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Foice Em Seara Alheia

Não há duas sem três e as pedras do Templo da Cidade triplamente Santa tinham de sofrer uma terceira tentativa de destruição. Depois de Nabucodonossor e Tito, por um tribunal, que autorizou umas reivindicadoras de igualdades a rezar da forma tradicionalmente reservada a homens, naquele lugar sagrado para os Judeus. Para quem cresceu assombrado pela existência de um Muro da Vergonha, faz um pouco de impressão que uma grande Religião não tenha vergonha dum muro que lembra uma derrota cruciante. Mas "Templo" é um conceito que se presta a equívocos, como sabemos desde que Jesus usou a expressão para designar o Seu Corpo Salvador, deitado por terra e reconstruído em três dias. E o certo é que, mesmo alicerçada em lamentos, aquela prática religiosa tem conseguido contribuir para manter a identidade de um Povo acossado como poucos na História. E aqui é que bate o ponto: se alguém se identifica com uma genealogia religiosa, não deve tentar mudar-lhe as formas, ou aquela passará a ver degradada as referências que aglutinam. Se sentem tamanha necessidade de participação mimética, fundam outra edificação ritual, não tentem, a partir de dentro, modificar a que existe, tornando-a menos reconhecível. Esta é uma máxima ética que vale para todos os credos, sendo que, no caso vertente, os habituais fiéis das lamentações murais poderão juntar a lamentação moral de, com a nova companhia, se não conseguirem concentrar em Deus. Pelo menos, se aparecerem Senhoras com propriedades diferentes das da fotografia...
                               Destruição do Templo de Jerusalém, de Nicolas Poussin

Perigo de Morte

Não devemos repousar sobre a tranquila suposição de que é exclusivo de algum atraso ou até primitivismo o culto da Morte. Se a nossa auto-proclamada civilização não a tem por santa, não é por a veneração dela lhe repugnar, mas porque a Santidade deixou de ser estatuto que a fascinasse. Tem vindo a tornar-se traço mais do que característico fazer olhinhos ao macabro, por desfastio, como subvalorizar o que de revoltante haja na morte de inocentes, desde que não se possam defender, queixar, ou servir de "escalpes" de petições, como na entronização dos abortistas; e, ainda, a promoção hedonista a alívio daquilo que mais não é que uma confissão do fracasso e a desvergonha da desistência, caso da Eutanásia, a morte tida por boa, que esse é o grau de bondade a que uma sociedade atrofiadamente laica pode chegar e prezar. Mas se certo número de  Mexicanos presumivelmente pouco ensinados leva as suas oferendas a esta entidade cultuada, fá-lo para dar força a pedidos para as suas vidas. Nós, os híper-civilizados saturados de sofisticação, prestamos homenagem a uma idealização de término para a abreviarmos e escaparmos ao aborrecimento ou a dores, desconfortos ou contrariedades mais intensos. Aqui na minha vizinhança, vejo pintados pelas paredes ditos como «make a change, kill yourself». É a distância que vai da heresia popular e iletrada ao niilismo capado de que ainda somos capazes, ao ponto de ver Beleza na alegoria do fim terreno, que só a comportará, possivelmente, por confronto com as carantonhas horrendas adequadas a simbolizar os espasmos e pulsões do Ocidente contemporâneo.
                                                       A Morte e as Máscaras, de James Ensor

