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Fim de Império



Apepinado pelos abrileiros, o romance histórico volta a estar na moda. Nos últimos lustros, o género foi cultivado com talento entre nós por autores como João Aguiar, Fernando Campos, Mário Cláudio, Sérgio Luís de Carvalho, António Cândido Franco, Mendo Castro Henriques, o próprio Mário de Carvalho. Depois deles é Jaime Nogueira Pinto (JNP) quem atima o exercício exigente. Assinalado já como cronista e professor universitário, ensaia-se agora romancista de fôlego. Novembro cumpre a função primeira do seu género literário: juntar ao prazer da leitura a transmissão do conhecimento histórico. 

Em O Império dos Pardais, editado em 2008, João Paulo Oliveira e Costa resgatou num registo próprio o orgulho português do Império, fez à sua maneira as pazes com a história tão denegrida do Portugal ultramarino, d'aquém e d'além-Mar, do século XV até à era dos campeões da democracia e da libertação dos povos. Nesse livro curioso e imaginativo, o autor oferece-nos um enredo de espionagem, crime e sexo no período dos Descobrimentos. JNP, por seu lado, dá-nos a perspectiva do fim da aventura, o fim do Império, quando por descobrir só os podres e as derradeiras traições – a contracapa esfarelada de um livro de cinco séculos. E fá-lo apoiado na própria experiência pessoal, a de antigo militante nacionalista que se voluntariou para África, sem cobrar medo, optando por viver perigosamente, o que entre nós é pouco habitual.

Um romance fascinante

Novembro é um romance fascinante, de extrema habilidade na construção e na escrita. Há personagens riquíssimas de saber e interioridade, outras bem caçadas pela mira do romancista. É o caso de Carlinhos Pestana, o infalível nazi de todos os grupos nacionalistas, que detestava Chopin ("Um polaco?! Como é que vocês gostam de um polaco?! Wagner, ponham Wagner, o‘Rienzi’, o ‘Navio-Fantasma’,isso é que é música!", p. 32), sabia de cor os nomes das divisões das Waffen SS e gostava de discorrer sobre o incentivo ao exercício físico no Terceiro Reich e a vida sexual de Hitler. Um daqueles para quem a História acabou com a tomada de Berlim pelos soviéticos.
 
A trama decorre entre o Verão de 1973 e o Outono de 1975. Depois da entrega de Angola, a 11 de Novembro, deu-se o 25 de Novembro. Empandeirado o Império, o rectângulo já podia entrar na ordem e na democracia. E com esta viria o desenvolvimento: assim havia quem o jurasse entre pessoas gradas pelo alfabeto e pela gravata. Era decerto ingenuidade lorpa ou mero ensaio para acalmar o vulgacho desaustinado. O pouco que se desenvolveu foi uma democracia de siglas, do MFA ao FMI, que começou de pôr os portugueses a reivindicar de mão fechada e os prostrou no fim a pedir de mão estendida.

A obra afigura-se importante porque nos dá a perspectiva da época vista do nacionalismo revolucionário ou da direita nacionalista (chamem-lhe o que quiserem). E daí incomum, uma vez que em Portugal é sempre a esquerda quem conta a história, a oficial e a de ficção, escreve as notícias, distribui as classificações, lança os foguetes e apanha as canas. E por isso, como o próprio JNP já referiu noutros trabalhos, as ideias dominantes sobre o nacionalismo e a direita vêm da esquerda e reflectem a visão esquerdista da vida e do mundo.

Hemiplégico, o novo regime nasceu paralisado da direita e, para se dar ares de pluralista, é forçado a chamar direita ao centro e às vezes ao centro-esquerda. De leitura obrigatória, pois, este romance de JNP sobre uma geração que, à direita, também viveu as suas utopias, os seus arremedos de clandestinidade, antes e depois do 25 de Abril, o combate político, o exílio, também criticou o regime anterior e foi vítima da censura, evitando porém a chorinquice da esquerda mais piegas. Uma geração que combateu nas ruas e nas universidades, que interveio no debate de ideias, fez amizades, apaixonou-se e ousou sonhos de aventura e revolução. A esses homens e mulheres, o que os separava dos radicais de sinal contrário era o nacionalismo esturrado, o pessimismo antropológico, o direito à diferença contra a obsessão igualitária, o repúdio do economicismo – e a defesa intransigente do Ultramar.

Mas o Império se desfez sem cumprir-se Portugal. Uns mantiveram-se de pé no meio de um mundo em ruínas, fiéis aos valores de sempre, exilados do interior; outros, mais arejados de ideias, trataram de fazer pela vidinha e breve descobriram as vantagens do regime nascente. De qualquer idiota formou-se um democrata de improviso. O costume nas revoluções. Felizmente, o livro não vai além de 26 de Novembro. Evita os cata-ventos e, à sua maneira, rende preito a essa forma superior de amizade que é a camaradagem.


 
Eduardo e Diana

Há nas principais personagens masculinas do romance alguma coisa do autor, o que poderá ser dissecado pelos críticos minuciosos. Mas o que no livro mais surpreende de beleza e astúcia narrativa é o relato de Eduardo e Diana, um dos mais belos pares da ficção portuguesa contemporânea. A história de Eduardo e Diana, admiravelmente narrada, convoca o leitor, a súbitas, para o universo de Brasillach, com René e Florence entre o amor, as viagens e a guerra, ou com Patrice e Catherine nas suas conversas sobre literatura e cinema, ou até para o Je vous écris d’Italie, de Michel Déon, também pela guerra, mais a visão de Stendhal e o itinerário de um homem fascinado pela História e por uma mulher.

