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Caldo de Cultura (VII)
Mais um almoço das quintas, mas desta vez sem Cozido. Faltou também o João Marchante. Em compensação, contámos mais uma vez com a presença do nosso estimado Bruno Oliveira Santos. O desafio continua de pé, e o prémio mantém-se. Quem levou o quê? Aceitam-se apostas.
Por amor dos Deuses
Sobre os impactes do infeliz «acordo ortográfico», vale a pena ler o excelente texto do egiptólogo José das Candeias Sales no jornal i — um dos poucos, a par do Público, d'O Diabo e d'A Bola, que ainda não adoptou a nova grafia. A verdade é que em vez da aparente evolução, este (des)acordo representa uma autêntica mutilação, não só da língua, mas também do património histórico e cultural:
«O desaparecimento ortográfico do "p" em Egipto é simultaneamente o desaparecimento da sua memória nessa palavra em português. E nada pode ser mais grave para uma entidade do antigo Egipto que a perda do seu nome ou da sua memória. Se a consoante que cai é muda, a sua queda é bastante eloquente. No âmbito do acordo é apenas um pormenor. No âmbito da milenar história e cultura egípcias é uma alteração nuclear. Simplifica-se a grafia, o que é entendido como uma "evolução" cultural, mas para "Egito" e Ptah essa evolução tem elevados custos culturais. Não deixa de ser irónico que para o mais intelectual e "linguista" dos antigos e eternos deuses egípcios o sacrilégio venha do futuro e da linguística.»
«O desaparecimento ortográfico do "p" em Egipto é simultaneamente o desaparecimento da sua memória nessa palavra em português. E nada pode ser mais grave para uma entidade do antigo Egipto que a perda do seu nome ou da sua memória. Se a consoante que cai é muda, a sua queda é bastante eloquente. No âmbito do acordo é apenas um pormenor. No âmbito da milenar história e cultura egípcias é uma alteração nuclear. Simplifica-se a grafia, o que é entendido como uma "evolução" cultural, mas para "Egito" e Ptah essa evolução tem elevados custos culturais. Não deixa de ser irónico que para o mais intelectual e "linguista" dos antigos e eternos deuses egípcios o sacrilégio venha do futuro e da linguística.»
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades
Estávamos na primeira metade da década de 90, essa Idade de Ouro portuguesa vivida à base de obras públicas e fundos comunitários. Eu era um miúdo a passear com os meus pais pelo centro de Almada. A certo ponto o meu pai parou, surpreendido, ao encontrar uma casa de penhores. Eu nunca tinha ouvido falar de tal coisa, mas ele lá me explicou, espantado por há muito tempo não encontrar estabelecimentos desse tipo. Os tempos mudaram e hoje é raro passear na rua e não encontrar uma casa de penhores ou um desses sucedâneos pós-modernos que são as lojas que «comercializam e reciclam ouro, jóias e metais preciosos». Mais uma face dessa crise que muitos já não estranham, e que teima em entranhar-se no nosso país.
O mito do Portugal livre de energia nuclear
Não consigo evitar um sorriso sempre que encontro activistas conta a energia nuclear. Dizem eles que «Portugal Nuclear, Nem Pensar!». Talvez quando olharem para este mapa durmam um pouco menos descansados. É sabido que Espanha tem várias centrais nucleares em funcionamento. O que pouca gente sabe é que uma delas está aqui bem perto de nós. É a central de Almaraz, na província de Cáceres, cuja refrigeração está a cargo do rio... Tejo. Pois é, e está a 160 km de estrada da fronteira portuguesa, o que dá cerca de 100 km em linha recta. Com dois reactores, esta central gera 9% de toda a energia produzida em Espanha. Enquanto muitos se entretêm com debates sobre um Portugal livre de energia nuclear, é bom que se lembrem que o nosso país está na mira de todos os riscos, sem tirar qualquer benefício.
Todo um Programa
Quando o que se lê não é exactamente o que se vê
Como se vê, esta sondagem é um festim para as redacções da imprensa de referência, garantindo análises, debates e avisos mais ou menos enviesados para muitas semanas. A realidade, essa, é diferente. O programa do Front National, por exemplo, não difere muito de um partido de direita conservadora (não confundir com liberal), e a sua praxis está a milhas do sensacionalismo de uma Lega Nord, que participa na coligação governamental italiana. Quanto a Marine, apesar do sonante apelido e da sigla que representa, não é exactamente um Mussolini de saias. Pelo contrário, é conhecida precisamente pela sua moderação e desejo de respeitabilidade, tendo motivado cisões e dissidências entre as alas mais radicais do partido. A esse propósito, resgato o interessante artigo publicado pelo Duarte n'O Diabo no último mês de Janeiro, que cita declarações de Marine sobre o 25 de Abril português: “Na história política de Portugal, Mário Soares teve um papel fundamental, positivo, para o fim do regime, em 1974, e na luta contra o comunismo, a seguir”. Ou ainda: “Sou democrata e respeito a soberania popular: a revolução dos cravos respondeu ao desejo da maioria dos portugueses”. É caso para perguntar onde param os fascistas. A polícia (do pensamento), essa, acho que já todos sabemos onde está.