Melancolia In-Continente

Fim de tarde bem passado, numa notável conferência de José Pedro Serra, subordinada ao tema das Narrativas Homéricas. Em Dia da Europa, o espectro da Crise presentíssimo, desde logo na introdução da Vereadora e no concomitante voto de, pela produção intelectual, se escapar ao triste império dela. Depois, mergulhámos na temática e, se o escapismo das viagens turísticas andava arredio da abordagem de textos fundadores das referências do Continente, a evasão inerente às alturas dos ideais por eles patenteados compensou-nos amplamente, fosse a da procura da Excelência como forma de o Homem recém-compenetrado da sua mortalidade tornear as dimensões enclausurantes da sua finitude emanada da «ILÍADA», fosse a sua assunção de individualidade e background assentes na memória do lar a que se regressa, na «ODISSEIA». Também um património histórico-mítico-cultural comum que servisse de fio condutor às edificações sociais futuras viu a sua ausência diagnosticada nesta época em que nada parece haver a que nos agarrarmos. Não se põe já a questão de a raptada exultar ou não com o seu estupro pelo touro olímpico que escondia um Deus, antes a constatamos como cúmplice arrivista da barbárie que a sequestra, numa Síndroma de Estocolmo que é, também, angustiante sinal dos tempos.

Remessas Sem Remissão

Mais do que desforrar-me dos enviesadíssimos críticos do Estado Novo que o diziam ter condenado gerações inteiras à Emigração, estes números devem fazer-nos pensar que o empobrecimento emanado desta República dos Bananas é muito mais imputável, quando os seus dirigentes máximos exortaram à saída dos trabalhadores e não têm a desculpa da fuga à guerra para apresentar. Mas há duas notas que urge sublinhar, por terem ficado no esquecimento mediático: a Alemanha, a que os nossos Compatriotas idos nos anos de 1960 tiveram de impor a sua disponibilidade e qualidade laborais, favorece agora a chegada de todos os provenientes de origenss que lhe permitam corrigir os desequilíbrios da sobreabundância guetificada de Turcos. E a suspeita de que a avidez cega por receitas leve os gerentes de Berlim em Lisboa a escorregar uma vez mais na frieza dos números e a quererem a bom querer mais estes patacos previsíveis. Mas não estarão enganados, com a situação que incompetentemente pioram em vez de corrigir, poderão ainda alimentar a esperança de que aqueles que forçaram à saída mandem para cá o carcanhol?
                                                  Os Emigrantes, de Angiolo Tommasi

Profilaxia dum Contágio

Há um "iberismo" sem rosto nem ideal que passa relativamente despercebido, qual seja o da imitação do que os Espanhóis fazem e do que  se fazem sofrer, sempre pretensamente justificado pelo estribilho "até na vizinha Espanha", para calar as resistências a alterações para pior. Nessa perspectiva, é mais do que alarmante o caso sórdido que se conhece aqui. Compreende-se que os custos do sistema de Saúde tenham de ser reduzidos, apesar de achar que deve ser sempre o domínio a isentar de cortes o mais possível. E, embora seja contraditório com a edificação constitucional do SNS, até se aceita que, em período de crise, alguma comparticipação dos utentes seja exigida, de acordo com as suas possibilidades. Mas isto é a desumanização total, concertada por decisores e administrativos cegos, como por prestadores para quem o código de Hipócrates é um código de hipócritas. Retirar uma prótese necessária porque o paciente a não conseguiu pagar, em vez de procurar receber pelos meios injuntivos e judiciais adequados é um passo em frente no abismo da reificação que, logicamente, no limite, conduzirá um dia a repor nos organismos dos carenciados os cancros que interesseiramente lhes hajam extraído. Espero bater a bota antes de se generalizar a prática.
                                                          O Superburocrata, de Stefano Zattera

