Fim de Império
Jornalismo de referência
O ignóbil trapo
Fernando Pessoa
Heróis da piscina, nobre povo
A Carta Olímpica e a extrema-direita
Pega de automóveis
Caldo de Cultura (XXII)
Almoçaram ontem os jovens Bruno Oliveira Santos e João Marchante, acompanhados de Francisco Cabral de Moncada. Os três abancaram num restaurante do Campo Pequeno, por motivos gastronómicos e políticos. A comida é boa e, nos tempos que correm, para enfrentar os animais da governação, só mesmo na arena de pampilho em punho, para varejar cornúpetos e outros democratas. Quem levou o quê?Houellebecq: "O Mapa e o Território"
"O Mapa e o Território", que chegou há semanas aos escaparates portugueses, editado pela Alfaguara, com tradução de Pedro Tamen, veio revoltear esse entendimento simplista. O quinto romance de Houellebecq venceu o Goncourt, o mais importante prémio literário francês, e parece ter fixado definitivamente o autor como um romancista fundamental do nosso tempo. Com toda a justiça, diga-se.
Michel Houellebecq é um escritor pessimista e desencantado, reaccionário até, que expõe a profunda solidão do homem actual, no quadro de um sistema político e económico risível. À sua maneira, escreve uma revolta contra o mundo moderno. As suas tiradas mais obscenas confundiram a crítica pouco especializada. Houellebecq pertence a uma raça de prosadores franceses que, na linha de Barbey d’Aurevilly, pensam como Joseph de Maistre e escrevem como o Marquês de Sade. É de ler agora, antes que seja tarde.
Natal Up-To-Date
Na filial do Banco erigiu-se um Presépio
Todos estes pastores são jovens tecnocratas
que usarão dominó já na próxima década
Chega o rei do petróleo a fingir de Rei Mago
Chega o rei do barulho e conserva-se mudo
enquanto se não sabe ao certo o resultado
dos que vêm sondar a reacção do público
Nas palhas do curral ocultam-se microfones
O lajedo em redor é de pedras da lua
Rainhas de beleza hão-de vir de helicóptero
e é provável até que se apresentem nuas
Eis que surge do céu a estrela prometida
Mas é para apontar mais um supermercado
onde se vende pão já transformado em cinza
para que o ritual seja muito mais rápido
Assim a noite passa e passa tão depressa
que a meia-noite em vós nem se demora um pouco
Só Jesus no entanto é que não comparece
Só Jesus afinal não quer nada convosco
David Mourão-Ferreira
A biografia de Luiz Pacheco
A biografia dada à estampa por João Pedro George é um calhamaço de 600 páginas, um documento fundamental para conhecer o autor libertino e abjeccionista. Asmático, bissexual, senhor de uma vida desregrada, alimentou carinhosamente o enfisema pulmonar com cigarros cravados. Sofreu ademais de angina de peito, eczema, sífilis, úlceras e por vezes subnutrição, para além de deficiências hormonais e glandulares. Como o próprio reconhecia, a ter de recolher a clínica especializada, forçoso seria que o internassem ao mesmo tempo aí numas dez! Pedinchão e inconveniente, esteve preso duas ou três vezes. Pícaro e meio vagabundo, de poiso incerto e rendas por pagar, andou de hospital em hospital para tratar o alcoolismo e de clínica psiquiátrica em clínica psiquiátrica para consertar a maluqueira. Tentou "ser feliz neste mundo, sem os atavios dos electrodomésticos, dos popós, da fortuna, da vida airada". Míope de 17 dioptrias, usava uns óculos-fundo-de-garrafa e vestia o que calhava, consoante as ofertas de amigos e conhecidos. Nos bolsos trazia de tudo: aspirinas, bombas da asma, restos de comida, papéis — uma lixeirada bastante para certificar a fama de excêntrico.
Fora do sistema, de qualquer sistema, gozou que nem um preto com os videirinhos que buscavam a consagração. Demonstrou com provas irrefutáveis que Fernando Namora, no romance Domingo à tarde (1961), tinha plagiado Vergílio Ferreira, ante o escândalo do Baptista-Bastos e dos outros marmelos do neo-realismo.