Só não é de citar o casal Gilles e Pauline, de Pierre Drieu la Rochelle, porque a argelina encontra mais o seu símile na Alice de Novembro, africana também, descarada e selvagem como ela, ambas vestindo-se sem gosto: "Abusas da crioula, dá-te gozo comê-la… ah, mas eu gosto! Sou tão tarada e desavergonhada como tu!" (p. 222)

Tal como o par de Comme le temps passe, Eduardo e Diana são dois seres que podem procurar-se, perder-se, encontrar-se, sem nunca deixarem de ser feitos um para o outro. De antologia o episódio em Madrid, debaixo do Arco de Cuchilleros, no topo das escadas seiscentistas que sobem para a Plaza Mayor, nesse instante convertidas em varanda dos Capuletos. Ou aqueloutro no Mesón Rias Bajas, num quadro de beijos na boca, conversas sobre a guerra, a honra, o nacionalismo revolucionário, e mãos por dentro da blusa dela, como brincando às escondidas com o empregado gorducho, de casaco branco e sotaque galego.

O dilema corneiliano

O trio Eduardo-João-Diana lembra longinquamente o triângulo formado por Régis, Michel e Anne-Marie no Les Deux Étendards.Como Régis no romance de Rebatet, também Eduardo se confronta com o dilema corneiliano entre a vida amorosa e a via heróica. Quando Diana lhe pergunta em Madrid onde iria estar ele daí por uma semana, responde decidido: "Volto para Angola, disse ao meu comandante que voltava […] Não quero desertar nem trair as minhas lealdades." (p. 476) E, todavia, era o mesmo apaixonado que a queria mais do que tudo na vida: "mais do que à Pátria, mais que à família, mais que às ideias, mais que à honra, mais que aos seus amigos e camaradas." (p.486)

Enfermidades

Mas no melhor pano cai a nódoa. A narrativa demasia-se em jantares de luxo, uísques, mexeriquices de banqueiros, tios e tias – e apresenta outros aleijões burgueses. A obra parece ter sido executada sem pretensões literárias, um pouco ao fluir da pena (agora decerto electrónica). Ao autor, porque culto e lido em bons romancistas, exigia-se um texto final mais de acordo com a sua capacidade.

Entre outras enfermidades do estilo, topam-se o uso recorrente da palavra coisa para designar situações que mereciam precisão descritiva, e da palavra muito antes do adjectivo, sinal de que este não foi bem escolhido ou que é fruste, e ainda o recurso abundoso a verbos inexpressivos e gastos. Entre estes avultam o que as gramáticas classificam de auxiliares, como ser, ter e estar. De alguns passos pouco merecedores de traslado, citam-se estes: "E tinham aproximado as cabeças e as bocas sôfregas. A dela sabia a uma especiaria qualquer. Tinham ficado assim por minutos, vencendo abismos de solidão e culpa. ‘Henrique, vamos embora! Leve-me para um sítio qualquer! Quero estar consigo. Agora.’ Fora a primeira vez que estivera com uma mulher desde a morte da Isabelinha." (p. 258); "Em Coimbra, o Baluarte e a Comédia também tinham sido invadidos e saqueados e o Miguel Cunha e o miúdo Pires tinham ido dentro […] No Porto também tinham sido detidos militantes."(p. 280); "A culpa não é tua, a culpa é minha que não tenho tentado compreender-te, ajudar-te. Tenho vindo ver-te mas não tenho estado aqui de corpo e alma. É essa a verdade. Tenho estado longe […] Sabes, João, há uma coisa que tinha resolvido não te dizer […]"(p. 391)

E ainda este, por derradeiro: "Dissera-lhe o primo Artur, que era do PPD, que era preciso irem todos ao comício do Mário Soares na Fonte Luminosa." (p. 525) A frase, já de seu natural rançada pela menção a Soares, folgava mais sem a repetição do verbo. Os méritos de um prosador, por muito que se encareçam, não vencem o tédio e a insulsez destes vícios do estilo. Fosse outro o autor e não haveria lugar a reparo. De JNP, porém, esperava-se ao menos uma revisão mais cuidada.

Um grande livro

Seja como for, Novembro é um grande livro. Uma viagem de memórias, um regresso desencantado mas lúcido, com alguma nostalgia, ao tempo de uma geração convocada ao combate e ao sacrifício – e que sobreviveu à própria Pátria.

"Acho que perdemos todos", diz Eduardo ao taxista na última página do livro. Tem o rapaz carradinhas de razão. Perdemos todos e, se calhar, perdemos tudo.

[Novembro, Jaime Nogueira Pinto, A Esfera dos Livros, Lisboa, 637 págs., 2012] 







Jornalismo de referência


Num dos suplementos do Expresso de hoje, o filólogo brasileiro Evanildo Bechara, que desatrema no acordismo, diz que "Fernando Pessoa não aderiu à Reforma de 1945". Não aderiu nem deixou de aderir: morrera dez anos antes. O que Pessoa nunca aceitou em vida foi a reforma ortográfica de 1911. Mas o desatino foi impresso assim mesmo, sem pudor do académico nem emenda do entrevistador.