O Nó e o Dó

Este é um Governo da corda, mas não embarco na balada que nos cantam e contam de o Dr. Portas, na comunicação de ontem, ter querido medir forças com o Primeiro Ministro, puxando a dita, pois ele sabe de sobejo que parte sempre pelo mais fraco. A questão fia mais fino, é somente de cordelinhos e de quem os puxa; e o PP está condenado a ver o parceiro grande fazê-lo, lutando apenas para restringir esse controlo à realidade do Poder e não a si próprio numa evidenciação do estatuto de marioneta. Assim, as declarações foram a salvação possível da face, com a manutenção da persona eleitoral assumida pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros, de defensor dos pensionistas e idosos. Não digo que tenha sido tudo falso naquelas palavras, porque os homens, se não são embusteiros completos, acabam por se deixar transportar pelos papéis que são chamados a interpretar. E este encaixava em dois princípios fundamentais que me lembra o líder Popular crer: a sacrossanta intangibilidade dos contratos e a hostilidade ao aumento dos impostos, condicionantes da manutenção do regime das reformas. Com pressões internas e espectros de descrédito exterior, creio ter sido congeminada esta saída airosa, o Dr. Passos deixa entreaberta a nesga do "debate em cima da mesa" e o seu coligado homólogo mergulha de cabeça pela pequena abertura, no sentido de, com a exibição da pluralidade de pontos de vista, ambos darem corda a um executivo a que ela vai faltando. Mas, amarrados um ao outro por esse cabo (dos trabalhos) quando um for ao fundo, o outro irá atrás.
                                                        Corda, de Mairi Brydon

O Pacote Armadilhado

PPC encarnou de Mãos de Tesoura o estatuto e nele se encartou, ao catapultar uma encomenda de cortes que vão desde os clips da burocracia ministerial a coisas graves como a dispensa de funcionários, o prolongamento da coacção da vida profissional activa e a taxação adicional de pensões, subversão das regras do jogo que todos vêm notando. A justificação é igualizar os funcionários ao sector privado, embora, já se sabe, a verdadeira causa seja a falta de pilim. Não gosto de paranoias igualitárias, mas percebo que um Estado que não se preza não possa prezar os que o servem. O que deveria der uma elite cumulada de benefícios vê-se, portanto, na contingência de se tornar no bode expiatório dos desperdícios e esbanjamentos acumulados pelas promessas eleitorais, as concessões clientelares e os preconceitos duma incontinência do investimento público cego. Sublinhou a torto e a direito a dificuldade das medidas e a necessidade delas. Mas por que motivo? Para voltarmos a ser bem vistos lá fora credíveis. Ou seja, troca a subserviência de abrir os cordões à bolsa para palmar o votito aos de dentro para passar a fechá-los na mira duma palmada ou palmadinha nas costas pelos de fora. Como País, chapéu, se isso já não tivesse acontecido já, quando os que agora nos mandam fechar as torneiras nos espicaçavam para que as deixássemos correr sem controlo ou medida.                                     
                          Peões, da série Almas Perdidas, por Alexey Terenin

Voo Para A Vitória

Passadas as delícias turcas, que a Tradição ainda seja o que era! Engajando-me na linha superiormente congratulatória e evocativa do Duarte e do João, nos postais anteriores, lembro essa cidade de Amsterdão onde o Glorioso SLB se sagrou bicampeão europeu, desejando que o mesmo final tenha... a final que se avizinha, a propósito da Europa da Liga e não da que não interessa, a institucional que, cada dia que passa, se desliga. Lembro, a propósito, uma canção do Festival da Eurovisão dos meus tempos de menino e moço e faço votos para que a Zona Vermelha aludida não seja a da oferta sexual enjoativa e compartimentada, muito menos a da Política da agressão, mas a do regresso aos triunfos internacionais da Real Águia da Luz, findando de vez o tempo das trevas. Fiquemos, então, com «AMSTERDAM, AMSTERDAM»:

O Prato Que Se Come Frio

Parece-me francamente exagerado o orçamento para apagar esta inscrição enriquecedora da base do Leão do Marquês, que em tão má companhia está. Os menos caridosos poderão dizer que é uma vingança pela célebre pintura de listras verdes e brancas na Águia do Estádio da Luz, anos atrás. Eu prefiro ver a coisa como o cuidado em fazer o grande felino voltar a um habitat que lhe convenha, já que o tempo lhe desmente o pedestal. No entanto, preocupado com as Finanças Públicas e sabedor do benfiquismo do Dr. Costa, sugiro que abra uma subscrição pública entre os adeptos sportinguistas para custear as despesas da remoção da inocente frase que, porventura lhes  desagradará. Apesar da crise, deve consegui-lo num ápice, o que com larguezas de previsões de custos semelhantes, até pode dar ideias para receitas futuras...

