Saltos, Assaltos e Ressaltos

Começando pelos últimos, quero dedicar o derradeiro post dominical do ano ao Pedro Barbosa Pinto, pela forma como o seu Sporting deu abrigo a três redondas bolas dele carenciadas, nas respectivas balizas. Nem se diga que a Esperança deixou de ser verde, essa invenção de Dante que tanto me intriga, porque o mesmo cromatismo das camisolas é partilhado pelo Rio Ave. E todo este triste desenlace talvez se haja ficado a dever ao equipamento alternativo laranja e preto que remetia para sinistras alusões à realidade com que findamos 2012, a cor de um Governo indigno de tudo, salvo do negrume enlutado pelo estado em que nos deixa. Prosseguindo, na ordem inversa dos componentes do título, de todas as cores ficou quem leu o dito do Secretário Leal da Costa a responsabilizar os Compatriotas pela manutenção da saúde, com objectivos de poupança. Nem perderei tempo a explicar a S.Exª. que a Doença é, nas mais das vezes, uma infelicidade involuntária e que este modelo de Estado, ilegítimo sob todos os demais critérios, apenas podia encontrar sustentáculo de aceitação no alargamento assistencial. Somente lembrarei que esta gentinha, mesmo com as melhores intenções, como a de aconselhar comportamentos salutares, tem a obsessão de responsabilizar os indivíduos pelo sucesso e a fixação na indiferença face aos que o não obtenham. Guizot celebrizou-se lamentavelmente com o «Enrichissez-vous», estes com o «Tornai-vos saudáveis». Para os que o não consigam... chapéu, o Poder tão Liberal não está para perder tempo ou dinheiro com vencidos!
Mas o que considero verdadeiramente importante neste tempo de balanços é falar-Vos daquele que se obtém de um novo momento maior do calçado feminino: os Assustadoramente Belos. Um velho apreciador, como eu, encontrou gigantescas dificuldades em identificar os tacões em questão como saltos, em tudo lhe apareciam como umas andas. O que apresentaria vantagens de tomo, desde logo para evitar proximidade com a crescente porcaria que nos rodeia. Como foi algo religiosa a explicação que nos deram para os avalizar, a introdução de um conceito novo de Beleza para não procurar rivalizar com Deus, ao fazer por melhorar o antigo, tentei - e julgo tê-lo conseguido - encontrar justificação para este devaneio criativo: mais do que confundir frente e traseira, como a época tanto aprecia, a inclinação para diante que implica, oposta à orgulhosa postura até aqui demandada pelos estilistas, é a ideal para qualquer devota pagar promessas. A ida a pé, descalça, a Fátima é uma brincadeira de crianças, confrontada com esta inovação, também um recrudescimento da pueril mania de se enfiar em sapatos que não servem.

Línguas Cumpridas

O Espírito Santo parece ter prescindido do exclusivo de outorgar o Dom das Línguas, desde que este Ancião Britânico deu em falar uma que jamais soube. Como a auto-suficiente Ciência não tem explicação cabal para o facto, ainda nos resta uma certa margem para especular. Aos Evangelizadores foi, outrora, dado o domínio dos idiomas, para cumprirem uma Missão. A prova de que, definida por contornos mais modestos, paralela concessão ainda é possível neste Presente esquecido de Deus deve fazer-nos reflectir acerca de que tipo de finalidade se espera dos contemplados com o conhecimento instantâneo. Nas Ilhas Britãnicas poderia ser um sinal para não imitar separatismos, de barreiras fazendo fronteiras. Transplantando a plausibilidade duma repetição do fenómeno para o mundo lusófono, cismo em como a paliçada a derruir deveria ser separação de Tempo e não de Espaço. E de como seria bom se o conhecimento da fala pátria de antes do assassínio acordista fosse assim transmitida às crianças que ainda venham a vingar, doutra forma condicionadas pela falta do correspondente ensino.
                                              O Corno de Babel, de Vladimir Kush

A Crise Posta a Nu

Nunca vociferei contra desnudamentos, mas há duas ou três coisitas que me soam mal na iniciativa destas Mães Espanholas. Não, certamente, a renúncia aos trapos em troca do transporte para a miudagem, que vejo como uma sucessora natural e mais apressada da venda de rifas. Já estranho é como pode o expediente despoletar transportes nos graúdos. Comprar um calendário erótico com os corpos destas simpáticas Senhoras é trocar as profissionais por amadoras, além de que o conhecimento dos pormenores que o determinaram, segundo o consenso dos sexólogos, não parece de molde a huuuum motivar compras em massa, dado ser a encarnação da Maternidade o arquétipo masculino oposto ao da sedução.
Por outro lado, é expediente perigoso e pode ser prólogo à desculpação de outras utilizações do corpo, na eventualidade de a causa ser nobre. A exibição au naturel fazia sentido em campanhas contra as peles de animais no vestuário, quer pela renúncia que implicava, quer por desejar comover os algozes com a insinuação do sinistro presente na perspectiva de esfolar a própria Fémea. Até aceitaria a ideia de que seria um meio de, chocando, chamar a atenção para defesas apaixonadas, embora duvide de que, nos dias que se escoam, ainda muita gente se choque com tão pouco. Como fenómeno de angariação de fundos é que me parece inadequado. Até que descobri: nos tempos de austeridade forçada que atravessamos, as posses diminuíram e transformaram-se em poses. Tão simples...

ZZZZZZZZZZZZZZ!

Já me tinha assaltado a perplexidade de um momento tão repleto de acidez como o actual da vida portuguesa não suscitar reacções enérgicas de uma População aparentemente adormecida. Vem agora a explicação, direitinha de uma universidade de Atlanta, na Georgia Norte-Americana. É um ácido que causa a sonolência inelutável, o verdadeiro doping que permite falseadamente alcançar o ultrapaciente resultado que tanto se GABA. Mas urge contrapor as conclusões doutra investigação que é um prato: Harvard diz-nos que deixar o Povo a saladas pode tirar-lhe as forças e provocar idêntico efeito, deixando-o em vias de acabar de ser comido: Allison Harvard, claro!

Palpites e Palpitações

A Ciência deslumbra-se com tudo o que descobre, mesmo que seja uma abertura de portas escancaradas: apurou agora que o acto de perdoar induz vantagens cardíacas, quando a vox populi há muito garantia que quem perdoa tem um grande coração. Mas se, fisicamente, nos trouxe a vantagem de orientar-nos para sofrimento diminuído, no plano ético a consequência é bastante mais parda. Doravante, pairará sobre cada concreto acto de perdoar a suspeita peçonhenta de interesseirismo em vista à manutenção da própria saúde, como já antes, psicologicamente, se havia detectado uma motivação menos altruísta na libertação do jugo obsessivo e  definhador do Ressentimento. Só o Génio da Religião foi capaz de identificar o Sofrimento Maior com o perdão absoluto, nos cultos do Sagrado Coração de Jesus e do Imaculado Coração de Maria.