O ignóbil trapo



«E o regime está, na verdade, expresso naquele ignóbil trapo que, imposto por uma reduzidíssima minoria de esfarrapados morais, nos serve de bandeira nacional – trapo contrário à heráldica e à estética porque duas cores se justapõem sem intervenção de um metal e porque é a mais feia coisa que se pode inventar em cor. Está ali contudo a alma do republicanismo português – o encarnado do sangue que derramaram e fizeram derramar, o verde da erva de que por direito mental devem alimentar-se.»

Fernando Pessoa

Heróis da piscina, nobre povo


Se Michael Phelps fosse português (género Obikwelu, versão caucasiana), existiriam por cá ruas Michael Phelps, avenidas Michael Phelps e alamedas Michael Phelps, para além de praças, esplanadas, auditórios, bibliotecas, cine-teatros, hospitais, ginásios, escolas, pontes e até centros comerciais (sob a marca registada "Phelpshopping").
Em postais distintos, os bloguistas lusos esfregariam nas ventas da troika as vitórias do campeão como prova irrefutável do acerto português e da superioridade de Keynes.
O Presidente da República ver-se-ia obrigado a contratar mais um assessor de imprensa, por coincidência primo do actual, só para escrever os comunicados laudatórios. E em cada 10 de Junho seria já o próprio Phelps a impor as comendas de mérito nos pescoços derreados de tanto mourejador pela Pátria.
Os jornais divulgariam, com indisfarçável incómodo, os escândalos da Fundação Michael Phelps, tomada de videirinhos e comissários políticos. As revistas esquadrinhariam a intimidade do nadador – e Lili Caneças, campeã olímpica da vida cor-de-rosa, viria em socorro do atleta com sentença aforística: «Viver a nadar é o contrário de morrer afogado».
Por força da popularidade crescente, o atleta figuraria no cartaz dos carnavais de Ovar ou Torres Vedras, de bóia e braçadeiras em cima de um carro de lavoura, como rei do corso.  
Um grupo de intelectuais, sempre a farejar o "desenvolvimento" e o "progresso", exigiria em manifesto um tanque de 50 metros por cada freguesia como novo "desígnio nacional".
No parlamento, uma comissão de especialistas discutiria, com ar solene e solerte, a mudança da própria bandeira: em lugar da esfera armilar, uma piscina olímpica; em vez das 5 quinas, 8 pistas de natação.
Em séculos de história marítima, nadaríamos assim do herói de elmo e espada para o herói de calção e touca de banho. O progresso é acalorado, meus amigos. Não suporta armaduras nem roupa apertada.

A Carta Olímpica e a extrema-direita

A remadora alemã Nadja Drygalla, após uma reunião com o Comité Olímpico da Alemanha, abandonou a aldeia olímpica depois de a imprensa do seu país ter noticiado que o namorado é militante da extrema-direita. Parece que a ideologia do rapaz põe em causa o compromisso da atleta com a Carta Olímpica. 
Nadja Drygalla

Em 1936 os Jogos Olímpicos realizaram-se em Berlim, capital da Alemanha nazi de Adolf Hitler. Já havia Carta Olímpica, porventura em versão nem corrigida nem aumentada. Pela primeira vez a tocha saiu de Atenas para a sede da competição. A chama viajou durante 11 dias até chegar ao estádio de Berlim. Na cerimónia de abertura, Hitler recebeu das mãos de Spyridon Louis, campeão grego da maratona dos Jogos de 1896, um ramo de oliveira colhido em Olímpia.  
Hitler e Spyridon Louis