                                                    As Mãos como Águia, de Guido Daniele

Trocas Baldrocas

SWAP significa troca em inglês e haverá maior trapaça do que pôr, literalmente, em jogo o que nos respeita a todos? Creio que foi Miguel Sousa Tavares que classificou este tipo de riscos financeiros nas Empresas Públicas como batota de Casino e, considerando a perspectiva de toxicidade dos maus resultados, talvez ainda fosse melhor dizer que se trata de um upgrading do célebre afrontar da Sorte, em que a solitária bala no tambor do revolver se vê substituída pelos escolhos contratuais que, de uma vez, nos ajudem a submergir conjuntamente.
                                                        Roleta Russa, de Koulin

Verdade Que Se Evita

Num tempo em que, embora beneficiando, interessadamente todas as pessoas na sua faceta de consumidores, um expoente do Capitalismo, no ano transacto, se apropriou do 1º de Maio, convém aflorar dois ou três pontos da História. O dia surgiu da necessidade de mais tempo livre dos trabalhadores e na luta empreendida para o obter, quando, nesta época de contra-ofensiva, um herdeiro dos opositores da reivindicação, a própria cadeia de supermercados que se apossou da data, o terá retirado ao seu pessoal, reforçando a presença deste no feriado, para dar conta da corrida aos preços baixos. No Estado Novo, ao contrário, imperava a preocupação com o lazer das classes laboriosas, se bem que numa óptica de contestação do aproveitamento partidário e do fermento conflitual da efeméride. Assim, a célebre FNAT adoptou justamente como designação da folha própria o título «1º DE MAIO», enquadrado sucessivamente pelas subtitulações esclarecedoras «JORNAL DE TODOS OS TRABALHADORES» e de «ORGÃO DA FUNDAÇÃO NACIONAL PARA A ALEGRIA NO TRABALHO». A actividade da instituição foi verdadeiro impulso humanizador da vida daqueles a quem ela mais custa e, já que nos aproximamos de dia 7, devidamente caucionada pela Protectora dos Descamisados, a famosa Eva Perón, aqui mostrada a visitar-lhe as instalações, aquando da sua visita a Portugal, e cuja imagem dedico ao nosso Marcos Pinho de Escobar Que tanto ama os dois Países.

O Grude e os Cacos

A Itália habituou-nos, como ninguém mais, a dar sempre a volta por cima. Perdeu a Guerra, mas, ao contrário da Alemanha e do Japão, conseguiu um armistício e mudança de campo, em vez da rendição incondicional; com a I República podre e nauseabunda, encontrou uma reestruturação partidária sem os grandes monstros dominadores da Democracia Cristãe do Eurocomunismo a protagonizar; com a crise financeira a espreitar ainda descobriu um Monti salvador, até ele se ter deixado humanamente tentar pelos cantos de sereia eleitorais; e finaliza um impasse de blocos parlamentares com o que parecia impossível e havia sido vocalmente rejeitado por líderes vários, uma coligação das principais forças, numa nova administração congraçadas. O problema é que a solução de Uniões Sagradas serve em estado de guerra com o exterior, mas falha quando a unidade nacional tem a espreitar uma fracção importante que não aceita a coalizão e se mantém como alternativa. Com uma reserva Cinco Estrelas do tipo da de Grillo, se não houver resultados excepcionais ou empenhamento inalterado, fatalmente quem fica de fora surgirá como a novidade salvadora que resta. Por isso o novo Chefe de Governo se impôs um incitamento lettal contra os desmentidos da solidez de um bloco tão pretensamente diversificado e da obtenção de bons indicadores, com prazo marcado para esbater a demagogia que sempre vai adiando a concretização das promessas com boas desculpas. Mas claro que esta ameaça sempre suspensa sobre o Executivo faz, mais do que nunca, os opositores do sistema pensarem que o tempo corre por eles. Até que um (de)grau mais na escalada seja transposto e a Esperança se mude, com armas e bagagens, para os contestatários da pecha mais abrangente - o Regime.
                                                                A Espada de Dâmocles, de Felix Auvray