Há noite em Lisboa
Aproveitando o modo francófilo em que este blogue se encontra (pelo menos até amanhã ao fim da tarde), introduzo um interessante artigo da revista Les Inrocks sobre a noite lisboeta e a nova música portuguesa. Resgatando-nos por alguns momentos à profunda depressão das taxas de juro para a qual fomos arrastados, não há nada como ler elogios à boémia do Bairro Alto e às novas bandas do «país das caravelas».
Incompleta trilogia
Em 2008, a Ulisseia editou «Castelos Perigosos». Em 2009, foi a vez de «Norte». São dois livros da chamada trilogia alemã de Céline, espécie de auto-retrato da louca odisseia que empreendeu pela Europa nos dias do fim da 2ª Guerra Mundial. É um relato intenso e poderoso, próprio de quem passou pelo Apocalipse e voltou para contar a história. Estamos em 2011, o ano que marca o cinquentenário da morte do doutor Destouches. Não será uma boa altura para lançar o capítulo final, «Rigodon»?
À Frente do Diabo
O João Marchante notou há alguns dias que o Duarte andava demasiado sossegado. Conhecendo nós a habitual e proverbial hiperactividade do nosso amigo, sabíamos que alguma ele andaria a tramar. Não nos enganámos: o Duarte assumiu hoje o lugar de director do semanário O Diabo.
Nas bancas há 35 anos, O Diabo é um jornal verdadeiramente independente, sem qualquer ligação aos consórcios económicos ou grupos de comunicação que dominam a imprensa em Portugal. Fundado pela mítica Vera Lagoa, este jornal é desde sempre uma voz livre, irreverente e muitas vezes incómoda. Estou certo que é neste espírito que o Duarte assume a missão de dirigir o semanário. Numa época em que os jornais se transformaram em produtos de marketing, em que a ditadura do politicamente correcto tornou reféns as ideias, tenho a certeza que o Duarte fará tudo para que O Diabo marque pela diferença, para que seja o tal jornal de «combate e cultura» sonhado pela fundadora. Desta casa desejamos-te os maiores sucessos: bom trabalho, Duarte!
Dentro do rectângulo
«A Espera é um Arame», peixe:avião.
Para não ser acusado de trazer a esta mesa apenas bandas da capital, hoje vou ao Minho buscar os peixe:avião. Provenientes de Braga, foram imediata e injustamente comparados aos Radiohead. É uma prática recorrente em Portugal, a de colar instantaneamente um rótulo às novas bandas, como se estas fossem uma réplica à escala de grandes agrupamentos internacionais. A comparação é injusta não porque o grupo de Thom Yorke deixe de ser uma excelente banda (que é, isso ninguém duvida, nem o João Marchante me deixava dizer outra coisa), mas porque os peixe:avião valem bem pelo seu próprio talento e originalidade. Quanto ao tema, faz parte do disco de estreia, «40.02», lançado em 2008. Entretanto, o ano passado, a banda voltou à carga com «Madrugada».
Patente de Corso
Enquanto o mais recente romance de Pérez-Reverte aguarda publicação em português, resta aos admiradores do escritor espanhol seguir a excelente coluna na revista XL Semanal. A crónica desta semana, «sobre violaciones y fascistas», é um texto de antologia dedicado àquelas palavras ou expressões que, de tanto usadas, abusadas e mutiladas, acabam esvaziadas do seu sentido original e exacto. É o caso da palavra fascista, que «la necesidad, a falta de coherencia ideológica propia, de poner etiquetas al adversario, hace que ahora se aplique a cualquier persona o situación que se aparte, no ya de una posición de izquierda, sino de lo social y políticamente correcto, e incluso de la más fresca tontería de moda». Nem de propósito, ainda hoje no nosso almoço falámos deste fenómeno.
Acabadinho de sair
«Senhora do Monte», Os Velhos.
É verdade que Os Velhos têm temas melhores, mas este é o primeiro teledisco da banda mais lisboeta de Portugal. Como já é hábito nas produções da Amor Fúria, o vídeo baseia-se uma ideia simples, e apesar de não envolver grandes recursos é montado com extremo cuidado e atenção. Depois do excelente EP editado em 2009, a banda está a ultimar o primeiro disco de longa duração, do qual é extraída esta «Senhora do Monte». Com lançamento previsto para Abril, o novo registo ainda não tem título. As expectativas, essas, estão em alta.
Do Convento para o Cabaret
Katy Perry nasceu Katheryn Elizabeth Hudson, filha de mãe luso-descendente. Mais interessante que isso, os pais de Katy Perry são ambos pastores evangélicos. Foi assim que a jovem Katheryn se iniciou, entre cânticos da igreja e acampamentos cristãos. Em 2001, com 17 anos e assinando como Katy Hudson, lançou um álbum homónimo que misturava rock cristão com gospel. O disco não conheceu grande sucesso comercial, tendo a editora encerrado pouco depois do lançamento, mas uma revista evangélica elogiou o registo e anunciou que Katy chegaria longe no mundo da música. A profecia haveria de cumprir-se. Em 2007, a jovem assinou contrato com a major CMG, mudando o nome artístico para Katy Perry. A editora encarregou-se de transformar a artista cristã em ícone de massas. Mesmo assim, parece que ainda sobra algo das suas raízes. No pulso esquerdo, Katy Perry tem uma tatuagem com a palavra Jesus.