Guita e Cordelinhos

A nomeação para Secretário de Estado de John Kerry, o Homem mais rico do Senado Norte-Americano, poderia, à partida, prejudicar a imagem do Presidente Obama junto das classes trabalhadoras, mas, provavelmente, não o fará, em virtude do trabalho de sapa atempadamente realizado, com a retórica dos impostos para os abonados. Poderá ter é um efeito aumentativo da estatura aparente do Chefe da Administração, na medida em que dispõe, assim, sucessivamente, de dois ex-candidatos presidenciais como colaboradores na execução do que passe por sua política externa. O Nomeado tem uma apetência tal pela actividade das altas negociações internacionais que poucos o denunciarão como inadequado. Era o presidente da comissão de Relações Exteriores senatorial e, desde a sua esmerada educação europeia, quase se suspeita de que a respectiva cobiça da Casa Branca de há nove anos teria principalmente em vista aceder ainda mais a esses meandros. Com anos de votações invariavelmente alinhados pela Esquerda instalada, decerto não desagradará aos ideólogos com o Quarto Poder nas mãos, provavelmente prontos a perdoarem qualquer hesitação em matéria de Assad(o)s que já lhes foram simpáticos e hoje são por eles regularmente anatematizados. E até em Portugal, a eterna, simpática e parola simpatia por gente da terra a brilhar no firmamento (desde que não seja, de facto, nossa conhecida), trará boas expectativas, em função das origens luso-moçambicanas da sua Mulher, Teresa Heinz Kerry. Num ponto tenho ser desmancha-prazeres: a prática yank continuará a ser a de sustentar qualquer intermediário que lhe convenha, por mais ou menos marioneta que se revele, até que seja deposto, situação em que instantaneamente o apoio transitará para o sucessor, com juras de amor eterno, desde que não seja programaticamente hostil aos interesses da União. A história de sempre.
                                                   A Arte da Diplomacia, de Michael Cheval

Baptista da Sela

Voltei ao mundo de que me levitei durante a Noite de Paz e de Amor, aumentada pelas adjacências que tornam possível a partilha familiar Dela. E constato que no chiqueiro em que somos obrigados a chafurdar a grande sensação foi a descoberta de um burlão mais, que se encartava em inexistetes funções e diplomas. Que espanta, Senhores? Não tivemos um Primeiro Ministro e não temos um motor governamental, também ministerializado, que se arvoraram em licenciados, com as facilidades que se conhece? Ao menos este ainda tem o pudor de criar sozinho a ilusão, não recorre às cumplicidades de docentes indecentes ávidos sabe Deus de que recompensas. E, no fim de contas, não serão os falhados que se intitulam governantes fraudes mais graves? O que o caso tem de revoltante para a opinião que o sistema tece de si é a qualidade de especialista invocada, que permitiu o acesso do opinador aos microfones. É a entronização do expert característica da Idade da Compartimentação em que nos engaiolaram que traz o arrastamento - mas também a fragilidade - do corrente esquema de influências. Se os opinadores procurados fossem sólidos e reconhecidos generalistas, não subsistiria a ininteligibilidade dos jargões que, passando por sapiência pouco acessível, protela, graças a ingénuas admirações confiadas no que se imagina perícia transcendente, o derrubamento de castelos de diagnósticos e receituários assentes no ar. O prevaricador declinou a imaginativa condição de membro duma entidade só pela impotência petulante tornada verosímil, um observatório económico e social; nestes tempos em que se semeia instâncias de tal quilate em muitos âmbitos deploráveis, desde a Droga ao Crime, é lógico que outro tanto se pode esperar da Economia e Sociedade a que nos encostam. E, como se não chegasse, enganar a Imprensa e a ONU, mais do que a centúria, deve dar uma milena de anos de perdão.
                                                  O Observatório Voador, de Erik Morsing

Santo e Feliz Natal para os meus confrades e nossos leitores

O Menino Jesus Salvador do Mundo, 1673
JOSEFA DE ÓBIDOS (1630 — 1684)
Óleo sobre Tela, 95 x 116,5 cm
Igreja Matriz de Cascais

A Paz Que Chegue

Como na Manjedoura que serviu de apaziguamento a tantas gerações desejosas de ver Nela o momento de détente que se tirava da suspensão das angústias expressas no clima ao redor, com matanças de inocentes e outras agressões, saibamos, em torno da nossa árvore, seja real, artifício imitador, ou, simplesmente, impulso da nossa memória e imaginação, dar-nos um par de dias de Paz, lembrando sem amargura O(s) Que perdemos e que, só pela comparação dos desapossados, conseguimos identficar com a Felicidade. Borges dizia que «o Passado é a única coisa indestrutível». A melhor forma de revivê-Lo é o esforço de nos tornarmos dignos Dele.

Um Santo Natal!

Re-tratos da Língua

Cada vez mais, penso que a Gramática deixou de referir-se à arte de bem manejar o idioma e passou a constituir a inevitabilidade de gramar os tratos de polé que alguns profissionais da Escrita lhe dão. Logo numa agência com o nome Lusa (ai!), querendo, provavelmente, exibir-se como ultras do Acordo Ortográfico, mergulham numa concepção exagerada dele, desvirtuando o sentido dos vocábulos e transformando a notícia em mentira. Expicito: ao falarem da possível nomeação do ex-Senador pelo Nebraska, Chuck Hagel, para Secretário da Defesa dos EUA, deveriam querer dizer que ele, numa reinvenção da imagem que o corrigisse politicamente e lhe permitisse mais facilmente prosseguir a carreira, teria empreendido uma palinódia, a propósito de comentários que fizera aquando da eventual nomeação de um gay para embaixador. Pretendiam então dizer que ele se retractou das observações que proferira. Mas na fúria cega de retirar os Cs, o que escreveram foi que ele se «retratou», na mesma situação. Ó pró dicionário! Ter-se-á posto a reproduzir a posição que manifestara? E isso seria novidade? A letra do texto induziria a ideia de que ele se reveria nas palavras anteriores, pois se até lhes fez o retrato... Assim como acho um tanto suspeita a frase de que o tal candidato a diplomata seria, segundo, o Político, «aberto e agressivamente gay». Deve ser má tradução da ideia de que ele seria aberta e agressivamente gay. Mas desconhecer a língua alheia tem mais desculpa do que ignorar a própria e a redacção adoptada poderá sempre tentar desculpar-se com a adequação ilustrativa à realidade que desejava expor...
                                                   A Gramática, de Paul Sérusier

Ouvido  hoje,  à hora do chá, a dois business-men cá do burgo:

Não sei se devo expandir o negócio em França ou no Brasil…

Esqueça a França: é tudo muito controlado, vigiado. Vá mas é para o Brasil: lá poderá fazer o que lhe apetecer.

Não tenho a menor dúvida... De facto o país verd´amarelo é a terra do "aquitupódji". Dizia Maurras que a democracia era o mal, que era a morte.  Tivesse o grande Provençal conhecido o que a trilogia soberania do povo-sufrágio universal-partidocracia conseguiu no Patropi, teria concluído que a dita cuja poderia ser algo ainda pior.