Vale a pena ler Pacheco porque a sua prosa expõe com meridiana clareza um meio literário constituído por "padrinhos" e "amigalhaços", e dominado pela máfia cultural de esquerda. A partir dos anos 50, em pleno Estado Novo, a esquerda tomou conta dos jornais, das editoras, dos prémios e da "fabricação da fama e do prestígio" (p. 159). Por esses tempos, já Pacheco denunciava a "censura do compadrio", tão má ou pior do que a oficial.
Em plena revolução, foi para o Largo do Carmo de pijama e chinelos. No texto "O meu 25 de Abril" deixa-nos desse dia um relato bem diferente dos que aparecem nas reportagens ou nos discursos comemorativos — uma população assaltada pelo pânico, a açambarcar bens de primeira necessidade e a fechar-se em casa, de estores cerrados: "Já vejo lojas fechadas, outras a fechar à pressa e uma data de tontos a abastecerem-se para o ano todo […] Venho a pé até às portas de Bemfica e o ambiente é o mesmo: fila de carros a safarem-se, o comércio encerrado, mulheres com sacos de plástico cheios, tensão […] Um tipo ao meu lado compra 8 maços de Português Suave".
Sem qualquer espanto, assiste à "grande correria à promoção, aos tachos" e antevê o resto da fita com lucidez: "O que vamos ter é uma animação mais viva (no disparate, na violência, no desplante)". Talvez por tudo isto chega a declarar bons lustros depois que "o 25 de Abril não foi importante".
Sarcástico, de prosa viva, com um estilo próprio e sentido de humor, Pacheco é uma bofetada literária — ao menos literária... — em quantos rafeiros ainda agora andam por aí a armar aos cucos sem um pingo do seu talento.
Bem acompanhados
Agora não! A troika vem sempre visitar-nos de três em três meses.
Um acordo óptimo
Agora, agarrem-se bem: num dicionário global da língua portuguesa, óptimo figurará apenas como variante legítima do português do Brasil.
É impressão minha, ou estes gajos passaram-se de vez?
Uma biografia infamante
A obra tardou umas décadas, mas chegou. Levou tempo o escriba a mudar de vestimenta. Teve de desajoujar-se dos paramentos de gestor, e de buscar novo preparo nas alfurjas da historiografia politizada. Vem de biógrafo, doublé de historiador e novelista — e vamos lá que lhe assenta a matar.
José Agostinho tinha dois ódios de estimação: a seita pedreiral (maçonaria) e os malhados (liberais). Já Mega parece manter um só ódio, grande e entranhado, ao pregador régio. Ele próprio, já quase no fim de esguichar as sentenças odiosas, reconhece o seu "parti-pris em relação a Macedo" (p. 307). O padre escapou à Inquisição; ao cabo de 200 anos não consegue fugir dos tratos de polé do torcionário Mega.
Para redigir o destampatório, diz o autor que mergulhou no "conturbadíssimo reinado de D. João V" e fez-se "liberal, constituinte, depois cartista". Confessa com apreciável franqueza que só não conseguiu colocar-se na "pele do miguelismo, que é absurdo político e inanidade moral" (p. 13). Diz que era em tascas que se reunia "a canalha miguelista" (p. 276). Com profundos complexos de plebeu, grafa o nome inteiro de D. Miguel por zombaria: "desculpem, mas não resisti a dar-lhe o nome completo…", explica na página 264, esquecido de que o mano Pedro, de que ele tanto gosta, ostentava um nome igual de extenso.
De qualquer modo, este método de catar as impurezas privadas tem os seus méritos. Aplicado aos dias que correm, serviria para sarjar fundamente as carnes destes desgraçados da III República, que forcejam — eles, sim — na incoerência e na roubalheira.
Apesar do esforço de Mega, o padre José Agostinho de Macedo continua a ser um polemista de mão cheia, à antiga portuguesa, do tempo das velhas pelejas políticas e literárias, antes dos totós terem descoberto as virtudes do diálogo, do consenso e das palmadinhas nas costas. Várias obras do verrinoso Macedo merecem ser hoje lidas e relidas: desde logo, o seu sermonário, sobretudo o Sermão sobre a Verdade da Religião Católica e o Sermão do Primeiro Domingo do Advento, mas também as Cartas Filosóficas a Attico, os 4 volumes do Motim Literário, algumas páginas políticas e o conteúdo infrene de A Besta Esfolada.