Os jogos berlinenses ficaram marcados pelas técnicas inovadoras de Leni Riefen­stahl, o escândalo de Dora Ratjen (a lembrar as mulheres-homens de hoje) e os mitos sobre Jesse Owens. Ao contrário do que costuma ser difundido pela "imprensa de referência", as quatro medalhas de ouro conquistadas pelo atleta norte-americano não causaram o menor engulho ao chanceler alemão. É o próprio Owens quem o confirma na sua autobiografia: "Quando passei pela tribuna do chanceler [Hitler], ele levantou-se e acenou-me com a mão" (The Jesse Owens Story, 1970).
Após os Jogos, Jesse Owens andou mesmo em tournée pela Alemanha, recebido e homenageado em diversas cidades. Fartou-se de dar autógrafos. Mal recebido foi ele no seu próprio país, obrigado a viajar nos bancos traseiros dos autocarros, que os da frente destinavam-se exclusivamente a brancos. Queixava-se Owens que não teve direito a convite para a Casa Branca. Pensava, decerto por ingenuidade, que o edifício fora crismado desse feitio só por causa da cor das paredes. Owens era preto, neto de escravos, considerado impuro para estender a mão ao democrático Franklin D. Roosevelt, que em véspera de eleições não queria ferir as susceptibilidades raciais dos eleitores sulistas.
Long aconselha Owens em pleno Estádio Olímpico
A forma como Owens conquistou a medalha de ouro na prova de salto em comprimento merece ser contada. Durante a prova de qualificação, o alemão Luz Long, principal adversário de Owens, já tinha a presença na final assegurada. Owens, por seu lado, estava à beira da eliminação, após dois saltos nulos. Foi aí que se deu uma extraordinária manifestação de desportivismo (hoje diz-se fair play). Long abeirou-se de Owens e aconselhou-o a mudar a técnica de salto. Owens concordou e teve sucesso. Resultado? Na final, conquistou aquela que seria a sua quarta medalha de ouro, enquanto Luz ficou em segundo lugar. Saíram da pista juntos, o braço do nazi de olhos azuis por cima dos ombros do negro do Alabama. Por este gesto, Luz Long recebeu a título póstumo a medalha Pierre de Coubertin, concedida pelo Comité Olímpico Internacional a atletas que demonstrem um elevado desportivismo e espírito olímpico. Morreu em combate na II Guerra Mundial, vítima dos bombardeamentos dos Aliados.
Jesse Owens no pódio, vencedor da prova de salto em comprimento. De braço ao alto, Luz Long. Nos nossos dias o atleta alemão seria certamente afastado dos Jogos.
Pierre de Coubertin (conhecido como barão de Coubertin), pedagogo e historiador francês, foi o fundador dos Jogos Olímpicos da era moderna. As suas ideias sobre cultura física abonavam o programa nacional-socialista. Asseverava ele: "Há duas raças distintas: a do homem de olhar franco, com músculos fortes, com desenvolvimento assegurado, e a do doentio, de semblante resignado e humilde, e ar vencido". E de modo mais impressivo, registava: "Cinzelando o seu corpo pelo exercício, como faz um escultor numa estátua, o atleta antigo adorava os deuses. Fazendo o mesmo, o atleta moderno exalta a sua pátria, a sua raça, a sua bandeira".
Aos detractores da organização berlinense, respondeu o barão no jornal L’Auto, a 4 de Setembro de 1936: "O ideal olímpico foi sacrificado à propaganda? Isso é inteiramente falso. Os Jogos de Berlim serviram magnificamente o ideal olímpico". O francês manteve-se como Presidente Honorário do Comité Olímpico Internacional até à sua morte, em 1937. Talvez hoje o pobre Coubertin, tal como Luz Long, fosse banido da competição que ele próprio recriou. Não conheço o traçado actual da Carta Olímpica, porventura grafado por Vital Moreira ou outro jurista de alta competição. Provavelmente o notável documento já consagra a via para o socialismo, o antifascismo e o estabelecimento de uma sociedade sem classes. A ser assim, é a própria Carta que nega o espírito olímpico. 

Pega de automóveis



Agora que as touradas estão praticamente proibidas pelos “amigos dos animais”, a esquerda festiva adoptou a pega de automóveis. O sindicalista da cara imobiliza a viatura à força de braços, acolitado pelos ajudas do PCP. Atrás deles exerce o rabejador, decerto engalanado com a bandeira arco-íris. Em fundo, o toque de cornetim tange A Internacional.
Este episódio da Covilhã lembra aquela cena do magnífico «Un singe en hiver», de Antoine Blondin, quando o maluco do Gabriel Fouquet se pôs a tourear automóveis na rotunda.   

Caldo de Cultura (XXII)

Almoçaram ontem os jovens Bruno Oliveira Santos e João Marchante, acompanhados de Francisco Cabral de Moncada. Os três abancaram num restaurante do Campo Pequeno, por motivos gastronómicos e políticos. A comida é boa e, nos tempos que correm, para enfrentar os animais da governação, só mesmo na arena de pampilho em punho, para varejar cornúpetos e outros democratas. Quem levou o quê?

Houellebecq: "O Mapa e o Território"

Por largo tempo prevaleceu em alguns círculos a ideia de que Michel Houellebecq era um escritor pornográfico, um Henry Miller de segunda edição, enxertado em Sade e Laclos.
"O Mapa e o Território", que chegou há semanas aos escaparates portugueses, editado pela Alfaguara, com tradução de Pedro Tamen, veio revoltear esse entendimento simplista. O quinto romance de Houellebecq venceu o Goncourt, o mais importante prémio literário francês, e parece ter fixado definitivamente o autor como um romancista fundamental do nosso tempo. Com toda a justiça, diga-se.


O livro é uma paródia certeira ao mercado da arte e da cultura. Jed Martin, o protagonista, torna-se um artista de sucesso sem saber ler nem escrever, e pede a um escritor chamado Michel Houellebecq que lhe escreva o prefácio para o catálogo da sua exposição. Aberta assim a porta à auto-ironia mais desbragada, o livro dá-nos um Houellebecq-personagem essencialmente bebedolas e depressivo, embezerrado na sua misantropia — e que acaba por ser violentamente assassinado.
Michel Houellebecq é um escritor pessimista e desencantado, reaccionário até, que expõe a profunda solidão do homem actual, no quadro de um sistema político e económico risível. À sua maneira, escreve uma revolta contra o mundo moderno. As suas tiradas mais obscenas confundiram a crítica pouco especializada. Houellebecq pertence a uma raça de prosadores franceses que, na linha de Barbey d’Aurevilly, pensam como Joseph de Maistre e escrevem como o Marquês de Sade. É de ler agora, antes que seja tarde.