Os Despojos da Saga

A interpretação minimalista dirá que quem está no Poder perde as eleições de hoje, na Europa. A via média achará que o cumprimento de sacrifícios ditados por cartilhas do exterior suscitam sismos eleitorais. Mas o retorno da Direita Islandesa ao Poder, por muito que os partidos sejam os mesmos que precipitaram o País na derrocada ultra-liberal da sua banca, traz outra lição - a de que o pequeno eleitorado que se entrincheirou contra as espoliadoras idemnizações aos investidores estrangeiros que pretendiam boas maquias sem risco, à conta dos nacionais, voltou a fortificar-se contra os que queriam lançar o País no inenarrável fosso arrasador de particularidades que é a União Europeia. Claro que cá, desde já longos anos, nem isso há a salvar, pelo que o ânimo contra os receituários impostos de fora só encontra tradução nos espasmos decorrentes das chicotadas de lá recebidas. Há, entretanto, um pormenor adicional delicioso - a facção que se apresentava como mais estrénue defensora da adesão à Europa institucional e burocratizada ostentava o nome absurdo de Futuro Radioso, clara ironia a rivalizar com os Amanhãs que Cantam da mais célebre utopia desmentida da Contemporaneidade.
                                                 Jon Siguròsson, o pioneiro da independência da Ilha

F For Fake

Em dia de aniversário do Grande Homem, é bom ver um Investigador que, sem quaisquer simpatias declaradas, desmantela outro dos mitos em torno do Estado Novo, nomeadamente da inventona dos três Fs que, segundo os detractores, lhe fariam de apoio. O Fado era detestado por Salazar e por teóricos da Situação, por amolecedor do carácter colectivo e indutor de abandonos ao Destino, quando o Poder queria inculcar o esforço ordeiro, consequente e constante. Fátima foi 11 anos anterior à instalação no Poder do Estadista de Santa Comba e, se me parece especulativo dizer, como Fernando Dacosta, que Aquele não acreditava nos milagres respectivos, claro que a movimentação das multidões não quadrava nada nas suas preferências. Restava o mito do Futebol, que, por esta entrevista, vem ser posto em termos correctos. Salazar nunca usou o Desporto como alienação, nem sequer distracção, porque não precisava disso, o seu discurso e a penetração social que ele execia eram estribados em concentração na actividade legal, honesta, tranquila e habitual, não na dispersão pelos espectáculos, pela excitação divisionista da concorrência totalitarizante para além do plano lúdico bem delimitado, ou nas doutrinas de superioridade espuriamente alicerçadas em feitos de compatritas. Se, pontualmente, honrou os que obtiveram êxitos internacionais na Competição, foi para não cair na mesquinhez de não reconhecer mérito excepcional a quem o tem, mas sem jamais cair na construção estatal de ídolos que lhe fizessem fretes de propaganda. Parece-me fundamental a comparação com o que hoje vigora, nem tanto na colagem natural aos triunfadores, mas na tal porosidade entre Política, Futebol e... Media, com abundantíssimos exemplos de transição dos que ganharam notoriedade num desses campos para o outro e por causa dessa primeira centelha de fama. Para além de inocular uma verdadeira capacidade alienante, com a transplantação do Conflito que, em altura difícil para se manter confinado à mesa de jogo partidária do Arco Constitucional, se tenta substituir, em termos de potencial mobilizador, pelo confronto clubista para além do campo, hiperpublicitado em mil e um debates para excitar o pagode.