Aqui um pequeno desfile de candidatos às presidenciais.  Um primor!

Dress Code

A culpa destas situações é todinha do espírito de informalidade peneirenta que fez do conforto o objectivo, em detrimento da elegância. Ou seja, colocar as alegriazinhas próprias no lugar do testemunho de respeito ao outro. Assim, cria-se uma incerteza no vestir, já que o horrendo mundo dos calções e chinelos passou a ser bem, desde que de marca, enquanto que o fato suado do trabalho não obtém indulgência. Tenho a certeza de que a agência bancária em questão também expulsaria este Amigo, pois, para além do omnipresente trajo profissional, é associado a dar, coisa que não é bem vista na Finança. Pergunta inocente: o bancário que recusou identificar-se não deveria ter sido conduzido ao posto para o efeito?
A TODOS UM BOM NATAL!

Deitem Fora!

Na Época da Abundância por excelência, ainda que mitigada pelo actual conceito de crise, conviria à profundidade reflexiva que já desfrutou da fama de exame de consciência uma meditação sobre o destino dos nossos restos e desperdícios. Desde logo, o fenómeno crescente e horripilante de trapeiros tardo-vindos. Vejo a remexer nos caixotes cada vez mais pessoas que aparentam não ter feito carreira nesse sector de actividade. E pensar que a nossa má consciência, à qual, infelizmente, não escapo, não se traduz apenas em prezar um bom bife, pese a apregoada amizade pelos animais, mas, outrossim, na ligeireza com que encaramos este fenómeno! João Paulo II já escrevia que o homem de hoje, na sua solidão, transpira indiferença. Uma abordagem mais surreal levar-nos-ia a pensar se a suspensão da recolha do lixo a 24 e 25 de Dezembro, sendo incomparável com as acumulações napolitanas originadas doutras mafias, não mostrará um certo conformismo das autoridades face à extrema forma de indigência citada. Mas uma perscrutação eficaz poderá inclinar-nos mais para a hipótese de a voracidade do Poder por qualquer dinheirinho extra ter ficado impressionada com certo sucesso de onde nasce o Sol que deveria ser para todos e pretender mais tempo para, por cá, procurar sorte igual... Sério, sério, a maior superficialidade de todas é pacificamente repetir que as dificuldades nos levaram a produzir menos lixo, ignorando deliberadamente a parcela humana dele e o seu pior, que é o sistema que erguemos. Desvalorizar o egoísmo por detrás do sofisma e pactuar com a miserável elite dirigente ao volante da coisa é um luxo a que não nos podemos continuar a dar.
                                              Camião do Lixo, de Joanna Mialkowska

Cabeça Contra as Dores

Está tudo ligado e as garantias do Infarmed quanto ao abastecimento de medicamentos, quais desajeitadas experiências de aprendiz de feiticeiro, tiveram o condão de libertar esta enorme aspirina que, desde Leverkusen, nos calhou na rifa:
Espera-se que os efeitos sejam puramente positivos.

Por Via Das Dúvidas...

Bertrand Russell conta que, certo dia, para testar o homem mais "livresco" que conhecia, um dos Irmãos Trevelian, lhe perguntou se ele destruiria o Mundo, caso tivesse poder para tanto. Respondeu o interpelado: E destruir a minha biblioteca? Nunca! Receando residualmente pelos meus livros, na véspera da concretização aprazada da Profecia Maia de muitas troças e alguns temores, permaneço cautelosamente pessimista. O meu Pároco e a Nasa liquidaram qualquer expectativa positiva que tivesse no termo abrupto das dores do Planeta, o que, aliás,  já as melhores imersões religiosas e filosóficas haviam feito com outra competência, ao conferirem um sentido transcendental ao Sofrimento. No entanto, estas predições são perigosas. Muito boa gente, equacionando a probabilidade deste termo, fará o que sempre tinha desejado secretamente, ou procurará algum gozo cruel abafado, agora que já não julga ter de enfrentar as censuras, vergonhas e vinganças do dia seguinte. Outros, apavorados, procurarão uma fuga patética que os arrebanhe entre os raros náufragos sobrevivos capazes de contar a história. Nada disso farei. Não quero acabar os meus dias numa garagem de ansiedades, não pretendo empreender acções reprimidas que estabelecessem todo o resto da minha vida como o fracasso reiterado. Ou por outra, fá-lo-ei: na eventualidade de ser esta a derradeira oportunidade, escrevi este post que, de imediato, ousarei publicar.
                            Fim do Mundo, de Samantha Magowan e Allison Schulnik Ou ainda, por via das certezas, com Gilbert Bécaud, a proclamação de o fim do Mundo assustador ser somente o Do Que nos toca...

Às Armas!

Rebentou a desorientação dentro do Executivo Obama, quanto à maneira de combater o perigo da má utilização das armas, já que só andar completamente aos papéis pode justificar duas reacções transtornadas, o SOS público para que sejam dadas ideias e a entrega do estudo de medidas ao Vice-Presidente Biden! Mas mesmo quem prefere acção às palavras, como as autoridades de New York, escolhe caminhos muito duvidosos, já que oferecer prémios pecuniários pela entrega do armamento não deverá levar a uma redução da aquisição dele, mas ao incremento de furtos e roubos de exemplares da dita mercadoria. Baseio-me no contraciclo constatável na explosão de compra das mortíferas ferramentas, após o triste episódio de Sandy Hook, em que aumentou desmesuradamente a procura dos perigosos brinquedos. O caso tem transbordado para os mais diversos cantos do Mundo, veja-se a Tailândia a a aconselhar aos professores o uso de coletes à prova de bala, o que se justificará pela preocupação com o mimetismo, mas não achará fundamento de maior nos quadros mentais próprios do País. Volto à minha, são as obsessões desde cedo instiladas nos adolescentes dos States, com a massificação produtiva e a exagerada cobertura pelas televisões a assumir o papel de aura, que escancaram a porta a eventos similares. E a pletórica proximidade das armas claro que é um sarilho, ou não fosse essa a palavra consagrada para designar uma série de espingardas de pé e apoiadas!
               O Último Canhão, de Antoine Joseph Wierz