Natal Up-To-Date

Em vez da consoada há um baile de máscaras
Na filial do Banco erigiu-se um Presépio
Todos estes pastores são jovens tecnocratas
que usarão dominó já na próxima década

Chega o rei do petróleo a fingir de Rei Mago
Chega o rei do barulho e conserva-se mudo
enquanto se não sabe ao certo o resultado
dos que vêm sondar a reacção do público

Nas palhas do curral ocultam-se microfones
O lajedo em redor é de pedras da lua
Rainhas de beleza hão-de vir de helicóptero
e é provável até que se apresentem nuas

Eis que surge do céu a estrela prometida
Mas é para apontar mais um supermercado
onde se vende pão já transformado em cinza
para que o ritual seja muito mais rápido

Assim a noite passa e passa tão depressa
que a meia-noite em vós nem se demora um pouco
Só Jesus no entanto é que não comparece
Só Jesus afinal não quer nada convosco

David Mourão-Ferreira

A biografia de Luiz Pacheco

Pouca gente estima verdadeiramente Luiz Pacheco, o nosso Henry Miller de-entre-Estefânea-e-Massamá, escritor verrinoso e marginal, nesta terra veneradora do respeitinho e do bom nome.
A biografia dada à estampa por João Pedro George é um calhamaço de 600 páginas, um documento fundamental para conhecer o autor libertino e abjeccionista. Asmático, bissexual, senhor de uma vida desregrada, alimentou carinhosamente o enfisema pulmonar com cigarros cravados. Sofreu ademais de angina de peito, eczema, sífilis, úlceras e por vezes subnutrição, para além de deficiências hormonais e glandulares. Como o próprio reconhecia, a ter de recolher a clínica especializada, forçoso seria que o internassem ao mesmo tempo aí numas dez! Pedinchão e inconveniente, esteve preso duas ou três vezes. Pícaro e meio vagabundo, de poiso incerto e rendas por pagar, andou de hospital em hospital para tratar o alcoolismo e de clínica psiquiátrica em clínica psiquiátrica para consertar a maluqueira. Tentou "ser feliz neste mundo, sem os atavios dos electrodomésticos, dos popós, da fortuna, da vida airada". Míope de 17 dioptrias, usava uns óculos-fundo-de-garrafa e vestia o que calhava, consoante as ofertas de amigos e conhecidos. Nos bolsos trazia de tudo: aspirinas, bombas da asma, restos de comida, papéis — uma lixeirada bastante para certificar a fama de excêntrico.


Nascido em Lisboa em 1925, pertenceu à Mocidade Portuguesa e foi germanófilo durante a II Guerra Mundial. Era o seu feitio do contra a manifestar-se, para afrontar os democratinhas que ouviam o Pessa na BBC "à espera que a vitória dos Aliados fosse o fim do regime salazarista".
Fora do sistema, de qualquer sistema, gozou que nem um preto com os videirinhos que buscavam a consagração. Demonstrou com provas irrefutáveis que Fernando Namora, no romance Domingo à tarde (1961), tinha plagiado Vergílio Ferreira, ante o escândalo do Baptista-Bastos e dos outros marmelos do neo-realismo.
Vale a pena ler Pacheco porque a sua prosa expõe com meridiana clareza um meio literário constituído por "padrinhos" e "amigalhaços", e dominado pela máfia cultural de esquerda. A partir dos anos 50, em pleno Estado Novo, a esquerda tomou conta dos jornais, das editoras, dos prémios e da "fabricação da fama e do prestígio" (p. 159). Por esses tempos, já Pacheco denunciava a "censura do compadrio", tão má ou pior do que a oficial.
Em plena revolução, foi para o Largo do Carmo de pijama e chinelos. No texto "O meu 25 de Abril" deixa-nos desse dia um relato bem diferente dos que aparecem nas reportagens ou nos discursos comemorativos — uma população assaltada pelo pânico, a açambarcar bens de primeira necessidade e a fechar-se em casa, de estores cerrados: "Já vejo lojas fechadas, outras a fechar à pressa e uma data de tontos a abastecerem-se para o ano todo […] Venho a pé até às portas de Bemfica e o ambiente é o mesmo: fila de carros a safarem-se, o comércio encerrado, mulheres com sacos de plástico cheios, tensão […] Um tipo ao meu lado compra 8 maços de Português Suave".
Sem qualquer espanto, assiste à "grande correria à promoção, aos tachos" e antevê o resto da fita com lucidez: "O que vamos ter é uma animação mais viva (no disparate, na violência, no desplante)". Talvez por tudo isto chega a declarar bons lustros depois que "o 25 de Abril não foi importante".
Sarcástico, de prosa viva, com um estilo próprio e sentido de humor, Pacheco é uma bofetada literária — ao menos literária... — em quantos rafeiros ainda agora andam por aí a armar aos cucos sem um pingo do seu talento.

Bem acompanhados

Dantes vivíamos «orgulhosamente sós».
Agora não! A troika vem sempre visitar-nos de três em três meses.

Um acordo óptimo

Das várias insanidades do Acordo Ortográfico, saltou-me hoje ao caminho uma das mais berrantes. Os brasileiros poderão grafar indistintamente óptimo ou ótimo, variantes que o Vocabulário da Academia Brasileira de Letras regista, por não ser uniforme a pronúncia desta palavra no Brasil. Já os portugueses serão obrigados a escrever ótimo.
Agora, agarrem-se bem: num dicionário global da língua portuguesa, óptimo figurará apenas como variante legítima do português do Brasil.
É impressão minha, ou estes gajos passaram-se de vez?