Das Redes aos Golos

Nem me pronunciarei sobre o facto curioso de o cavaleiro andante da quixotesca ceuzada contra a maré absurda da imposição homossexual dar pelo diminutivo pouco adequado de Gigi. Quero apenas deixar expresso o repúdio total pela insensatez de tentarem impedir pelo Steua de Bucareste a contratação de quem bem queira. Se não deseja ter invertidos na equipa, está no seu pleníssimo direito, ora! Até porque não é uma equipa que tenha como entidade patronal a Comissão Europeia. Além do mais, pode perfeitamente adoptar-se uma linha de defesa das preocupações do líder do clube romeno que sublinhe o facto de que, sendo o Futebol um desporto de contacto, a utilização de atletas para o mesmo sexo virados poderia proporcionar proximidades abusivas que aos demais repugnassem, o que prefiguraria uma modalidade de acção íntima não-consensual. Um conflito de direitos, portanto, se fosse no Basquetebol, ainda passaria, mas assim... Há, no entanto, mais: a supra-mencionada predilecção pode perturbar o desempenho dos jogadores: se ficarem fascinados por colegas e adversários que se movam no campo, podem perfeitamente, sob essa excitação extasiante, ver prejudicada a concentração no esforço para levar outra água - a da equipa - ao seu moinho. E nem falo de casos declarados de batota, presumivelmente minoritários, como seria o favorecimento de algum adversário que lhes caísse mais no goto, através da abstenção do empenho em contrariá-lo. Mas o pior de tudo está nas «disposições expressas» que as altas instâncias pedem ao emblema do País dos Cárpatos, para contrariar a reputação homofóbica, trata-se de uma descarada sugestão de estabelecimento de quotas gay. Como se vê, já estivemos muito mais longe de ver a homossexualidade como obrigatória. Num único ponto parece haver sintonia com as rejeições tradicionais - os alegados perseguidores dessa orientação, através de tratos vários, queriam que os entusiastas dela vissem as estrelas. O oficialismo mentecaptamente igualizador de hoje em dia pretende somente que eles vejam uma única, pois não é outro o significado do nome da colectividade em questão.

Parada e Resposta

Uma Ministra de fazer parar o trânsito é exemplo recomendável a qualquer sistema, mesmo que nasalempinadamente se pretenda acima desses casos folclóricos. É habitual procurar prestígio com a nomeação de atletas famosos para os elencos ministeriais, veja-se Pelé à cabeça de todos. Mas quando o currículo é suficientemente grande para abranger fotos sem paninhos quentes ou menos quentes, tal como Alejandra Benitez, corre-se o risco de adeptos e opositores à Governante virem a querer consensualmente fazer-lhe com literalidade o que a outros está reservado na forma conotativa. De resto, a sombra do Zorro é capaz, com a mediação de Zeta-Jones, de transmitir a esperança numa defensora dos oprimidos de espada em riste. E, para quem veja a fotografia completa de que o Público pudicamente reproduziu apenas parte, a perspectiva da queda da máscara que ainda ontem foi à Vasco Lourenço usada contra o PR pode bem deixar de ser acusação para se transformar em desejo...

O Método do Discurso

O Presidente Cavaco é um inadaptado. Atirou-se à Presidência da República com uma concepção minimalista das funções, para marcar a diferença em relação às turras de Eanes e Soares com os chefes de governo de sinal contrário, não falando já da precipitação da reviravolta do episódico santânico de Sampaio. Acreditou, julgo que piamente, que um apelo continuado ao consenso bastaria para o gerar, ao menos quanto a si; e produzir a estabilidade que tem por fonte da confiança, motor e chave de Economias sãs. Não percebeu que é impossível a um chefe de Estado eleito por uma metade do País contra a outra ver reconhecida a sua imparcialdade pelos perdedores. Já o devia saber, desde que apoiou Soares a um segundo mandato e, desde o apoiado aos seus seguidores, toda a Esquerda viu a acção como manobra que evitasse embaraços e humilhações da derrota anunciada. Também não entendeu que avisar contra os agravamentos da contestação e da volubilidade eleiçoeira numa altura em que as pessoas desenvolvem justas animosidades contra governações cerceadoras do que lhes fora dado, além de enfeudadas ao Estrangeiro, em vez de neutral cautela só poderia ser entendido como colaboracionismo por oposições ansiosas de cavalgar a onda e à coca da oportunidadezinha de reocupar cadeiras. As palavras do Presidente pareceriam bem brandas e inócuas, noutro contexto. Neste, exalaram parcialismo demolidor, aquele que é, afinal a essência dos votos divisivos, quer para Belém, quer para S. Bento. O problema não está, como diz e pensa, em haver eleições antecipadas. Lateja, sim, em existirem eleições, pura e simplesmente.
                                                                          O Inadaptado