Eva e a Serpente

Na incomodativa questão que opõe Eva Ionesco a sua mãe, a fotógrafa Irina, vários paradoxos há a considerar: desde logo, o de a progenitora a subornar, em criança, para que se desnudasse, através da promessa de belos vestidos; depois porque nesta antinomia de genes, ao contrário do «GENESIS», a consciência da nudez é a causa da infracção, não a consequência dela, com a parra a compor. Por último, dado a tentação visar uma difusa pedofilia, sem Adão por perto, quando o fruto, na defesa inventiva dos advogados da artista, ainda não era proibido, quer dizer na relaxada década de 1970, para os neo-puritanos padrões da actualidade. Não se espera dentre os cuidados maternais o de interesseiramente expor o corpo infantil da filha, mas também parece algo exagerado assimilar a captação e publicação dele a comportamentos em que a exploração envolva acção directa, ou a fixações pornográficas que envolvam penetrações ou estimulações dos orgãos genitais. A menos que algum desequilíbrio houvesse já, que implicasse uma ultra-sensibilidade anómala, as fotos que vi, como pesquisa para expelir esta opinião, não parecem credivelmente indutoras de trauma por aí além. O que mais me acudiu à reflexão foi o campo fértil a que esta pouco expectável semente foi deitada, ao ponto de alcançar notoriedade: que fará um número surpreendente de homens inclinar-se para um pseudo-erotismo de menininhas? Talvez o medo ou a frustração emanados da Mulher Plena, o que poderia acarretar uma capitulante auto-condenação da autora destas polémicas tomadas. Mas a plenitude feminina não acaba sempre por completar-se como Mãe? E, nessa conformidade, a traição ao que se espera de tão excelso Estatuto não terá infirmado a total assunção do Género por Irina?
                                                 A Ilusão de Eva a Adão, por Darwin Leon

Preposições Erradas

Lendo a declaração do Primeiro-Ministro verifica-se como a notícia da sua iniciativa diplomática sob a influência do Alvarinho labora em erro grave de redacção: é evidente que não foram «vender Portugal na Turquia», antes o foram «vender à Turquia». Com efeito, aprovar e, até, apoiar a entrada desse populoso País na UE é dar cabo da mesma, o que me não apoquenta por aí além; mas já me atemoriza a possibilidade de cá desaguarem muitos Muçulmanos crescentemente hostis ao Cristianismo. E, apesar das expectativas serem baixas e dos precedentes socráticos na Venezuela chavista, a constatação de os meus compatriotas no Poder trocarem princípios por uma esmolinha.
Não pode, daqui para a frente, o Governo queixar-se de que os comentadores atentos façam dele a cabeça de turco preferencial. No sentido de saco de pancada, inspirado no antigo divertimento de feira que consistia em exercitar forças malhando sobre um dispositivo com uma efígie encimada por turbante, mas também no do nó homónimo com que estes diplomatas de mão estendida nos apertam a corda que há-de acabar por estrangular-nos.

Veni, Vidi, Vi(n)ci?

Esta epidemia de notícias sobre a cessão da ANA, pela infeliz coincidência da sigla com o nome próprio feminino, desde logo me despertou más vontades, por exalar um certo odor a tráfico de brancas. Em rigor, tanto se me dá que a encaminhem para a francesa Vinci, como para uma das suas concorrentes, apesar de a Fraport também ecoar sonoridades próximas de acidentes da vida pública lusa nada honrosos. Penso que a gestão aeroportuária conviria, por razões de Soberania, à Nação onde pistas e terminais se situem, pelas mesmas razões da recomendabilidade de uma companhia de bandeira. Mas quando as prerrogativas do estado soberano já foram moídas e picadas em tantos campos mais relevantes, que importa? Além de que já não há que lamentar a venda de anéis, não para salvaguarda dos dedos, mas porque já não existem as falanges onde os enfiar.
Isto de aeroportos, aliás, irrita-me solenemente. Para além de a comida respectiva ter passado a designar uma coisa plástica quase intragável, são demasiado caros e todos nos lembramos da especulação de há uns anos, entre OTÁrios e transtaganos para implantação de um  receptáculo desses. Lembro pois com complacência o famoso Howard Hughes, que pensara resolver a questão dos elevadíssimos custos da construção das ditas infra-estruturas com a generalização do recurso aos hidroaviões, o que rimaria bem com o fado de um País que sempre quer ver no mar o espelho do seu Destino. De resto, Lisboa já teve um aeroporto marítimo, pensado para se articular com a Portela, via Av. de Berlim, precisamente em Cabo Ruivo, donde partiam, durante a II Guerra Mundial, os famosos clippers da Pan Am, um conceito de transporte de luxo que deu lugar à massificação funcional de hoje. É pena que se tenha abandonado o uso de uma categoria de aeroplanos, os hidroaviões, que, para mais, deram a última página de glória das navegações portuguesas, com Gago Coutinho e Sacadura Cabral.

Dilma Dessas!

A Presidente do Brasil está em vias de decidir se adia a aplicação do fatídico acordo que  deixou de o ser antes de valer. Caso opte, como se espera, por esse inadiável adiamento, cumpre requerer mui respeitosamente a Sua Excelência que o faça não para Dia de São Nunca à tarde, pois algum sucessor poderá assiná-lo num 1 de Novembro de Apanhas Residuais, provocando terramoto de efeitos mais prolongados. Já que se trata de matéria linguística, a boa política será a que se vire para o Latim que nos gerou das entranhas e dê a coisa como suspensa sine die.

Cadeia de Co-Mando

O Ministro Aguiar Branco tenta pintar a realidade como lhe convém e deixar as associações profissionais dos Militares a ver as estrelas. Não só no sentido do correctivo doloroso, mas, mais literalmente, as dos ombros ou punhos dos oficiais generais. É arrojo, tanta confiança na Hierarquia dum País que se desvaneceu, em vários sentidos do termo, quando certa aglomeração de graduados à volta de capitão restringiu, na melhor das hipóteses, aos respectivos lares os comandos dos seus superiores obedientes a governantes, passados à História como Brigada do Reumático. Mas não é já dessas lembranças deprimentes que a realidade actual vive, tão-só da constatação de que, desde que se fez da Instituição Castrense uma profissão tendencialmente à imagem das restantes, é difícil negar aos grupos parasindicais a representatividade relevante. Não em função do número dos seus inscritos, decerto pela vanguarda reivindicativa paralela ao que se constata no mundo laboral genérico. O que era uma Missão, com serviço obrigatório e, nas chefias, o prestígio pouco remunerado alcunhado de miséria dourada, passou a ser um funcionalismo fardado, com o topo a auferir vencimentos que contrastam com os dos subordinados e os desgostam, sem que estes encontrem compensatórias razões de respeito e acatamento, ou vejam desimpedidas como querem as vias de ascensão. Dessa forma, muitos poderão ver as Altas Patentes como os gerentes ou capatazes de um patronato explorador que seria o Executivo. Para desgraça de todos os accionistas que ali foram forçados a investir umas maquias que tanta falta fazem, quer dizer, todos nós
                                   Homem Numa Escada, de Christopher DeGasperi

Chover No Molhado

Será tanto H2O uma manobra da Política para minorar a nossa percepção da seca em que se tornou? Agora que os prados e as culturas já compensaram o árido Outono anterior, começa a ser altura de lembrar que o Natal se quer frio e seco, não uma chuveirada contínua. Água, sim, mas, como nos mostra a tal concretização que vale mais que mil palavras correntes e um milhão das minhas, il-y-a d`autres eaux pour ordonner, avec... Julie Ordon:
                                                        Boa semana!