Uma biografia infamante

Parece que Mega Ferreira padecia de um trauma juvenil por obra sem graça de José Agostinho de Macedo, em episódio ocorrido no Pedro Nunes. Vai daí, seguindo as melhores práticas psiquiátricas, decide ajustar contas com o padre oratoriano, aliviando-se num livro que é menos biografia que libelo descarado.
A obra tardou umas décadas, mas chegou. Levou tempo o escriba a mudar de vestimenta. Teve de desajoujar-se dos paramentos de gestor, e de buscar novo preparo nas alfurjas da historiografia politizada. Vem de biógrafo, doublé de historiador e novelista — e vamos lá que lhe assenta a matar.
José Agostinho tinha dois ódios de estimação: a seita pedreiral (maçonaria) e os malhados (liberais). Já Mega parece manter um só ódio, grande e entranhado, ao pregador régio. Ele próprio, já quase no fim de esguichar as sentenças odiosas, reconhece o seu "parti-pris em relação a Macedo" (p. 307). O padre escapou à Inquisição; ao cabo de 200 anos não consegue fugir dos tratos de polé do torcionário Mega.
Para redigir o destampatório, diz o autor que mergulhou no "conturbadíssimo reinado de D. João V" e fez-se "liberal, constituinte, depois cartista". Confessa com apreciável franqueza que só não conseguiu colocar-se na "pele do miguelismo, que é absurdo político e inanidade moral" (p. 13). Diz que era em tascas que se reunia "a canalha miguelista" (p. 276). Com profundos complexos de plebeu, grafa o nome inteiro de D. Miguel por zombaria: "desculpem, mas não resisti a dar-lhe o nome completo…", explica na página 264, esquecido de que o mano Pedro, de que ele tanto gosta, ostentava um nome igual de extenso.


Ao longo das quase quatrocentas páginas do seu livro meganovelizado, não dá tréguas à macedofobia. Desanca o padre nas suas contradições, venalidade e amores freiráticos. Os democratas são assim. Respeitam a intimidade de todos, salvo dos inimigos. Destes já se pelam eles por exibir à farta as misérias de alcova. Sobre as contradições e a venalidade, estamos conversados. As primeiras são hoje consideradas uma qualidade (só os burros não mudam, diz-se agora); e mesmo a segunda não anda longe disso. Mas neste exibir da fraqueza, sinto que Mega descobriu no biografado os traços do seu próprio timbre moral. Deparou-se-lhe a estrada de Damasco nas pensões e tenças de Macedo, de onde não mais se desferrou. Que podia o velho padre fazer? Como ainda não houvesse Parque Expo nem Centro Cultural de Belém para que os homens íntegros, de rabinho sentado nos conselhos de administração, pudessem abichar salários e prebendas — os antigos desenrascavam-se com os reis e os contratadores de tabaco.
De qualquer modo, este método de catar as impurezas privadas tem os seus méritos. Aplicado aos dias que correm, serviria para sarjar fundamente as carnes destes desgraçados da III República, que forcejam — eles, sim — na incoerência e na roubalheira.
Apesar do esforço de Mega, o padre José Agostinho de Macedo continua a ser um polemista de mão cheia, à antiga portuguesa, do tempo das velhas pelejas políticas e literárias, antes dos totós terem descoberto as virtudes do diálogo, do consenso e das palmadinhas nas costas. Várias obras do verrinoso Macedo merecem ser hoje lidas e relidas: desde logo, o seu sermonário, sobretudo o Sermão sobre a Verdade da Religião Católica e o Sermão do Primeiro Domingo do Advento, mas também as Cartas Filosóficas a Attico, os 4 volumes do Motim Literário, algumas páginas políticas e o conteúdo infrene de A Besta Esfolada.
Da obra do Mega ninguém dirá o mesmo daqui por uns anos.

A vergonha de ser português

Como escreveu há dias o Miguel Castelo-Branco, os palermas riram-se de Salazar e da cultura do aforrozinho. Era para eles uma visão campónia e atrasada, incompatível com os seus projectos desenvolvimentistas. Prometeram-nos a Europa, a felicidade, a abundância e dinheiro a rodos. O resultado deste programa extraordinário tem feito os títulos da imprensa. Estamos cada vez mais pobres: na verdade, falidos e mal pagos. Destruídas a agricultura, a pesca e a indústria, dependemos da ajuda externa, sem a qual morreríamos de fome e inanição. Vamos sobrevivendo ligados à máquina da troika, que é quem manda. No estrangeiro, experimento todos os dias a vergonha de ser português. Chegou a hora de apontar o dedo ao regime. Ou acabamos nós com ele, ou há-de a besta fatalmente acabar connosco.

O terrorista sem atenuantes

Ainda não percebi por que a imprensa vislumbrou no atentado do maçon de Oslo um molho de razões para denegrir os movimentos ascendentes do nacionalismo e da extrema-direita. Anoto, porém, uma conclusão óbvia: as "perigosas generalizações" que nos dizem para evitar quando os criminosos professam o islamismo parece que já se podem gastar à tripa-forra sempre que os autores são cristãos.

Português inteiro

Tanto patriotismo aí todos os dias se desbarata em génios e comentadores, e nenhum se move em favor da língua materna. Um ror de movimentos, até do foro político, para defesa dos animais em perigo — e ninguém acode às palavras em vias de extinção. Digam-me em verdade se há algum país do mundo, do Vietname à Islândia, onde assim se tripudie sobre o idioma. De dia para dia se sente a introdução de mais uma barbaridade, dentro em pouco repetida por todas as bocas e martelada em todos os teclados.


