que somos forçados a suportar, só faltava o episódio do regresso dos mortos-vivos. A relação entre os comentaristas políticos da Televisão e a Governação é perversa, mas, até agora, no sentido de se poder encarar a actividade vampiresca das análises pagas e emitidas como trampolim para acupação de órgãos decisórios, ou para a participação neles. Quando ex-líderes que não tenham chegado ao Poder passam a botar faladura sobre os eventos quotidianos há uma degradação, mas funciona como uma espécie de consolo compensatório pelo fracasso, apesar de não abonar quanto ao campo de recrutamento das redes emissoras, cingido ao critério da notoriedade, mesmo que por motivos infelizes. É o que se passa com Marques Mendes, já que o caso de Marcelo, ao configurar um regresso às origens, é diferente. Mas chamar à função um Primeiro-Ministro passado e falhado é um erro que subverte o próprio molde do programa que se anuncia. De cada vez que fizer uma crítica aos actos da presente Administração, estará decerto no seu inconsciente e na hiperconsciência dos espectadores uma apologia, ao menos comparativa, da sua condenada acção. E se a isenção das apreciações está ainda mais irremediavelmente comprometida do que de costume, a forçada apresentação do seu passado, pairando como alternativa ou causa, acabará por transformar o que se quereria exame distanciado em duelos retóricos sobre a distribuição de responsabilidades. Na ânsia de garantir o Contraditório, os novos empregadores do Sr. Sócrates caíram numa opção contraditória com o que anunciam.
           Homem Tentando Perceber o Seu Lugar no Universo, de Darwin Leon

Bancos e Bancadas

Vêm vultos da Maioria assentada em S. Bento reclamar um Governo suplente dos mesmos emblemas, apesar de saltar à vista a escassez de banco. Como sempre disse, a propósito da saga da nomeação de Santana Lopes, nada que choque especialmente, na única vocação parlamentar que não é um disparate, a Britânica, é costume enraizado não só a entrega de testemunhos, veja-se a de Blair a Brown, como revoltas parlamentares substituírem lideranças dos executivos, sem recurso a novas eleições, tal o caso de Thatcher por Major, na sequência da reprovação emergente das alterações em torno de impostos. Não estamos habituados a tanto, porque, cá, os deputados não são escolhidos para pensar por cabeça própria, mas para se constituírem em serventuários das catastróficas siglas partidárias, coisa que, embora em situação extrema, já nem em Chipre se constata. Também por isso se compreende a aspiração de Henrique Neto & Cª a abrir aos independentes as bancadas legislativas. É uma reivindicação simpática no intuito de subtrair ao monopólio das estupidocracias partidártias a formação de listas, mas pouco adiantaria na crise que vivemos, pois a ausência de clubite não excluiria o ping-pong de promessas para arrebatar o Poder e incumprimento subsequente, que, circular e viciosamente provocassem novas consultas, similares ascensões e decorrentes quedas. A única forma de ultrapassar este beco sem saída é a ruptura constitucional que entregue a uma entidade não-eleita a nomeação dos ministérios. Rei, Forças Armadas, sorteio, o que queiram. Mas sem urnas agoirentas! Até lá, é torcer para que algum assomo de dignidade transforme os pseudo-representantes do Povo em coisa diferente dos autómatos que vão sendo, com a Sabedoria que os redima, pelo Mocho simbolizada. E que deixem de ser progenitores-coruja, quer dizer, parciais, de rebentos aberrantes como as opções desgraçadas em que se vem traduzindo a governação.
                                                  O Parlamento dos Mochos, de Scot Gustafson