Tiros no Escuro

O Mal deveria ser sempre um mistério, mas a Experiência e a Observação fazem-nos encará-lo como tal só quando não deslindamos um motivo plausível para as acções que o concretizam. Infelizmente, a entrada de pistoleiros assassinos em escolas dos EUA já só é notícia pelo que traz de revolta, não pela raridade. E aí julgo residir, justamente, a motivação de muitos dos repelentes protagonistas destes massacres: querem a todo o querer a evidência da repulsa, porque, havendo cultivado no íntimo alguma revolta contra a sociedade, só imaginam eficaz uma vingança dela com uma actuação que ainda a choque. Como poucas já o conseguem fazer, matar os próprios pais ou crianças que a nossa reserva de Esperança tende a ver, pela inocência, como o Futuro melhor, são os meios mais à mão. No caso do Connecticut que faz as parangonas dos jornais, nem se pode acusar de ser a região apegada aos hábitos do Farwest, ou das tensões sempre sublinhadas nas comunidades do Sul, mas um Estado da Nova Inglaterra onde se duvida da própria subsistência de Conservadores e tudo é progressisticamente instituído. A discussão sobre o controlo de armas é uma diversão. Eu até acho que o acesso a muitas classes delas deve ser restringido, mas claro que não se disparam sozinhas e aquele País continua a ver parte da sua dignidade construída na concessão universal e constitucional do direito de as usar, para igualar-se à Nobreza setecentista da Nação colonizadora. Além de que paragens em que o acesso às ferramentas da morte é condicionado não desconhecem estes tristes episódios. Na China, recentemente, canalizou-se para um surto de navalhadas escolares. Então, por que é que o assassínio em massa é tão repetido na vida Norte-Americana e tão lamentavelmente emblemático dela? Talvez por toda a estrutura daquela ser pensada em função da quantidade: foi-o a exploração do gado, a expansão da União em território e população, a produção industrial nas cadeias de montagem. Se juntarmos a esta matéria inflamável o rastilho das coberturas televisivas hiperbólicas, está criada a conjugação que faça rebentar a Maldade eventualmente acumulada. Por uma irronia do destino, o nome próprio do desafogado e escolarmente brilhante Sr. Lanza era Adam. Não será o Maligno, depositado à espera de serpentes detonadoras, simbólica maior da nossa condição, a chave que cada vez mais nos custa a aceitar?
                                                                  Adão, de Hans Baldung Grien

Laicidade Que se Define

O ódio cego e ofensivo de alguns plumitivos às Igrejas chegou a isto: agravar penas aplicáveis a actos de vandalismo e destruição revela uma marcha apressada para um estado clerical! Claro que devem ver alguma desejabilidade na sinistra legislação holandesa de recente factura, que deu direito de cidade ao livre desrespeito do que para os outros é Sagrado, mas tinha-se a esperança de que a noção de Propriedade ainda não estivesse completamente arredada destas cabecinhas, se não como conduta, ao menos no domínio material. No entanto, a Santa Madre já venceu inimigos piores. Ao pé dos Imperadores pagãos, estes artigos de terceira são brincadeira de crianças.
                      Triunfo da Igreja sobre A Fúria, o Ódio e a Discórdia, sempre    na  magna companhia de Rubens

Consoante Muda...

O Dr. Balsemão vem propor um pacto de regime, como se fosse inovação que encerrasse soluções. Claro que a guerra civil em estado latente, modo de Alfredo Pimenta classificar o fraccionismo partidário, é causa de muitos dos principais padecimentos que nos atingem. Mas, vendo bem, o tal pacto já existe, não correspondendo à necessária supressão dos partidos, mas a uma espécie de cartelização que junta os principais deles nas mesmas receitas, nas mesmas transigências e nas mesmas prepotências, unidos na capitulação sem condições face ao catálogo de remédios cheios de contra-indicações e efeitos secundários da autoria dos frios funcionários da Troika. Os políticos não podem ouvir o desabafo que os dá como sendo «todos iguais», mas, se tal pode ser injusto, pessoalmente, é também admirável descrição da vulnerabilidade deles às etiquetas que irremediavelmente os condicionam e moldam. Procurar uma encenação de acordo que levasse a população a renunciar a opor-se às assassinas curas impostas aos males que a deixaram moribunda seria exigir que esta celebrasse um pacto, sim, mas do explicitado na imagem. Com a ressalva de trazer à colação outro acordo, o famigerado Ortográfico, na medida em que o ex-Primeiro Ministro supusesse uma eliminação da leitura do "c" e estivesse a reconhecer a conveniência, para os grupos dirigentes, de um Povo caladinho e obediente que prefigurasse um pato de regime.

Braga Por Um Canudo

Claro que qualquer administração hospitalar tem o dever de dar o máximo para que se verifique o menor número possível de opiniões negativas, mas quando se recomenda tal conduta não se estará propriamente a aconselhar o policiamento daquelas, antes simplesmente critério e eficácia no desempenho primordial de servir o público. Ao instituir um vigilante da correspondência dos funcionários, os responsáveis pelo Hospital de Braga ou se julgam no unanimismo robotizante da China do tempo Mao, ou querem oferecer-se como utentes da valência de saúde mental que o estabelecimento eventualmente tenha. Acima de tudo é um infantilismo, o de se achar que tudo está bem desde que ninguém faça ondas. A breve trecho, o pueril entendimento leva ao relaxar do esforço e da aplicação no que conta, todos desviadinhos que são para a salvaguarda das aparências, à custa do óculo assestado e da sanção dos que se não mostrem conformes e conformados.
                                                  O Vigilante na Costa, de Tony Fomison

Espírito de Natal

Muito avisada e oportuna, a medida deste cabaz que impede os disparos unilaterais dos spreads em situações de dificuldade dos particulares: é que associar bancos ao Pai Natal só com a avis rara que é Elizabeth Banks...

SOS Anti-racismo!

Passando para o pólo inverso, o de uma rábula sem consequências, salvo a da puritaníssima e ilógica vigilância por parte dos fanáticos da igualdade racial. Caroline Wosniacki fez uma tentativa de humor com a imitação dos tiques e da anatomia peitoral de Serena Williams e logo, com uma inacreditável falta de serenidade, surgiram os brados indignados de racista! Racista! Não percebo patavina. Terão as Negras, para essa gente, o monopólio dos seios grandes? Vêm andando muito distraídos, é o que é. Ou não pode uma das manas norte-americanas ser mimada só por ser da e de cor? Imagine-se se alguém se lembraria de dizer destas caso o alvo da chalaça fossem as caretas da Jankovic, ou o andar da Sharapova, mesmo que tivesse sido uma tenista doutra etnia a protagonizá-la... Nem vêem os pobres arautos destes protestos que eles é que estão a conferir uma carga negativa ao aspecto das que tentam proteger, quando procuram vedar o sublinhado jocoso de características a que obsessivamente imaginam um estigma rácico.
                                                      A Raça Branca, de Magritte