Da obra do Mega ninguém dirá o mesmo daqui por uns anos.
A vergonha de ser português
O terrorista sem atenuantes
Ainda não percebi por que a imprensa vislumbrou no atentado do maçon de Oslo um molho de razões para denegrir os movimentos ascendentes do nacionalismo e da extrema-direita. Anoto, porém, uma conclusão óbvia: as "perigosas generalizações" que nos dizem para evitar quando os criminosos professam o islamismo parece que já se podem gastar à tripa-forra sempre que os autores são cristãos. Português inteiro
O português é riquíssimo. Isso de não há palavras que descrevam é muleta de quantos ignoram o manancial da língua. O velho rifão que assegura valer mais uma imagem do que mil palavras tem, à certa certeza, raiz estrangeira. Em português podem às vezes as palavras, desde que bem emparelhadas, valer mais do que qualquer figura, ainda que retocada no Photoshop.
Escrevo este postal depois de saber que os calistos elóis e as ifigénias do ministério dispensaram Camilo Castelo Branco dos programas escolares. Mau aluno do mestre de S. Miguel de Seide, lamento e protesto. Sem Bernardes ou Camilo, sem Aquilino ou Tomás de Figueiredo, fica o português entregue aos gabirus de extracção moderna, nobelitados ou por nobelitar. Uma tristeza pegada.
Ensino e Educação em Portugal
Ter escrito sobre o tema em postal recente obriga-me a deixar estas notas. A análise completa da matéria pediria hoje menos a pena barbelada de Verney do que um computador de memória bastante para arquivar tanto disparate.
Foi moda a Educação ser o amor confesso dos governantes deste regime. Ora quando estes se empenham a fundo e em cheio no renascimento do que quer que seja, o mais certo é que liquidem de vez o objecto dos seus interesses. Nem os frontispícios escapam. Inchados de progressismo, apagaram o belo e aristotélico nome de liceu para riscar o país de escolas secundárias e, logo a seguir, escolas C+S E.B 2.3 — por um triz não incluíram raízes quadradas na denominação dos novos estabelecimentos.
Avultaram os «cientistas da educação», lidos em Glasersfeld. A ignorância alastrou e a indisciplina tomou conta das salas. Fixou-se como objectivo do ensino obrigatório ensinar a contar até dez pelos dedos — ou com recurso a calculadora. Os programas foram convenientemente politizados para produzir gerações de jovenzinhos republicanos, socialistas e laicos.
Aboliu-se entretanto a instrução clássica — e instituiu-se a educação moderna, com aquisição de competências e ciência a frouxo. O resultado está visto. Perdeu-se uma e não se ganhou a outra — se os alunos desconhecem a Filosofia, o Latim e até o Português, nem por isso dominam a Física, a Química ou a Biologia.
O nível de exigência é rasteiro. Nada de exames: parece que prejudicam o desenvolvimento cognitivo e podem fazer mal aos miolos e mais partes dos rapazes esfalfados. Nem memória, porque o decorar brutifica; nem leitura nem reflexão, porque a matéria só tem que entrar pelos ouvidos; nem o manejar linguagem com ideias nem ideias com linguagem.
Vejo o modo como os adolescentes se correspondem com mensagens de telemóvel, em código macacóide, e pressinto que a próxima geração já cresça com as patas da frente no solo. (Alguns de agora já ensaiam a rabiscar paredes.) O Vargas Llosa queixou-se do mesmo aqui há semanas. Mas os tratos de polé à língua materna vão dar-me outro postal.
O novo governo
Os comentadores, à esquerda e à direita, já apalparam os novos ministros, escabichando-os com a gula de quem esvazia pernas de lagosta. Puseram a nu parentelas ignotas e hábitos desconhecidos. O costume. Não quero estender-me por aí.
Uma coisa devo confessar, porém. Anunciados os governantes, entrou de me luzir logo o nome de dois ou três deles. Sim, há dois ou três que, há pouco, fui acolchetando na minha admiração íntima. Um caso raro nestas fornadas sucessivas de cavalgaduras que a república tem alimentado com forragem e feno do orçamento de Estado.