O Senhor dos Anéis

Aproveitando o título célebre da deliciosa fantasia neo-pagã - mas não neo-paganista - de Tolquien, enquanto sigo a entronização do Papa Francisco, uma rápida olhadela a dois dos símbolos da sua Missão. Todos apontam como consistente com o jesuítico voto de pobreza e com a admiração reiterada pelo Santo de Assis a opção da prata em vez do ouro como material do Anel do Pescador. Sê-lo-á, sem dúvida, mas sugiro uma outra alusão, a de reservar a Cristo, na vertente de adoração como Rei, o símbolo já presente numa das oferendas dos Magos.
Assim como, quando a tónica é posta na preservação de elemento emblemático da Companhia nas armas escolhidas, gostaria de adicionar a referência à Sagrada Família. Numa altura em que o Magistério Papal é tão necessário no Mundo, mesmo fora da prioridade da Oração e da Celebração Sacra, colocar no brasão os Sinais do Veneradíssimo Núcleo Humano Propiciador ou Coadjutor da Salvação pode fazer-nos lembrar o episódio extraordinário da (segunda) Defenestração de Praga, em que as vítimas católicas do atentado viram inesperadamente mantidas as respectivas vidas terrenas, após a invocação audiblíssima por uma delas, o Conde Slavata, de «Jesus, Maria, José!». Que possa ser o signo precursor da manutenção das condições para estoutra Vida de Serviço.
E porque um blogue é uma conversa familiar sem a interesseira promoção marcellista da imagem, gostaria, a propósito do Pai Adoptivo de Jesus, cujo dia hoje se celebra, de partilhar Convosco ter sido num 19 de Março, o de 1966, que este Vosso amigo foi baptizado, nascendo assim para o Verdadeiro Senhor.  Dia de Júbilos vários, no que me concerne.
Uma nota final: não tem sido aprofundada uma das noticiadas preferências literárias do Santo Padre, aquela que remete para «CRIME E CASTIGO», de Dostoievski. Ligando-a directamente à observação por Ele proferida no fim de semana, de que Deus não se cansa de nos perdoar, nós é que frequentemente nos esquecemos de Lhe pedir perdão, como não meditar sobre o mais forte testemunho literário do crescimento interior que é a activação da consciência conducente à libertação das servidões absorventes traduzidas na auto-complacência, ou, pior, na fantasista edificação interior duma pretensa superioridade moral que tudo nos permitisse, por, pateticamente, nos encararmos como excepcionais?

Mãos ao Ar!

aqui falei sobre as peripécias que vem sofrendo a saudação de braço estendido, mas tenho de voltar ao tema, por causa da fobia censória que quer afastar o jovem Katidis dos palcos da Alta Competição. O rapaz disse que não sabia o que significava o gesto, neo-hitlerianamente falando, o que nem sequer admira, com a quase inexistente cultura histórica contemporânea que se instila, hoje em dia, nas crianças. Cá, seria de dizer "a cultura histórica em geral", mas, na Grécia, com um Presente de vergonha e um Passado Glorioso até separados por maior abismo, dá-se ainda umas luzes sobre a Antiguidade em que os Avozinhos viveram e deram a viver à Europa uma das suas melhores horas. O que quer dizer que, segundo o que aprendera, o moço pode ter, simplesmente, querido fazer como os avoengos atletas, os quais, nus, esticavam ao alto os membros anteriores. Daí que tenha tirado a camisola...
Mas para comprovar a acefalia da mania persecutória deste vigilante puritanismo institucional, veja-se como a maçónica e democratíssima III República Francesa publicitou os Jogos Olímpicos que organizava, em selos postais destinados a correr o Mundo. E olhem que o Fascismo, em 1924, já estava em vigor...
O que leva a injunção do título a um directo nexo  com a rendição incondicional do Raciocínio e do Conhecimento articulados.

Imagens Deformadas

O Jornal germânico que se pretende Espelho veio chamar a Beppe Grillo «o homem mais perigoso da Europa», presumivelmente por pretender não pactuar com as partidocracias que conduziram o Continente à decaída condição a que chegou e que Berlim pensa ser um património a conservar, sabe Deus com que interesse que não seja o seu. É vício antigo. Quando Alguém se opõe à marcha europeia orquestrada pela Filarmónica da Chancelaria, lá lhe colam o rótulo do perigo. Quando a Rainha-Mãe Isabel recusou o acolhimento no Canadá durante a Guerra por não aceitar que as Filhas fossem sem Ela, rejeitar ir sem o Rei e estar Certa de que o Soberano nunca deixaria o País, Hitler também disse ser «a Mulher mais perigosa da Europa». É mais do mesmo. Que têm em comum um heterogénio artista e a mais ortodoxa Realeza? Escapar à lógica dos partidos e à planificação imposta da Alemanha. Por imprecisa que fosse, a velha frase de Miguel Esteves Cardoso, segundo a qual, em tempos, os Alemães quiseram ser mais Fascistas que os outros e inventaram o Nazismo e agora querem ser mais Democratas que todos e impõem estas tutelas que eternizem partidos gastos e desmascarados tem total cabimento.
                                                   Pastora Alemã, de Miguel Oldenbourg