Encontro dos Desencontros

Um episódio trágico que ao princípio se pretendia não passar de brincadeira veio pôr uma vez mais a nu a decadência do nosso hemisfério civilizacional, em que a ligeireza se passou a arrogar de todos os direitos e mais alguns, tendo a seriedade e até a honra de ser encontradas em oriundos de outras paragens. Os radialistas australianos que, independentemente da Geografia, partilham, pela herança e indignidade sucessória, a degradação de valores do Ocidente não viram problema algum em forjar identidades, usurpar estatutos de Realeza e invadir uma esfera reservada de vidas em que o Serviço infirma a privacidade, mas não tanto. Uma Profissional de Saúde, Jacintha Saldanha, sem culpas maiores que a de ter sido burlada e, eventualmente, do respeito pela Coroa e o desejo de a sossegar, sentiu o desgosto perante o próprio comportamento a um ponto que se viu como não-merecedora de continuar a viver neste mundinho de enganos e piadas. Feito o mal, os responsáveis pela falácia que mirava uma boa história querem e julgam lavar as consciências com uma dinharama, sempre muito mais fungível do que uma vida humana sem crime associado. Diante de um fosso tão largo a separar Leste e Oeste, a única ponte que encontramos é a subsistência de nomes portugueses em Família de origem Indiana, ainda remanescentes da Epopeia que, já tão longínqua, terá sido a ligação mais eficaz e duradoura de duas culturas tão condicionantemente diversas.

Olho de Águia

Dando conta das provas de ontem à noite, enquanto tiver forças pleitearei pela cessação de iniciativas referentes ao casting para as filmagens da cena bíblica representada na obra abaixo reproduzida: o papel é, por mérito próprio, de Jorge Jesus.
                                             Daniel na Cova dos Leões, de Rubens

Palhaços de lá e de cá


Leio hoje no Público, pasquim cujo único mérito é escrever em português, que há 50 anos suspendia-se a construção de um colégio no distrito de Viseu porque o projecto encontrava inspiração no Palácio da Alvorada, em Brasília. Segundo quem assina o texto, uma Marisa Soares, "as linhas curvas de Niemeyer eram consideradas arrojadas demais para um país em ditadura". Pois é... mas já não foram demasiado arrojadas para esse modelo de liberdade e de democracia que foi/é o comunismo, sobretudo na sua vertente estalinista, tão acarinhada pelo arquitecto brasileiro há poucos dias falecido. Na sanha de conspurcar Salazar e o Estado Novo essa rapaziada já ultrapassou todos os limites do ridículo. O deles, claro está.  Coitaditos, até dão pena. Em vez da veleidade inútil de ousar desferir coices para cima de um grande Homem morto, que dedicou a vida a construir, sugiro a jornalista e colegas escrever sobre os homúnculos ainda vivos e que há 38 dedicam-se a destruir física e espiritualmente Portugal.  Refere ainda a articulista pública que graças a um decidido grupo de estudantes a construção foi retomada e as ditas curvas niemeyerianas mantidas "de pé". Ao pintar a lenda negra da ditadura estado-novista a Marisa deixa muito a desejar. Tanta Pide, tanta repressão e, no entanto, meia dúzia de miúdos desobedece a decisão da autoridade competente e faz o que lhe dá na gana! Como era mole essa dita! 

Época Sem Marcos

Os Correios, em Portugal, nunca foram tão credores de importância oficial como no Reino Unido, em França, ou nos EUA, onde chegaram à dignidade de pastas governamentais. Mas entristece-me ver a contínua decadência de um serviço essencial à beira da niveladora privatização, o qual, tendo sido obrigado a largar, em proveito e glória da eficácia empresarial mais ávida, os telefones que outrora lhe estavam acopulados, passou a ver os respectivos postos fazerem um pouco de tudo, até o comércio de livros de pouca valia, diluindo a função primeira que era uma referência para a População.
Na continuidade de tais descaracterizações, passa-se a fazer pouco de tudo e estes lenhadores que se entretêm a abater os marcos de Correio nada trazem, por conseguinte, de muito novo. Para eles, o Passado é uma nulidade e os resquícios dele um enjoo. Portanto, não se poderia esperar consideração pelos Velhos que ainda usam aqueles pontos de recolha, os quais querem, como os outros, subjugados às filas e horários. Mas eu ainda esperava, pobre iludido, que a capinha hipócrita da "Defesa do Património" os fizesse manter os receptáculos que mudaram e melhoraram tantas vidas, há muito alcandorados a pontos enriquecedores das paisagens urbanas. Qual! Para estes capatazes da pós-pós-modernidade, no feroz arrancar é que estará o ganho.
              Marco do Correio, por Alberto Ribeiro

Passos Perdidos

Tenho de fazer, aqui, uma retractação. Não obstante uma malograda candidatura de juventude ao MNE, um pouco influenciada por cordatas pressões familiares, jamais tive a Diplomacia por um rumo de vida invejável, ou desejável. Uma notícia de hoje impele-me a mudar radicalmente de opinião: a Carreira passa a oferecer uma imunidade muito mais apetecível do que a da subtracção às disciplinas de outros países. Precisamente a de escapar à imperatividade da celebração da ignomínia, ou seja, fintar a data despoletadora da liquidação do País e da grandeza da sua honrosa e resistente solidão. A fúria teórica contra a quantidade dos feriados ocupou consideráveis penas do Demo-Liberalismo enfeudadas à ideia fixa da Produtividade, tão diversas no tempo e nas proveniências ideológicas como a de Manuel Emygdio da Silva e Pacheco Pereira. Mas não se dignaram opinar sobre o âmago do problema, que é o da falta de qualidade de alguns desses pesadíssimos dias  leves. Naquele cuja celebração e, de facto, observância se passa a deixar na disponibilidade dos representantes de Portugal no Exterior verifica-se o cuidado de permitir finalmente uma personificação da dignidade intemporal da Pátria, libertando-a da ligação ao culto do localizado opróbrio da sua simbólica desintegração. Pena que se possa desconfiar de não mais ser do que consequência do desejo de limpar-se de supressões absurdas a ânsia de põr no mesmo saco bons e maus feriados, deixando de elencar na solenidade obrigatória as principais referências da Acção Patriótica e da Redenção Civilizacional, o 1º de Dezembro e a Sexta-Feira de Paixão.
                                                    Diplomata, de Shvelidze Murtaz

Aspiração Central

O problema nem é tanto de "gorduras do Estado", na vertente da sua administração autónoma, nem, só, de identidades circunscritas. É uma opção política de fundo, a de acometer contra os únicos centros de Poder que permitem com facilidade a candidatura de listas independentes e, nessa medida, a exacerbação do império odiento das listas dos partidos. Nada de espantar, num sistema herdeiro do centralismo neo-jacobino, que junta na mesma cajadada o coelho (sem alusões a responsabilidades últimas) da simulação de reforma economizadora. Nos municípios não toca, porque poderosos, ou por serem ainda coutada dos emblemas fraccionários, mas nem é bom que o faça, já que podem constituir o único embrião de uma futura substituição de Autoridade, ao denotarem a derradeira confiança profícua entre governantes e governados, em não poucos casos. A Freguesia em que vivi quarenta anos é presentemente ameaçada de junção à que alberga a sede concelhia. Não tem a osmose forçada pés nem cabeça, mesmo segundo critérios de gestão, porque, para além da História, contém população maior que a reunida sob a jurisdição de muitas câmaras e porque a fusão pretendida é bem capaz de prejudicar a propaganda da actividade turística que tão fortemente contribui para lhe garantir o pão. Mas de más acções está este mandato governamental cheio.
                                                             Requiescat in pace