Há dois ou três (milagre!) que se não autolegitimam pelo antifascismo e que são até acusados de inexperientes por não terem alinhado, ao largo de 40 anos bem puxados, nas mais disparatadas ideias socialistas e marxistas.
Nuno Crato tem catado as palermices e os vícios da Educação em Portugal, numa observância perscrutadora. Em obras como O «Eduquês» em Discurso Directo (Gradiva, Lisboa, 2006) denuncia certeiramente a influência nefasta das tretas pedagógicas e construtivistas: as teorias românticas, o "ensino centrado no aluno" (e que se limita a ensinar as matérias de que as crianças gostam), a auto-aprendizagem, o laxismo, a desvalorização do conhecimento em favor da aquisição de «competências». Com tais ideias espúrias, pretendiam decerto os "cientistas da educação" que as crianças viessem das escolas com o cérebro pingue, como quem sai de uma ceva. Pelo contrário, conduziram os alunos à ignorância e ao analfabetismo. Querer hoje que os alunos dominem a língua materna é pelos modos atestado de caturreira de reaccionário, de gramaticão embrulhado no chambre caricatural do Tolentino. Possa o novo ministro acudir ao desastre com as ideias claras que defendeu publicamente nos últimos anos.
O novo governo junta na mesma pasta a Agricultura e o Ambiente.
Sem papas na língua nem receio de meter-se em fofas, Santos Pereira afoita-se na explicação do desastre: «(…) efectuámos uma descolonização que poucos beneficiou e muitos prejudicou (inclusive os novos países independentes), e tivemos de suportar os exageros revolucionários de uma minoria que ambicionava instaurar um novo regime autoritário (agora de ideologia comunista ou socialista) no nosso país.» (ob. cit., p. 30)
Sobre a política do camartelo e betão, assevera ele em tom crítico: «Tudo o que é passível de ser inaugurado é bem-vindo pelos novos fontistas. Quando se pretende a modernização da economia nacional, constroem-se auto-estradas e mais auto-estradas.» (ob. cit., p. 46) E acerca da regionalização, estatui: «(…) só vai criar mais burocracia, mais compadrio, mais clientelismo, mais favorecimentos pessoais, e ainda mais Estado num Estado já demasiado pesado e omnipresente.» (ob. cit., p. 522)
É dos poucos economistas que se preocupam com o declínio da natalidade, propondo incentivos e medidas sérias para inverter a tendência. Não é meu correligionário, isso não. Mantenho uma distância profiláctica em relação às suas propostas sobre imigração e outros assuntos, mas é um tipo desempoeirado, bem escovado do pó dos estatismos, sem currículo antifascista e a quem reconheço algum mérito.
Há, pois, no novo governo dois ou três titulares a quem posso apertar a mão, apesar das divergências. Pode ser que a mudança signifique o fim de carreira para aqueles progressistas assanhados que, há 40 anos, com assinalável sacrifício pessoal, vieram da Rive Gauche para nos "desenvolver" e "democratizar" — e nos deixaram falidos e mal pagos. Só isto, na hora negra que passa, já é de celebrar.
10 de Junho
Catilina, e vós outros dos antigos
Que contra vossas pátrias, com profano
Coração, vos fizestes inimigos:
Se lá no reino escuro de Sumano
Receberdes gravíssimos castigos,
Dizei-lhe que também dos Portugueses
Alguns traidores houve algumas vezes.»
Ali pela segunda metade do século XVI, Camões ainda não tinha visto nada. Hoje os traidores são a regra, inchados ademais de legitimidade democrática. O problema actual, todavia, é menos o dos traidores que o do próprio regime. Como se disse (e bem) na pretérita campanha eleitoral, não se pode esperar que os homens que nos mergulharam na crise nos façam emergir dela. Mas do mesmo passo, também não se alcança como o sistema que nos conduziu à bancarrota nos possa trazer agora a prosperidade. Os regimes, às vezes, nascem risonhos e vão com o andar do tempo entristecendo. Mas não há nenhum que, nascendo torto, se endireite.