Do nascimento da América para o discurso do Rei
Recentemente, Tom Hooper foi catapultado para as páginas dos jornais graças à realização de The King's Speech, um filme que tem conquistado grande êxito comercial e mediático, tendo obtido três nomeações para os Óscares (uma das quais para a categoria de melhor realização). No entanto, Tom Hooper está longe de ser um desconhecido. Em 2008, este britânico foi o responsável por John Adams, uma excelente mini-série de sete episódios produzida pela HBO. Esta produção, que tem como pano de fundo o percurso pessoal e político de um dos founding fathers e segundo presidente dos Estados Unidos da América, aproveita para debruçar-se sobre a fundação do país e os princípios e contradições que lhe deram origem. Apesar de ser um trabalho de ficção com algumas incorrecções históricas, esta mini-série é imprescindível para quem procura conhecer mais sobre os EUA, já que é na génese do país que se encontram grande parte das ideias que continuam a orientar a política norte-americana.
Comboios
«Pra quem quer», Márcia.
Gosto de comboios. Habituei-me a esse tipo de viagens em miúdo, a bordo dos intercidades. Hoje em dia mantenho esse fascínio especial por comboios, sendo um cliente habitual de várias linhas. O tema da Márcia — mais um talento da nova música portuguesa — vale por si, mas confesso que este teledisco tem para mim um gosto especial, desvendando um percurso que consigo refazer de olhos fechados.
Bibliocausto
Cruzei-me há dias numa loja com este livro, na versão original, em inglês. A edição que tenho, em português, foi publicada pela Livros do Brasil, enquadrada na colecção Argonauta, e para além de já não se encontrar com facilidade, está repleta de gralhas e erros grosseiros de tradução.
Edição emblemática da ficção científica, «Fahrenheit 451» é uma das obras de referência para qualquer bibliófilo, apresentando uma distopia em que os livros são proibidos e os seus possuidores enviados para o manicómio. Nesta realidade, adaptada por François Truffaut ao cinema em 1966 num filme homónimo que ganhou grande culto, a função dos bombeiros é incendiar os livros apreendidos. Daí o título, que remete para a temperatura a que arde o papel.
Com um remake do filme previsto para 2012, e ainda por cima num tempo em que se voltam a confiscar livros e prender livreiros, nada faz mais sentido que uma nova edição portuguesa (revista, se possível) desta obra essencial.
O Ponto de Partida
«Supersticioso», Os Pontos Negros.
Este vídeo é assim uma espécie de ponto de partida do novo rock (em) português. Não que não houvesse bom rock antes, mas foi mais ou menos neste momento que se formou essa vaga de fundo que colocou finalmente as grandes rádios a cantar em português. Na altura deste vídeo, em 2008, Os Pontos Negros não tinham ainda lançado o seu primeiro disco, e o single «Conto de Fadas de Sintra a Lisboa» começava a rodar em algumas estações. Curiosamente, aparecem nas imagens dois penetras que ainda iriam dar que falar: Manuel Fúria (de t-shirt dos Iron Maiden), o frontman d'Os Golpes, e Samuel Úria (na pandeireta), esse gigante cantautor. Mesmo assim, o mais simbólico no meio de tudo isto é a música, um tema dos inesquecíveis Heróis do Mar, que muitos de certo reconhecerão.
Jornalismo Turístico
Assim vai o nosso jornalismo. Este texto de Paulo Moura é um excelente retrato do espírito que tomou conta do Ocidente nas últimas décadas. Escrita muito provavelmente no lobby climatizado de um hotel do Cairo, entre um ou outro mojito, esta aventura tem o mesmo tom que muitos utilizam para fazer os filhos comer a sopa, relatando-nos um checkpoint com «dezenas de homens armados com paus e olhares a raiar a demência». Os bandidos revistaram até o iPhone do jornalista (certamente um aparelho da última geração), onde, para além de uma fotografia do filho, só encontraram alguns retratos «de um pastor da serra da Estrela que entrevistei há um mês». Ao ler esta suposta reportagem, é impossível não recordar o escritor Arturo Pérez-Reverte que, entre 1973 e 1994, percorreu inúmeros conflitos armados enquanto repórter de guerra. Em 1977, na Eritreia, esteve desaparecido durante vários meses e chegou a ser dado como morto, tendo sido obrigado a pegar em armas para sobreviver. A esse propósito, Reverte afirma que «adquirimos um hábito perigoso: acreditar que o mundo é o que nos mostram os folhetos de viagens; que se pode viajar de forma segura por ele, que temos direito a ele, e que Governos e instituições devem garanti-lo, ou resolver a peripécia quando o coronel Tapioca parte os cornos». O contraste não podia ser maior. É caso para dizer que já não se fazem repórteres como antigamente.
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