O Senão da Montanha

Se fosse tão fácil ganhar o Euromilhões, este Vosso servidor teria uma vidinha bem mais desafogada. Já me admirava que, com a crítica frontalmente sistemática que vem desenvolvendo contra os vícios estruturais do sistema e dos seus actuais expoentes, a voz estranha mas crescentemente popular de Medina Carreira ainda não tivesse sido alvo de um daqueles truques fáceis, fosse de devassa da vida privada ou de semeadura de suspeitas em obscuros negócios de massas comprometedoras. Claro que a posição certinha perante este desenvolvimento é a de dizer que se aguarda os resultados das investigações policiais e ulterior decisão do Ministério Público, sendo caso disso. Mas como eu me esforço mais por ser certo do que certinho e não gosto de ser levado à certa, escarrapacho aqui o que o meu nariz me sugere - que estamos perante a intimidaçãozita grosseira arquitectada por quem quer que seja o encarregado dos trabalhinhos sujos que beneficiem os manda-chuvas.
Claro que criticar, mesmo com acuidade, não coloca quem quer que seja acima da Lei. Mas não vejo, nem sob o critério da honestidade, nem sob o da capacidade de esconder falcatruas, caso aquela não existisse, o ora investigado na linha de Varas, Isaltinos e outros Limas. E só não estranho muito o frenesi de cortejo jornalístico, porque conheço, para lá do sempreterno deleite em derrubar heterodoxias e proeminências, o alívio de macular pontos luminosos da concorrência. Como não estranhar, por outro lado, a prontidão da PGR em desmentir a incidência de averiguações sobre o Chefe de Governo e o conveniente silêncio no tocante a quem o zurze? Longe de mim dizer que haja partido do próprio qualquer indicação para pregar um susto a uma voz incómoda, mas o zelo de alguma sua alma danada dispensaria bem ordens dessas. Da Roma Antiga, deve-se ao velho Horácio do retrato o cunho da generalizada expressão A montanha pariu um rato. Suponho que será a descrição apropriada ao desenlace que prevejo, o que justificaria abundantemente o nome Monte Branco dado à operação investigatória do branqueamento. E se, porventura, a puxar os cordelinhos neste grupo poderoso de roedores, se vier a revelar uma ratazana, não traduzirá alteração qualitativa, somente o crescimento natural do bicho, ao longo de tantos séculos.

Coisas das Arábias

Quando ouvi falar em Primavera, pensei logo em Verão quente. Parece que chegou agora, em pleno Inverno.

No Mundo da Lua

Dos EUA surge-nos a última loucura do Politicamente Correcto, precisamente a abolição do conceito das formulações legais. Quanto à imperatividade da mudança, é o zero absoluto, já que, dizendo-se a classificação eliminatória do estigma pretensamente ínsito à palavra lunatic não se percebe como poderiam alienados sentir-se feridos com o apodo. Quanto às consequências, advirão sérias dificuldades, pois esbatendo a divisória qualificadora que permitia uma mais nítida fronteira nas declarações de interdição e inabilidade, ameaça-se de miséria uma série de famílias de incapazes. A falta de razão inspirou toda uma tradição literária de apelos fáceis às lágrimas que encontrava o pano de fundo ideal na brusquidão desprovida de jeito e compaixão perante reais condições dos hospícios, até recentemente, como dos abusos da rotulação de "loucos", quer por advogados em busca da inocentação de criminosos em que a factualidade não deixasse dúvidas, quer por autoridades e plumitivos em demanda de uma etiqueta segregadora de vultos incómodos que não pensassem ou agissem como a maioria que se sujeita às injunções deles emanadas. A esta coligação, juntou-se a denúncia dos abusos presentes na limitação feroz dos comportamentos, como lobotomias e certos fármacos, no metier dos Psiquiatras, bem como as inculcações, convergentes apesar de opostas, da Psicologia, alicerçadas na universalidade dos traumas e necessidade de análise como complemento do dia a dia. Estimulando-se a compaixão pelos furiosos, por um lado,  matizando fronteiras de comportamentos insanos nos menos violentos, pelo outro, só se esperava o surgimento de um ambiente em que as provocações e dificuldades quotidianas, brotadas de poderes incompetentes e manipuladores, instilassem a noção de que, ao menos nesta Sociedade da Depressão, de loucos todos nós temos bastante, em vez do «pouco» do provérbio. E a saída mais fácil é a negação, como a descriminalização no consumo de droga: "se há assim tantos afectados mentalmente, nenhum lunático se pode identificar". Logo, há que abolir a noção. Desta forma, até passam os decisores por razoáveis, já que um dos traços mais reconhecidos dos doidos era o de acusarem de maluquice os circundantes. Cada vez mais compreendo a razoabilidade da obsessão gritada por um conhecido ex-internado, o qual se passeava pela estação do Cais do Sodré, exclamando: Pois, vocês é que trabalham e o maluco sou eu!.
                                                             Loucos, de Goya

Por Baixo da Mesa?

A Corrupção está onde o homem estiver? Bem, pelo menos onde estejam homens com desejos - que são todos - e sem resistências morais, que vão sendo, como sempre, demasiados. Em Portugal desde tempos imemoriais, que se considera natural nas camadas inferiores da burocracia estatal ou autárquica passar umas notas para dar um jeitinho, porém, tal tolerância não se estende aos cumes da Política, talvez por se perceber como antipáticas as transferências para contas escondidas que apenas aos recebedores dêem um jeitão. Apesar de casos conhecidos por provar, na I República, na que agora nos esmaga foi preciso esperar pela entrada em força de uma classe política arrivista para se suspeitar por sistema de figuras cimeiras da administração, nisto em tudo diferentes da da maioria dos seus fundadores, reconheça-se. Walpole, o antigo Primeiro-Ministro Britânico passou à História como autor da frase «todos os homens têm um preço», quando o que dissera fora apenas «todos estes homens têm um preço», referindo-se aos membros do seu Gabinete. Quer dizer, uma frase desculpadora passou a ocupar o lugar de uma incriminatória e, se formos rigorosos, de sinal contrário. A lembrança desta confusão assaltou-me, ao ver, na Imprensa de hoje, noticiado o mesmo facto, a classificação de Portugal entre os países corruptos. Uns dizem que é o «33º menos corrupto», outros que «se encontra entre os mais corruptos». Será a questão do cálice meio cheio ou meio vazio? Talvez, os primeiros reportam-se às paupérrimas expectativas da População crescentemente hostil aos poderosos e admiram-se de serem tão poucos, na senda da Dr.ª Cândida Almeida que, justificando o nome de baptismo, lhes negava a relevância. Os demais, apegados ao digno totalitarismo da Moral rasgam as vestes por verem a corrupção grassar mais do que deveria. Ou tudo se explicará pelo facto de os que a acharam diminuta terem encontrado o seu mais popular meio de expressão num jornal desportivo, ou seja, de um segmento da actividade humana em que a sombra dela espreita atrás de cada porta? É um tema que deixo sobre a mesa.
                                                Legislação Corrupta, de Eliju Vedder

Pena, Capital!