No meio deste desconcerto glótico a gente gargalha ao pensar que o Diário da República — o mais mal escrito dos nossos periódicos — é que nos vai impingir por decreto a escrita harmoniosa e bela. Um Estado omnipotente, omnipresente e omnisciente, mais tarde ou mais cedo, sentir-se-ia tentado a nomear um chefe de repartição da vernaculidade, ainda que o funcionário incorra amiúde no vício do solecismo. A resolução do Conselho de Ministros que determina a aplicação do Acordo Ortográfico nas escolas a partir do ano lectivo de 2011-2012 é um fartote. Só entre a segunda e terceira frases há sete palavras terminadas em –ão, decerto para dar um sabor popular ao texto. Talvez o legislador não saiba exprimir-se de outro feitio. Mas é precisamente por isso que lhe falta legitimidade para impor a norma.
O português é riquíssimo. Isso de não há palavras que descrevam é muleta de quantos ignoram o manancial da língua. O velho rifão que assegura valer mais uma imagem do que mil palavras tem, à certa certeza, raiz estrangeira. Em português podem às vezes as palavras, desde que bem emparelhadas, valer mais do que qualquer figura, ainda que retocada no Photoshop.
Escrevo este postal depois de saber que os calistos elóis e as ifigénias do ministério dispensaram Camilo Castelo Branco dos programas escolares. Mau aluno do mestre de S. Miguel de Seide, lamento e protesto. Sem Bernardes ou Camilo, sem Aquilino ou Tomás de Figueiredo, fica o português entregue aos gabirus de extracção moderna, nobelitados ou por nobelitar. Uma tristeza pegada.

Ensino e Educação em Portugal

Ter escrito sobre o tema em postal recente obriga-me a deixar estas notas. A análise completa da matéria pediria hoje menos a pena barbelada de Verney do que um computador de memória bastante para arquivar tanto disparate.
Foi moda a Educação ser o amor confesso dos governantes deste regime. Ora quando estes se empenham a fundo e em cheio no renascimento do que quer que seja, o mais certo é que liquidem de vez o objecto dos seus interesses. Nem os frontispícios escapam. Inchados de progressismo, apagaram o belo e aristotélico nome de liceu para riscar o país de escolas secundárias e, logo a seguir, escolas C+S E.B 2.3 — por um triz não incluíram raízes quadradas na denominação dos novos estabelecimentos.
Avultaram os «cientistas da educação», lidos em Glasersfeld. A ignorância alastrou e a indisciplina tomou conta das salas. Fixou-se como objectivo do ensino obrigatório ensinar a contar até dez pelos dedos — ou com recurso a calculadora. Os programas foram convenientemente politizados para produzir gerações de jovenzinhos republicanos, socialistas e laicos.



Entraram de pulular universidades novas. Anicharam-se por palacetes arrendados, à cata de clientes. Institutos superiores pujaram e intumesceram, centros modernos de todo o saber, espalhados por aldeias e vilórias. A oferta de cursos regurgitou, nada há que se não ensine e à farta, desde licenciaturas em jazz a mestrados em gestão de campos de golfe.
Aboliu-se entretanto a instrução clássica — e instituiu-se a educação moderna, com aquisição de competências e ciência a frouxo. O resultado está visto. Perdeu-se uma e não se ganhou a outra — se os alunos desconhecem a Filosofia, o Latim e até o Português, nem por isso dominam a Física, a Química ou a Biologia.
O nível de exigência é rasteiro. Nada de exames: parece que prejudicam o desenvolvimento cognitivo e podem fazer mal aos miolos e mais partes dos rapazes esfalfados. Nem memória, porque o decorar brutifica; nem leitura nem reflexão, porque a matéria só tem que entrar pelos ouvidos; nem o manejar linguagem com ideias nem ideias com linguagem.
Vejo o modo como os adolescentes se correspondem com mensagens de telemóvel, em código macacóide, e pressinto que a próxima geração já cresça com as patas da frente no solo. (Alguns de agora já ensaiam a rabiscar paredes.) O Vargas Llosa queixou-se do mesmo aqui há semanas. Mas os tratos de polé à língua materna vão dar-me outro postal.

O novo governo

Não espero nada do governo que vai tomar posse. Ou melhor, aguardo a mesma dose de mediocridade e indecência. A maior parte dos seus membros está comprometida com o sistema: um modelo hemiplégico, zarolho e antinacional, onde circula a mentira como moeda corrente. Isto não vai lá com remendos, boas vontades ou revisões da Constituição. Plus ça change, plus c'est la même chose ou pior. O novo Sócrates anda há lustros a cheirar a política gorda, sem assombrar aliás nem pelo saber nem pela erudição.
Os comentadores, à esquerda e à direita, já apalparam os novos ministros, escabichando-os com a gula de quem esvazia pernas de lagosta. Puseram a nu parentelas ignotas e hábitos desconhecidos. O costume. Não quero estender-me por aí.
Uma coisa devo confessar, porém. Anunciados os governantes, entrou de me luzir logo o nome de dois ou três deles. Sim, há dois ou três que, há pouco, fui acolchetando na minha admiração íntima. Um caso raro nestas fornadas sucessivas de cavalgaduras que a república tem alimentado com forragem e feno do orçamento de Estado.
Há dois ou três (milagre!) que se não autolegitimam pelo antifascismo e que são até acusados de inexperientes por não terem alinhado, ao largo de 40 anos bem puxados, nas mais disparatadas ideias socialistas e marxistas.
Nuno Crato tem catado as palermices e os vícios da Educação em Portugal, numa observância perscrutadora. Em obras como O «Eduquês» em Discurso Directo (Gradiva, Lisboa, 2006) denuncia certeiramente a influência nefasta das tretas pedagógicas e construtivistas: as teorias românticas, o "ensino centrado no aluno" (e que se limita a ensinar as matérias de que as crianças gostam), a auto-aprendizagem, o laxismo, a desvalorização do conhecimento em favor da aquisição de «competências». Com tais ideias espúrias, pretendiam decerto os "cientistas da educação" que as crianças viessem das escolas com o cérebro pingue, como quem sai de uma ceva. Pelo contrário, conduziram os alunos à ignorância e ao analfabetismo. Querer hoje que os alunos dominem a língua materna é pelos modos atestado de caturreira de reaccionário, de gramaticão embrulhado no chambre caricatural do Tolentino. Possa o novo ministro acudir ao desastre com as ideias claras que defendeu publicamente nos últimos anos.