Abril, Água(s) Mil

Excedido em 39 anos o prazo de validade que alguma vez tenham detido, resta-lhes a idealização absurda dos que identificam a "Idade de Ouro" com a época em que aquele, tão custosamente amealhado, começou a ser derretido sem critério, apenas para, na era dos resgates draconianos, dar um pretexto ao País dos Cravas de amar uma mitificação do País dos Cravos, atracção de natureza erótica, portanto. Primeiro vieram as flores tintas do sangue dos Combatentes Africanos traídos, agora têm os frutos, restando às primeiras a função cerimonial na solenidade das exéquias do que já foi uma Nação e do que se extinguiu como nosso.

Criaturas Sem Remorso

O Presidente da Associação da Abrilice - que não da Abrilada, como se sabe um movimento patriótico de Oitoicentos - vem, com menos honestidade que o célebre criador do Monstro, demarcar-se da Criatura que concebeu, pedindo aos seus orgãos que a regenerem, quando se sabe como os partidos duma sociedade são o estrume que a tornam fértil para a sementeira da Corrupção. Dizer que eles são essenciais ao funcionamento da Democracia só pode ser entendido como a conveniência deles para proteger os infractores que atulham os bolsos à conta do quinhão de Poder que detenham. Pensá-la como um sistema límpido ideal é erguer pateticamente o que, na melhor das hipóteses, seria a Fantasia a expediente de desculpação, pecha em que não caiu o sábio arrependido que, contudo, meteu os pés em razão do solitário amor à Ciência e não daquele de bando dirigido a carreiras próprias, como o fizeram os movimentos de capitães e aproximados oficiais do Quadro que estiveram no embrião do MFA.

O Poder do Aspirador

A Senhora Merkel está em período pré-eleitoral e a promessa maior que pode dar a uns Compatriotas materialmente satisfeitos é a revanchista ideia de ganhar Poder à custa da limitação do dos outros europeus, uma obsessão que, desde Guilherme II ao Tio Adolfo tem dominado as aspirações daquele auto-admirativo Povo. Não sendo por campanha, essa época de Primeiro de Abril alargado aos factos futuros, não se compreenderia a sentença da Chanceler, pois ninguém pode dar o que não tem e a Soberania foi há muito alienada, quer no que respeita às moedas próprias, quer aos controlos de fronteiras, quer ainda ao emprego militar, este por causa da platónica concertação, mas, muito mais, da debilidade orçamental e da ilegalização da Guerra, de modo a pouco sobejar. Aliás, inclusivamente no sentido de capacidade para garantir o Bem Comum, a autonomia em que nos tornámos já transferiu competências em cascata para os sequazes bruxelenses e bruxoleanos do Dr. Barroso. O que a Dama quer que prescindamos é da própria ficção que vai sendo a dignidade remanescente. Porque, se pretendermos realmente encontrar um derradeiro resto de Soberania, ele está na Dívida e essa, quer os Gregos, quer nós, quer todo o  pelotdos resgatados estamos prontíssimos a ceder(-lhe).

                      Mãos Dando, Recebendo, Lutando e Guardando, de Sibel Ergener