Fosse eu dado a teorias da conspiração e acharia a bom achar que a descida de Lisboa no algo arbitrário ranking das cidades, em termos de qualidade de vida, corresponderia a uma jogada das ominosas multinacionais e sinistras organizações supra-nacionais para diminuírem as ajudas de custo aos empregados que para a Cidade das Sete Colinas quisessem enviar. Só que quem cai no fanatismo da adesão a essas explicações raro mantém os olhos disponíveis para ver o que o rodeia. E, no caso, é muito mais simples e lastimável. Há muito menos carros que há dois anos, o que é positivo para o ambiente. Mas não se enxergam condições anímicas para fruir esse benefício. Entre lojas a fechar, menos dinheiro no bolso, incerteza angustiante e dor difusa perante as chicotadas de administrações insensíveis, entretanto tornadas a rotina, os passantes ostentam um ar deprimido como nunca antes notei e o perigo do contágio suscita uma preocupação crescente. No meio disto tudo, encontra-se num graffitto o desabafo descritivo que se impõe:
Jamais tinha sentido qualquer simpatia pelos gatafunhos que sujam paredes para dar vazão a vulcões internos exacerbados e sem dons de expressão superiores. Fazia minha a indignação desse Grande Defensor do Património que é o Bic Laranja e maquinava retribuições justiceiras que pintassem as caras dos borradores de muros com as próprias tintas. Mas perante a agressão constante a que os nossos Compatriotas vêm sendo sujeitos, dou comigo a sintonizar-me com os desabafos inscritos nos arruamentos por onde me movo e, até, a cantá-los. Ao que nós chegámos!

GRAFFITTI

Nunca saberei como e quem és,
Tu, que tomei por Alma-Gémea,
à mensagem em garatujas emanada
da parede da minha indiferença
agora felizmente alterada
pelas tintas que são tudo menos meias.
É certo, o expediente repugna,
macular com egos a pretensa harmonia.
Mas o imparcial não existe
e em excepção a tempo Te ergueste,
ao deixar-me o consolo indelével
de saber vogando por aí
alguém que sente como eu.
Foi na rude nota assim tangida,
urbana decerto, salvo no grito,
o encontro com prementes reservas elididas,
outorgantes do coincidir no julgar e no achar,
alívios drásticos duma opressiva solidão.

Pingas de Peso

Nem por sombras quero crer que desígnios comercialistas estejam por detrás da descoberta de que a cerveja não é causa directa de estômagos dilatados, mas vejo-me obrigado a pensar as implicações inerentes. A guerra do vinho contra a cerveja ocupa vários Amigos e Conhecidos meus, com os mais influenciados pela Alemanha e Nórdicos a considerarem, desdenhosamente, o produto das uvas como um sinal de mediterranismo rançoso e decadente e os mais agarrados à mesa tradicional a meterem um olho pelo outro, perante esses litros amarelados ingeridos a todo o gás por hordas bárbaras de turistas e rapazes novos. Eu, com o espírito conciliador que me é reconhecido, venho tentar promover o ecumenismo, em matéria de acompanhamento alcoólico das refeições. Quando em Portugal havia Agricultura como forma de sustento de maior percentagem populacional, o Estado Novo promoveu campanhas de consumo vinícola, de forma a sensibilizar para a mais-valia altruística que o acompanhava. Nos mais recentes tempos, os de integração europeia, a Publicidade virou-se para o Génio de Brel, para tomar como símbolo da paz no Continente a predilecção pelo fresco néctar de processo levedado, que não leve e dado. Muito bem, o que aconselho é a não cair em exageros exclusivistas, embora uma linha interpretativa mais sagaz talvez pudesse descortinar no anúncio do fim do mito dos barrigudos bebedores de cerveja a alegria por compatibilizar o crescente apertar do cinto com o emblema líquido das estrelas que a bandeira da União Europeia nos obriga continuadamente a ver.

A Boa Estrela

Sigo fielmente os motes da Ariel, Estrela-Guia Maior desta casa. Lendo-A, dou por mim entrando, qual penetra, no concurso da Barbearia do Sr. Luís. Achar uma Estrela de Presépio, nos tempos que correm, pode bem trazer à candente qualificação Cadente significados mais amargos. Não é a Quadra Natalícia atreita a desesperos; sendo porém propícia a comovermo-nos com o mal alheio, não consigo imaginar o Astro Cintilante senão triste, ao ver este desolado cenário de Reis apeados e vergados a cargas excessivas os camelos que todos vamos sendo. Continuemos a jornada com os olhos postos Nela, enquanto restar algum fôlego, fazendo das fraquezas forças, e no fito de conseguirmos livrar-nos dos Herodes.

Assombrações Sindicais

A propósito da paralisação do pessoal da CP, tenho de estranhar até à exaustão os apelos a que se desencadeie uma intervenção do Governo. Com efeito, sabe-se como a actual Situação se inscreve na linhagem da I República, a mesma que, contra os Ferroviários Grevistas da época, se celebrizou por uma dureza inusitada. Foi, lembrêmo-lo, o ministério do Democrático Republicano Sá Cardoso que criou a macabra figura do vagão-fantasma, posto na dianteira das composições e atulhado à força de anteriores grevistas, para que, na pele de escudos humanos, se tornassem os primeiros a perecer, em caso de sabotagem da via pelos companheiros de luta. Quando os avozinhos assim procederam contra quem apenas demandava melhores condições laborais que as mínimas de então, poder-se-á, fundadamente, crer que os netos idólatras desse lamentado exemplo se revelarão generosos, ou simplesmente justos, para os sucessores daqueles Trabalhadores, os quais tentam defender estatutos adquiridos melhores que os do vulgo? Ainda há quem acredite no Pai Natal!

E Depois da Confissão?

Gosto, sinceramente o digo, de ver os pecadores assumindo as culpas que lhes caibam. No caso das figuras históricas do regime, é bom ver que também o Dr. Jekyll delas junta o desencanto com a própria acção ao do Mr. Hyde, meses antes. Não tenho do ex-Premier a ideia de ser um homem mau, ou nojento, apenas um bem intencionado muito incompetente, deslumbrado com as palavras com que consegue adornar os bons instintos que papagueia. Não será portanto rebuscado publicar aqui a obra de Victor Arseni Arrependimento: Janízaros Chorando Sobre a Campa do Pai. Também estas Madalenas arrependidas têm muita lágrima a verter por haverem servido os inimigos de quem os gerou, o extinto Portugal. Mas espera-se consequência eliminatória da esterilidade, a bem dos próprios - que à proclamação dos pecados respectivos se siga a devida penitência.