O novo governo junta na mesma pasta a Agricultura e o Ambiente.


O bloguista Álvaro Santos Pereira vai sobraçar a pasta da Economia, Obras Públicas e Emprego. Professor da Simon Fraser University, no Canadá, afastado assim do chorrilho de interesses do sistema, tem provado com gráficos precisos e explicações claras que o actual regime, também do ponto de vista económico e financeiro, é uma nódoa entranhada. No livro Portugal, Na Hora da Verdade (Gradiva, Lisboa, 2011), que li recentemente, demonstra que o único período da nossa história recente em que na verdade convergimos com a Europa foi o do Estado Novo, época em que fomos desempobrecendo face aos demais países europeus: «Entre 1953 e 1973, o PIB per capita nacional cresceu a uma taxa média de 5,5% por ano. Em comparação, durante o mesmo período (conhecido como período de ouro do crescimento europeu), a economia europeia cresceu à taxa anual de 3,6% e a economia mundial, em média, à de 2,9%.» (ob. cit., p. 19); «Os primeiros anos da ditadura foram dedicados à estabilização económica e financeira do país, e menos ao crescimento económico. Porém, a partir do final dos anos 1950, Portugal industrializou-se e, assim, alcançou taxas de crescimento económico habitualmente reservadas aos milagres económicos.» (ob. cit., p. 30)
Sem papas na língua nem receio de meter-se em fofas, Santos Pereira afoita-se na explicação do desastre: «(…) efectuámos uma descolonização que poucos beneficiou e muitos prejudicou (inclusive os novos países independentes), e tivemos de suportar os exageros revolucionários de uma minoria que ambicionava instaurar um novo regime autoritário (agora de ideologia comunista ou socialista) no nosso país.» (ob. cit., p. 30)
Sobre a política do camartelo e betão, assevera ele em tom crítico: «Tudo o que é passível de ser inaugurado é bem-vindo pelos novos fontistas. Quando se pretende a modernização da economia nacional, constroem-se auto-estradas e mais auto-estradas.» (ob. cit., p. 46) E acerca da regionalização, estatui: «(…) só vai criar mais burocracia, mais compadrio, mais clientelismo, mais favorecimentos pessoais, e ainda mais Estado num Estado já demasiado pesado e omnipresente.» (ob. cit., p. 522)
É dos poucos economistas que se preocupam com o declínio da natalidade, propondo incentivos e medidas sérias para inverter a tendência. Não é meu correligionário, isso não. Mantenho uma distância profiláctica em relação às suas propostas sobre imigração e outros assuntos, mas é um tipo desempoeirado, bem escovado do pó dos estatismos, sem currículo antifascista e a quem reconheço algum mérito.
Há, pois, no novo governo dois ou três titulares a quem posso apertar a mão, apesar das divergências. Pode ser que a mudança signifique o fim de carreira para aqueles progressistas assanhados que, há 40 anos, com assinalável sacrifício pessoal, vieram da Rive Gauche para nos "desenvolver" e "democratizar" — e nos deixaram falidos e mal pagos. Só isto, na hora negra que passa, já é de celebrar.

10 de Junho



«Ó tu, Sertório, ó nobre Coriolano,
Catilina, e vós outros dos antigos
Que contra vossas pátrias, com profano
Coração, vos fizestes inimigos:
Se lá no reino escuro de Sumano
Receberdes gravíssimos castigos,
Dizei-lhe que também dos Portugueses
Alguns traidores houve algumas vezes.»


Ali pela segunda metade do século XVI, Camões ainda não tinha visto nada. Hoje os traidores são a regra, inchados ademais de legitimidade democrática. O problema actual, todavia, é menos o dos traidores que o do próprio regime. Como se disse (e bem) na pretérita campanha eleitoral, não se pode esperar que os homens que nos mergulharam na crise nos façam emergir dela. Mas do mesmo passo, também não se alcança como o sistema que nos conduziu à bancarrota nos possa trazer agora a prosperidade. Os regimes, às vezes, nascem risonhos e vão com o andar do tempo entristecendo. Mas não há nenhum que, nascendo torto, se endireite.

Do cerco do Porto ao circo do Rossio

Há histórias que acabam bem, com final feliz. O Pedro de Alcântara, Imperador destronado do Brasil e grão-mestre da maçonaria, arranjou finalmente companhia à altura.